Belmiro de Azevedo

O mundo do PCP e o mundo de Belmiro de Azevedo

Autor
2.154

Belmiro de Azevedo foi, enquanto empresário, um dos agentes da democratização social e económica de Portugal. Como poderiam os comunistas perdoar-lhe?

Já se tinha passado com Américo Amorim, agora foi com Belmiro de Azevedo: mais uma vez, o PCP e o Bloco de Esquerda fizeram questão de mostrar na Assembleia da República, com toda a solenidade, o seu rancor contra os cidadãos que por sua própria conta e iniciativa se atrevem a criar emprego em Portugal. Não seria de esperar outra coisa: para aqueles que pensam que só o Estado devia ser empregador, não pode haver maior crime.

Antigamente, os comunistas disfarçavam esse preconceito com um argumento histórico: todos os grandes empresários em Portugal teriam sido criaturas do “poder fascista”, e portanto indignos de homenagem. Belmiro de Azevedo, porém, foi um empresário da democracia, um cidadão que fez a sua fortuna neste regime, depois do condicionamento industrial de Salazar e das nacionalizações de Vasco Gonçalves. Belmiro de Azevedo apostou num país em que o capital e a confiança haviam sido destruídos pela última revolução socialista na Europa. A adesão à CEE prometia corrigir isso. Mas sem empresários como Belmiro de Azevedo e todos os trabalhadores a quem eles inspiraram, a integração europeia teria sido meramente burocrática. Entre outras coisas, Belmiro de Azevedo desenvolveu em Portugal uma das mais sofisticadas redes de retalho da Europa, criando milhares de empregos e animando bairros e localidades pelo país fora. Foram homens como ele que ajudaram a dar à europeização de Portugal um sentido de transformação social irreversível, associado à escolha e ao consumo, mas também ao mérito, ao esforço e à inovação. Um mundo muito diferente do mundo de prateleiras vazias e marchas de Praça Vermelha que os antecessores de Jerónimo de Sousa e de Catarina Martins no PCP, na UDP e na LCI teriam imposto aos portugueses se tivessem vencido em 1975. Sim, Belmiro de Azevedo foi, enquanto empresário, um dos agentes da democratização social e económica de Portugal. Como poderiam os comunistas perdoar-lhe?

Os comunistas não são tolos. Sentem-se à vontade para desconsiderar Belmiro de Azevedo, na medida em que podem ancorar as suas fobias ideológicas em preconceitos muito gerais contra quem é rico, e por acaso não é cantor pop, actor de Hollywood ou campeão de futebol. Belmiro de Azevedo foi de facto um dos homens mais ricos de Portugal. Só que não nasceu com essa fortuna. Há aqui um problema de imaginação: mesmo no caso de empresários como o de Belmiro de Azevedo, só vemos os valores que estão em seu nome, mas não o que está por detrás deles: o trabalho, a capacidade de agarrar oportunidades, a disponibilidade para correr riscos, a força para ultrapassar adversidades. Imaginamos a riqueza como algo que já existia antes do empresário, e de que ele se tivesse apossado, em vez de ser algo que ele próprio criou com os seus sócios e colaboradores. As revistas especializadas também só contabilizam a riqueza que o empresário criou para si, mas não a riqueza que criou para outros, sob a forma de negócios, de empregos ou até de impostos pagos ao Estado.

Belmiro de Azevedo investiu num jornal diário, e tão desinteressadamente, que esse jornal é hoje geralmente visto como o órgão principal da opinião de esquerda e de extrema-esquerda. Nem isto, porém, o redimiu aos olhos do PCP e do BE. Porque para Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, a humanidade não deveria ter outra opção que não a massa anonimamente compacta do sindicalismo comunista: fora da Fenprof, não há salvação.

É com estes parceiros que António Costa julga ir tornar a economia mais competitiva, a segurança social mais sustentável, ou o Estado mais eficiente? Talvez não julgue, mas então que está a fazer com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins? Qual é o mundo de António Costa?

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Eleições Europeias

Salve-se quem puder /premium

Rui Ramos
217

É este o governo que temos: não tem nada a dizer ao país, enquanto conjunto dos cidadãos, mas tudo para dizer aos lóbis e grupos de interesse que lhe parecem importantes para continuar a mandar. 

Morte

Xutos & Pontapés na Igreja e no Estado

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
1.072

Não podendo o Parlamento honrar todos os cidadãos falecidos, é razoável que reserve as suas homenagens para os portugueses que mais se distinguiram pelo seu saber e serviço à comunidade.

Eleições Espanha 2015

Nem tudo vale na política

Dantas Rodrigues

Oportunismos como o da candidatura de Manuel Valls em Barcelona é que degradam a imagem da política e alimentam a propagação de partidos populistas sejam eles de extrema-direita ou de extrema-esquerda

Igreja Católica

Tríptico europeu /premium

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

A Europa do terceiro milénio, perdida a sua identidade cristã, que era a razão de ser da sua unidade e grandeza, é um continente à deriva.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)