As guerras políticas de Belmiro de Azevedo

29 Novembro 2017

Travou grandes batalhas com, pelo menos, quatro chefes de Governo e criticou outros tantos protagonistas políticos, a quem dizia faltar a "cura" que é dada aos presuntos. Só elogiou Sá Carneiro.

Chamou “ditador” a Cavaco Silva e disse que Marcelo Rebelo de Sousa “deveria ser eliminado” por “não ter categoria e a honestidade necessárias a um líder da oposição”. A certa altura, defendeu que Pedro Passos Coelho precisava “de uma rolha“, que José Sócrates deveria entrar para o Guinness por fazer “tanta coisa mal em tão pouco tempo” e que Durão Barroso era um “traidor” por trocar o país pela Comissão Europeia. Sobre Marques Mendes e Manuela Ferreira Leite, disse que o primeiro não servia “nem para porteiro da Sonae” e que a segunda “nunca dormiu mal por ter a responsabilidade de saber como pagar salários”. Anos antes, chegou a sugerir que o Governo de António Guterres não ia lá nem com Viagra.

A relação entre Belmiro de Azevedo e a classe política esteve longe de ser pacífica. O homem que transformou uma empresa que fabricava laminados decorativos num dos maiores grupos económicos do país fez sempre gala de mostrar a sua independência em relação ao poder político. Muitas vezes, de forma contundente. Certa vez, em entrevista ao Público, a última que deu, comparou os políticos ao presunto, dizendo que “a maioria não tem a cura necessária para desempenhar as funções, que exigem nervos fortes e educação permanente”.

Pessoas que realmente admirava no mundo da política conhecem-se poucas. “A maior parte dos que podiam ser meus ídolos é gente que praticamente já morreu”, disse nessa mesma entrevista, em 2013. Francisco Sá Carneiro era um deles. “Correspondia a muitos dos valores em que me revejo. Era corajoso, enfrentava as vicissitudes de um cargo público. E a classe que sofreu com a PIDE era, em regra, formada por homens genuinamente cidadãos, muito competentes, muito cultos”. E Mário Soares, de quem disse ser “reconhecidamente, um mau gestor”, mas que devia ser respeitado pela “coragem com que enfrentou o PCP“, dando “o corpo às balas”.

A propósito do seu ativismo político durante o Estado Novo (ou a falta dele), chegou a dizer que não tinha “tempo para andar aos tiros aos políticos, muito menos ao Salazar“. Ironicamente, a construção do império que fez dele um dos homens mais ricos do país colocou-o várias vezes na carreira de tiro, ensaiando como alvo vários Governos, ora do PS, ora do PSD.

As guerras com o “ditador” Cavaco Silva

O primeiro braço de ferro chegou logo em 1987, quando lançou em simultâneo sete ofertas públicas de venda (OPV) para colocar em Bolsa as empresas Agloma, Ibersol, Modelo Continente, Publimeios, Robótica, Selfrio e Viacentro. “Isto tem muito a ver com a minha formação desportiva: ganhar, perder, receber e dar caneladas”, chegou a dizer o empresário. Miguel Cadilhe, então ministro das Finanças, considerou o processo pouco transparente e tentou travá-lo. As operações mereceram uma investigação que, anos depois, terminou em arquivamento. Mas, durante muito tempo, a relação entre os dois tornou-se mais tensa.

Belmiro de Azevedo era um adversário muito difícil, que usava as armas que tinha com toda a força, todo o alcance de tiro“, recorda ao Observador Miguel Cadilhe, ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva, cujo percurso, curiosamente, se cruzou bem cedo com o de Belmiro de Azevedo. “Quando saí da Faculdade, recebi vários convites e um deles foi da Sonae. Foi o próprio a conduzir a entrevista, mas acabei por optar por outra empresa”, lembra.

“Ao longo da minha vida, demonstrou sempre uma grande estima e consideração por mim. Nunca trabalhei para ele, mas foi o maior empresário da história do país, que quando tinha de romper, rompia. Defendeu sempre a Sonae de forma feroz e tivemos os nossos antangonismos, mas ficaram completamente resolvidos ao longo do tempo”, reitera Miguel Cadilhe.

Anos mais tarde, em 1995, não conseguiu impedir o sucesso da Oferta Pública de Aquisição (OPA) do BCP sobre o então Banco Português do Atlântico. A operação, que à segunda tentativa recebeu “luz verde” do então ministro das Finanças, Eduardo Catroga, foi largamente contestada por Belmiro de Azevedo, que chegou a classificar o social-democrata como o “pior ministro das Finanças de que havia memória“.

Em causa esteve o facto de Catroga ter decidido vender a participação que o Estado ainda detinha no Atlântico à instituição liderada por Jorge Jardim Gonçalves, completando de uma forma invulgar o processo de privatização do BPA. Em 2015, quando o empresário anunciou a saída de todos os órgãos sociais da Sonae, Eduardo Catroga colocou as coisas nestes termos: “Há quem defenda a melhor opção para o país; Belmiro de Azevedo defende sempre a melhor opção para a Sonae“.

Estes dois episódios fizeram com que se fosse afastando progressivamente do cavaquismo, ele que fora um apoiante (discreto mas convicto) de Cavaco Silva. É numa entrevista à Visão, em 2010, que lhe cola o rótulo de ditador e em que assume ter tido uma zanga com o antigo Presidente da República.

O Cavaco é um ditador. Mandou quatro amigos meus, dos melhores ministros, para a rua, assim de mão direta. O [Álvaro] Barreto, a Teresa Patrício Gouveia, o [Miguel] Cadilhe e Eurico de Melo, que foi o que me chateou mais. Era vice-primeiro-ministro, e foi quem pôs o Cavaco no poder”, disse na altura.

O início da história de inimizade entre os dois é contada no livro “Belmiro, História de Uma Vida”, de Magalhães Pinto (Âncora Editora), pela voz do antigo vice-primeiro-ministro de Cavaco Silva e amigo de Belmiro, Eurico de Melo. “De entre todos os políticos, terá sido Cavaco Silva aquele com quem as relações do empresário da Sonae foram mais difíceis. Colidiram por várias vezes. (…) Nunca houve uma relação amigável, cordial, de compromisso político entre Belmiro e Cavaco Silva. Davam-se bem. Mas nunca foi cordial”, contou então Eurico de Melo.

“O Cavaco é um ditador. Mandou quatro amigos meus, dos melhores ministros, para a rua, assim de mão direta”

O Governo de António Guterres e o adversário Marcelo Rebelo de Sousa

Com a saída de cena de Cavaco Silva, chega a era guterrista e com ela novas oportunidades de negócio. Na segunda metade dos anos 1990, como aqui conta o Observador, o Governo de António Guterres apontou o Brasil como mercado de eleição e empresas como a Sonae e a Jerónimo Martins lançaram-se em investimentos avultados. Os dois projetos correm mal, sendo que as perdas de Belmiro de Azevedo foram amortecidas porque o investimento foi feito em parceria com a IPE, uma holding do Estado.

O negócio provocou um vendaval político: Marcelo Rebelo de Sousa, então líder do PSD, exigiu uma comissão parlamentar de inquérito à alegada ajuda pública à Sonae, que é mais recordada pelo facto de o empresário ter imposto aos deputados que a sua audição fosse marcada para as oito da manhã — e assim foi.

Belmiro nunca perdoaria Marcelo Rebelo de Sousa pelo ataque que lhe dirigiu. Logo na altura, afirmou, em entrevista à RTP, que “Marcelo Rebelo de Sousa deveria ser eliminado. Não tem categoria. Que retirem a cadeira a esse senhor”. Mais tarde, na tal entrevista à Visão, mais de dez anos depois, voltaria a ter palavras pouco simpáticas para com o atual Presidente da República. “Já sabem o que penso, não vou massacrá-lo. O Marcelo é pluri-pluri. Tem dez respostas, todas boas, para a mesma pergunta”, atirou.

“Marcelo Rebelo de Sousa deveria ser eliminado. Não tem categoria. Que retirem a cadeira a esse senhor”

No dia em que Belmiro de Azevedo morreu, Marcelo Rebelo de Sousa dedicou-lhe um parágrafo de homenagem no site da Presidência: “No momento em que nos deixa, quero homenagear o Eng.º Belmiro de Azevedo, figura marcante do nosso meio empresarial e da sociedade portuguesa, em termos de liderança, determinação, visão de futuro e empenhamento social e cultural ao longo de mais de 40 anos”.

Não se pode dizer que Belmiro de Azevedo tivesse grande estima pelos deputados da nação. Tal como vem citado na sua biografia, chegou a dizer que Portugal já tinha “demasiados políticos”. “Para um país com a dimensão do nosso, um primeiro-ministro, dez ministros e uma centena de deputados no parlamento seriam mais do que suficientes. Pague-se-lhes três vezes mais e teremos os melhores quadros do país a dirigi-lo”, defendia Belmiro de Azevedo.

A relação com António Guterres não era muito melhor. Já durante o segundo mandato do socialista, que terminaria de forma abrupta com a demissão do primeiro-ministro depois das eleições autárquicas de 2001, Belmiro de Azevedo envolveu-se numa troca de palavras com Jorge Coelho, ministro das Obras Públicas e braço direito do então primeiro-ministro, depois de ter sugerido de forma velada que o Governo não tinha maneira de se “revitalizar”, nem recorrendo a um daqueles “medicamentos mais poderosos“.

“Este governo, tal como alguns medicamentos, passou de prazo. Porque perdeu a credibilidade inicial. Tinha um ativo enorme de confiança que andará perdido e, agora, eu direi que, se calhar, já não há medicamento, mesmo desses mais poderosos com nomes estranhos, que seja capaz de revitalizar este governo”, afirmou Belmiro de Azevedo, em entrevista à Rádio Renascença.

Na altura, Jorge Coelho não se deixou ficar e respondeu ao empresário: “É uma expressão um pouco arrojada, talvez proveniente do muito poder económico que tem neste país. Eu posso achar é preocupante que um empresário se sinta com tanto poder em Portugal que se permita dizer o que entende desta forma incorreta e desajustada”.

O assunto viria a merecer uma tréplica de Belmiro, mas o caso entre os dois ficaria por aí. “Nem me recordo desse episódio”, diz Jorge Coelho ao Observador. “Tivemos sempre uma excelente relação. Quando estava na Mota-Engil, cruzámo-nos muitas vezes no avião e tínhamos uma coisa em comum: viajávamos sempre em classe económica. Conversávamos durante horas e encontrei sempre uma enorme simpatia. Além disso, construiu uma fábrica em Mangualde, a minha terra natal. Quem gosta de Mangualde, só pode ser boa pessoa”, brinca Jorge Coelho, para rematar: “Fará parte da história deste país“.

“Este governo [de António Guterres], tal como alguns medicamentos, passou de prazo. Porque perdeu a credibilidade inicial. Tinha um ativo enorme de confiança que andará perdido e, agora, eu direi que, se calhar, já não há medicamento, mesmo desses mais poderosos com nomes estranhos, que seja capaz de revitalizar este governo”

Durão Barroso e o negócio da Portucel

A convivência com Durão Barroso também não foi a melhor. Em 2004, Belmiro de Azevedo viu-se obrigado a vender a participação que detinha na Portucel, atual The Navigator Company, depois de falhar a tentativa de controlar a empresa. O Governo PSD/CDS tinha um plano que não se encaixava na estratégia da Sonae, que mantinha divergências com o então ministro da Economia, Carlos Tavares, e acabou por vender a posição da Sonae na Portucel a Pedro Queiroz Pereira.

Belmiro de Azevedo nunca esqueceu esta desfeita. Nove anos depois, em entrevista ao Público, garantiu que a sua “irreverência política” trouxe prejuízos à Sonae e deu como exemplo a privatização da Portucel, sugerindo que Durão Barroso agiu deliberadamente para o prejudicar.

“Ele [Durão Barroso] estava chateado porque, numa entrevista ao Expresso, disse que ele tinha sido um traidor por ter fugido para Bruxelas por razões pessoais"

“Ele estava chateado porque, numa entrevista ao Expresso, disse que ele tinha sido um traidor por ter fugido para Bruxelas por razões pessoais. Na altura, eu tinha o controlo da Portucel, com um terço do capital. Na privatização [das ações do Estado], mesmo só com um terço das ações, e a não ser que houvesse discriminação negativa — que foi o que quiseram fazer –, podia manter a minha posição [mas o Estado vendeu as ações a Queiroz Pereira em detrimento da Sonae]. Numa sociedade com capital aberto muito pulverizado, um terço manda sempre. Mas foram tantos os obstáculos que fui obrigado a vender”, lamentou o empresário.

Também nunca esqueceu Carlos Tavares, ex-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e atual assessor do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Belmiro de Azevedo chegou a dizer: “Deve ter a frustração de nunca ter gerido uma empresa, está por interposta autoridade, que é a autoridade do Estado, a querer gerir as empresas e intervir na sua estratégia. Ele que compre uma empresa!”.

José Sócrates e a última grande derrota de Belmiro de Azevedo

Em 2006, Belmiro de Azevedo teve talvez um dos gestos mais ousados da sua carreira como empresário: lançou uma OPA hostil sobre a Portugal Telecom para se te tentar impor definitivamente no mercado das telecomunicações, num negócio de mais de dez mil milhões de euros, o maior de sempre em Portugal.

O líder da Sonae tinha consciência que a operação era delicada e decidiu falar com o primeiro-ministro diretamente. “Foi a única vez que, com o meu filho Paulo, e pela dimensão do projeto, decidi ir falar com o primeiro-ministro e por uma razão simples: era uma OPA hostil e um dos acionistas era o Estado com uma golden-share. Se o governo nos tivesse dito nessa altura que ‘não’, que seria contra a venda da PT, nós não teríamos lançado a operação. [Sócrates] ficou muito espantado e elogiou imenso a ousadia da Sonae. Por isso, avançamos”, explicaria três anos depois.

Um ano depois, no entanto, a operação falhou. A OPA da Sonae caiu na assembleia-geral da Portugal Telecom, com os votos dos acionistas liderados pelo grupo de Ricardo Salgado a chumbarem a operação. A Caixa Geral de Depósitos, então liderada por Carlos Santos Ferreira e com Armando Vara na administração, votou ao lado do Banco Espírito Santo e contra a Sonae.

“Quando mandou votar, [Sócrates] deu ordens [à Caixa Geral de Depósitos] contra a proposta da Sonae”

O que falhou? Belmiro de Azevedo nunca deixou de apontar o dedo a José Sócrates, o homem que telefonava ou mandava telefonar “com muita frequência”, como chegou a dizer, numa clara referência às alegadas tentativas de interferência do ex-primeiro-ministro na linha editorial do Público.

Quando mandou votar, [Sócrates] deu ordens [à Caixa Geral de Depósitos] contra a proposta da Sonae. Votou contra via Caixa Geral de Depósitos. Perguntei a cinco antigos presidentes da CGD quem mandava em situações como aquela e todos me disseram o mesmo: a independência da administração é total, exceto relativamente à EDP, à Galp e à PT. Não tenho, pois, dúvidas de que o voto contra da Caixa, na Assembleia Geral que chumbou a OPA, foi ditado pelo Governo. Todos o sabem. E estou convencido que ainda vou ter vida suficiente para saber exatamente como tudo se passou nos bastidores”, disse Belmiro de Azevedo.

Anos depois, a Operação Marquês veio reforçar as suspeitas do empresário. O Ministério Público acredita que o ex-primeiro-ministro terá recebido luvas de Ricardo Salgado para travar esta operação e o processo está agora na Justiça. Em 2015, no mesmo ano em que a Forbes o colocou como segundo homem mais rico de Portugal, com uma fortuna de 1,8 mil milhões de euros, anunciou a sua retirada dos órgãos sociais do grupo Sonae, entregando o controlo do grupo ao filho, Paulo Azevedo.

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