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Diogo Pombo/Observador

Diogo Pombo/Observador

O pedaço de América que tudo deu e tudo está a levar

Durante 70 anos a Terceira viveu da Base das Lajes. Agora que os americanos estão a partir, sobram casas vazias, babysitters sem crianças para tomar conta e as memórias de quem teme que a ilha morra.

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Está sentado, perna cruzada, a ocupar um canto do sofá. Os anos deram-lhe muitas voltas, encheram-lhe a cara de rugas, sinais de velhice que combinam com o cabelo esbranquiçado que lhe cobre a cabeça. António, nome falso que escolhe para fazer as vezes do verdadeiro, tem muitas memórias e todas parecem estar ordenadas, sem pó acumulado, na biblioteca que guarda na cabeça. Vai com quase 70 anos, todos vividos na ilha Terceira, a maioria passados em Praia da Vitória, a cidade que mais perto fica da Base das Lajes. É tranquilo a falar, serenado pela calma da vida que hoje leva, de reformado, longe do reboliço das quase quatro décadas que passou a trabalhar na BA4 (Base Aérea nº 4), sigla que abrevia o nome à base. A conversa alonga-se, há histórias aqui e acolá por contar, mas só uma lhe desperta um desconforto, reduz o timbre na voz e dá uma genica que lhe sacode os ossos. De repente, António fica irrequieto e as pernas obrigam-no a pôr-se de pé.

Levanta-se, repentino. Começa a esbracejar, o discurso a aumentar a velocidade com que dispara palavras. Vem-lhe à cabeça o dia em que teve “a morte ao lado” na Base das Lajes. Era jovem, um “rapaz de 28 ou 29 anos”, ainda sem a madurez que a idade já lhe devia dar. Trabalhava no setor da aviação e raro era o dia em que não punha os pés na pista da base. Chamavam-no e lá ia ele, obediente, carregar e descarregar carga, assegurar que o trânsito de materiais entre os aviões e os armazéns não emperrava. Apanhou a época alta da base, quando o que lá chegava era tanto quanto o que saía. Dezenas de asas militares a aterrarem e a levantarem voo. E houve um dia em que António viu uma mercadoria que não mais voltou a ver: “Pensávamos que íamos carregar material de guerra para o armazém dos torpedos, que estava vigiado 24 horas por dia por polícias americanos e portugueses. Mas não.” Achou estranho.

A Base das Lajes em 1939, na época em que a pista começou a ser asfaltada.

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Eram “dois volumes grandes”. Ambos tinham “pelo menos uns dez metros” e ocupavam cinco paletes de carga. Diz que só cabia um por cada avião C-141 que estava na pista, à espera para encher a barriga. António “não tinha juízo para saber o que aquilo era”. Olhava para tão grande e volumosa carga pensando que se tratava de “um depósito de água”. Os três ou quatro portugueses que o ajudavam, também não faziam melhor que palpitar. Não meteu “lá o dedo para descobrir o que era”, resistiu ao que a curiosidade lhe pedia para fazer. Viu caterpillars, vários, a carregarem as paletes para os aviões, presas por correntes, tapadas por capas, o traje do secretismo.

Percebeu “que era uma coisa muito séria” e as mais de quatro décadas de trabalho na base deram-lhe razão, pois não tornou a ver, ou a carregar, algo assim. Faltavam “dois ou três anos” para o 25 de abril, a revolução que estalou longe, no continente, em 1974. Ficou calado, sem contar a vivalma o que viu e no que tocou. Não abriu a boca, nem quando ouviu “um cientista” dizer que 32 ogivas nucleares estiveram estacionadas na Base das Lajes, durante o frio conflito que colocou os EUA e a Rússia a verem quem espiava mais e melhor.

“As bombas, essas amigas, estiveram aqui na base. Estávamos ao lado da morte e não sabíamos. ”

Foi aí que António pegou na dúvida e passou a vê-la como certeza. “Andei com as mãos embrulhadas naquela porcaria. Era a morte que ali estava e a gente não sabia”, lamenta, olhos meio esbugalhados, cara de espanto, um sorriso desconfortável. Acredita que teve bombas nucleares debaixo das barbas, mas a crença só lhe aparece em 2011, quando o tal cientista, Robert Arkavy, disse o que disse após ler documentos confidenciais. Foi aí que António confirmou na cabeça o que suspeitou durante tantos anos. Dos governos de Portugal e dos EUA nunca se ouviu alguém a indicar que por ali estiveram armas nucleares — desde 1945, ano em que os dois países assinaram um acordo, que a base militar é tão norte-americana quanto portuguesa. “Nunca tinha contado isto a ninguém, nem à minha mulher”, diz, quando acaba de desvendar ao Observador o segredo que arrumou no baú das memórias que tem da base.

António foi um dos muitos portugueses que passaram uma vida laboral dentro da Base das Lajes. Jorge Branco foi outro.

Conhece a base como quem sabe andar em casa de olhos fechados, sem tocar nos móveis. Era um miúdo a despedir-se da adolescência quando lá entrou pela primeira vez. Tinha 18 anos quando um “major do continente” que se casara com uma “rapariga da Praia” o levou a trabalhar para “os americanos” — como ele e todos os terceirenses dizem, retirando a palavra “norte” da nacionalidade de quem vem dos EUA. Era “muito amigo” da mãe, fez um favor à família e levou Jorge até ao 5.020. Era assim que se chamava o escritório erguido à entrada da base, onde os portugueses se registavam e colocavam no papel o desejo de trabalharem para os americanos.

Jorge foi colocado na Barrete, uma empresa contratada pelos militares para construir os depósitos de combustível que foram irrompendo, como cogumelos, à volta da base. Entrou em 1958 e lá trabalhou três anos, “em cima de máquinas e guindastes”, a “planar terrenos” para “colocar tubos de combustível”. Ganhava 25 escudos, quantia que “era muito dinheiro” nesses tempos. Mas essa não foi a primeira vez que no bolso lhe caía algo atirado por americanos.

Base das Lajes em 1939, antes de a pista ser asfaltada

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Jorge Branco tem 76 anos e a memória não lhe falha em quase nada. Tem frescas as recordações em que ele e outras crianças iam para “o meio dos caminhos onde passavam os jipes americanos”. Alinhavam-se à beira da estrada, esticavam os braços e, com os dedos, apontavam um “v” de vitória às viaturas embaladas. Era tiro e queda. “Eles paravam os jipes e davam-nos chocolates e gamas. Nem sequer sabíamos o que significava aquele sinal, mas tinham-nos ensinado que, se fizéssemos assim, que eles paravam logo e davam coisas às crianças”, revela, enquanto deixa um sorriso de miúdo alastrar-se pela cara. Gamas são pastilhas elásticas, uma palavra que também derivou da presença americana na ilha: chewing gum, gum, gama.

Jorge está sentado num de três sofás que mobila a sala da residencial que tem em Praia da Vitória. O edifício é de esquina e está mesmo na ponta de Estrada 25 de abril, uma das principais da cidade, onde, durante anos, moraram centenas de americanos, que enchiam as casas com vida e as contas dos cafés com escudos e euros. Tem o negócio graças ao dinheiro que foi amealhando durante o tempo em que trabalhou na Base das Lajes. E não foi pouco: depois de andar a construir tanques de combustível, tirou a carta de condução de pesados, voltou a inscrever-se no 5.020 e foi chamado de novo. A nova apetência fez com que colasse as mãos ao volante de camiões e ajudasse os americanos a construírem o quebra-mar que hoje mantém calmas as águas da marina. “Transportávamos pedras de 40 toneladas desde a caldeira das Lajes, que é no fim da pista da base”, lembra.

O quebra-mar construído pelos militares norte-americanos que hoje protege a baía de Praia da Vitória. A um canto está uma zona que pertence à BA4.

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Esteve por aí “mais uns três anos”, até se acabar a obra que faz frente ao mar. Jorge voltou para casa, mas nem chegou a estar três meses sem nada para fazer. Um dia bateram-lhe à porta para o chamar de volta à base e só saiu em 2005, quando foi mesmo de vez. Foi trabalhar para a área de aviação, na Companhia Velha, onde estavam os militares americanos. Em horário de trabalho carregava e descarregava aviões, mas o que fazia nos tempos livres é que acabou por fazê-lo crescer na BA4. “Comecei logo a estudar inglês. Tive explicações com um professor cá fora, durante nove anos, e lá dentro havia sempre quem desse aulas também. Percebi logo que a minha vida seria feita com os americanos, por isso precisava do inglês”, explica, sem que o discurso cheio de manias o deixe mentir.

Por entre o português recheado de sotaque terceirense, Jorge mistura palavras inglesas, como os forks das caterpillars — ganchos das máquinas que transportavam as paletes de mercadorias –, ou os supplies, o termo que usa quando fala dos armazéns que se enchiam de carga. Fez-se melhor amigo do inglês e a amizade deu frutos. Meses depois, os americanos despediram o português que o tinha contratado à primeira entrevista de emprego. Jorge Branco foi o escolhido para o substituir.

Jorge mistura palavras inglesas no meio do português, como os forks das caterpillars — ganchos das máquinas que transportavam as paletes de mercadorias –, ou os supplies, o termo que usa quando fala dos armazéns que se enchiam de carga.

Com 33 anos ficou “chefe do pessoal todo que trabalhava na aviação”. A responsabilidade engordou e Jorge teve de ter cintura para a aguentar. Passou a fazer as escalas de serviço, a ditar quem trabalhava quando e a organizar todos os trabalhadores portugueses. Era sua a assinatura que constava nas folhas de pagamento que se emitiam a cada 15 dias. “Nunca, em 40 anos, tive o problema de me enganar e ir dinheiro a mais ou a menos”, garante.

Pouco depois, começou a ser o filtro de tudo o que os aviões traziam e levavam da Base das Lajes. Foi a Jorge que os americanos confiaram a minúcia de preencher e assinar os despachos alfandegários que seguiam para Angra do Heroísmo. “Até sair da base, nunca ninguém fez um despacho. Quando saí ensinei tudo ao filho da minha prima, que é meu afilhado, e ficou ele no meu lugar”, revela, ao explicar que a função ficou na família. Por acaso é afilhado, mas podia ser irmão, pai, avô ou amigo. Porque é tarefa difícil encontrar uma pessoa ali, na Praia, que não conheça ou não saiba de alguém que tenha trabalhado para os americanos.

Os salários que se iam buscar à base

Por ali, tudo girava à volta da Base das Lajes e dos americanos que ela trazia para a ilha. Cedo os terceirenses perceberam que os cerca de 10 quilómetros quadrados da BA4 eram um perímetro de oportunidade. A base era agitada, os aviões aterravam e descolavam às dezenas, todos os dias. Nos tempos em que esteve mais ativa tinha cerca de mil militares norte-americanos estacionados na base — hoje nem 400 tem e até ao fim de 2015 passarão a ser 165. Lá dentro era precisa mão-de-obra e os portugueses estavam ali para a darem. Eram os empregos mais cobiçados na ilha, sobretudo por quem morava na Praia e nas Lajes, a cidade e a vila que são as vizinhas mais próximas daquele pedaço de América.

A base era agitada, os aviões aterravam e descolavam às dezenas, todos os dias. Nos tempos em que esteve mais ativa tinha cerca de mil militares norte-americanos estacionados na base — hoje nem 400 tem e até ao fim de 2015 passarão a ser 165.

As pessoas passavam a palavra, sabiam que um salário vindo da base era chorudo, enquanto um pago fora dela tinha a dieta portuguesa. Por isso, as filas à porta do escritório 5.020 alongavam-se com gente que os queria. Há 35 anos, à beira da década de 80, Jorge Branco “ganhava mais ou menos 20 contos por mês”, ou os atuais 100 euros. Em 2005, quando saiu, caía-lhe na conta “cerca de 1.000 euros” a cada 15 dias para lhe dar os 2.000 ao final do mês — “Cá fora, nem metade disso era possível fazer.”

Quando começou a trabalhar na base, era um entre quase quatro mil portugueses. Eram tempos em que se notava tudo o que não se vê hoje e bastam uns minutos à entrada da BA4 para o perceber. O sítio é calmo, pacato até. Na rotunda que obriga os veículos a abrandarem perto da entrada é raro ver um carro de matrícula americana a passar. Só de vez em quando aparece um jipe Ford ou Chevrolet, dos grandes, com o motor a rugir. Atrás da cancela da entrada está um ecrã que vai dançando entre mensagens em português e inglês: Bem-Vindo, Welcome; Estado de Segurança: Alfa, Force Protection Condition: Alpha.

Espreita-se lá para dentro e mal se avistam militares. Não se veem veículos a circularem ou aviões a aterrarem. A 50 metros do portão, do outro lado da rotunda, estão algumas casas, baixas em altura e tímidas em espaço. A Casa de Pasto Lima, com restaurante e café, é o segundo ponto de comércio que pisca o olho a quem sai da base. A hora de almoço já vai longa e Domingos Martins está lá dentro, de cigarro na mão, sozinho numa mesa, olhar cansado. As calças de padrão camuflado que traz vestidas aconselham uma conversa.

Vista da Base das Lajes, desde o miradouro General Humberto Delgado, no alto de Santa Rita

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Trabalhou na BA4 entre 1995 e 1997. Era pedreiro, entrava todos os dias na base e construía um pouco de tudo. Aí, há 20 anos, “ganhava 240 contos”, algo como 1200 euros, o dobro do que hoje recebe por ser motorista numa empresa portuguesa. “Trabalhar para os americanos é que compensava. Não há ninguém como eles. Quem é que não queria vir trabalhar para a base? Ninguém”, garante, enquanto se nota a saudade no olhar que deixa vaguear pelo café. Os três anos e meio em que os americanos lhe pagaram chegaram para comprar dois carros e uma casa. Tinha casado há pouco tempo, estava a começar a vida que lhe daria uma filha.

Sem o trabalho na base, assegura, nada teria conseguido comprar. “As pessoas sabiam que lá dentro é que se ganhava bem. Era só chegares ao escritório, dizeres que querias dar o nome e perguntavam-te a profissão. Podias dizer lava-chãos, cozinheiro, bombeiro, muitas…”, conta. Todos queriam ter a base como sustento e ainda hoje é ela que sustenta a família de Domingos. Porque o pouco que ganha aos 42 anos é compensado pelo bastante que a mulher recebe no Ocean View Island Grill, snack-bar que serve os americanos na BA4. “Gosta e ganha bem. À quinzena recebe pouco mais de 500 euros, que era o que receberia se trabalhasse durante um mês num bar, cá fora”, resume. Antes, tanto o pai como a mãe foram buscar ordenados aos trabalhos que tinham na base.

Um canal de televisão próprio, supermercado, snack-bar, escola, universidade, igreja. Os militares americanos encontravam serviços feitos à sua medida dentro da base.

Domingos fala do tempo em que lá dentro havia “pelo menos dois mil portugueses”. Trabalhavam nas coisas que tinham de funcionar para os militares não ficarem sem os hábitos que traziam dos EUA. Havia uma escola, uma universidade, escuteiros, campos de golfe e de basebol. Depois, além do snack-bar, existia o Channel 8, o canal de televisão interno, com conteúdos americanos e dois noticiários por dia. O PX, um armazém que ocupava cinco pavilhões só com produtos fabricados nos EUA. O Comissary, um supermercado para os militares. No Supply, armazém onde se guardavam peças e materiais para os aviões, chegaram a trabalhar “300 e tal portugueses”. Depois, nos anos 80, “chegaram os computadores” e hoje já só lá estão três, lamenta Jorge Branco. E de todos estes espaços, apenas o armazém e o snack-bar se mantêm abertos. Também ainda há bombeiros, uma corporação própria da base, o trabalho mais apetecível para a fome de emprego de quem está do lado de fora, afiança Domingos Martins. “Conheço um rapaz que pagou 50 mil euros para trabalhar nos bombeiros da base. É o melhor, onde se ganha mais. Em meia dúzia de anos ganha isso lá dentro, são ordenados de dois ou três mil e tal euros. Trabalham um dia e descansam dois. E lá dentro não se passa nada!”, explica, dando ao discurso a companhia de uma cara incrédula.

A par do salário fixo, o certeiro que caía sempre na conta bancária a cada 15 dias, havia a hipótese de o português se comportar bem para americano ver. Jorge Branco fazia-o, não por querer, mas porque era mesmo assim. Cumpria o que lhe pediam, esforçava-se, era atinado, não errava. O tino que o acompanhou durante os 46 anos de vida na base valeu-lhe dois prémios de outstanding employee. Por duas vezes os militares o viram como o melhor trabalhador, num período de seis meses. Jorge levou para casa mais 500 euros por cada distinção e uma delas apanhou-o tão desprevenido que ainda hoje o embaraço lhe emperra a conversa. “Quando o comandante da base me chamou, num salão muito grande, com o pessoal todo da base, umas duas mil e tal pessoas, havia lá dois ou três prezados que até tinham ido de gravata, calculando ao que iam. E eu ia com a minha roupa de trabalho, uma samarra de cabedal, até que o general chama o meu nome”, conta, enquanto a vergonha lhe cora a pele das bochechas já escurecidas pelo sol que a reforma o deixa apanhar todos os dias.

O dinheiro que havia fora dela

Na Estrada 25 de abril, a tal onde Jorge Branco tem a residencial, “era só americanos”. Muitos viviam onde hoje não se vê nenhum. “Ias para a rua e contavas pelos dedos o número de portugueses”, chega a dizer. Hoje é o contrário: dois dias não chegam para ouvir alguém a falar um inglês americano nas ruas de Praia da Vitória. E nem é preciso ir tão longe. Mesmo ao lado da base ergue-se a Serra de Santiago, cortada por uma ladeira que faz o caminho até ao topo, até Santa Rita. A povoação é pequena como as casas que a preenchem. Ali, lutou-se por cada palmo de terra e as habitações, modestas em espaço, apertam-se. O branco predomina nas paredes e faz saltar à vista a cor que está em minoria: o amarelo-torrado. É esta que pinta as paredes de todos os edifícios reservados aos americanos que tiveram de galgar a colina em busca do espaço que não existia perto da pista. Todos estão rodeados por vedações verdes, cada uma com uma placa na qual se lê: “Área Militar. Acesso Condicionado”. É isto que rodeia o bairro Nascer o Sol.

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Ao lado do portão e da cancela aberta, que hoje não tem quaisquer olhos a vigiá-la, está um campo de basebol. Não há linhas pintadas com cal branca na relva, que está alta, alongada pelo desuso. Poucos são os carros que entram, mas todos têm matrícula portuguesa. Ali, há casas à americana: vivendas de dois andares, garagem incluída, divisões espaçosas e alcatifadas, a cozinha geminada à sala. Dentro do bairro há um parque infantil, apetrechado de escorregas, cordas e baloiços para entreter as crianças que antes vinham a reboque dos pais militares. Às vezes vinham novos, ainda bebés e em dose dupla ou tripla. As mães não tinham mãos a medir e tinham que pedir aos portugueses que emprestassem as suas. Cidália Valongo passou anos a fazê-lo. Mora em Santa Rita há décadas, tantas quanto as que passou a cuidar dos filhos de americanos. Com 13 anos “já tomava conta de um recém-nascido” enquanto mantinha um olho numa criança de “três ou quatro” primaveras contadas. Fez o que viu a mãe fazer “durante muitos anos” — empregada doméstica e babysitter ao dispor de famílias americanas.

Mas já não o faz há dois anos. Os bebés e crianças passaram a ser poucos para tantos portugueses que queriam cuidá-los, sedentos pelo dinheiro que recebiam em troca. “Ganhava pelo menos o dobro do que uma família portuguesa me pagaria, facilmente”, garante, apoiada na entrada da casa, a metros do bairro Nascer do Sol, que só não avista desde o quintal por culpa dos casebres que se amontoam na vizinhança. A casa, onde mora há sete anos, foi construída por americanos. A que está à frente, do outro lado da estreita estrada, também o foi e lá dentro chegou a acolher uma família que Cidália ajudou a aumentar. “Estava lá uma americana, mulher de um militar. Ajudei-a a adotar duas crianças do orfanato, já foi há 33 anos”, revela. Hoje, ainda mantém contacto com a mãe das últimas crianças que teve ao seu cuidado, uma de três e outra de cinco anos: “Estava muito interessada em aprender português. Ainda hoje a gente se fala pela Internet, eu escrevo em português, porque não sei escrever em inglês correto, e ela responde-me em português.” Na Páscoa espantou-se com a surpresa que lhe bateu à porta: um amigo da tal mulher, que recebera dinheiro para ir à Base das Lajes “fazer compras” no PX, o armazém só com produtos americanos, para depois os oferecer a Cidália.

"Isto dá vontade de chorar. Para quem trabalhava na base, ia lá todos os dias, para quem conviveu com os americanos, é uma tristeza. O primeiro fogão que os meus pais tiveram foi oferecido pelos americanos. Também lhes deram um frigorífico. Quando se forem embora de vez, das duas uma: ou a gente tem de emigrar, eu já não, mas talvez as minhas filhas e os meus netos, ou morremos à fome."
Cidália Valongo

Os americanos pagavam-lhe para trabalhar, mas a amizade aparecia sem preço. Muitas eram as famílias queriam, e gostavam, de ter os portugueses por perto. “Convidavam-nos muitas vezes para irmos lá a casa. Passávamos o Natal e a Páscoa com eles. Se disséssemos que não podíamos ir, vinham cá a casa trazer-nos um bocado de peru”, retrata, saudosa desses tempos de convivência que lhe dão a certeza de que “os americanos fizeram bem a tudo”. Aos 65 anos, Cidália conhece muita gente que estreitou os laços com quem vinha de fora e se fixava na Terceira. E também sabe de muitos que, antes de os computadores aparecerem, aproveitavam as amizades que resistiam à distância de um oceano. “Antes, quando eles se iam embora, ao fim de dois anos [os militares, por norma, ficavam 24 meses na base], tínhamos que pagar muito caro para lhes escrevermos cartas em inglês. Os portugueses que sabiam escrever em inglês pediam muito dinheiro para as traduzir”, lembra. Depois apareceu a Internet para roubar tinta às canetas de quem cobrava cara a transcrição de cartas para inglês. Mesmo sem quererem, os americanos criavam negócio quando se despediam das Lajes.

As “freguesia preferida” dos americanos

Em janeiro, os EUA pregaram um susto aos terceirenses. Anunciaram que, até ao final do ano, mais 500 militares iriam, aos poucos, dizer adeus à base. Quando todos já tiverem ido restarão na BA4 apenas 165 americanos e os que, no futuro, sejam destacados para a Terceira, já não serão os mesmos que antes aterravam, aos montes, na ilha. Os militares que, por estes dias, chegam à Base das Lajes são jovens, nos seus vinte e poucos, solteiros e sem famílias atreladas. Vão chegar e sobrar as casas que os dois bairros da base têm para alojar os militares. Já ninguém virá com eles. Já não haverá a magia que, em tempos, levava até à ilha pelo menos dois ou três americanos por cada militar que fosse destacado para a base. Chegaram a estar na Terceira perto de cinco mil cidadãos dos EUA e muitos, quase uma maioria, escolhia um sítio para viver: Porto Martins.

Fica perto da base, a 10 quilómetros de distância e nem a 15 minutos de uma viagem de carro. É uma povoação pequena, rodeada por montes verdes e vacas a pastarem no horizonte. São dezenas de casas, quase todas viradas para o mar. Há as casas de quem é e sempre foi de Porto Martins e depois há as casas de quem passou a ser daqui. Os americanos têm uma pegada neste sítio e isso nota-se. Há alguns casebres pequenos, humildes, pé direito baixo, e depois há as vivendas grandes, as moradias com garagem incluída e janelas largas para a luz entrar. Existem pistas que denunciam quais as que acolheram militares e as suas famílias — as caixas de correio cilíndricas, colocadas na horizontal, tal e qual os subúrbios das cidades norte-americanas, que se veem nos filmes de Hollywood; as tabuletas pregadas nas fachadas das casas, com frases escritas em inglês; os autocolantes da Stars and Stripes, a bandeira norte-americana, colados nos vidros. Uma até tem a bandeira dos EUA içada ao lado da de Portugal, à entrada. Convida a bater à porta. Quem a abre é uma portuguesa, que está a meio de duas semanas de férias na ilha e alugou a vivenda a “amigos americanos”. Não sabe, ou não quer dizer, se algum deles era um militar na BA4.

A casa do lado dizem ser de alguém que passou anos a arrendá-la a americanos. Os estores todos fechados dão-lhe uma aparência desabitada, o carro estacionado à porta contraria-a. Toca-se à campainha, insiste-se, e aparece Ana Silva, 45 anos. A casa é sua desde 2000, viu-a a ser construída, mas quase lhe é estranha. Só lá começou a morar há meses, porque durante 10 anos arrendou-a a outros, que eram quase sempre americanos. “A casa ainda nem estava toda pronta e aluguei-a logo. Foi um casal já de idade, que estava aí a passear, gostou e quis arrendar. Ficaram cá um ano, ele estava a trabalhar na base”, desvenda. A casa tem três quartos, outras tantas casas de banho, um pequeno jardim interior e largos metros quadrados de espaço. Ana começou por cobrar 900 dólares (cerca de 825 euros) e a renda nunca fugiu muito desse valor. “Uns saíam e passavam a palavra a outros. Às vezes até batiam à porta e perguntavam se estava para alugar”, diz, ao contar como foi até ao dia em que se apercebeu que “não estava a aproveitar a casa”. Foi Ana quem a despiu de inquilinos americanos antes de sentir a nudez de não ter militares a quem a arrendar: “Hoje já não há famílias aqui em Porto Martins.”

Ali o sossego impera. Não se ouvem carros a passar, pessoas a falar, autocarros a espalmarem a estrada ou algo que denuncie que ali costuma haver azáfama. Ruído em dia de verão só perto das piscinas naturais. É lá que está António Evangelho, de fato de banho molhado e toalha a rodear-lhe a cintura. Está a apreciar a reforma na terra onde sempre passou férias, antes e depois de emigrar para o Brasil, em 1960, e regressar nos anos 90. Aí fez o que muita gente já andava a fazer em Porto Martins: construir casas para arrendar a famílias americanas que a base chamara para a Terceira. Tem um irmão que “chegou a construir seis casas e a tê-las todas alugadas a militares”. António mandou erguer duas, inscreveu-as na BA4 e “durante 10 anos” até conseguiu ter uma delas “constantemente” com gente. A voz atropela-se a ela própria, rouca pelos 72 anos que leva a falar, mas não falha quando lembra como era negociar com os militares e as famílias. “Alugava entre os 800 e os 1.000 euros por mês. Ia lá receber a renda e era tudo em notas, sempre em notas, em euros. Nunca falhava nada”, conta.

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Entravam com as casas vazias e viviam com elas cheias de coisas trazidas da base. Sofás, armários, eletrodomésticos e o resto que torna uma casa habitável. “Eles traziam a mobília deles. Mesas, máquinas de lavar, frigoríficos, tinham tudo na base”, enumera, a meio da conversa que o faz debitar palavras sobre o “pessoal impecável” que vinha dos EUA. Nenhuma das casas com três quartos e duas casas de banho está hoje arrendada a americanos e lhe faz cair na conta bancária a mesma quantia de euros que os militares lhe davam em mão. “Agora, numa das casas, tenho lá portugueses. A renda é 300 e tal euros, temos que cobrar aquilo que eles podem pagar”, admite, conformado. António tem um conhecido em Praia da Vitória que chegou a ter 10 casas arrendadas a americanos que hoje está como ele — com elas vazias ou habitadas por quem nasceu e cresceu em Portugal. Mas não se chateia, porque sempre o ensinaram a desconfiar quando vê uma esmola ser generosa em demasia: “A gente sabe que são marés que passam. Já sabia que era bom de mais, e quando as coisas são assim a gente tem de saber que não vai durar muito. Não dá para confiar.”

Muitos terceirenses contraíram créditos de habitação para erguerem casas em Porto Martins. Faziam-no confiando que pagariam os empréstimos com as rendas que não parariam de chegar dos bolsos americanos. António Evangelho conseguiu-o, mas conhece gente que não foi a tempo.

Enquanto durou, que é como quem diz, enquanto havia militares com fartura nas Lajes e, naquele recanto da Terceira, os americanos “eram uma mina para esta terra”. António reconhece que “sempre houve muita gente a ganhar dinheiro com eles”. O problema foi quando a oferta dos portugueses começou a ser muita para tão pouca procura dos americanos. António sabe “de muitas pessoas” a contas com empréstimos por pagar, créditos de habitação que esperavam ir saldando com o dinheiro das rendas cobradas a americanos. Afinal, foi a pensar neles que as construíram. “As minhas já as paguei duas vezes. Agora não se come disto. Quem é que não gosta de mamar? As casas alugam-se na mesma, mas em vez de ser por 900 tem que ser por 300, claro. Claro que tudo queria mamar, queriam mais, mais e mais”, diz quem, em jovem, preferiu ir tentar a sorte para o Brasil em vez de ocupar o lugar na mina que o pai lhe tinha reservado. “Tinha um primo a trabalhar na base, um fulano que depois me arranjava lá um emprego. Eu não quis, mas toda a gente queria”, resume.

O êxodo que a base chamou para a Terceira 

A Base das Lajes está prestes a reduzir-se a 165 militares americanos e a Terceira deverá ficar, de vez, sem famílias estrangeiras para acolher. António, por isso, augura que aconteça o que se vê em “São Miguel, São Jorge ou Pico”, outras ilhas açorianas que não foram poiso de americanos: “Toda a gente vive. Estou sem americanos e vivo da mesma maneira. É como o peixe: se não der para comer do bom, come-se do mais barato e enche-se a barriga na mesma. Temos que nos adaptar àquilo que temos e acabou-se.” Mas quando começou todos queriam um ter um pedaço da vida que só a tinha quem trabalhava na BA4. Os Açores estavam atentos. O passa-palavra nas ilhas foi rápido a espalhar a notícia de que os americanos não paravam de chegar à Terceira. Com eles traziam dinheiro, trabalho, salários generosos, o que não havia em muitos sítios do arquipélago. A ilha tornou-se um íman de pessoas e muitas queriam criar raízes perto da base. Para ficarem paredes-meias com os militares, subiram a Serra de Santiago e por ali se começaram a fixar nos anos 50 do século passado. Foi lá em cima, perto de Santa Rita, que apareceu o Bairro de Lata.

O Bairro de Lata foi durante décadas vizinho da BA4. Já este século, a Câmara Municipal de Praia da Vitória decidiu destruir as barracas para construir edifícios e reabilitar os residentes.

O nome veio das barracas feitas à pressa, com poucos meios, chapas de alumínio, que os migrantes das outras ilhas inventaram para serem vizinhos da BA4. Hoje quase nenhuma resta, garante o padre António Rocha. É ele, o pároco da freguesia das Lajes, que todos os domingos apanha um autocarro, sobe a serra e, às 13h, celebra a missa que junta a gente que antes vivia mal e hoje vive melhor. “Viviam em barracas, mas a câmara [de Praia da Vitória] desfez tudo para construir casas”, descreve, sentado à mesa, fechado numa das salas da igreja, cheia de um eco que a mobília não consegue abafar. Nasceu em Santa Bárbara, perto de Angra do Heroísmo, estudou no Porto, depois em Salamanca, fez-se padre e passou 15 anos a sê-lo no Brasil.

Diogo Pombo/Observador

Regressou com sotaque e demorou a perdê-lo, ao longo dos 14 anos que leva a pregar nas Lajes. “As pessoas chamavam-me o padre brasileiro. ‘Você ainda está no tempo do Brasil’, diziam-me. Lá em cima faço tudo o que eles querem. Antes havia muito ladrão e muito drogado, mas não tem mal nenhum ir lá”, garante. Conhece muitas das pessoas que lá chegaram, há décadas, em busca de trabalho pago por americanos. Vieram, sobretudo, das outras ilhas, mas sabe de muitos que saíram do Continente, de Castelo Branco, Viseu e Vila Real, para tentarem a sorte na base. Chegaram a viver lá 500 pessoas, a maioria sem ligações à Terceira. O padre António apenas apanhou uma réstia desses tempos, mas ficou com histórias de sotaque americano para contar. Lembra-se das muitas missas em que viu militares presentes, por “já falarem uma coisa ou outra de português”, talvez os mesmos que “acabaram por casar com raparigas da ilha”.

Chegou a celebrar um casamento desses, o ano passado, dando o passaporte através do matrimónio a mais uma terceirense. Viu de bom grado a união, porque, mesmo não sendo católico, “o militar quis ser” e António preparou-o “para receber o batismo, o crisma e o casamento”. Hoje, com a base condenada a receber apenas americanos recém-adultos e solteiros, teme que os militares venham, “se metam com elas, gerem os filhos e depois vão-se embora”.

Vão os americanos, ficam as histórias

O padre que celebra as missas no bairro que era de lata chegou a “batizar uma criança” cuja mãe “foi abandonada por um americano” e teve “de ir viver para casa da avó”. Mas é uma de poucas histórias que azedam a convivência doce que os portugueses recordam dos anos passados com americanos na ilha. A maioria das recordações é risonha. Jorge Branco, o homem dos despachos alfandegários e dos 46 anos contados na Base das Lajes, ainda multiplica as gargalhadas que certas memórias lhe dão. Como aquela vez em que, de manhã, acabado de chegar ao escritório na BA4, foi chamado pelo capitão americano. Pensou que vinham aí apuros. “Ó Branco, temos um problema”, disse-lhe o militar, antes de contar o episódio que o sossegou. “Dois rapazinhos novos, 21 ou 22 anos, militares da base, beberam umas cervejas e, à noite, pegaram nos carros e puseram-se a fazer um rali dentro da base. A polícia aérea portuguesa apanhou-os, tirou-lhes a carta e entregou-os à polícia americana”, conta, já a rir-se.

Americanos que se iam divertir às largadas de touros na ilha, militares que bebiam uns copos a mais nos tempos livres, as centenas de euros que se ganhavam para ser caddie nos campos de golfe reservados a quem vinha dos EUA. Cada vez se vê menos, ou mesmo nada, de tudo isto.

Jorge fez o que pode e foi bater à porta do major português. Os jovens, ainda que recheados da imprudência despertada pelo álcool, eram necessários para conduzir jipes e veículos militares na base. A alta patente portuguesa não achou piada, embora lá acabasse por ceder. “Este major, que bebia todos os dias uma garrafa de whisky, era um atarraçado da brava a beber”, confessa, riso incontrolável, ao recordar como logrou que fosse devolvida a carta de condução aos tais militares.

David Nunes prefere o sorriso constante às gargalhadas valentes. É gerente do Guarita, o maior supermercado terceirense da ilha, onde os americanos iam à caça de produtos açorianos que não encontravam nas prateleiras da base. Está lá há 12 dos 34 anos e cresceu numa casa com mãe e pai a trabalharem, ou na base, ou para os americanos. Garante que “toda a gente se dava bem com eles” e não esquece como, em miúdo, “já estava farto de ver wrestling ou NBA” e “cansado de comer os Snickers e as batatas Pringle” quando tudo isto começou a aparecer em Lisboa. David, como tantos outros que sempre residiram em Praia da Vitória, viu uma televisão comprada na base a entrar-lhe em casa, que apanhava “a antena americana”, e tinha uma despensa cheia de produtos vindos do PX ou do Comissary.

A pista da Base Aérea nº 4. Mesmo ao lado, paralela, está a do Aeroporto civil das Lajes.

Diogo Pombo/Observador

A João Borges, 32 anos, acontecia o mesmo e conta-o com saudade, enquanto tem as mãos ao volante do pequeno autocarro da Empresa de Viação Terceirense, que faz a carreira entre Porto Martins e Praia da Vitória. Cada minuto de conversa puxa um pouco mais pela boa disposição, que explode quando se lembra que, aos 14 anos, já andava a servir de caddie nos campos de golfe construídos pelos americanos, perto da base. “Em quatro dias tirava 60 contos [300 euros]”, diz, revelando a quantia que fazia dele um miúdo feliz por, no verão, ter dinheiro para gastar nas festas da ilha. Nas arruadas e largadas de touros onde via “muitos americanos” a “meterem-se à frente dos animais e a levarem porrada”. Via-os a rir, a divertirem-se, sem medo, embora “se magoassem a sério”. João sente “muita pena” por já ter visto “tantos militares e tantas famílias a irem embora” e esvaziarem as casas no Nascer do Sol e no Beira-mar, bairros feitos para eles em Santa Rita. Levam dinheiro, emprego, amizades e os que ficam sofrem os danos colaterais de tanta saída. “Se um americano está uma semana sem ir a casa, chega lá e não tem nada. Hoje há muitos assaltos, já falta o dinheiro a muita gente”, lamenta. Os tempos mudaram depressa e as pessoas sentiram-no.

Estima-se que, no final do ano, existam apenas 400 trabalhadores civis portugueses na Base das Lajes. Chegaram a estar lá quase 4.000.

A Base Aérea número 4, a das Lajes, a BA4 já não é o pedaço de América que fazia companhia aos terceirenses. Hoje é uma amostra, pequena, do reboliço que durante décadas deu à ilha. A tecnologia, os computadores, os pulos dados na aviação e o governo dos EUA foram, aos poucos, retirando-lhe movimento e importância. Onde antes Jorge Branco via “30, 40 ou 60 aviões” a aterrarem por dia hoje não pousam mais de um ou dois. A base não dava fronteiras aos americanos e, em 1980, quando um sismo abanou os Açores, “enfiaram-se nas barcaças, foram às outras ilhas buscar pessoas e levaram para a base aquelas que tinham ficado sem casa”. Os militares iam comer à casa dos portugueses, o contrário acontecia, os convites trocavam-se. Eram “muito amigos da gente”, mas quando 2015 chegar ao fim, a base apenas terá 165 militares na base e muitas pessoas já temem o dia em que os EUA saiam dali de vez.

Se o fizerem, ao menos que avisem e não torçam o nariz como Jorge torceu quando soube que os americanos lhe iam preparar uma despedida de arromba no último dia que teve na base. “Queriam fazer uma party muito grande, mas não me sentia bem. O último dia em que lá fui não disse a ninguém, só à minha mulher. Levava uma folha que precisava de ser assinada pelo meu chefe, um capitão, para levar ao escritório civil e formalizar a minha reforma. Cheguei lá, disse-lhe para assinar a folha e ele nem sabia o que estava a assinar. ‘Assina aí por baixo!’. Cheguei lá em cima, entreguei e pus-me para dali para fora”, recorda. Nunca mais voltou a entrar na América.

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