Era para ter sido uma noite bem mais tensa do que aquela que acabou por ser. Carlos Moedas partiu para o dia de todas as decisões com sondagens que o davam tecnicamente empatado com a adversária socialista em Lisboa. As primeiras projeções, divulgadas às 20 horas, deixaram muita gente de sobrolho franzido. “Parece a seleção nacional. É sempre até à última”, ouviu o Observador de uma das apoiantes de Moedas, incapaz de esconder algum desalento. Mas, afinal, não havia razão para preocupações: o social-democrata acabou mesmo por ganhar por números redondos e ficou apenas a um vereador de ter maioria absoluta.

Contas feitas, Moedas venceu em quase toda a linha. Numa eleição que muitos diziam que ia ser mais renhida do que foi, Moedas conseguiu mais 30 mil votos e eleger oito vereadores, mais um do que há quatro anos. Nem o Elevador da Glória o beliscou. Falhou a maioria absoluta, mas, em rigor, também nunca a pediu — nem mesmo depois de Luís Montenegro ter aparecido na campanha a pedi-la com todas as letras. Nas conversas informais, ao longo dos 15 dias de campanha, nunca os elementos da equipa do candidato falaram nessa possibilidade. Foi sempre uma hipótese meramente académica. “Eu não pedi maioria absoluta; eu pedi mais um voto”, frisou esta noite Carlos Moedas.

A maioria teria tornado tudo mais fácil. Agora começam os desafios deste novo ciclo. A campanha provou que há uma animosidade crescente entre o presidente da Câmara e a oposição socialista. Alexandra Leitão já fez saber que pretende ocupar o cargo de vereadora, pelo que os dois continuarão a cruzar-se. Os próximos quatro anos não serão muito diferentes e a primeira noite como presidente reeleito ajudou a definir o tom: Moedas voltou a referir-se como estando tomado pela agenda radical de esquerda e exigiu que o “deixassem governar”. “Os lisboetas não querem instabilidade. Querem estabilidade na pluralidade. E isso exige um esforço de diálogo. Exigirá de todos muita responsabilidade, exige que se ponha o interesse da cidade acima de tudo, acima dos partidos e acima das quezílias.”

É Moedas a colocar a pressão do lado de lá desde o primeiro minuto e a preparar-se mais quatro anos de governação dossiê a dossiê, peça a peça. Em grande medida, sente que o PS, depois da segunda derrota consecutiva, terá de pensar na vida e mudar de atuação. A outra solução — fazer um acordo de coligação com o Chega ou com a CDU —, não é uma hipótese para Carlos Moedas. Esta noite, o social-democrata voltou a dizer que rejeita por completo qualquer coligação pós-eleitoral “Se governei com sete vereadores, governarei muito melhor com oito. Uma Câmara Municipal não tem coligações pós-eleitorais. A minha coligação é com o PSD, CDS, IL e outros tantos independentes.”

O social-democrata tentará agora estar à altura da confiança nele depositada, sabendo que os primeiros quatro anos não foram exemplares. Até os mais indefetíveis apoiantes de Moedas reconhecem que os últimos quatro anos não foram o ponto de viragem que o social-democrata tinha prometido em 2021. Mesmo o ambiente da sala — a mesma de há quatro anos — não foi o mesmo que se viveu na surpreendente vitória. Ao mesmo tempo, e apesar de ter vencido claramente as eleições, toda a oposição — Alexandra Leitão e o PS, à cabeça — também conseguiu mais votos do que em 2021, o que comprova que há, de facto, muita gente desiludida ou frustrada com o mandato do social-democrata. “Há muita gente que votou em nós que está descontente ou desiludida. Isso é verdade”, desabafava há dias um elemento da campanha social-democrata. Em grande medida, a campanha dele foi sobre isso, uma campanha contra aquilo que fez e aquilo que não fez ao longo do mandato, contra as expectativas que não cumpriu e contra as frustrações que acumulou junto de quem votou nele. Moedas conseguiu mais um voto de confiança.

Resta saber se esta foi a última vez que correu por Lisboa. Ainda há dias, em conversa com o Observador, o autarca recusou dizer se concorreria a um terceiro mandato ou se ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa era o seu último cargo político. “Já tenho alguns anos. A vida vai-nos ensinando que não vale a pena fazer grandes planos. Só espero estar com saúde, ânimo e vontade para continuar a contribuir para a sociedade”, defendeu o social-democrata. Para já, Moedas fica por mais quatro anos. Depois, logo se vê. Afinal, só tem 55 anos.

Esquerda junta sem PCP não somou, subtraiu. Leitão assume culpas sozinha

No Fórum Lisboa, o PS percebeu mais cedo do que deu a entender que a sua votação na capital não ia ser suficiente para tirar a presidência a Carlos Moedas. Afinal a distância não era tão curta como as sondagens fizeram crer durante a campanha e a coligação PS/Livre/BE/PAN acabou a noite cedo e a mais de 20 mil votos de distância do adversário. Alexandra Leitão responsabilizou-se por tudo em cima de um palco onde faltou o líder do PS.

Perto da meia-noite e meia, a socialista subia ao palco acompanhada do marido e também dos líderes dos partidos parceiros da coligação Mariana Mortágua (BE) e Rui Tavares (Livre), não estava Inês Sousa Real do PAN, mas a ausência mais notada foi mesmo a do líder do seu partido. No fim foi questionada sobre essa falta e só disse que tinha falado por telefone com José Luís Carneiro — que estava na sede do PS, a apenas 5 km de distância.

Uma imagem não muito diferente da revelada em campanha, onde o PS nacional e as grandes figuras do partido só marcaram presença muito pontualmente. Durante a noite da contagem dos votos, no Fórum Lisboa, ainda apareceu Francisco Louçã, fundador do Bloco de Esquerda, mas não se viram figuras do PS de semelhante dimensão.

No quadro final, atrás de Leitão, estavam Tavares e Mortágua — que não quis falar aos jornalistas, atirando a sua própria análise da noite eleitoral para o dia seguinte. Já na sede do PS, José Luís Carneiro pouco tinha falado de Lisboa, referindo apenas a capital — cuja conquista chegou a dizer ser “fundamental” — para dizer que o PS a conseguiu “disputar” com Moedas. Mas os números mostram que essa disputa não foi real, já que o PS perdeu mesmo um vereador para a coligação PSD/CDS/IL.

Em 2021, a coligação liderada pelo PS integrava também o Livre e Fernando Medina perdeu a CML por menos de 3 mil votos de diferença. Desta vez o acordo foi mais além e estendeu-se ao PAN e também ao Bloco de Esquerda — o partido liderado por Mortágua acabou por ser um dos principais argumentos apontados por Moedas para acertar em Alexandra Leitão, colando-a à ideia de radicalismo de esquerda.

Na hora da derrota, Leitão recusou colocar culpas na união de esquerda, garantindo que foi “uma convergência que não se arrepende de ter feito”. Mas já deu uma bicada ao partido que não aceitou entrar no barco, o PCP. Quando questionada sobre a ausência comunista de frente liderada pelo PS em Lisboa, a socialista disse que “as convergências quanto mais amplas melhor”. Ou seja, teria sido “melhor” se esta coligação pudesse ter sido “mais ampla”.

A Moedas prometeu “lealdade”, mas também se dispôs a fazer uma oposição “firme e rigorosa”, não detalhando se isso quer dizer que não vai viabilizar instrumentos fundamentais de governação. Na altura da noite em que falou também ainda não se conhecia a distribuição final de mandatos que resultou numa esquerda mais reduzida do que quando concorreu em separado.

Se em 2021, a esquerda ficou com maior número de vereadores — sete do PS/Livre, dois da CDU e um do BE, contra sete de Moedas –, desta vez perdeu-a. A coligação do PS/Livre/BE/PAN passou a seis vereadores e a CDU a apenas um: são agora sete vereadores de esquerda, numa CML com nove vereadores da direita. O PS perde poder negocial, já que deixou de estar em igualdade de número de vereadores. Em termos de freguesias, perdeu Campo de Ourique, Campolide ou Santa Clara, tendo recuperado apenas as de Arroios e Santo António.

É o pior resultado dos últimos anos para os socialistas, que lideraram a Câmara de Lisboa entre 2007 e 2021. Confrontada com a hipótese deste desaire eleitoral poder comprometer a sua ambição futura na política — que não esconde, já assumiu vontade de ser líder do PS –, Leitão chutou para canto. Disse ter apenas “duas certeza de imediato”, que vai assumir a “vereação na oposição” e que o fará com “toda a vontade e rigor”. Quanto ao mais, fica para outro dia.

11 votos deram razão a Ventura na noite em que a sede do Chega em Lisboa esteve “às moscas”

Oito da noite. Um pouco por todo o país, a cada eleição, grande parte da população assiste religiosamente às primeiras projeções avançadas pelas televisões, à procura de pistas para o que se pode esperar ao longo da noite. Nestas autárquicas, no Hotel Marriott da capital, local escolhido como quartel-general do Chega Lisboa e Nacional, não estavam mais de 20 pessoas na sala a acompanhar o momento. Foi com silêncio que os escassos militantes do partido receberam os primeiros números — que mostravam que o candidato Bruno Mascarenhas poderia ficar atrás de João Ferreira, da CDU —, e com pouco entusiasmo que seguiram noite dentro.

Nunca foi segredo que André Ventura tinha esperanças contidas para Lisboa — as dificuldades foram admitidas pelo próprio líder do Chega numa ação de campanha em Chelas ao lado de Bruno Mascarenhas, onde, não deixando de pedir a vitória, assumiu que o terreno era complicado — mas o terceiro lugar era o objetivo realista. À chegada ao Hotel, Ventura foi fintando as perguntas sobre o cenário em Lisboa (e nos grandes centros urbanos). Mas, face à insistência dos jornalistas, não resistiu a comentar: “Isso não vai acontecer”. Só já depois das 3 da manhã, já sem ninguém no Hotel Marriott, os resultados acabaram por lhe dar razão: fechada a última freguesia do concelho, o Chega conseguiu ultrapassar os comunistas por uma das margens mais curtas de que há memória: 11 votos.

Na sede escolhida pelo Chega, saltou à vista a ausência das grandes figuras do partido. Afinal, a maioria era candidata a outras autarquias, e tinha de acompanhar os resultados no respetivo concelho. Por isso, só a chegada de Ventura serviu de ânimo, mas nem esse facto durou. Ventura e Mascarenhas seguiram, como é normal nestes momentos, para uma sala à parte, e o balão de entusiasmo voltou a desinsuflar. Na sala principal, numa das filas de trás, houve até quem adormecesse à espera de melhores notícias. Nem o anúncio das vitórias do partido, projetadas no ecrã gigante montado no Hotel (primeiro na Madeira, depois Entroncamento e por fim Albufeira), serviram para esconder o óbvio: se a noite já não era o que os militantes do partido esperavam a nível nacional, o cenário em Lisboa era ainda menos animador.

“Ficar atrás da CDU obviamente não era uma coisa que me agradasse”, assumiu Bruno Mascarenhas logo à chegada ao quartel-general, poucos minutos depois das oito da noite. “De qualquer das formas há um crescimento do Chega na cidade de Lisboa e era isso que queria salientar.” 11 votos acabaram por fazer com que o cenário desagradável acabasse por não se confirmar, mas se o desconforto não fosse óbvio, o que se seguiria servia de confirmação: as declarações de Bruno Mascarenhas ao início da noite foram as únicas que fez. Subiu ao palco, mas não reagiu à votação. Em Lisboa, só Ventura falou à comunicação social, também sem falar sobre a capital. Ninguém deu a cara pelos resultados do partido na maior câmara do país.

CDU perde vereador às três da manhã

João Ferreira falou, depois de Alexandra Leitão ter concedido a derrota, pronto para declarar uma quase reedição do resultado de 2021 com sabor a vitória para a CDU. O candidato comunista afirmou que os resultados conhecidos à altura em que prestou declarações, por volta das 1h20, apontavam para “uma possibilidade de ligeira subida da CDU face aos resultados de há quatro anos e de eleição do segundo vereador”. Ainda que a formulação fosse cautelosa, os cerca de 50 militantes que formavam a audiência celebraram convictamente a conquista.

Porém, a primeira possibilidade verificar-se-ia apenas parcialmente verdade (a CDU aumenta 1.200 votos, mas perde 0,41%) e a segunda possibilidade seria extinta por meio de um balde de água fria. Depois de estar à frente do Chega a noite toda, a CDU seria empurrada para fora do pódio em Lisboa, quando foram apurados os resultados da última freguesia. Assim sendo, às 3h00, o PCP descobriu que não vai reeleger a vereadora Ana Jara por uns meros 11 votos, num município onde mais de 265 mil foram às urnas.

Ainda alheio a todo este drama de última hora, João Ferreira considerou que a CDU dava “um passo importante” em Lisboa, sem nunca se atrever a utilizar a palavra vitória. O candidato comunista à maior autarquia do país assinalou que o resultado foi “obtido numa realidade, política social e ideológica muito diferente” de há quatro anos, quando a CDU ainda tinha 12 deputados no Parlamento e sustentava o segundo governo de Costa.

Se horas antes Paulo Raimundo tinha admitido um “resultado negativo” para a CDU, a nível nacional, a projeção de um crescimento da votação em Lisboa era vista como um contraste positivo nesse quadro alargado de derrota. Sem euforias, o ambiente nas instalações onde se acompanhava a eleição tornou-se mais leve assim que as primeiras projeções mostravam que a CDU ficava à frente do Chega e que os dois dígitos de percentagem de votos estavam quase garantidos. Mais tarde, quando ambas as metas deixaram de estar certas, quase já não se encontrava ninguém no Centro de Trabalho Vitória, na Avenida da Liberdade.

Com uma presumida manutenção do resultado anterior para a CDU e uma clara derrota para a coligação de Alexandra Leitão, procurava-se que João Ferreira justificasse como, com uma maioria de votos de esquerda na capital, a direita se mantinha à frente da Câmara — algo que o próprio considerou como “um resultado negativo que marcará negativamente a evolução da situação na cidade”.

Para responder a tal, o vereador reeleito trazia números: a coligação de Alexandra Leitão teve menos votos em 2025 do que os partidos que o compõem (PS, Livre, Bloco de Esquerda e PAN) tiveram em 2021 quando não concorreram todos juntos. “Se têm de se queixar de alguém, só [podem fazê-lo] de si próprios”, atirou João Ferreira, recebendo manifestações de apoio dos cerca de 40 militantes que acompanhavam as suas declarações no Centro Vitória, na Avenida da Liberdade. O antigo eurodeputado acrescentou que “os resultados não autorizam uma responsabilização” da CDU pela reeleição de Moedas, mesmo após ter rejeitado uma oferta para ser o número dois de Leitão ao coligar-se à restante esquerda.

De resto, o candidato recuperou a retórica da campanha e disse que se a coligação de Alexandra Leitão tivesse procurado conquistar eleitores de Moedas em vez de “disputar votos com a CDU”, “talvez os resultados pudessem ter sido diferentes”. Também voltou a afirmar que o programa da CDU foi construído em confronto não só com o que foram “aspetos importantes das gestões municipais” de Moedas, mas também das anteriores gestões socialistas. E voltou a distanciar-se do PS por ter “viabilizado o essencial da ação governativa” do presidente da Câmara reeleito.

Contudo, não negou a assunção de responsabilidades – ainda que tenha um entendimento diferente do resto da esquerda sobre o que estas representam. “Tencionamos assumir essa responsabilidade, seremos uma oposição determinada, crítica, atenta como temos sido”, assegurou João Ferreira. Propôs ainda que, mesmo sem uma liderança da Câmara de esquerda, a CDU poderá afetar a governação da cidade ao forçar algumas propostas “a contragosto” de Moedas – algo que criticou o PS por não ter feito no anterior mandato.

O candidato da CDU acredita que é essa posição de intransigência na oposição a Moedas e a alianças com o PS que ditou o aumento de votos na eleição deste domingo: “Não podemos pensar que tendo outro posicionamento teríamos a mesma votação.” O comentário era feito quando João Ferreira pensava que ia acabar a noite tendo nada perdido e até ganho alguns votos morais. A madrugada acabaria por juntar a esquerda toda, mas na coligação dos derrotados. Se os comunistas olham para este desfecho e lamentam a sua má sorte, alguns membros da restante esquerda verão certamente o karma a fazer das suas.