Belém: Caminho mais aberto para Marcelo

29 Agosto 2015261

Todos à espera de Marcelo. Os que gostam aplaudem saída de cena de Santana. Sem pressas, o comentador quer fazer como Cavaco em 2005.

Marcelo Rebelo de Sousa gosta de tomar decisões quando elas se tornam inevitáveis. Se assim é, como salienta ao Observador um ex-ministro e ex-dirigente do PSD, será agora mais fácil ao comentador político assumir o sim e avançar para a corrida a Belém. Na quinta-feira, Pedro Santana Lopes assumiu formalmente que não será candidato em circunstância nenhuma. Agora só falta Rui Rio desistir.

O anúncio de Santana apanhou de surpresa aqueles a quem mais agradou: os apoiantes de Marcelo. “É inteligente da parte dele. Percebeu que só teria chance se Marcelo não fosse candidato”, diz um ex-ministro do PSD que votará no professor catedrático de Direito se este avançar para as eleições presidenciais de janeiro.

A confiança reina pelos lados do antigo presidente do PSD que liderou o partido durante três longos anos de oposição ao popular Governo de António Guterres e que se demitiu por causa de Paulo Portas, então já líder do CDS, e com quem acabou por fazer as pazes. Ao ponto de o CDS estar disposto também a apoiá-lo na corrida a Belém.

Dentro do PSD, apontam uma mudança de atitude de Marcelo nas últimas semanas. Para além de ter começado a dar mais entrevistas, está, como é descrito ao Observador, numa “proatividade completa”. Se normalmente o telemóvel de Marcelo recebe mais chamadas do que aquelas que faz, a proporção está a mudar. “Liga mais e pede coisas às pessoas. E mostra-se mais disponível para comparecer em eventos”, conta fonte social-democrata. “Marcelo será sempre candidato. Agora sem Santana, e quer Rio avance ou não, Marcelo será sempre candidato”, diz outro dirigente.

“Já perguntei aos filhos e netos o que pensam sobre as presidenciais”, dizia há duas semanas o professor catedrático de Direito em entrevista ao DN, aproveitando para fazer um elogio ao rival Rui Rio. “Olhando para as alternativas a Passos Coelho, com exceção de Rui Rio, não há nomes que sejam comparáveis com Pedro Passos Coelho em termos de atividade político-partidária”, considerava, empurrando o ex-autarca na direção da liderança do PSD, num pós-Passos, em vez da estrada para Belém.

“Eu sempre defendi que essa matéria [decisão de candidatura] só devia ser ponderada depois das legislativas. Este era o tempo das legislativas. E mantenho a mesma posição, que não é apenas o divulgar depois, é o ponderar depois e portanto aplica-se. Mantenho a mesma posição."
Marcelo Rebelo de Sousa

Do lado de Marcelo, ninguém se deixa impressionar com as notícias de que Rui Rio está a montar uma estrutura de campanha caso venha a ser necessária. Dinheiro e voluntários para a comissão executiva já estão a ser “acautelados” para o que der e vier. “É uma coisa à Rio”, comenta-se. “Na altura em que Manuela Ferreira Leite avançou para a liderança do PSD também se dizia que Rio já tinha a máquina toda montada para avançar, mas depois não foi. É muito frio e calculista”, diz um dirigente atual do PSD.

Isto porque o comentador da TVI é o preferido dos militantes de direita, segundo as várias sondagens que têm sido publicadas, só tem uma opção: uma campanha rápida e poupada. E precisará de mais? Marcelo anda há vários meses a fazer voltas pelo país, sob o pretexto de estar a participar em festejos dos 40 anos do PSD, tem semanalmente o palco da TVI onde chega a milhares de pessoas de um modo muito mais fácil e direto do que qualquer outro candidato presidencial. Há dias, Marcelo marcou o timing para uma decisão para novembro/dezembro. Pode vir a fazer como Cavaco Silva – como toda a gente contava que fosse candidato, só o anunciou formalmente a 20 de outubro e não foi tardio pois ganhou as eleições.

Sobre Rio, os amigos de Marcelo vão lançando farpas, consideram que corre um grande risco de ser candidato, aparecer Marcelo e depois aquele não passar na primeira volta das eleições, o que seria uma humilhação. (Se nenhum dos candidatos obtiver 50% mais 1 dos votos, então terá que haver obrigatoriamente uma segunda ronda apenas com os dois candidatos mais votados). O jogo é de toca e foge pois, no fundo, o que um lado e o outro gostariam mesmo era que o putativo adversário desistisse.

Visto pelos olhos de quem gosta de Rio

Do lado do ex-autarca do Porto que hoje se dedica a consultadoria privada, espera-se agora o take 2 de Santana. “Ele é intuitivo mas sabe fazer render as atenções”, afirmou ao Observador fonte próxima do ex-primeiro-ministro e ex-autarca de Lisboa, referindo-se ao (inevitável) anúncio de quem irá aquele apoiar agora na corrida presidencial.

No último congresso do PSD, em fevereiro de 2014, Santana estava disposto a participar no jogo de Passos para destruir as ambições presidenciais de Marcelo, que começou com o perfil traçado na moção em que criticava aqueles que descrevia como “cataventos de opiniões”. Nessa reunião, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, Santana iria fazer um discurso a cavalgar as críticas que constavam na moção de Passos – o ambiente e os planos que estavam traçados chocaram, contudo, com a imprevisibilidade de Marcelo. Este dissera que não iria ao congresso mas, aparecendo sem avisar, e antes de Santana subir ao púlpito, conseguiu fazer um discurso emotivo que pôs o Coliseu todo de pé e contra o qual era impossível “malhar”. Foi o momento com M grande do congresso e aqueceu a alma social-democrata fustigada pela austeridade de Passos.

"Eu era hipócrita se dissesse que não penso [nas presidenciais]. Então, com notícias quase todos os dias. É tarde para quê, para as presidenciais? De forma nenhuma, bem pelo contrário."
Rui Rio

Se Rio avançar, Passos Coelho “não vai ficar indiferente”, afirma ao Observador um dos mais próximos apoiantes do ex-autarca – ou seja, não acreditam que o líder fique calado e não dê o apoio. Isto apesar de Marcelo, Mendes e Santana já terem vindo dizer que o PSD não deve apoiar nenhum candidato na primeira volta das eleições – o que consideram ser provável. Mas aqui há outro fator a ter em conta. Se Passos ganhar as eleições legislativas, ganha também mais força para impor a sua vontade a um partido que é mais facilmente seduzido por uma personalidade como a de Marcelo em vez de Rio.

A lei da rolha que Passos impôs no partido sobre presidenciais – a máxima é “dia 5 de outubro começaremos a pensar nesse assunto” – está a funcionar. A única reação ao comunicado de Santana Lopes foi assumida pela vice-presidente do partido, Teresa Leal Coelho. “O dr. Pedro Santana Lopes é um destacadíssimo elemento do PSD, que já foi primeiro-ministro de Portugal, que muito respeitamos, mas nós neste momento estamos exclusivamente focados nas legislativas e apenas sobre legislativas nós falamos. No dia seguinte às legislativas olharemos para os processos de candidaturas de cidadãos, sejam eles quais forem, à Presidência da República”, afirmou esta sexta-feira, à margem de uma conferência de imprensa sobre o chumbo do Tribunal Constitucional à nova lei dos serviços de informações.

“É normal que quem tem essa vontade, de se candidatar, se esteja a mexer no terreno, a recolher apoios e contactos. Mas têm tido o bom senso de não minar o debate das legislativas”, refere um dirigente social-democrata, desdramatizando as últimas notícias sobre as presidenciais. Ou, numa perspetiva mais cínica, “ao Governo basta fazer-se de morto, tudo o que seja manobras de diversão até são bem-vindas”.

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