É menos um obstáculo para Pedro Duarte e uma grande contrariedade para Filipe Araújo. Rui Moreira deu um sinal relevante de que não quer estar associado à candidatura do seu atual vice-presidente à Câmara do Porto e fez saber que considera abusiva a associação entre Araújo e o movimento que tornou possível as vitórias de Rui Moreira nas três eleições a que concorreu como independente. Se até aqui o autarca se tinha mantido equidistante na corrida que vai ditar o seu sucessor, desta vez, Moreira quis demarcar-se da candidatura independente protagonizada pelo seu número dois e auto-assumido herdeiro natural.
Numa carta que fez questão de entregar a Filipe Araújo e aos principais representantes do “Porto, o Nosso Movimento”, e à qual o Observador teve acesso, Rui Moreira dirige-se diretamente ao seu número dois para dizer estar “preocupado” com o uso da associação como plataforma para alimentar as aspirações autárquicas de Araújo e sugerindo, sem o dizer taxativamente, que há uma tentativa de colagem entre a candidatura independente e a herança de Rui Moreira — tentativa que o ainda presidente da Câmara do Porto quer agora desfazer.
Começando por dizer que respeita a “vontade pessoal” de Filipe Araújo de se candidatar à presidência da Câmara Municipal do Porto e a “ambição” natural e legítima que move o seu número dois, Rui Moreira pede ao seu ‘vice’ que não alimente confusões: se quiser de facto ser candidato, terá de o fazer em nome próprio e não sob a marca de “Rui Moreira”.
“A associação não é uma força partidária e, por isso, não se poderá apresentar a eleições, seja em coligação seja por si própria. Não se podem confundir as plataformas. Se avançares com uma candidatura, ela resultará sempre, e por necessidade e imperativo legal, de um novo movimento de cidadãos, uma vez que eles se extinguem depois de cada eleição”, começa por recordar Rui Moreira.
Referindo-se a uma notícia do Jornal de Notícias, que dizia que “0 ‘Porto, o Nosso Movimento’ vai ter uma candidatura à Câmara do Porto, mesmo se não conseguir o apoio do PSD, CDS/PP e IL”, o presidente da Câmara do Porto faz questão de separar as águas e lembrar quem ganhou o quê, quando e de que forma.
“Não foi a Associação que me fez eleger como presidente e a ti como vereador. Não é a Associação que governa a cidade. Não é a Associação que presta contas à cidade. Quem se apresentou e venceu as eleições foi o movimento “Rui Moreira – Aqui há Porto!”, um projeto em que se uniram cidadãos independentes, e que contaram com o apoio do CDS e da Iniciativa Liberal, e que, posteriormente às eleições, celebrou um acordo com o PSD que garantiu a governabilidade tão cara aos nossos cidadão.”
Na mesma carta, a terminar, Rui Moreira deixa mais um aviso ao seu número dois. “É a mim, enquanto presidente de câmara eleito, que compete garantir, até ao fim do mandato, a liderança da governação. Essa governação que pretendemos — tu e eu — que não sofra qualquer perturbação, depende do concurso de eleitos que são alheios à associação. Entenderás, certamente, que as minhas responsabilidades, que dependem da indispensável coesão governativa que é sempre mais sensível em finais de mandato, não me permitem deixar passar em claro essa perigosa confusão“.
A carta de Rui Moreira a Filipe Araújo na íntegra
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Rui Moreira
Porto, 14 de Fevereiro de 2025
Senhor Presidente, Meu caro Filipe,
Reporto-me à notícia do Jornal de Notícias de ontem, dia 12 de fevereiro, em que é referida a intenção do Movimento de Filipe Araújo avançar para uma candidatura à Câmara Municipal do Porto, invocando como argumento que é a emanação do movimento que governa a cidade do Porto.
Gostaria que ficasse absolutamente claro entre nós que respeito inteiramente a tua vontade pessoal de te candidatares à presidência da Câmara Municipal do Porto. E não teria de o fazer, pois esse é um direito que te assiste. Tenho noção da ambição que te move, que é perfeitamente legítima.
Como tens tido o cuidado de assinalar, o que pretendes é apresentar uma nova candidatura, apostada em defender o legado de que fazes parte e em apresentar novos rumos para a cidade.
Este é, pois, um projeto político novo, que pretendes liderar para o futuro, agora que sucede a um ciclo de doze anos que se encerra esta ano.
Ora, esse projeto não se dever alicerçar numa associação que, recordo, teve um propósito único: o de manter vivos os laços entre os apoiantes do nosso movimento e servir de respaldo à governação de que fizeste e fazes parte, e que pretendemos que, até ao último dia, corresponda ao mandato que recebemos dos cidadãos do Porto.
Pela minha parte, considero que a Associação tem cumprido, como pode, o seu papel. Admito, naturalmente, que enquanto for essa a vontade dos associados, ela possa continuar a existir para além do atual ciclo político. E que, na medida em que a ela presides, a possas convocar para a tua iniciativa política, como aliás decorre da última assembleia geral, em que os sócios te mandataram para negociar com outras forças políticas.
Da mesma forma, poderá a associação vir a apoiar a tua candidatura autónoma, se a negociação com os partidos não for possível. Saberás certamente se a instrumentalização da associação te é útil em termos do teu projeto político. Não me compete avaliar essas circunstâncias ou a sua utilidade, nem tão pouco pretendo contribuir para qualquer dissenso.
Porém, a associação não é uma força partidária e, por isso, não se poderá apresentar a eleições, seja em coligação seja por si própria. Não se podem confundir as plataformas. Se avançares com uma candidatura, ela resultará sempre, e por necessidade e imperativo legal, de um novo movimento de cidadãos, uma vez que eles se extinguem depois de cada eleição.
Que fique claro: ao contrário do que foi dito à jornalista, não foi a associação “Porto o nosso movimento” quem concorreu às eleições de 2021. Não foi a associação que me fez eleger. Não é a associação quem tem governado a cidade. Quem se apresentou e venceu as eleições foi o movimento “Rui Moreira: Aqui há Porto!”, em que se uniram cidadãos independentes, e que contaram com o apoio do CDS e da Iniciativa Liberal. E que, posteriormente às eleições, celebraram um acordo de governação com o PSD. A associação nunca governou, nem poderia governar a cidade.
É a mim, enquanto presidente de câmara eleito, que compete garantir, até ao fim do mandato, a liderança da governação. Essa governação que pretendemos – tu e eu – que não sofra qualquer perturbação, depende do concurso de eleitos que são alheios à associação.
Entenderás, certamente, que as minhas responsabilidades, que dependem da indispensável coesão governativa que é sempre mais sensível em finais de mandato, não me permitem deixar passar em claro essa perigosa confusão.
Partilho esta carta, e esta minha preocupação, com a direção e o presidente da Assembleia Geral
A ‘muleta’ de Pizarro, as sondagens e as más companhias
De resto, já tinha existido um primeiro ensaio de demarcação de Rui Moreira face a Filipe Araújo, mas que acabou por ser mal sucedida. A 5 de fevereiro, durante uma iniciativa da Câmara, o autarca mencionou a possível candidatura do seu vice-presidente de forma informal acrescentando que havia outros nomes na disputa, como Nuno Cardoso e Vitorino Silva, conhecido como Tino de Rans. O que foi interpretado como sendo um manifesto sinal de apoio a Filipe Araújo foi, na verdade, uma forma subtil de Moreira equipar a candidatura de Araújo a outras mais marginais.
Agora, através desta carta, este é o primeiro sinal inequívoco de que Rui Moreira não está disposto a apoiar a candidatura de Filipe Araújo. Este gesto resulta não apenas daquilo que o autarca considera ser o uso abusivo da imagem do movimento mas também de uma série de pequenos irritantes que se foram acumulando entre os dois ao longo das últimas semanas e meses.
À cabeça, a perceção que se instalou de que Filipe Araújo, ciente de que não tem perspetivas sólidas de vencer as eleições, estará disposto a fazer um acordo com o socialista Manuel Pizarro para governar a cidade em vez de ajudar o seu espaço político natural (e o de Rui Moreira) a vencer as próximas eleições.
Como explicava aqui o Observador ainda no arranque de janeiro, Filipe Araújo entende que correndo sozinho e tendo uma votação generosa poderá ser um desbloqueador de maiorias, mantendo-se relevante na definição dos destinos do Porto. Em alternativa, se se diluísse numa grande coligação liderada pelo PSD, como Luís Montenegro e Pedro Duarte o desafiaram a fazer, tornar-se-ia apenas mais um.
Por outras palavras: é mais vantajoso para Araújo ir a votos sozinho, ter uma voz autónoma legitimada pelas urnas e ser eventualmente o número dois de Pizarro, o favorito nestas eleições, do que entrar numa grande frente de direita em que não teria um peso político relevante.
“A partir do momento em que integrássemos uma coligação liderada pelo PSD seria o mesmo que dizer aos eleitores que votaram em nós que estavam livres para votar noutras alternativas. O movimento desaparecia“, reconhecia na altura ao Observador fonte da plataforma que está a apoiar Filipe Araújo.
Ora, por esta altura, e apesar de publicamente se manter equidistante na luta pela sua sucessão, é já indisfarçável que Rui Moreira tem uma ótima relação com Luís Montenegro e que não morre de amores pela ideia de ver a autarquia entregue a Manuel Pizarro, com quem foi tendo uma relação política, no mínimo, conturbada. Ver o seu número dois, Filipe Araújo, pretensamente disposto a fazer o jogo do socialista não tem deixado Rui Moreira particularmente satisfeito.
Depois, ou em simultâneo, existem dúvidas sobre os méritos da candidatura de Filipe Araújo: o vice-presidente da Câmara do Porto não tem, por esta altura, hipóteses reais de vencer a próxima corrida eleitoral. Mesmo assumindo-se como herdeiro natural de Moreira. Numa sondagem interna realizada a pedido do próprio, e que vai sendo comentada nos circuitos de poder do Porto, Filipe Araújo não irá além dos 8% nas intenções de voto. Manuel Pizarro terá nessa sondagem cerca de 29% e Pedro Duarte chegará aos 20%.
Ora, esta diferença entre o candidato socialista e o presumível candidato do PSD — Pedro Duarte ainda não anunciou formalmente que está na corrida — reforça os argumentos daqueles que defendem uma aliança entre a candidatura independente de Filipe Araújo e a frente de direita que ainda ministro dos Assuntos Parlamentares quer encabeçar. A multiplicação de candidaturas à direita pode ser a diferença entre ganhar ou perder as eleições e, para Moreira, seria muito mais confortável ver o seu espaço político natural continuar o trabalho que fez na cidade ao longo de 12 anos de poder.
Em cima de tudo isto, os aliados de que Filipe Araújo se rodeou levantam muitas reservas a Rui Moreira. Entre os principais apoiantes do vice-presidente da Câmara do Porto estão figuras como Hugo Neto, ex-líder da concelhia do Porto do PSD, que foi adversário político de Moreira durante o célebre caso “Selminho” e cujos ataques ainda hoje são lembrados pelos mais próximos do autarca, mas também Luís Assunção e Daniel Freitas, ambos com um passado ligado às lutas pelo controlo do aparelho social-democrata no Porto de que Rui Moreira sempre se quis afastar — distância higiénica que quer agora manter e reforçar.
Montenegro encontrou-se com Filipe Araújo para tentar travar candidatura independente ao Porto