A carta enviada por Rui Moreira ao seu vice na Câmara do Porto, Filipe Araújo, veio deixar os apoiantes que defendem uma candidatura autárquica deste último em estado de alerta. O esclarecimento de Moreira — que não quer que haja “confusões” entre a associação cívica que criou e o movimento que apoiará Filipe Araújo numa candidatura ao Porto — causou “danos” à candidatura, assume-se entre os seus apoiantes, que fazem contas à corrida portuense.
Se Filipe Araújo já estava em processo de avançada reflexão, uma vez que ainda não se apresentou formalmente como candidato mas que até Rui Moreira já se referiu a uma candidatura sua publicamente, o envio da carta noticiada pelo Observador veio aquecer os ânimos — e “acrescentar premissas ao processo de reflexão”. Não que Filipe Araújo tenha decidido, neste contexto, não avançar — mas os seus apoiantes mais leais medem agora os efeitos que a descolagem de Rui Moreira pode ter, e a mossa que pode fazer nas aspirações do ‘vice’ de Moreira.
“Isto tem impacto“, reconhece uma fonte próxima de Filipe Araújo, mesmo tentando relativizar e assegurando que a carta de Moreira não passou de um “esclarecimento”. A ideia de que se poderia querer apropriar sozinho do ‘moreirismo’ poderá assim ser prejudicial para Araújo, lamenta quem apoia o vice da autarquia portuense, apontando que a “exposição” a que Araújo tem estado sujeito leva a situações arriscadas como esta. E isto pode pesar na “avaliação” que o autarca está a fazer, calcula a mesma fonte.
“Ninguém pode reclamar toda a herança de Moreira”, reconhece a mesma fonte próxima de Filipe Araújo, lembrando que dentro do executivo de Moreira há pessoas que podem seguir caminhos diferentes — incluindo a vereadora do CDS Catarina Araújo, que, no final do ano passado, deixava um aviso contra a ideia de Araújo de avançar sem estar integrado numa plataforma liderada por partidos.
Nessa carta, que o Observador divulgou em primeira mão, o atual presidente da Câmara do Porto, que termina o seu terceiro e último mandato na autarquia este ano, dava um chega para lá a Filipe Araújo. “Não se podem confundir as plataformas. Se avançares com uma candidatura, ela resultará sempre, e por necessidade e imperativo legal, de um novo movimento de cidadãos, uma vez que eles se extinguem depois de cada eleição”, recordava então Rui Moreira, lembrando que quem se apresentou a eleições foi o movimento “Rui Moreira – Aqui há Porto!”.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Filipe Araújo apressou-se a responder e, na carta a que o Observador teve acesso, tentou deitar alguma água na fervura, agradecendo a Moreira pela “reflexão” — com a qual se mostrava em “perfeita concordância“, reconhecendo o “caminho trilhado” lado a lado ao longo de quase doze anos e valorizando a “confiança mútua” que existe entre os dois.
Depois, o atual vice de Moreira na autarquia lembrava que ainda se encontra a “terminar a fase de ponderação relativamente ao futuro”, prometendo uma “definição mais clara” sobre o caminho que seguirá para breve. E envolvia Rui Moreira na discussão desse futuro: “Caso avance, posso assegurar que será exatamente nos moldes que temos discutido, sempre com base nos princípios e valores que partilhamos, ancorados numa liderança independente da cidade e aberta à participação de todos”. Para rematar, agradecia a Moreira pelo “incentivo constante” para “continuar este caminho”.
Apesar dessa garantia de que Moreira o incentiva, voltando a colar-se ao legado do presidente da câmara e do movimento que ambos integram, entre os seus apoiantes sentiu-se o desânimo provocado pelo recado de Moreira. Afinal, o grande argumento a favor de Araújo é, além do trabalho que ele próprio desenvolveu na cidade, a proximidade que terá com o autarca independente e a promessa de ser uma espécie de herdeiro de Moreira, assegurando a continuidade na autarquia.
A troca de cartas entre Moreira e Filipe Araújo, de resto, motivou um pedido de reunião urgente por parte de José Serôdio, João Pedro Araújo e Catarina Araújo, dirigentes do movimento. Numa carta a que o Observador teve acesso, os três assumem estar “preocupados” com o papel da Associação em todo processo e solicitam um encontro para perceber o que está verdadeiramente em causa.
▲ Rui Moreira afastou-se do seu 'vice' e apareceu em iniciativa da JSD ao lado de Pedro Duarte
LUSA
Pedro Duarte aparece com Moreira e quer “plataforma abrangente”
No Porto, as contas para a autarquia, onde à direita não há candidatos oficializados, complicam-se. Do lado do movimento de Araújo, garante-se que seria muito mais provável que houvesse um acordo com uma figura social-democrata como José Pedro Aguiar-Branco — que já se auto-excluiu desta corrida — do que com o muito mais provável protocandidato e ministro dos Assuntos Parlamentares, Pedro Duarte.
E nota-se que, se Araújo saísse da corrida, era mais previsível que os seus potenciais votos fossem transferidos para o movimento “Porto com Porto”, de António Araújo, figura próxima de Rui Rio, que continua a agitar os bastidores da corrida. A maior das expectativas continua instalada à volta da confirmação da candidatura de Pedro Duarte — e necessária saída do Governo –, uma vez que o ministro continua a acelerar os preparativos enquanto adia uma decisão oficial para a primavera.
Sempre mantendo a hipótese mais do que em cima da mesa: tem uma “tentação íntima gigantesca” pelo lugar de presidente da Câmara do Porto, admitia o governante esta terça-feira, depois de na segunda-feira ter estado ao lado de Rui Moreira numas jornadas da JSD/Porto na Póvoa de Varzim e de ter considerado a presença de Rui Moreira “um símbolo muito importante, uma referência”.
Apesar de Araújo manter a vontade de, a concorrer, fazê-lo com uma plataforma própria e independente — mesmo que Luís Montenegro já tenha entrado em jogo para tentar convencê-lo do contrário –, Pedro Duarte deixou um recado claro: “Do lado do PSD há uma vontade muito férrea de se construir para a cidade uma plataforma muito abrangente, que envolva a cidadania mais originária da cidade, o granito que sustenta a cidade e que, de facto, dá força à sua Câmara Municipal”, dizia nesse dia. “Portanto, se houver espaço para haver alguma espécie de entendimento e espaço para haver uma comunhão de objetivos para o futuro, evidentemente acho que só engrandecerá o projeto do PSD”. Em breve se verá.
Recorde-se que, no arranque de janeiro, como contava aqui o Observador, Luís Montenegro encontrou-se discretamente com Filipe Araújo para tentar convencer o independente a deixar cair a candidatura e juntar-se a uma grande coligação liderada pelos sociais-democratas. Todavia, a diligência do líder do PSD e primeiro-ministro falhou e o ainda vice-presidente da autarquia do Porto deu sinais de que queria mesmo avançar com uma candidatura autónoma.
Entre os mais próximos de Moreira, existem dúvidas sobre os méritos da candidatura de Filipe Araújo. O vice-presidente da Câmara do Porto não tem, por esta altura, hipóteses reais de vencer a próxima corrida eleitoral. Mesmo assumindo-se como herdeiro natural de Moreira. Numa sondagem interna realizada a pedido do próprio, e que vai sendo comentada nos circuitos de poder do Porto, Filipe Araújo não irá além dos 8% nas intenções de voto. Manuel Pizarro terá nessa sondagem cerca de 29% e Pedro Duarte chegará aos 20%.
Apesar de publicamente se manter equidistante na luta pela sua sucessão, é já indisfarçável que Rui Moreira tem uma ótima relação com Luís Montenegro e que não morre de amores pela ideia de ver a autarquia entregue a Manuel Pizarro, com quem foi tendo uma relação política, no mínimo, conturbada. Ver o seu número dois, Filipe Araújo, pretensamente disposto a fazer o jogo do socialista não tem deixado Rui Moreira particularmente satisfeito.