O preço do azeite disparou no ano passado para níveis a que os consumidores portugueses não estavam habituados. Mas uma boa campanha em 2024 (a segunda melhor de sempre), que serviu para repor stocks, fez com que os valores fossem voltando ao normal. E do que é possível antecipar, “sem querer ser adivinho”, a próxima colheita poderá ir pelo mesmo caminho. A expectativa é manifestada ao Observador pelo presidente do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL).
Em entrevista, Gonçalo Morais Tristão revela que, a manter-se a atual tendência de produção e os investimentos no olival alentejano, Portugal pode ultrapassar Itália e tornar-se no segundo maior produtor europeu de azeite, “e provavelmente o terceiro ou quarto mundial”. O responsável destaca o papel do Alqueva nesta ascensão e rejeita que haja no Alentejo um problema de falta de água.
Assume que as tarifas de Trump são uma preocupação para o setor, apesar de as vendas de Portugal para os EUA serem residuais. É que se Espanha e Itália deixam de vender para os EUA, aumenta a concorrência por outros mercados, como o Brasil. Para Gonçalo Morais Tristão, o que falta ao azeite português é, precisamente, ser conhecido lá fora. Pede, para isso, o apoio do Governo na criação de uma medida que permita ao setor financiar uma “marca Portugal”.
Os preços do azeite foram muito falados no final do ano passado, porque aumentaram para níveis a que não estávamos habituados. Essa tendência já se inverteu?
Sim, essa tendência inverteu-se, nitidamente. Os preços estiveram muito altos nas últimas duas campanhas, porque houve campanhas muito fracas a nível mundial de produção de azeitona e de azeite. Sobretudo no caso espanhol, porque Espanha representa mais de 40% da produção mundial de azeite. Espanha teve duas campanhas desastrosas e isso diminuiu muito os stocks, daí os preços altos que tivemos nas últimos duas campanhas. A campanha que acabou agora, a de 2024/2025, já foi mais normal. Espanha recuperou muitíssimo, aumentou em cerca de 66% a sua produção face ao ano anterior. Em Portugal também aumentou um bocadinho. Em geral, os países todos aumentaram as produções, exceto Itália, julgo.
Isso levou a que os preços viessem para baixo, uma vez que os stocks foram repostos. Neste início de campanha de 2025/2026 as coisas para o olivicultor estão a correr mais ou menos bem. Com as chuvas do primeiro trimestre, as árvores estão muito bem apresentadas em termos de floração, mas ainda faltam uns meses para a colheita da azeitona… Mas sem querer ser adivinho, porque nisto dos preços agrícolas nada é certo, se as condições se mantiverem, o próximo ano também será de uma boa campanha e os preços têm tendência a regularizar um pouco. Os preços andaram em valores muitíssimo altos, que para a produção também não são bons, porque isso fez com que houvesse alguma diminuição do consumo. A nível mundial.
Sentiram essa descida?
Sim. Segundo os dados que temos, na Europa, entre os consumidores dos países produtores de azeite, houve uma diminuição de 20% nestes dois anos. No resto do mundo foi de 10%. Isso é sempre mau porque a produção quer é vender azeite. Esta regularização dos preços é importante para recuperar e consolidar alguns mercados. Mas, por outro lado, os preços também não podem descer demasiado porque fazer azeite custa dinheiro. E há olivais, nomeadamente os mais antigos, chamados tradicionais, que têm custos de produção muito elevados. Portanto, azeites demasiado baratos, como estavam em 2019 e 2020, não pagam o custo da produção num olival tradicional. Nós procuramos um equilíbrio do preço, para que o consumidor continue a comprar e para que o produtor receba a sua remuneração.
Em grandes números, como correu a última campanha?
Foi a segunda melhor de sempre. Os dados que temos do INE, sujeitos a algum acerto de última hora, apontam para cerca de 180.000 toneladas, 177 mil, e isso corresponde à segunda melhor marca de sempre. Nós tivemos na campanha de 2021 206.000 toneladas e agora atingimos mais ou menos as 180.000 toneladas.
Como é que se explica? Houve boas condições? A chuva ajudou?
Sim, houve boas condições. Quando há condições climáticas, atmosféricas, isso ajuda a produção. As pragas foram tratadas e, portanto, foi um ano bom.
Essa descida de preços, sente-se nos supermercados?
Acho que sim, que já se sente.
Há dois anos encontrávamos uma garrafa de azeite a quatro euros. Esse nível de preço já não existe?
Já não existe.
É possível que volte a existir?
Previsivelmente não vai acontecer. Nos supermercados, e nos azeites normais — pois havia azeites ainda mais caros –, o consumidor comprava um garrafão de cinco litros a 60 euros ou mais. Hoje já compra nos mesmos supermercados por mais ou menos metade desse valor. Houve uma redução. Os preços normalizaram.
O azeite tornou-se num produto de luxo?
Lembro-me de vários produtores dizerem que deixaram de vender os garrafões de cinco litros e passaram a vender garrafões de três porque as pessoas compravam menos, para não gastarem tanto dinheiro. Isto foram dois anos em que, de facto, houve estes movimentos. No primeiro ano, os dados que tínhamos apontavam para uma redução do consumo de apenas 11%. Digo “apenas” porque, apesar de tudo, houve alguma resiliência do consumidor em continuar a consumir azeite, porque o aumento dos preços foi muito superior a 11%. Mas se isto continuasse muito tempo não era bom, porque perdíamos com certeza para outros óleos e para outras gorduras.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
A manter-se tendência, Portugal em 2030 pode passar a produção italiana
A descida dos preços também é um fator de preocupação para os produtores, que têm mais dificuldade em ter rentabilidade. Chegou a estar em causa a sobrevivência de pequenos produtores?
Chegou e continua. Não são os pequenos produtores, é o sistema de olival tradicional, que são olivais antigos, pouco produtivos, porque têm menos árvores por hectare. Têm 80 ou 100 árvores por hectare. Obviamente que estes olivais são muito menos produtivos. Além disso, têm enormes dificuldades na operação principal, que é a colheita. São pouco mecanizados. A introdução da mecanização não é fácil. Em alguns já é feita mas noutros não. E isso leva a que sejam menos produtivos, tenham menos azeitona e que tenham custos de produção muito superiores. Um estudo que a associação de municípios olivícolas espanhóis fez concluiu que num olival tradicional, se o preço for inferior a 4,60 euros por quilo de azeite, o olivicultor não é remunerado e não ganha dinheiro. Portanto, há esse perigo do abandono, razão pela qual vamos vendo todos os dias alguns olivais a serem renovados.
Mas há abandono?
Efetivamente há abandono. A tendência é essa nos pequenos produtores em que não têm grandes possibilidades de se reinventarem, de investirem novamente num novo olival. E vai havendo algum abandono. E não estou a falar em Portugal em especial, estou a falar do mundo inteiro, nomeadamente na nossa orla mediterrânica.
O aumento dos custos de produção continua a pesar muito?
Continua a pesar muito. Primeiro foram as consequências do pós Covid, as dificuldades nas trocas comerciais e nas cadeias logísticas e depois também os efeitos da guerra da Ucrânia. Tudo isso ajudou, nomeadamente a guerra da Ucrânia, com a questão dos adubos, etc. Contribuiu muito para o aumento dos fatores de produção. Dava-lhe o exemplo de um olival tradicional com 100 árvores por hectare. Os olivais modernos, agora ditos super intensivos ou em sebe, têm 2000 árvores por hectare. Imagina a diferença de produtividade de um e de outro. É evidente que estes mais modernos têm muito mais defesas em relação aos custos de produção.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Disse que esta foi a segunda melhor campanha de sempre e que a tendência é para ir aumentando a produção. Ainda temos olival novo? Há grandes investimentos previstos?
Continua a haver olival novo. Há anos bons e maus. Nós, na cultura, chamamos safra e contra safra. Mas a tendência, se desenharmos uma linha na produção portuguesa, é nitidamente de subida, porque continua a haver investimentos. Os investimentos que foram feitos há quatro, cinco, seis anos estão a chegar à sua velocidade de cruzeiro, portanto à sua capacidade produtiva mais alta. Nos próximos anos, não tenho dúvida nenhuma de que a tendência é de aumento da produção. O que significa que Portugal será um player cada vez mais importante a nível internacional. Por exemplo, Itália, tem outro tipo de problemas e é um produtor muitíssimo importante. A produção italiana deste ano é pouco superior à nossa e tem uma tendência de descida. Se a tendência fosse igual à dos últimos anos em Portugal e nos outros países europeus, Portugal em 2030 passaria a produção italiana e em 2040 passaríamos a produção grega. O que significava que seríamos o segundo produtor europeu de azeite e provavelmente o terceiro ou quarto mundial, porque entretanto temos de contar a Turquia e a Tunísia, que estão a subir muitíssimo em termos de quantidade.
Porque é que a produção de Itália está a descer?
Sobretudo teve o problema da [bactéria] xylella, que atacou as árvores, sobretudo no sul de Itália, na Apúlia. E isso arrasou muitos olivais com grande extensão e eles ainda estão envolvidos com esse problema.
Estamos nas 180.000 toneladas e há potencial para mais hectares. Qual é o limite da produção em Portugal, é possível estimar?
Não temos essa estimativa. Mas se quer um número… A produção mais alta que tivemos foi de 206.000 toneladas. Se continuarmos com esta progressão se calhar atingimos as 300.000 toneladas. Não é em 2027, com certeza, nem 2028, mas de 2030 para a frente. Como disse e repito, continua a haver muito investimento. Continua a haver alguns olivais tradicionais a serem transformados em olivais em sebe e alguns olivais intensivos a serem transformados em sebe. Isso ajuda ao aumento da produção.
Quem é que está a investir? São grandes grupos?
Portugueses e estrangeiros. O exemplo que conheço melhor é na zona de Alqueva, onde por causa do acesso à água houve um grande desenvolvimento. Foi essa situação que ajudou muito a este incremento das produções nacionais. Acho que segundo o Anuário do Alqueva, produzido pela EDIA, os investimentos portugueses em olivicultura andam à volta de 62% da área instalada. E o investimento estrangeiro é o restante. A tendência é haver algum investimento estrangeiro, sobretudo de fundos de investimento, que veem alguma remuneração neste tipo de olivais, e também na amêndoa, mas mais no olival.
E os estrangeiros são sobretudo espanhóis?
Os fundos são de várias nacionalidades. Espanhóis, italianos, canadianos, enfim, há uma grande variedade de investimento estrangeiro. Se me permite uma opinião pessoal, o que é bom para o país é haver investimento estrangeiro, até na olivicultura e na agricultura, com certeza.
Graças ao Alqueva, “a água no Alentejo não é problema”
A cultura do azeite levanta sempre a questão sobre o uso da água. Tem sido possível equilibrar este crescimento da produção com o desafio da gestão dos recursos hídricos no Alentejo?
O Alqueva é um fator determinante. O Alqueva deu enorme acesso à água em todo o Alentejo. O Alentejo transformou-se radicalmente com o Alqueva. Eu sei que as alterações climáticas estão aí, há anos melhores e anos piores, mas o Alqueva tem estado sempre cheio. O Alqueva conseguiu uma coisa extraordinária no Alentejo. Esse acesso à água foi muito importante no desenvolvimento da olivicultura e de outras culturas. Paralelamente a isso, o setor e os agricultores em geral, os fundos, os portugueses, os estrangeiros têm feito enormes progressos na questão do uso eficiente da água. Cada vez mais há medidas nacionais financiadas pela União Europeia para ajudar os agricultores a usar mais eficientemente a água. Mas os próprios olivicultores, sobretudo os mais modernos e alguns investimentos estrangeiros que vieram, usam a melhor tecnologia do mundo, e essa tecnologia ajuda a uma eficiência cada vez maior. Eu diria, enfim, se calhar um bocadinho contra o que normalmente se ouve por aí, que a água não é problema, a água no Alentejo não é problema.
Há água, há recursos hídricos suficientes, nomeadamente no Alqueva, na bacia do Guadiana. E o olivicultor e o agricultor é cada vez mais eficiente. É evidente que isto tem limites. Não podemos multiplicar por 20 ou por 30 a área do olival ou de outra cultura qualquer, porque aí a questão dos recursos hídricos podia fazer sentido. Neste momento, isso, no meu ver, não é problema.
Mesmo se tivermos um ano oposto ao último em que choveu muito?
Mesmo se houver um ano como o que está a descrever. O lago de Alqueva tem água para três anos e o que nós temos visto é que praticamente está a encher todos os anos. Portanto, até diria que cada vez mais, por causa das alterações climáticas, devíamos tentar não fazer novos Alquevas pelo país todo, mas reservar a maior quantidade de água possível. Porque chove menos, isso é uma evidência. Com as alterações climáticas a chuva é mais localizada e por isso precisaríamos de fazer mais reservas de água para darmos mais acesso à agricultura e a outros fins. Ao turismo, ao setor urbano…
Fala-se por vezes de criar mini Alquevas…
Sim, mini Alquevas ou autoestradas da água, da transferência de água de umas bacias para as outras. Tudo isso era importante, uma vez que o exemplo de Alqueva é um sucesso. Muitos estrangeiros vêm ver o que aconteceu no Alentejo, que é uma coisa magnífica da qual o país devia orgulhar-se. E eu acho que parte do país se orgulha. A outra parte, que não percebe o que se passou, não se orgulha, infelizmente. Mas o sucesso do Alqueva podia ser replicado, não com a dimensão do Alqueva, mas pode ser replicado. Porque há por este país fora muitas outras áreas que poderiam ser desenvolvidas com esse acesso à água.
É muito importante pensarmos no acesso à água, na construção de novos reservatórios. Eventualmente, quando for preciso, na transferência de água de uma bacia para outra. Para alguma opinião pública é proibido falar nisso, que são os transvases. Tudo isso era fundamental. E eu acho que a estratégia que o Governo lançou há muito pouco tempo, a estratégia Água que Une, vai um bocadinho nesse sentido. Tem esse mérito de falar abertamente na questão da transferência de água de bacia para bacia. Ao contrário do Governo anterior, ou de um ministro do governo anterior, que achava isso um crime de lesa pátria…
Um ministro do governo socialista?
Não era o anterior ministro do Ambiente, que era o Duarte Cordeiro, mas o anterior [Matos Fernandes]. A estratégia da água tem esse mérito. Além de elencar uma série de investimentos que devem ser feitos, tem esse grande mérito de abrir a porta a transvases quando seja necessário. Obviamente com todos os estudos ambientais, sociais, o que for. E nós achamos que em alguma situação poderá fazer falta.
Setor precisa de “estratégia apoiada pelo Estado” para levar azeite ao mundo
Outro tema cada vez mais relevante para o setor são as exportações. Também estão a atingir níveis recorde?
O número que temos é o que vem do Eurostat. Atingimos, em 2024, 1.525 milhões de euros em exportações. Temos vindo a aumentar nos últimos anos, e obviamente também ajudados pelo preço do azeite. É uma tendência que eu acho que se vai consolidar e incrementar essa tendência da valorização do azeite.
Foi apenas a segunda vez que exportámos acima de mil milhões…
Talvez tenha sido a segunda vez que exportámos acima dos 1.000 milhões, o que é, de facto, um valor muitíssimo interessante.
Estamos a exportar para que destinos?
Temos duas espécies de exportações. Azeite a granel e azeite embalado. O azeite a granel é sobretudo exportado para Espanha e Itália. E Espanha incrementou muito as compras nos últimos anos. Pelos números que tenho, Espanha compra praticamente 60% do azeite a granel e depois talvez 35% vá para a Itália.
Compram para vender.
Compram para vender, claro. E depois no azeite embalado vendemos sobretudo para o Brasil. É o nosso mercado mais consolidado de todos.
Qual é o rácio de vendas entre granel e embalado?
O granel tem o dobro dos valores do azeite engarrafado.
Acha que há aí um problema?
Acho que há uma oportunidade. Portugal pode e deve tentar valorizar melhor o seu produto. Para isso é preciso que o setor, unido, consiga organizar uma estratégia de promoção, de valorização do seu azeite, de forma a que os próprios produtores se sintam mais ajudados para engarrafar e fazer as suas marcas. Há muito produtor de azeite que faz muito bem o seu negócio, porque planta as oliveiras, mantém as oliveiras, tem a sua produção de azeitona. Depois faz o azeite e termina aí, porque é isso que eles sabem fazer. Isso é incontestável e tem sido um sucesso. Falta o resto. Eu percebo perfeitamente que um produtor não saiba fazer o resto. É completamente diferente. Uma coisa é tratar um olival no campo e fazer o azeite, outra coisa é fazer uma marca e ir vendê-la para a Cochinchina. Para o Brasil, para o Japão, para a China, seja para onde for. É um mundo completamente diferente. Mas é aí que Portugal poderia aprender alguma coisa com o sucesso dos italianos e dos espanhóis. Aliás, o sucesso dos italianos já foi seguido por Espanha. Espanha era o maior produtor mundial de azeite mas quem vendia mais era Itália. E Espanha está em cima de Itália nesse sentido. Recuperou imenso. E eu acho que Portugal tem que desenhar esse caminho. Para isso é preciso uma estratégia do setor, apoiada pelo Estado. Para mostrar e dar a conhecer ao mundo o azeite português.
▲ Portugal produziu no último ano 177 mil toneladas de azeite, a segunda melhor marca de sempre.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O que é que não está a ser feito? A participação em feiras para ir promover o produto?
Isso fazemos. Os produtores que têm marca, que têm azeite embalado, fazem esse percurso das feiras, vão lá fora, recebem os estrangeiros em ações inversas. Isso fazem e devem continuar a fazer. A questão aqui é outra. É o país pensar uma marca Portugal, ou seja o que for, e mostrar-se lá fora como produtor de azeite. Espanha é de longe o maior produtor mundial de azeite. Eu lembro-me de ver há uns anos uma campanha espanhola nos Estados Unidos, em Times Square. A mensagem deles para os americanos era: ‘Espanha produz azeite’. Para nós isso é óbvio. Mas eles precisavam dessa mensagem. E é assim que vão conquistando mercado nos Estados Unidos. Pois é isso que nós também temos de fazer.
Nós somos muito conhecidos no Brasil por razões óbvias, mas noutros países não somos. E para isso precisamos de uma estratégia de promoção e de dinheiro. Voltando à sua pergunta, Portugal tem uma associação interprofissional que está constituída há mais de dez anos e que ainda não conseguiu cumprir os seus objetivos. É uma associação que congrega todas as confederações agrícolas nacionais, e a Casa do Azeite, e essa associação interprofissional é a entidade indicada para fazer promoção, para ter os dados da produção e da comercialização e para fazer a promoção do nosso azeite lá fora. Infelizmente, por variadíssimas razões, essa interprofissional ainda não foi capaz de fazer o seu trabalho e portanto, é preciso que essa interprofissional que se chama AIFO consiga fazer esse trabalho.
Como por exemplo?
Que consiga, por exemplo, ter uma portaria de extensão que obriga toda a produção e a toda a comercialização a contribuir com x euros por tonelada de azeite produzido e por tonelada de azeite comercializado… E esse dinheiro suportado pela produção e comercialização vai ajudar a fazer as tais campanhas de promoção. Só para dar um exemplo. Voltando ao caso espanhol, nós ainda há pouco tempo tivemos um congresso do Azeite em Campo Maior. Convidámos a Interprofissional espanhola e eles disseram que este ano, com base nessa portaria de extensão que em Espanha existe, vão juntar cerca de 8,5 milhões de euros para promoção. E com esses 8,5 milhões conseguem ir a programas comunitários da UE e ainda conseguem, se calhar, duplicar ou triplicar esse dinheiro para a promoção. É isso que Portugal ainda não fez e que eu tenho esperança que esta AIFO, que agora elegeu uma nova direção e que supostamente lhe foram dadas novas condições, avance para essa portaria de extensão. Quero acreditar que essa oportunidade agora é de vez e que consigamos começar a fazer a estratégia e a promoção efetiva.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
Há mercados identificados onde pode ser mais fácil entrar? Nos países nórdicos, por exemplo, o azeite é considerado um luxo…
O mercado do norte da Europa é interessante. É um luxo, mas é um bem muito apreciado. E como esses mercados têm poder de compra, também não se importam de pagar azeites valorizados. E, portanto, é um mercado muito interessante. O norte da Europa, os Estados Unidos e o Canadá e também países do primeiro mundo com poder de compra e onde o potencial de consumo do azeite tem sido nos últimos anos muito incrementado. Achamos que continua a ser um mercado a apostar. Depois há sempre os mercados asiáticos, o Japão e eventualmente também a China, o Médio Oriente. E outro mercado muito específico para nós, o Brasil, que é um mercado “nosso”, chamemos-lhe assim, por tradição. Portugal tem mais de 50% das vendas do mercado brasileiro, mas com esta concorrência, nomeadamente dos espanhóis, é preciso consolidá-las. Os espanhóis já perceberam e estão a fazer uma campanha impressionante no Brasil. Embora as duas marcas principais que lá estão creio que ainda não têm razões de queixas. Mas há outras marcas mais pequenas que já estão a sentir algumas dificuldades, precisamente pela força do azeite espanhol suportado pela tal campanha.
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“Queremos acreditar que o mercado dos EUA não se vai perder”
E para os EUA, como tem sido a evolução das exportações?
É residual, o que significa que é uma grandíssima oportunidade. Por ser um país do primeiro mundo e com poder de compra, e porque o consumidor norte americano, como o consumidor do norte da Europa, liga muito às questões da saúde. Portanto, o potencial que existe ali é muito grande. É evidente que os mercados estão ocupados, diria eu. A concorrência espanhola, italiana e grega é muitíssimo grande, mas é um mercado com imenso potencial. Nós vendemos um valor residual para os Estados Unidos. Agora há muito azeite nosso que vai lá parar via Espanha, Itália. Este problema das ameaças sucessivas do Trump e a questão das tarifas, indiretamente pode ser uma guerra que nos pode prejudicar, precisamente porque exportamos para Itália e Espanha e porque também, por outro lado, se Espanha e Itália vão ter barreiras à entrada nos Estados Unidos, vão procurar outros mercados, como por exemplo, o Brasil ou outros onde vão entrar em concorrência connosco.
A questão das tarifas é uma preocupação do setor e da agricultura europeia em geral. Nestas alturas os europeus têm que pôr gelo nos pulsos para não cederem à tentação de provocar uma guerra com os Estados Unidos. O desejo é que as negociações com os Estados Unidos corram bem para ambas as partes. Queremos acreditar que o mercado dos EUA não se vai perder.
Donald Trump diz, em relação a vários produtos, que quer a produção nos EUA. No caso do azeite é assim tão simples?
Eles têm pouca produção na Califórnia, mas enfim. Obviamente que não dá para o consumo do próprio do país. Até pode ser que nos safemos.
Que expectativas tem para o novo governo? Quais devem ser as prioridades no que toca ao vosso setor?
Já se tinha falado, mas falaremos outra vez com o ministro, seja ele quem for, para que perceba a absoluta necessidade de pôr a interprofissional a trabalhar com o apoio do Estado. Tem de haver união do setor. O setor privado tem que ser o espoletar dessa estratégia, mas é preciso que o Estado não ponha obstáculos e que ajude na implementação da tal portaria de extensão. Isto tem sido um setor estratégico, que tem ajudado muito as contas da agricultura, da produção e da exportação de bens agroalimentares e, portanto é um setor que deve ser apoiado. Não estou a dizer que queremos dinheiro. Tem que ser apoiado porque é um setor que tem sido um sucesso e para continuar a ser um sucesso deve ser apoiado. A questão da água… eu acho que a estratégia foi anunciada na véspera ou dois dias antes da demissão. É importante que não fique só no papel. A agricultura espera que aquela estratégia seja verdadeiramente implementada. Tinha elencadas 294 medidas. Não precisamos que sejam todas implementadas, mas o setor quer que se comece a atuar, que se passe do papel para a ação. Este governo, sendo o mesmo, só tem a obrigação de começar a trabalhar nesse sentido.