Das 8h13 às 16h49. Luís Montenegro esteve exatamente oito horas e 36 minutos em solo ucraniano. Ao todo, foi mais tempo dentro do comboio — dez horas para lá, de Przemyśl (Polónia) até Kiev (Ucrânia), dez horas para cá.
O primeiro-ministro passou-as no compartimento habitualmente reservado para as altas figuras políticas quando visitam o país em guerra. Tem uma sala ampla, decorada com apontamentos amarelos, onde há um sofá, uma televisão e um espelho. A toda a volta, quartos para os membros da delegação, guardados por seguranças. Há ainda uma cozinha elegante, com móveis de madeira escura. Na mesa central, Luís Montenegro pôde sentar-se e preparar-se com a sua equipa para o antecipado encontro como Volodymyr Zelensky, que esteve a ser alinhavado durante meses. Entre um apontamento e outro, o primeiro-ministro podia recorrer à fruteira recheada que tinha à sua disposição. Mas, mesmo com todas essas comodidades, não deixaram de ser muitas horas preso num tubo de metal. “A parte mais dura foi a viagem”, desabafaria o primeiro-ministro ao Observador no regresso.
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Foi neste mesmo compartimento que viajaram outros políticos portugueses como Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e António Guterres, nas visitas que fizeram a Kiev ao longo dos últimos três anos de guerra. Desta vez, porém, a segurança foi particularmente apertada. Assim que pôs o pé fora do comboio, Montenegro falou aos jornalistas em frente à carruagem onde dormira. E, talvez inspirado pelo exemplo do Presidente português, prometeu trazer “afeto” aos ucranianos: “Mais do que qualquer outro [país], [a Ucrânia] está naturalmente mais carente da nossa solidariedade, da nossa proximidade — para não dizer mesmo do nosso afeto.”
Saiu depois pela porta lateral da estação de Kyiv-Pasazhyrskyi — por onde saem habitualmente os chefes de Estado quando visitam o país — em vez da porta principal. E arrancou o sprint. Depois de uma passagem rápida pelo hotel, em menos de uma hora já estava sentado no Conselho de Ministros ucraniano para se encontrar com a primeira-ministra Yulia Svyrydenko. Passada meia-hora, estava em frente ao Muro da Memória, o memorial com fotografias de militares ucranianos mortos em combate. Foi aí o momento do primeiro encontro com o Presidente Volodymyr Zelensky — mas ninguém sabe ao certo que palavras trocaram os dois líderes, já que o momento foi sem a presença da comunicação social.
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Montenegro e Zelensky falam em momento “histórico” no Conselho Europeu e trocam elogios
Vinte minutos mais tarde, os jornalistas assistem finalmente a uma interação entre os dois. Às 11h35, Luís Montenegro chega ao Palácio Mariinsky, onde dois guardas de honra, fardados com luvas brancas, abrem a porta do carro. O primeiro-ministro aproxima-se e estende a mão ao Presidente ucraniano, que a aperta. Logo de seguida, vem o abraço.
Seguem para o encontro entre as delegações dos dois países, que, uma vez mais, é à porta fechada. À sua espera, o chefe do Governo português tem a placa a apontar-lhe o lugar com o seu nome escrito no alfabeto cirílico: Луim Монтенегрy. Às 13h15, exatamente uma hora depois, os dois líderes surgem na conferência de imprensa com sorrisos no rosto, que escondem o cansaço da passada quinta-feira. Foi noite de Conselho Europeu, que terminou com o acordo de empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia depois de uma longa reunião onde o consenso chegou a parecer difícil.
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Apesar de o acordo não ter incluído a transferência para Kiev dos ativos russos congelados na Europa, que chegou a ser equacionada, Zelensky e Montenegro mostraram-se muito satisfeitos com o resultado das negociações. Ambos usaram o termo “histórico” para se referirem ao acordo de empréstimo. “Foi um sinal que demos ao mundo e à Rússia para criar condições para um processo de paz justo”, afirmou Montenegro. Já o líder ucraniano não poupou nos elogios à “força” dos europeus: “É uma vitória real, importantíssima, política e geopolítica.”
O grande anúncio não veio em forma de mais apoio financeiro — Portugal espera manter o compromisso de dar mais 227,5 milhões à Ucrânia este ano, à semelhança de 2024 —, mas num acordo para produção conjunta de drones subaquáticos, que foi assinado à sombra de uma imponente árvore de Natal. Montenegro classificou o acordo como relevante para promover também a defesa das “infraestruturas públicas” nacionais, como os cabos submarinos, “a bem do espaço europeu”. Ao mesmo tempo, sublinhou, a iniciativa visa dar um impulso à relação económica dos dois países. E Montenegro não deixou de aproveitar a oportunidade ao lado daquele a quem chamou “meu amigo e Presidente Zelensky” para gabar os resultados da economia nacional “acima da média da zona Euro”: “Estou aqui depois de Portugal ser considerado a economia do ano pela revista Economist”, disse abertamente.
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Mas o momento mais crucial viria no fim da conferência de imprensa. Na terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel — que era para ter feito parte da comitiva em Kiev, mas teve de cancelar a viagem por motivos pessoais — excluiu o envio de soldados portugueses para território ucraniano em tempo de guerra, mas não no futuro: “Portugueses, para um cenário de guerra não irão, isso é certo. Mas, se houver paz, não é a primeira vez que fazemos parte de forças de paz.” Luís Montenegro manteve que é essa a posição do Governo, mas explanou a disponibilidade para Portugal participar na força de segurança no futuro: “Nada vai obstar a que militarmente os portugueses possam fazer na Ucrânia o que já estão a fazer aqui ao lado na Lituânia ou na Roménia”, clarificando que tal seria em tempo de paz.
Perguntado pelos jornalistas se estava “desiludido” com essa posição, Zelensky negou e disse antes estar “grato”. Mas disse ser ainda cedo para discutir os moldes dessa participação militar nacional: “Concordo com o Luís, é um pouco cedo para falar disso”, acrescentando que só aconteceria “depois do cessar-fogo, não agora”.
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Acordo de paz para breve? “O caminho faz-se caminhando”, diz Montenegro
Terminada a conferência, os seguranças de auricular no ouvido voltam a posicionar-se para levar os líderes ao almoço de trabalho das duas delegações. Ali, acompanhados de uma garrafa de vinho tinto ucraniano, os dois líderes alinhavaram mais posições e o primeiro-ministro português despediu-se antes de uma rápida visita ao Parlamento ucraniano.
Por fim, já a noite tinha caído, Luís Montenegro ainda visitou a Catedral de Santa Sofia. O ministro da Defesa, Nuno Melo — que também integrava a comitiva — aproveitou para destacar aos jornalistas que a reabilitação da cruz que adorna o topo da igreja foi feita com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa. Enquanto isso, Montenegro ia completando a penúltima etapa do sprint ouvindo atentamente a guia que lhe falava sobre os frescos antigos.
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À saída, deu uma última palavra aos jornalistas onde comentou a atual situação das negociações para a paz. Confessou que desejava umas “tréguas de Natal”, mas não se mostrou confiante de que haja um acordo final para breve: “O caminho faz-se caminhando, eu sinto que estamos mais perto, mas não quero é dizer que já estamos numa situação de ser irreversível a obtenção de uma paz justa e duradoura, porque ainda não o podemos garantir”, disse, acrescentando que as negociações envolvem “vários intervenientes”, incluindo a própria Rússia.
E, assim como chegara poucas horas antes, partiu na comitiva encabeçada pelos carros de polícia de sirenes ligadas em direção à estação de comboio. Foi a segunda vez que Luís Montenegro foi à Ucrânia — há mais de 20 anos visitou Donetsk —, mas esta foi a primeira em que visitou o país em plena guerra. Para já, não há ainda novo sprint marcado.