É uma das coisas mais difíceis de conseguir: os rascunhos dos discursos que os candidatos levam antes de cada intervenção. Ao ponto de muitos deles não quererem partilhar com o Observador os segredos das suas intervenções. Exceção feita a André Ventura: o líder do Chega é conhecido por improvisar e muito e raramente ter um suporte escrito onde se inspirar.
Ainda assim, o Observador teve acesso a este lado menos conhecido das campanhas: como é que cada candidato prepara os tópicos das respetivas intervenções e como estruturam aquilo que querem dizer aos simpatizantes e potenciais eleitores. Há muitas surpresas: no conteúdo dos discurso, claro, mas também no suporte físico que cada um escolhe — ou improvisa — para fazer o discurso do dia.
Seguro. Notas na cautela da lotaria, à espera do grande prémio no domingo
Em vários momentos desta campanha, o candidato comprou cautelas da lotaria clássica quando entrava em qualquer estabelecimento onde as encontrava. Como na sexta-feira de manhã, quando passou pelo Gavião, por exemplo. “Tire-me aí a lotaria”, pediu à empregada enquanto tomava um café. Meteu a cautela no bolso e seguiu. Acabou por não dar prémio, mas serviu para escrever umas notas para o discurso da noite.
Os comícios da candidatura têm normalmente três intervenções, duas rápidas, uma do mandatário distrital e outra de uma figura local, e a do candidato, sempre mais longa. Com tantos comícios de enfiada, o essencial já vai estando na cabeça, mas antes de subir ao palco ainda rabisca onde calha aquilo que não quer deixar de referir naquele momento. E antes do comício de Paredes, no sábado à noite, calhou ser na cautela da lotaria que tinha no bolso.
As notas serviram, no entanto, de pouco, tendo em conta que foi um dos discursos onde o candidato improvisou mais. Entrou em diálogo com a plateia, presente no auditório do centro cultural, pedindo-lhes que fossem dizendo o que os preocupa. Os apoiantes gritaram várias coisas, incluindo contra o Governo e até falaram da Constituição. Parecia encomendado, mas a candidatura jura que não. As notas mostram apenas três linhas separadas por traços e uma lista de nomes próprios. Mesmo assim, o candidato conseguiu ir enfiando as ideias no discurso.
1. “Primeiro-ministro sombra”
Um dos pedidos que chegou da plateia foi “pôr o Governo lá para fora”. A sala e o candidato riram com a tirada, feita em alto e bom som, de uma senhora no meio da plateia, mas o candidato acabou por aproveitar a deixa para atirar uma das suas linhas a cada intervenção. “Não serei um Presidente de facção ou partidário. Nem serei sequer um primeiro-ministro sombra. Venho para ajudar a resolver os problemas dos portugueses. Quero ser o Presidente de todos os portugueses”.
Faz parte das garantias que Seguro tem dado de não intervenção no trabalho do Executivo, ou ja, a promessa de cada titular de cargo político no seu galho. Nesta campanha tem sido especialmente criterioso nas apreciações ao Governo e o mais longe que vai é na exigência que prometer vir a ter, se for eleito, em soluções para a área da saúde. A não-agressão ao Governo acaba por ser estratégica também no alinhamento da candidatura pela “estabilidade governativa” e acaba por servir ainda para não afugentar eleitorado do Governo.
2. “Natureza da candidatura”
A outra nota que escreveu e conseguiu enfiar nas respostas à plateia foi sobre o que o faz vir a terreiro dez anos depois. Quando alguém entre o público lhe pediu que “corra com o Ventura”, Seguro pegou imediatamente na ideia do “combate aos extremismos”. É onde baseia o seu regresso, que sintetizou na frase da apresentação da candidatura, em junho: “Saí quando podia dividir e volto para unir”.
O candidato coloca-se como alguém capaz de trazer “empatia” e “coesão” contra “o radicalismo” de quem põe “os portugueses uns contra os outros. “Chega de nos tentarem dividir e de lançar ódio. Chega. Basta!”, proclamou neste discurso, escolhendo as interjeições a dedo para a mensagem cair o mais diretamente possível sobre o seu adversário André Ventura. Dias depois, aproveitou a primeira sondagem que o colocou em disputa quase isolada com Ventura para tentar fazer desta uma batalha a dois. Aqui, em Paredes, ainda ia só no aquecimento.
3. “Diferença campanhas”
Já na parte final do discurso, o candidato disparou no que queria mesmo dizer e um dos temas que tem referido sempre nas suas intervenções é o da diferença que garante existir entre as sua campanha e a dos seus adversários. De um lado “campanha pela positiva”, do outro lado “lama”, como lhe chama. A dada altura, quando falava do seu propósito de encontrar “soluções para os problemas das pessoas”, o candidato disse que quem tem essa intenção “não precisa de andar no debate a atacar os outros adversários”. “Nós estamos pela positiva”, referiu recusando uma campanha de “atirar lama para os outros”.
Desde o debate com todos, na RTP na primeira semana de campanha, que aproveitou a tensão entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, para declarar que veio para “elevar o debate político”. E não tem largado a ideia, evitando entrar em confronto direto com os adversários. No entanto, quase diariamente há indiretas para algum dos seus concorrentes, como as referências aos “extremismos e radicalismos” de André Ventura ou ainda aos “interesses” que com ele “ficam à porta de Belém” — atirada em plena suspeita de conflito de interesses de Marques Mendes.
4. “Presidente mudança”
A ideia também surgiu na parte final da intervenção, onde Seguro já vai em crescendo para o apelo ao voto final — com que sempre encerra os seus comícios, com mais ou menos dramatismo, consoante a proximidade com o dia 19 de janeiro.
Apresenta-se como um Presidente capaz de introduzir “mudança tranquila”. Uma expressão com que tenta fazer o compromisso entre a capacidade de “dar murros na mesa” (que sabe levantar dúvidas entre parte dos eleitores, depois da sua conturbada liderança do PS) e uma atitude não confrontacional com os outros agentes políticos no país.
Neste, como em cada comício, repetiu a fórmula que usa para passar esta ideia: “Se querem um Presidente para manter tudo na mesma, não votem em mim. Se querem ter um Presidente para melhorar o que está bem e mudar o que está mal, estou aqui para servir Portugal”.
5. “Alexandre, Alberto, Nuno, Pedro, Isabel”
Os agradecimentos surgiram logo no início do discurso, com António José Seguro a seguir estas referências pelo nome próprio, para não se esquecer de ninguém. Falou logo no seu mandatário distrital pelo Porto, Pedro Sobrado, que tinha falado no mesmo púlpito antes dele e mais à frente referiu todos os outros. A médica Isabel Pedroto, que também tinha intervindo antes dele, por quem disse ter “uma ternura muito grande” e que conheceu através do seu “grande amigo Álvaro Beleza” — que também estava presente em Paredes.
Depois passou para os agradecimentos partidários, mas evitando referir o PS. Começou pelo presidente da Câmara de Paredes Alexandre Almeida, mas também agradeceu “ao Nuno” Araújo, presidente do PS-Porto, a “Alberto Costa, diretor de campanha no distrito” e presidente da Câmara de Santo Tirso, pelo PS, e, por fim, também uma referência aos “deputados que aqui estão e dirigentes do nosso… país” — quase escorregou para “partido”.
Seguro tem feito questão de manter essa distância, pelo menos na aparência, em relação ao PS cuja máquina, na prática, tem valido salas cheias ao candidato pelo país. Mas ficar longe de qualquer canto partidário é um objetivo para tentar chegar ao grande prémio da lotaria. Não a que andou à roda na terça-feira, para os 600 mil euros, mas na que andará no próximo domingo.
Cotrim. O discurso onde apareceria a filha e o papel que levou para responder à alegação de assédio
No caso do candidato Liberal, há um papel que mostra os primeiros tópicos de preparação do discurso de sábado, no Técnico, em Lisboa, para mil apoiantes, quando tudo ainda corria bem. Um dos papéis mais significativos da campanha foi um print de uma notícia de 2017, com o título Marques Mendes diz que Passos Coelho é um catavento político.
Foi o papel exibido por Cotrim Figueiredo frente às câmaras, para responder ao candidato da AD, que lhe tinha chamado catavento — mas não tem anotações. Depois, no momento mais tenso e decisivo da campanha, aquela segunda-feira em que o candidato foi confrontado com as alegações de assédio, também tinha um papel na mão, dobrado em 4, em que a maioria das palavras são indecifráveis.
1. Tom.
Foi a primeira preocupação do candidato, sentado no autocarro de campanha, no caminho entre Matosinhos e Aveiro, na sexta-feira, quando tirou uns minutos para começar a preparar o discurso do dia seguinte, sábado à tarde, no Técnico, em Lisboa. Cotrim Figueiredo é incapaz de: a) dar um discurso a ser escrito por outras pessoas; b) escrever rodeado de pessoas num autocarro em andamento — precisa de se isolar.
Mas antes discute os pontos essenciais com a equipa, nomeadamente com o diretor de campanha, Bernardo Blanco, e com o assessor de imprensa, Octávio Lousada Oliveira. Para esta intervenção, o “tom” devia ser “sereno/estadista”.
2. 20 minutos.
É a duração que o discurso devia ter. Foi semelhante à duração do discurso que tinha feito num restaurante em Gaia na véspera — e em grande parte repetiu as ideias-chave. Em Coimbra, esta terça-feira, no primeiro discurso depois das polémicas da véspera, fez um discurso bastante mais curto, de apenas 7 minutos, para concentrar a mensagem na dramatização do voto útil.
Antes do candidato, falaria durante uns 5 minutos o seu mandatário nacional, José Miguel Júdice, e haveria uma intervenção surpresa (e bastante emocional) da sua filha mais velha, Catarina Cotrim de Figueiredo, que falou uns dez minutos.
3. Polarizar (?!) com Seguro — Multiplicação da Esperança
A caligrafia da primeira palavra é dificilmente perceptível, mas a polarização com António José Seguro era uma das estratégias desta fase, no fim da primeira semana de campanha. Cotrim de Figueiredo já tinha dado como adquirido na véspera que o candidato socialista passaria à primeira volta, pelo que a dúvida em que os eleitores era quem seria o melhor adversário para o enfrentar.
A estratégia para riscar os adversários foi consistente: Marques Mendes estava a ficar para trás nas sondagens e não ia chegar lá; Henrique Gouveia e Melo era um risco por não estabilizar as ideias e não se saber muito bem o que pensava; André Vemtura era um voto inútil porque, com a taxa de rejeição tão grande, significaria a eleição automática de Seguro na segunda volta. Logo, a alternativa para evitar esse cenário seria votar Cotrim.
4. Campanha so far — sempre a crescer — MM — situação do país
Mais alguns tópicos que percorreram o discurso: no Técnico, em Lisboa, listou os locais onde tinha estado desde a pré-campanha, a perguntar se estavam presentes apoiantes dessas localidades (não correu muito bem, na maioria das terras pouca gente se manifestou).
O facto de a campanha ter sido “sempre a crescer” foi uma das ideias mais repetidas até domingo: nas intenções de voto, nas redes sociais, em mobilização, e em espaço na comunicação social. “MM” serão as iniciais de Marques Mendes, o principal adversário de Cotrim de Figueiredo na luta pelos eleitores que votaram AD nas legislativas, referido em quase todos os discursos, ora para sublinhar a sua trajetória descendente, ora para responder a ataques da sua candidatura.
5. Esperança
No discurso do Porto, Cotrim de Figueiredo disse que, caso fosse eleito, gostaria de ser definido como o Presidente da Esperança, por contraposição ao “Presidente dos afetos”, Marcelo Rebelo de Sousa. No dia seguinte, houve dúvidas sobre se a formulação era eficaz ou se soaria demasiado passiva, se faltaria um toque de ação. Acabou por juntar a palavra optimismo: Presidente do optimismo e da esperança.
6. Gonçalo Santos, Associação de estudantes de Direito da Nova.
No mesmo papel, Cotrim de Figueiredo tomou nota do destinatário de um dos muitos vídeos que teria de gravar para apoiantes. A candidatura recebeu dezenas de pedidos deste género. A resposta positiva foi parte do segredo para a sua força nas redes sociais — e consequente liderança entre o eleitorado jovem.
7. Falso
No papel que levou dobrado em quatro, preparado para responder se os jornalistas o questionassem sobre a alegação de assédio à ex-assessora da IL, a palavra “falso” surge logo à cabeça. Provavelmente antecedida de uma abreviatura de “totalmente”. Num momento tenso, num dia que já estava a ser muito complicado por causa da resposta sobre André Ventura e a segunda volta, o candidato negou as alegações, mas garantiu que não iria desistir da candidatura.
8. Suja
Foi um adjetivo usado pelo candidato para qualificar a hipótese de o aparecimento da alegação de assédio na última semana de campanha resultar de uma manobra de política “suja” de alguma candidatura adversária. No comunicado divulgado logo a seguir a esta primeira reação, referia-se que a autora da story trabalhava no Governo. Bernardo Blanco chegou a dar a entender nas redes sociais que a campanha de Marques Mendes inventaria acusações quando as sondagens não lhe corriam bem.
Catarina Martins. Notas num caderno A4 que ficam por ler
Quando toma a palavra, Catarina Martins normalmente não precisa de ponto. Assim sendo, o seu caderno de notas é mais um espaço de organização mental do que uma cábula à qual recorre durante as suas intervenções. Nem sempre os apontamentos são escritos à mão; por vezes, ficam guardados no telemóvel. E às notas que leva para os seus discursos acaba por acrescentar outras baseadas no que ouve.
As duas páginas A4 do caderno da bloquista que o Observador tentou decifrar foram o suporte para uma conversa sobre habitação na Associação de Moradores da Bouça, no Porto. A campanha de Catarina Martins chama “laboratório” a um formato de conversas em que, antes de ouvir especialistas e audiência sobre um determinado tema, a candidata lança a discussão com uma declaração inicial que está sujeita a desvios. Estes últimos podem ser motivados por um assunto na ordem do dia (como os protestos nos EUA contra o ICE) e passam certamente por um apelo ao “voto por convicção”.
1 – “A crise das crises”
A habitação, que foi o tema central desta intervenção, é apelidada de “crise das crises” por estar na origem de problemas nos serviços públicos — expressão igualmente anotada. A candidata até lhe dá prioridade sobre os problemas na saúde por entender que a falta de médicos e de professores é resultado do desajustamento entre os valores das rendas e dos salários. Este ponto de partida permite a Catarina Martins falar sobre como a face das vilas e cidades mudou com o aumento dos preços da habitação. Dá um exemplo: no Porto, cidade de onde é natural, “quase já não há pequeno comércio”.
2 – “Comunidade”
Neste discurso, a eurodeputada abordou a importância de ter comunidades vivas devido à crise na habitação, mas toda a campanha tem sido sobre a necessidade de “organização e luta”. A alteração da composição da população das cidades serve de mote para afirmar a defesa pela comunidade imigrante e a necessidade de promover a integração em resposta à segregação. Outro apontamento presente nesta parte da página diz respeito a um iminente “fim do espaço público” — apenas uma das fissuras sociais que Catarina Martins atribui ao desinvestimento, às más políticas públicas e à “política do ódio”.
3 – “Governo + Direita”
Este apontamento é um lembrete sobre o pacote de habitação do Governo, mas também serve para sinalizar um adversário. As principais medidas em causa foram aprovadas na generalidade pelos partidos do Executivo com voto favorável da IL e abstenção do Chega.
É uma união que espelha a frente comum que Catarina Martins tem combatido na corrida a Belém: a candidata tem denunciado a “lama e selvajaria” da direita em que coloca Cotrim, Mendes e Ventura. Além disso, é notório como, após largos anos de liderança do BE, Catarina Martins mantém uma abordagem parlamentar de combate político ao Governo. Enquanto outros candidatos procuram falar sobre princípios de regime, a eurodeputada não foge de discutir medidas ao detalhe.
4 – “Artigo 65 da CRP / Não emprestar o voto”
O argumento constitucional não é tão flagrantemente utilizado como na campanha de António Filipe, mas a candidata apoiada pelo BE também fundamenta o seu discurso na defesa — e real cumprimento, sublinha — da Constituição. É uma forma de passar uma imagem moderada, ancorada no documento cujo grande defensor é o Presidente, enquanto procura capitalizar os descontentes com as políticas dos partidos do centro. Por tabela, atinge os candidatos dessa área política, pedindo ao eleitorado indeciso para “não se emprestar o voto” se quiserem uma defesa clara dos valores de esquerda.
5 – “Minneapolis – ele é perigoso”
O assassinato a tiro de uma mulher norte-americana às mãos do serviço norte-americano de imigração e alfândega levou milhares às ruas nos EUA. Após a administração norte-americana ter defendido publicamente o agente que disparou sobre a vítima mortal, Catarina Martins disse que Trump tem uma política de “atirar para matar contra o seu povo”. O Presidente norte-americano é o líder internacional que mais associa à “política do ódio” que também vê a enraizar-se em Portugal. De Minneapolis para a Venezuela, a candidata tentou ainda bater Gouveia e Melo no tema que, segundo o próprio, o “favorece”. Se o almirante acredita que Trump representa “uma deriva perigosa”, Catarina Martins não acredita que se trate de um desvio e concretiza: “Ele é perigoso.”
6 – “Nos dias + violentos, com esperança e coragem”
Catarina Martins não passa a palavra aos convidados que reune sem antes fazer um apelo ao eleitorado de esquerda indeciso. Embalada pela imagem negra da situação internacional, define-se como a candidata da coragem e da clareza. Sem dizer nomes, Catarina Martins descreve-se por oposição ao perfil que atribui a Seguro. Apresenta-se também como a candidata da esperança, para contrariar a campanha pela negativa da direita. Mesmo sem hipóteses realísticas de disputar a segunda volta, apela ao “voto por convicção” para tentar provar que a esquerda ainda mexe.
Raros rabiscos, folhas A4 com letras grandes e ataques a Seguro. As notas de António Filipe
António Filipe não tem por hábito rabiscar ou escrever notas à mão, mas nestas folhas até encontrou necessidade de o fazer. O que escreve, escreve a computador a letras bem visíveis, e o papel apenas serve de suporte para os discursos que já tem na ponta da língua. Quem o vai ouvindo diariamente sabe que vai repetindo os temas e os alvos, apenas acrescentando ou alterando blocos temáticos consoante a iniciativa de campanha ou os temas fortes da atualidade que necessitam de resposta.
Estas notas foram usadas para o frente-a-frente com António José Seguro na TVI, ainda em dezembro do ano passado. Mesmo tendo sido fora da campanha oficial, os tópicos escolhidos por António Filipe já são um bom reflexo do discurso que tem tentado passar ao longo da campanha, especialmente no que diz respeito ao socialista — neste debate, Filipe ouviu apelos diretos de Seguro a uma desistência, e respondeu que o adversário “não é carne nem peixe”, nem “diz nada de esquerda”. Até ver, a campanha não tem sido muito diferente.
1 – Seguro, o “candidato do consenso neoliberal”.
Não foi António Filipe o primeiro (nem será o último) comunista a usar o termo, mas a identificação dos candidatos do “consenso neoliberal” tem sido uma constante ao longo da sua campanha. Ao longo das últimas semanas, tem servido acima de tudo para atingir António José Seguro. Nesse lote, em que o comunista inclui também Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo, André Ventura e João Cotrim Figueiredo, a novidade é a tentativa de colagem de Seguro às ideias do Executivo de Luís Montenegro — até já o descreveu como um dos “candidatos do Governo”. Nestas notas, Filipe elenca uma série de argumentos para afastar o antigo secretário-geral socialista do espaço político da esquerda, com dois pontos-chave: a ausência na greve geral do fim do último ano, e a aproximação a Passos Coelho nos tempos da Troika.
2 – “Unir em torno de quê?”
“Diz que veio para unir, mas não une”, escreve António Filipe, ainda sobre Seguro. Mais tarde, anotou uma expressão que iria usar várias vezes ao longo de toda a campanha: “Em torno de quê?” Já neste frente-a-frente o candidato apoiado pela CDU previa o que se veio a verificar: os apelos ao voto útil à esquerda para levar Seguro à segunda volta. Nada que demova António Filipe — tem repetido insistentemente, e em praticamente todos as suas intervenções, que a esquerda só pode convergir em torno de um candidato de esquerda.
E sendo que olha para Seguro como um dos candidatos a abater, um dos responsáveis pela “política do costume”, como já lhe chamou, também é possível ler num dos rabiscos que o socialista “só lamenta as consequências”. O que o candidato quer dizer é que os principais problemas do país (baixos salários, crise da habitação, degradação do SNS) foram causados por políticas como as que defende o adversário socialista. Serve a frase para acusar Seguro de hipocrisia e cegueira em relação aos reais frutos das suas ideias.
3 – As alterações à lei laboral
António Filipe teve de adaptar a campanha para se virar contra Seguro e até para desvalorizar Jorge Pinto, mas há um termo que consta de todas as intervenções que fez até aqui: o “pacote laboral”. “Ia ter-me pela frente”, vai garantindo o comunista. Explica que espera chegar a Belém com a iniciativa do Governo derrotada, mas que se isso não acontecer vai servir de barreira aos ataques aos direitos dos trabalhadores. E até já disse que o Presidente da República tem o “dever inalienável” de se opôr a esse “retrocesso civilizacional”.
Para o debate com Seguro, levou uma síntese do que representa esse retrocesso. A “liberalização do despedimento por justa causa”, a noramlização da precariedade através da repetição de contratos a termo, até os limites à dispensa do trabalho para amamentação — todos estes tópicos vão aparecendo aqui e ali nos discursos de António Filipe, que vai adaptando o exemplo à iniciativa em que está presente. Por exemplo, aos trabalhadores da cultura falou dos perigos que o pacote laboral representa, num encontro com mulheres sublinhou a injustiça das restrições à amamentação.
4 – Os 774 euros que caem na conta
É outra velha luta dos candidatos comunistas, independentemente do carácter da eleição: a urgência de subir salários. Os valores que António Filipe levou para o debate com António José Seguro estão na ponta da língua do candidato para qualquer discurso. Sempre que fala na necessidade de “um novo rumo para o país”, sublinha que não se pode conformar que um trabalhador a receber o salário mínimo leve para casa 774 euros líquidos por mês. No debate com António José Seguro, este ponho ganha relevância porque o comunista responsabiliza o adversário pelo status quo salarial, enquanto “candidato do consenso neoliberal”, os candidatos que “lamentam as consequências das políticas que defendem”.
5 – Saudar a greve geral
António Filipe leva para os discursos a greve geral contra o pacote laboral — ou melhor, a “grande greve geral do dia 11 de dezembro”, como prefere dizer — e usa-a como arma de arremesso. Seguro foi visado por não ter lá estado, mas não é o único.
Em praticamente todos os discursos, o candidato divide os adversários em dois grupos: de um lado os que sempre apoiaram “entusiasticamente” o anteprojeto do Governo, do outro os que se preferiram manter em cima do muro sem se posicionar em relação ao tema, mas que se viram obrigados a ficar ao lado dos trabalhadores quando viram a força da “grande greve”.
Filipe também vai usando o tema como maneira de transformar as eleições presidenciais num referendo ao pacote laboral, pedindo que a mobilização que foi possível em dezembro seja transportada para janeiro.
6 – Os Verdes
Nunca na campanha o candidato tentou esconder a proximidade ao seu partido, nem teria grande sentido fazê-lo. E até já lembrou o “número” de um adversário (Marques Mendes), que entregou o cartão de militante do PSD antes de avançar oficialmente para a corrida. Para António Filipe, esse é um exercício fútil de quem apenas está à espera que as eleições passem para se voltar a filiar. Mas o próprio António Filipe vai tentando mostrar que é mais do que um candidato partidário.
Neste exemplo, mesmo que há muito seja um parceiro fiel de coligação com o PCP, o PEV é usado como exemplo de que os apoios ao comunista não se ficam pela Rua Soeiro Pereira Gomes. “Agradeço muito ao Partido Ecologista – Os Verdes” pelo apoio que me deram”, tem repetido.
Jorge Pinto. Dez notas indecifráveis, uma “golpada” e uma insistência: há uma esquerda com futuro
O candidato apoiado pelo Livre quase nem precisa de preparar os discursos. Mas mesmo assim, num caderno A5, escreve alguns pontos que não podem faltar. Não há rabiscos nem desenhos e só se encontra um sublinhado — é alusivo ao SNS, aquela que diz ser “a mais bela conquista” da nossa democracia. A letra de Jorge Pinto é quase indecifrável, mas os 10 pontos são suficientes para saber precisamente o que deve dizer. As notas em causa foram escritas rapidamente antes do comício de quinta-feira à noite, o segundo desde o início da campanha, e que reuniu cerca de 70 pessoas.
Em primeiro lugar na lista de temáticas (como acontece muitas vezes quando Jorge Pinto fala) surge um agradecimento a quem esteve responsável pela organização do comício. E logo abaixo, lembra que foi ele quem trouxe para a agenda da campanha assuntos como a regionalização e a revisão constitucional.
O comício de quinta-feira à noite contou com a presença de Rui Tavares, que se juntou à campanha para dar força a Jorge Pinto, na esperança de melhorar os resultados do candidato apoiado pelo Livre. O momento exigia que Jorge Pinto tentasse reafirmar a sua candidatura depois de, no último debate com todos os candidatos a Belém, ter dito: “Não será por mim que António José Seguro não será PR.”
3. “Defesa do SNS — Mais bela conquista da nossa democracia”
Jorge Pinto escreve que está “farto de correr atrás do prejuízo” no que toca à Saúde. Neste comício quis falar do “nosso SNS”, que diz “estar a ser ameaçado”. O candidato a Belém tem defendido a valorização do SNS com frequência, mas neste comício o tema ganhou ainda mais relevo, uma vez que neste dia foi noticiada a morte de um homem que esperou três horas por uma ambulância.
O tema originou reações por parte de todos os candidatos a Belém e Jorge Pinto não quis ficar de fora. “Não estou confortável, enquanto candidato a Presidente da República, que se morra no nosso país depois de se esperar três horas por uma ambulância. É inaceitável. Um Presidente que se preze, perante este cenário e um governo que teima em não trazer respostas, não chamar o primeiro-ministro e a ministra da Saúde e não exigir responsabilidades, está a falhar aos portugueses.”
6. “Ser menos do mesmo”
Ao longo desta campanha, Jorge Pinto tem adaptado a expressão “ser mais do mesmo”. Diz que quer ser precisamente o oposto e fazer uma política diferente e acusa todos os outros candidatos (em especial António José Seguro) de não inovarem nem terem ideias ou propostas novas. Jorge Pinto afirma chegar com “mais ambição e menos conformismo”.
Para o candidato apoiado pelo Livre, este é “o momento de recompensar a esquerda que veio fazer diferente; a esquerda desempoeirada, que merece ter uma voz mais forte do nosso país”. Este ponto, que surge quase a meio da lista do candidato a Belém, tem uma ligação direta com o último tema que consta nas notas do candidato a Belém — com o qual encerrou o comício.
9. “A proteção da Constituição”
“Golpada” é um dos termos que mais tem acompanhado Jorge Pinto ao longo desta campanha. O candidato — que diz ter sido o responsável por inserir o tema na agenda política — alertou para aquela que diz ser a verdadeira intenção da direita e extrema-direita quando chegar o momento de rever a Constituição: alterar o regime que hoje conhecemos, em termos de direitos, liberdade e garantias. A par da regionalização, este é o assunto que mais preocupa Jorge Pinto e o candidato fez questão de o vincar não só neste comício como na maioria das ações de campanha.
10. “O futuro da esquerda está aqui”
Na última semana as críticas a Jorge Pinto fizeram-se ouvir em virtude da proposta de união de esquerdas que defendeu — e que não foi acolhida por nenhum dos candidatos. Neste comício, o candidato mais jovem quis vincar ainda mais o seu slogan ‘Presidente Presente’ e assegurar que o futuro da esquerda passará por si. Contou estar na política porque pensa medidas “a 10 anos, 20 anos, mesmo que isso possa representar um mau resultado eleitoral no imediato”.
“Estou preparadíssimo para ter um mau resultado no dia 18”, assumiu, reiterando que irá até ao fim da campanha eleitoral. E argumentando que foi precisamente por não desistirem que muitos políticos se tornaram grandes líderes.“Não se aborreçam muito de mim porque dia 19 cá continuarei”, rematou.