“Ó irmão, este pó já não tá como tava o outro (…) Isto está Nesquik”. A mensagem é enviada do telemóvel de Daniel (nome fictício) para um dos seus fornecedores de heroína habituais. A droga, que estava a preparar para vender no Bairro Novo da Pasteleira, no Porto, está demasiado “clarinha” desta vez. “Vou malhar a ver se dá, irmão. Num dá pa tar a mudar de pó que o outro é mesmo preto e é top”, escreve, enquanto é observado pela líder da rede, Bruna (nome fictício).
Tinha sido a ‘Tia’, como era conhecida, a puxá-lo para a rede de tráfico de heroína, cocaína e haxixe na Pasteleira. Sob a liderança da mulher de 50 anos, o negócio funcionava naquele bairro do Porto “de forma intensa” e “ininterrupta”, concluiu uma investigação policial. O grupo estaria a operar no local pelo menos desde setembro de 2023 e era formado por uma estrutura “estável e hierarquizada”, que incluía dois dos filhos de Bruna. A droga era preparada nas casas de vários dos elementos.
Esta rede acabou por ser desmantelada pela Polícia de Segurança Pública (PSP) numa operação em julho de 2024, que também trouxe o fim de outro grupo criminoso, conhecido como o “Dragão”. Na semana passada, 23 elementos de ambos os grupos foram condenados por tráfico de droga, sete deles a penas de prisão efetivas entre os três e os sete anos e meio.
A “Tia” e os seus homens de confiança
J: Deixam tudo aqui, tipo tudo assim ao deus dará, mesmo, tás a ver? … Entra-me aqui um agente da psp
D: E se há, se acontece algum azar?
J: Eu tenho a minha, a minha mesa da sala cheia de releiros [monte de coisas trituradas]
D: Oh oh… vão fazer bolos durante a noite?
J: Eu é ‘ó senhor agente, tava estava a picar uns quilinhos de farinha’
D: Sou pasteleiro!
J: Pasteleira, aqui na pasteleira … a pasteleira da pasteleira
O diálogo, em tom descontraído e bem humorado, entre um elemento da rede de droga no Bairro da Pasteleira e um seu conhecido, surge como um dos factos provados segundo o acórdão proferido pelo Tribunal do Porto. O grupo era liderado por Bruna, por quem “passava toda a gestão da atividade de tráfico de estupefacientes, sendo o centro da atuação do grupo a residência da arguida, onde reunia com os seus colaboradores nomeadamente com os que detinham função de maior relevo”, lê-se no documento.
A ‘tia’ “detinha um poder acima dos demais”. Era ela que controlava os stocks de droga e supervisionava a sua manipulação, tratava do dinheiro e “demandava ordens para toda a hierarquia que lhe era subordinada”. “Dps levas me o dinheiro pra tia pra baixo se n ela n para de me chatear”, lia-se numa das mensagens intercetadas pela PSP. Era uma pessoa “bastante cuidadosa” nas movimentações e durante a investigação são-lhe atribuídas “escassas” deslocações até ao local da venda da droga, tarefa que delegava nos seus homens de confiança.
Daniel (nome fictício) era um desses homens, tendo “um papel preponderante no seio do grupo, sendo pessoa de extrema confiança” de Bruna. Era ele que cozinhava e preparava a cocaína para a venda, tendo sido descrito em tribunal por um agente da PSP como um “sócio”. O outro era o próprio filho, Renato (nome fictício), profissional de boxe de 29 anos, que “apoiava a sua progenitora na liderança” e acompanhava todo o processo, desde a aquisição à venda da droga, deu como provado o Tribunal do Porto. “Detinha ainda alguma autonomia decisória”, mas a palavra de Bruna valia sempre mais. “Não mandas nada”, chegou ela a dizer-lhe quando tentou insistir com um dos colaboradores para que encerrasse a venda mais cedo.
A rede controlada por Bruna contava ainda com outro dos seus filhos, Leandro (nome fictício), de 20 anos, que era um dos intermediários na aquisição da droga para a rede. Envolvia ainda o irmão da líder, que ajudava a guardar e no transporte da droga até ao local de venda. Esta era uma função que alternava com vários elementos da rede, incluindo a companheira de Renato, e o seu sobrinho.
Na rede de droga, liderada pela ‘Tia’, todos tinham cargos bem definidos, que iam desde o “gerente”, que supervisionava toda a substrutura do ponto de venda direta, ao “ponta”, o vendedor de droga, e ao “angariador” ou “vigia”, que encaminhava os compradores para os locais de compra e vigiava para garantir que não eram apanhados pela polícia. A estrutura tinha também definidas “casas de recuo”, utilizadas para dissimular, cozinhar e dividir a droga, bem como guardar os lucros. Já as “casas de fuga”, como o próprio nome indica, serviam de esconderijo aos “pontas” e outros elementos da rede caso a polícia se aproximasse.
A linguagem em código e os 28 mil euros escondidos na conta de um filho
A cocaína era preparada na casa de Bruna, a heroína na do filho Renato, tudo com a ajuda de Daniel, “que tinha os conhecimentos necessários à preparação e manipulação” da droga. Esta, porém, era uma de várias palavras proibidas em todas as suas conversas, quer por chamada, quer por mensagem. “B” ou “branca” eram os termos autorizados para se referirem à cocaína, “P” ou “preta” para a heroína. Já “ir a jogo” era a expressão usada para se referirem às aplicações não intercetáveis onde comunicavam, em particular o Teleguard, mas também o Signal.
▲ A rede de tráfico de droga da Pasteleira foi desmantelada pela PSP
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A venda de droga no Bairro Novo da Pasteleira acontecia, geralmente, entre as 20h e as 5h da madrugada. A certo ponto, devido à concorrência, um grupo rival que operava no mesmo bairro, conhecido como os “Dragões”, terá começado a funcionar noutro horário, o que terá ajudado ao negócio liderado por Bruna.
Os vendedores de Bruna estavam posicionados entre as ruas Costa Júnior e Vieira da Silva. Não é claro o valor que os pontos de venda rendiam diariamente. No entanto, o tribunal deu como provado, por exemplo, que no primeiro dia do ano de 2024 um dos vendedores foi apanhado pela PSP com mais de dois mil euros e várias doses de cocaína — na operação também foi detido o número dois da rede, Daniel. Por outro lado, em dez meses de atividade foram depositados numa das contas usadas para o negócio mais de 28 mil euros.
Enquanto líder da rede, era a ‘Tia’ que geria os lucros. Para evitar que o dinheiro fosse associado ao seu nome, depositava-o noutras contas bancárias, incluindo de um terceiro filho, que na altura era jogador de futebol num clube local. Descrita como “cuidadosa”, Bruna aconselhava os filhos a seguirem-lhe o exemplo. Chegou a alertá-los que estavam a dar nas vistas nas redes sociais. A resposta: os juízes não os seguiam lá. Mas os “bófias” sim, avisou a mãe.
A PSP estava, sim, atenta aos seus movimentos. Numa operação em julho de 2024 a força policial desmantelou as duas redes de droga do Bairro Novo da Pasteleira. No dia 9 de janeiro de 2026, 23 elementos de ambos os grupos foram condenados por tráfico de droga. O tribunal do Porto determinou uma pena efetiva de cinco anos e nove meses a Bruna, acrescentando apenas mais um mês ao filho Fábio, que também foi julgado por posse de arma. O número dois da rede da Pasteleira, Daniel, que já tinha registo criminal, foi condenado a sete anos e seis meses de prisão.