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Arte que salva

Vamos imaginar que entra na sala de um museu e se apaixona por uma obra de arte. Se descobrir quem a criou, isso muda alguma coisa?

Que a arte é capaz de mudar o mundo, isso já se sabe. Que a arte é capaz de mudar pensamentos, perceções, quebrar estigmas? É possível que já se tenha apercebido disso. Mas será que temos consciência total do seu alcance? Alguma vez parou para pensar que o processo criativo pode ser, simultaneamente, um processo de cura? A arte como terapia não só é uma realidade como pode ser, em muitos casos, o principal veículo para expressar o que, muitas vezes, as palavras não alcançam.

Presente em Portugal há mais de 130 anos, o Instituto S. João de Deus dedica-se à prestação de cuidados especializados nas áreas da saúde mental e psiquiatria, reabilitação física, cuidados continuados e cuidados paliativos, com particular atenção às pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Está presente em Portugal Continental e nas Regiões Autónomas através de 11 unidades de saúde, acompanhando anualmente cerca de 5.000 pessoas em regime de internamento e cerca de 10.000 através de respostas comunitárias e de ambulatório.

Mas mais do que seguir as terapêuticas convencionais, o Instituto tem traçado o seu trajeto no sentido de marcar pela diferença, oferecendo aos seus utentes a possibilidade de encontrar caminhos alternativos para a realidade que até então conheciam. Como o caminho da arte, da expressão artística, da criação. De que forma? Isso foi o que fomos descobrir.

  • SublimArte
  • António Aleixo – Estúdio de Arte
  • Pedro Pico – Estúdio de Arte
  • Trabalhos Pedro Pico – Estúdio de Arte
  • Paulo Sesmarias – Estúdio de Arte
  • Pedro Fonseca – Estúdio de Arte

O Estúdio onde a liberdade é (mesmo) a palavra de ordem

“A arte é uma porta aberta para uma corrente de ar”. É com esta frase que somos recebidos quando entramos no gabinete de Raquel Pedro, responsável pelo Estúdio de Arte do Telhal. Por baixo dela, está assinado o nome “Vítor Teixeira”, um dos participantes. E a partir daqui é possível perceber que, ao cruzar aquelas portas, o termo “utente” é deixado de lado para que, em seu lugar, possamos falar de “artistas”. Ou melhor: artistas. Sem aspas. Porque foi quem ali encontrámos.

▲ Raquel Pedro, responsável pelo Estúdio de Arte do Telhal

Desde a pintura, desenho, escrita, linogravura, cerâmica, fotografia, multimédia até à escrita musical, não há limites para a criatividade que este estúdio, com lugar no Instituto S. João de Deus – Telhal, em Sintra, consegue albergar. “O Estúdio de Arte é um atelier artístico integrado no Serviço de Reabilitação Psicossocial do ISJD-Telhal. Na verdade, ele surge em 2006, através de um programa de atividades que nós designávamos como arte e terapia. Mas comecei rapidamente a perceber que havia a necessidade de criar condições para que surgisse a força autoral que estes participantes trazem”, começa por nos contar Raquel Pedro, a presença assídua no atelier e a pessoa por quem todos os participantes procuram, na hora de pedir materiais ou trocar ideias. “Nessa altura, também iniciei um projeto muito interessante que se chamava Retratos Sonoros, uma espécie de escuta ativa. Portanto, eu antes de começar a trabalhar com esta intensidade, fui mais ouvindo e registando. E isso foi-me permitindo perceber que havia um grande potencial criativo, e artístico, e que era preciso capacitá-lo, empoderá-lo, e, eventualmente, escalá-lo de alguma forma”, acrescenta.

  • Ricardo Oliveira – Estúdio de Arte
  • António Aleixo – Estúdio de Arte
  • Romilton Almeida – Estúdio de Arte
  • Tiago Maia - Estúdio de Arte (trabalhos realizados no contexto da residência artística com a Slash Arts, fevereiro – março, 2026)

O que começaram por ser pequenas sessões, de algumas horas, foram-se transformando numa atividade semanal, autónoma, para todos os residentes que queiram participar e que tenham alguma capacidade artística, ou não. Aqui, a vontade e a motivação são razão suficiente para entrar. “A ideia é ser um espaço livre, aberto, muito de autogestão. Isto é, a gestão dos horários, as vindas, é tudo articulado com as equipas de referência, obviamente, e através do Plano Individual de Intervenção (PII) que costumamos ter para quem reside aqui no Instituto. Mas o objetivo era dar esta liberdade – até por estarmos a trabalhar num terreno de criatividade – e não estabelecer horários muito fixos, presenças muito rígidas, porque isso podia não funcionar”, explica-nos Raquel, reforçando ainda: “Acima de tudo, é um atelier que funciona para a vertente artística individual, mas muito em conjunto. Há um trabalho colaborativo. Estabelecem-se relações humanas e acho que esta é uma das grandes forças, eles/elas sentirem-se parte, parte de um projeto comum. Aqui, as pessoas identificam-se como autores”.

O trabalho desenvolvido pelo atelier não se fica pelas sessões semanais. As parcerias que se têm estabelecido, as residências artísticas que acontecem com artistas de vários pontos do mundo, como foi o caso da Slash Arts, a Carpe Diem, o Centro Português de Serigrafia, o Teatro Efémero, ou a P28, entre outras, são um exemplo da vontade de promover colaboração, trazendo mais conhecimento, novas experiências e levando o trabalho dos artistas para além daquelas portas. “Gosto de pensar no internamento enquanto espaço de cultura. Se a pessoa tem de estar num determinado lugar, então o que é que esse lugar lhe pode dar? E a via da cultura e da arte é muito importante, porque expande imensas possibilidades, alarga os horizontes, não anula. Acresce que através destes projetos também se combate o estigma. Por outro lado, esta participação em práticas artísticas, seja de um ponto de vista mais observacional, ou de uma forma mais ativa, traz benefícios para a saúde”. E para Raquel Pedro, o facto de o atelier existir no contexto do ISJD-Telhal não é indiferente e não deve ser ignorado. Se o contexto terapêutico existe, e é importante, é-lo, em igual medida, dignificar o trabalho de cada um, potenciando-o. “Há aqui um património construído por aqueles e aquelas que passaram por cá e que é, em termos de dignidade, importante ser preservado. Precisamos de pensar as questões da propriedade intelectual para conservar e mostrar o trabalho que aqui é feito. E, neste ponto, temos tido uma ajuda preciosa da investigadora Stefanie Franco”.

Eu.com.Arte.

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Com a noção da importância do movimento e da música para o bem-estar, o Estúdio de Arte promoveu, entre setembro de 2025 e março de 2026, o projeto Eu.com.Arte. Com o apoio da Câmara Municipal de Sintra, no âmbito do Programa de Apoio Financeiro às Instituições Sem Fins Lucrativos Promotoras de Desenvolvimento Social e de Saúde (PAFI), o projeto teve como objetivo a promoção do bem-estar e da saúde mental, através da integração de práticas artísticas – música, dança e teatro – enquanto abordagens de cariz terapêutico dirigidas a pessoas com doença mental. “Era uma coisa muito livre e onde, muitas vezes, podíamos ter as mesmas pessoas a participar, outras vezes vinham pessoas novas. Ao todo tivemos cerca de 140 pessoas. Tivemos muitos participantes e foi ótimo. E a ideia era mesmo serem sessões que não tivessem o objetivo de criar algum objeto artístico. Ou seja, não era para se criar um espetáculo, não era para se criar uma música, nada. Era mesmo para experienciar através da dança, do teatro ou da música”, partilha Carolina Figueiredo, coordenadora, servindo-se das palavras do participante Ricardo para ilustrar o sucesso da iniciativa: “Aqui conseguimos perceber que a doença não nos prende, não somos apenas a doença, podemos fazer, e ser, tudo o que quisermos”.

▲ Raquel Pedro e Carolina Figueiredo, facilitadoras do projeto Eu.com.Arte – movimento e sons para o bem-estar, no acervo do Estúdio de Arte

Conhecer o verdadeiro impacto do Estúdio de Arte só acontece quando entramos pelas portas do seu atelier e somos recebidos pelo olhar de cada um dos participantes. Pelo olhar de Paulo Henrique Guint, que nos oferece os seus dois livros de poesia – o “Vá-leu: a pena” e o “Psicologia Inversa e em verso” -, com capas criadas por si e inspirado “nas pessoas e nas coisas” que vai lendo; pelos retratos de Pedro Pico, que afirma que o Estúdio é “a melhor coisa que há aqui no Telhal”; pelos trabalhos de Vítor Teixeira, que depois da ciência e da biologia se começou a dedicar ao desenho; pelos trabalhos de grande escala de António Aleixo, sobre Antropologia. O talento é inegável e o seu lugar mais feliz é a desenhar, apesar de afirmar que ainda tem de “batalhar muito” para ser artista; ou pela arte de Paulo Sesmarias, com um trabalho metódico sobre metamorfose e desenhos onde a presença humana e animal se cruzam em cores coloridas e formas disruptivas. “Sou um doente esquizofrénico. Costumo ter alguma fobia social e tento ficar mais isolado. Com a arte eu liberto-me, é como se fosse um escape terapêutico para mim. Nós vamos fazendo as coisas e, de vez em quando, vamos pedindo opiniões à Raquel. E depois, vamos integrando as opiniões nos nossos trabalhos, o que eu acho muito importante”, são palavras suas, mas que se refletem nas interações com todos os seus colegas.

Dos graúdos aos miúdos

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Perto do Estúdio de Arte do Telhal, e ainda dentro dos limites do Centro Assistencial, existe um espaço onde, para lá da cortina, os telemóveis são deixados de parte, juntamente com todas as preocupações do dia a dia. O SublimArte é mais um exemplo de como a arte pode fazer a diferença, desta vez nas gerações mais novas. Co-financiado pelo Portugal 2030, Câmara Municipal de Sintra e a ITAU, até agosto de 2027, este projeto tem como objetivo trabalhar questões de saúde mental em jovens, através da expressão das suas emoções e utilizando a arte como ferramenta terapêutica. “Na fase da adolescência, os jovens têm estes desafios constantes de lidar com todas as emoções e com tudo aquilo que eles estão a sentir. O que nós pretendemos, com estas atividades, é que o jovem possa, de alguma forma, melhorar questões de ansiedade, os seus sentimentos de solidão, reforçar o autoconceito e, dessa forma, conseguir lidar melhor com as coisas que lhe estão a acontecer no dia a dia”, quem nos explica é Ana Lúcia, gestora responsável pelo projeto, esclarecendo de que forma tudo funciona: graças a um protocolo com cinco agrupamentos escolares, são eles os responsáveis pela sinalização dos alunos com potenciais necessidades de integrar o projeto. Depois de avaliadas as suas necessidades, é no ISJD-Telhal onde têm lugar as sessões de Arteterapia, o Grupo Terapêutico e o Atelier de Arte. “Na arteterapia e no grupo terapêutico, a intervenção é em grupo. Já no ateliê de arte, embora existam vários jovens no mesmo espaço, podem tanto estar a fazer um trabalho coletivo como um trabalho mais individual. O grande objetivo não é o produto final, é o processo criativo e a expressão”, partilha Ana Lúcia, acrescentando: “Temos, no total, 96 encaminhamentos para o projeto e temos jovens com características muito diferentes. Tanto temos jovens que apresentam comportamentos mais disruptivos, não cumprimento de regras, de testar, como temos jovens perfecionistas, que estão constantemente preocupados e têm muita ansiedade”. Seja qual for o caso, ou duração do processo de cada um, a verdade é que, em menos de dois anos de projeto, os resultados falam por si e vários são os jovens que se viram desabrochar dentro daquelas quatro paredes, influenciando o seu desempenho e até mesmo as suas relações familiares.

▲ Ana Lúcia, gestora responsável pelo projeto SublimArte

Mãos que Criam, peças que falam por si

Atravessando o Oceano Atlântico, é em Ponta Delgada, nos Açores, que é possível conhecer um outro projeto que reforça o papel terapêutico da arte no Instituto S. João de Deus. O “Mãos que Criam” nasce em 2020 e tem como objetivo potenciar as competências pessoais e sociais dos seus utentes, minimizando as repercussões associadas às patologias e promovendo uma melhoria da qualidade de vida e a sua inclusão social. Através das oficinas de cerâmica, do papel e do tecido, é fomentado o desenvolvimento de competências criativas, o treino de competências funcionais e sociais dos utentes, reforçando o sentimento de pertença e uma participação mais ativa na sociedade. “Através destas competências pretendemos que a pessoa se sinta válida, se sinta reconhecida. Que o seu trabalho seja valorizado não porque são utentes, mas porque fazem um trabalho com qualidade e que é reconhecido pela comunidade. Isso é visível através das nossas encomendas. A nossa agenda de 2026 já está completamente cheia, agora já estamos a aceitar encomendas só para 2027”. Quem o partilha é Maria do Céu, psicóloga responsável, sublinhando a importância do projeto para os seus participantes: “Permite termos sempre os utentes em ocupação, que é esse o nosso principal objetivo. Depois, claro que também permite o aumento da socialização, da comunicação interpessoal, o aprenderem normas sociais, a participação ativa em grupos, o respeitar regras básicas que depois são importantes para o seu percurso, seja a nível pessoal, seja a nível profissional. Estruturar o tempo, criar rotinas que são muito importantes para pessoas com doença mental e que depois, através da criação das peças, vão reestruturar todo o seu dia a dia que, muitas vezes devido à patologia, estava um bocadinho desorganizado ou sem hábitos saudáveis”.

  • Shout Estudio
  • Shout Estudio

O que é certo é que o impacto do projeto já vai além portas e chega a toda a comunidade, seja através da encomenda de peças, seja através de Programas no Centro de Emprego que possibilitam aos utentes uma maior autonomia financeira. “Temos muitos parceiros na comunidade, desde instituições que pedem para os seus utentes virem ocupar-se no nosso projeto durante o dia e depois à noite vão para as suas casas, a pessoas particulares que também pedem para ocupar cá os seus familiares enquanto vão trabalhar. Isto tem vindo a crescer. Este crescimento, não só a nível de encomendas, mas das respostas sociais que o projeto tem vindo a dar, também demonstra a diferença e o impacto que está a ter a nível da comunidade”, acrescenta Maria do Céu.

Aqui, cada utente tem um plano individual de intervenção, que conjuga determinados objetivos com as suas próprias expectativas, as expectativas das famílias ou da rede de suporte, e da própria equipa. Ao longo do ano, esses objetivos são trabalhados. Tal como na conceção das peças, o importante não é apenas o produto final, mas sim o processo de desenvolvimento pessoal do próprio utente. “E isto faz toda a diferença, porque acabamos por trabalhar com o utente no seu todo”, afirma a responsável.

Mas melhor do que falar do projeto é saber do seu impacto na primeira pessoa. João Furtado entrou na clínica de Aditologia para dar início a um processo de desabituação alcoólica. Fez o seu trabalho em regime de voluntariado e há um ano que faz parte do Programa Incluir, que lhe proporciona garantias em termos de autonomia financeira e o permite dar continuidade à sua presença no Projeto, criando peças e sendo um exemplo a seguir para todos os seus colegas. “Eu só tenho a agradecer às pessoas que aqui estão, porque foi graças a elas que eu dei totalmente uma volta na minha vida. Vim, fiz o tratamento, depois vim para aqui trabalhar e fui-me mantendo, graças a estas pessoas que aqui estão, ajudaram-me imenso. Isto é uma oportunidade que as pessoas devem ter e merecem. Sei para onde vou, a que horas me levanto, o que tenho de fazer. Tudo isso mudou na minha vida. Sinto-me renovado e bem”, um testemunho emocionado que em muito representa a amplitude de um projeto como este.

  • AFARIA
  • AFARIA
  • AFARIA
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Mais do que “mãos que criam”, estas são mãos que aproximam, que desmistificam. Aliás, o próprio nome é uma prova disso. “O nome Mãos que Criam surgiu mesmo do combate ao estigma, porque enquanto tínhamos como Casa Criativa São Miguel, as pessoas ficavam reticentes. E quando passámos a ir como Mãos que Criam, as mesmas pessoas já iam e compravam, sem saber de onde é que vinham as peças. As pessoas já não olham para as peças como são os utentes que fazem, mas sim pela qualidade do produto”, quem o diz é a monitora Nicole Medeiros, uma das caras por detrás do projeto e do dia a dia de todos os utentes.

Seja no Telhal, em Sintra, ou nos Açores, fica claro de que a arte é capaz de chegar a todo o lado e mudar a vida de todos aqueles que fazem dela a sua forma de expressão. Ela cuida, ela salva, ela assume-se como uma ferramenta para fazer pertencer quem, por vezes, é colocado num outro sítio. Porque na hora de criar, o lugar de onde viemos pode dar o contexto, mas uma obra de arte falará sempre por si, independentemente das mãos que lhe deem vida. É universal e será sempre a corrente de ar que passa por todas as portas que se quiserem abrir para ela.

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