A 31 de janeiro, no Palácio da Bolsa, a discursar para elite portuense e com Paulo Rangel a assistir de perto. Um dia depois, no Restaurante Porto D’Honra, para falar aos militantes do partido, numa tertúlia que contou também com Alberto Machado, presidente da concelhia do PSD/Porto, e com a nova coqueluche do partido, Sebastião Bugalho. No dia 2 de fevereiro, uma perninha até a Loures, onde a Iniciativa Liberal, potencial parceira de coligação, se concentrou para tratar da vida interna do partido. Um dia depois, a 3 de fevereiro, regresso ao Porto, mais uma vez em funções institucionais, para entregar o Grande Prémio Fundação Ilídio Pinho 2023 a António Ramalho Eanes.
A agenda de Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares, ganhou uma renovada intensidade na viragem do ano e já poucos escondem que o social-democrata está mesmo a lançar as bases da sua futura candidatura à Câmara Municipal do Porto. Quem conhece de perto a vida interna do partido e o processo de decisão de Pedro Duarte garante que não há ainda qualquer decisão fechada e que, até à primavera, alguma coisa pode mudar. Mas o “plano A, B e C” para suceder a Rui Moreira é mesmo o atual governante. Está nas mãos do próprio decidir se encara ou não o desafio e se decidir em sentido contrário terá de o explicar muito bem a Luís Montenegro.
Do lado dos partidos, espera-se por essa decisão. Nuns casos com otimismo, por verem a candidatura como um facto quase consumado; noutros, com impaciência. Se durante o evento no Palácio da Bolsa o presidente da Associação Comercial do Porto, Nuno Botelho, contava que aquela sessão bateu o recorde de afluência deste ciclo de conversas (as Conversas na Bolsa), quem acompanha o processo autárquico no Porto regista que a plateia, que é convidada pelo orador ou pelos sócios da associação, estava recheada com “o aparelho dos dois partidos”, PSD e CDS. “Os partidos estão em ânsias” à espera de sinais de Pedro Duarte, resume a mesma fonte.
Nesse evento, Pedro Duarte manteve as cautelas e “comportou-se como ministro”, mas para os aparelhos partidários a presença no Porto bastou. Até porque o evento se realizou numa data histórica e simbólica para a cidade — 31 de janeiro, tentativa de primeiro golpe republicano, em 1891 — e Pedro Duarte aproveitou para deixar uma declaração de afeto à sua cidade natal antes de chegar aos temas da política nacional e internacional: “Quem tem no Porto o seu berço tem o dever de praticar a memória e a saudável rebeldia, de lutar pela liberdade”, declarou. E rematou retratando o Porto como uma cidade “rebelde, insubmissa e inquieta” que “nunca se demite de lutar por aquilo em que acredita”.
Já no evento que juntava militantes do PSD, Pedro Duarte voltou a ser a atração principal (ao lado de Bugalho) — o pretexto era a tomada de posse do núcleo do centro histórico do Porto, “coisa discreta” em princípio, mas acabou por juntar dezenas de militantes de todo o distrito. Nessa ocasião, o ministro fez um discurso “breve”, conta uma fonte que esteve presente no encontro, mas em que terá assumido que o PSD tem todas as condições para ganhar no Porto, aproveitando o final do ciclo de Rui Moreira. Mesmo sem fazer mais considerações, a conclusão de quem acompanhou a intervenção é clara: “Tem um perfil natural de candidato”.
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Já no mesmo dia, da parte da manhã, o ministro tinha estado num encontro que faz parte de uma série de reuniões programáticas, ao nível do PSD distrital mas contando também com elementos da sociedade civil, para trabalhar propostas em áreas setoriais diferentes. E se Pedro Duarte sempre foi participativo nos eventos do partido, até graças às suas responsabilidades a nível distrital, a “centralidade” que tem assumido nos eventos para os quais é convidado é registada.
“Todo o tempo do mundo”, mas com prazo final: a primavera
Apesar dos sinais que se acumulam, e que os partidos registam, as hesitações do próprio Pedro Duarte já viraram capa de jornal. A 16 de janeiro, o Diário de Notícias fez manchete com a hipótese de o ministro desistir da candidatura por não se querer desvincular em definitivo da Microsoft — uma corrida autárquica impediria um regresso à empresa. Nas redes sociais, o governante, que raramente se permite fugir ao guião, partilhou a notícia e fez o seguinte comentário: “O único compromisso que tenho acordado com o primeiro-ministro é dar o meu melhor nesta missão patriótica no Governo de Portugal”. A acompanhar a imagem e o texto uma música: “Todo o tempo do mundo”, de Rui Veloso.
A verdade é que Pedro Duarte já não tem assim tanto tempo para encabeçar uma candidatura vitoriosa à Câmara do Porto. Manuel Pizarro está na estrada e, à direita, continuam a brotar candidaturas que podem roubar preciosos votos ao PSD. Como contava aqui o Observador, o próprio Luís Montenegro já tentou intervir no processo (sem sucesso) para impedir a candidatura do vice de Moreira, Filipe Araújo. E a primeira sondagem que saiu aponta ao favoritismo do candidato socialista. A mensagem que se vai passando é clara: Pedro Duarte tem de dar ao pedal. Até porque Manuel Pizarro, por quem o atual ministro tem “estima” e contra quem “não fará uma campanha de rancores, mas de ideias”, está longe de ser “menosprezado” no PSD, lembra uma fonte já citada.
Aliás, quem vai acompanhando as intermitências de Pedro Duarte na abordagem ao Porto não esconde alguma preocupação. A determinada altura a hesitação pode ser tanta e tão evidente que o próprio eleitorado poderá perceber que o ministro porventura não queria e foi arrastado para uma candidatura autárquica. Seria um monumental erro de cálculo. “Para se ser candidato e presidente da Câmara tem de ser querer muito. Pedro Duarte tem de mostrar isso ou arrisca-se a perder”, avisa um influente social-democrata.
Essa preocupação não surge apenas dentro das fileiras sociais democratas, até porque o xadrez autárquico no Porto se vai complicando. O CDS divide-se sobre o assunto, mas parte do partido espera ansiosamente que o ministro dê um sinal, convicto de que esta poderia ser a oportunidade para, tal como em Lisboa, garantir que os democratas-cristãos continuam a ter uma palavra a dizer no campo autárquico e eleitos nas duas principais cidades do país.
Ainda assim, o nome de Pedro Duarte não é consensual: uma parte significativa dos militantes portuenses do CDS continua fiel ao movimento independente de Rui Moreira, que agora aposta as fichas na candidatura de Filipe Araújo, o que só torna mais claro o cenário de fragmentação. E entre estes militantes nota-se precisamente que as hesitações de Pedro Duarte podem prejudicá-lo, incluindo junto do eleitorado do Porto: “Em janeiro está a pensar se quer?”. Ou seja, no CDS a preocupação é a mesma que se ouve no PSD: “Tem de ter vontade…”.
Essa vontade — e essa pró-atividade — é exigida numa altura em que se nota que as diversas candidaturas “estão em campo”: deste lado, comenta-se que o avanço do ex-autarca Nuno Cardoso pode causar alguma divisão nos votos à esquerda, embora os socialistas estejam confiantes (e tenham recebido nova confiança de otimismo com a última sondagem) na candidatura repetente de Manuel Pizarro; mas sobretudo que o movimento “Porto com Porto”, de António Araújo, parece ter o terreno demasiado trabalhado para que não acabe mesmo por se concretizar numa candidatura, e que a este elenco se soma Filipe Araújo, ainda mais irredutível na sua vontade de avançar para a conquista da autarquia. A estas contas podem juntar-se candidaturas da IL e do Chega, e falta, naturalmente, um nome do PSD.
Publicamente, no entanto, o ministro dos Assuntos Parlamentares vai-se esforçando por pôr algum gelo na corrida. “Estamos a oito meses das eleições autárquicas. Há um tempo para tudo. Acho que com a tranquilidade, a serenidade, com a gestão do tempo de quem está no exercício de funções, poderemos comunicar aí quais foram as decisões tomadas”, fez questão de sublinhar esta segunda-feira, à margem da cerimónia de entrega do Grande Prémio Fundação Ilídio Pinho a Ramalho Eanes.
Ao mesmo tempo, e depois de insistir que tem a “primavera” como prazo-limite para decidir, Pedro Duarte não afastou por completo uma eventual candidatura à sucessão de Rui Moreira. “Pretendo nos próximos tempos continuar empenhado nesta função de ministro. Haverá um tempo, certamente, em que eu vou refletir sobre isso. Não escondo, nunca escondi, que sou do Porto, nasci no Porto, sempre vivi no Porto, e tenho uma paixão especial por esta cidade.” Declarações de amor à cidade não faltam. Mas falta a confirmação final, e essa só o próprio pode dar.