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Ben Macintyre. "Achámos que os tipos do KGB se tinham tornado nuns ursinhos de peluche. Isso foi uma idiotice"

“O Cerco” é o mais recente livro de Ben Macintyre. Em entrevista ao Observador, o autor britânico reflete sobre a relevância da espionagem nos dias de hoje.

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Ben Macintyre dedicou toda a vida a escrever sobre espiões, missões secretas, agentes duplos e operações militares inusitadas. Os seus livros são bestsellers com histórias à John Le Carré — um velho amigo do autor, por sinal —, com uma diferença crucial: não são histórias que saíram da sua imaginação; são todas reais e meticulosamente investigadas, mas contadas como se fossem um romance.

O mundo dos serviços secretos sempre fascinou este britânico, que na juventude chegou mesmo a ser abordado pelo MI6. Ficou “lisonjeado”, confessa. Mas Macintyre é taxativo: “A verdade é que seria muito mau naquilo. Sempre me interessei mais por contar segredos do que por guardá-los.”

Nesta entrevista ao Observador, o autor de livros como Colditz, Agente Sonya, O Espião e o Traidor e Agente ZigZag reflete sobre a relevância da espionagem no dia de hoje. Em tempos, os seus livros eram sobre “histórias pitorescas do passado”. Agora, assume o autor, “as informações humanas, aquilo sobre o qual eu escrevo”, diz, “nunca foram tão importantes”. “Pode ter-se tudo num telefone, mas não é como olhar para alguém que está sentado do outro lado da mesa e tentar perceber se se pode confiar nele, sem saber a verdade”, declara Macintyre. Gaza e Ucrânia, afirma, são exemplos de conflitos que começaram por erros dos serviços de informações. 

Mas o britânico e colunista do The Times não se limita a escrever sobre espiões. O seu mais recente livro, “O Cerco” (ed. Dom Quixote), é sobre uma operação terrorista que marcou o Reino Unido, há exatamente 45 anos. A 30 de abril de 1980, um grupo de homens armados invadiu a embaixada iraniana em Londres e deu início a um sequestro que durou seis dias.

O grupo queria vingar-se do tratamento da minoria étnica árabe do Arabistão (também conhecido por Cuzistão) pelo regime do aytaollah Khomeini. Exigia a libertação de prisioneiros da minoria no Irão em troca da libertação dos reféns (onde se incluíam muitos iranianos, mas também cidadãos britânicos, um sírio e dois paquistaneses), a divulgação do seu manifesto político e forma de saírem em liberdade. O líder, Towfiq, era “um homem extraordinário”, conta Macintyre. E o cerco também contou com um herói improvável: Trevor Lock, “um bófia gordo, um bocado preguiçoso” e que acabou por revelar uma “forma de heroísmo muito especial”.

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▲ Ben Macintyre é autor de bestsellers como "Colditz", "Agente Sonya", "O Espião e o Traidor" e "Agente ZigZag"

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Uma história que Macintyre disseca a fundo com o mesmo afinco com que fez com as histórias de agentes duplos como Oleg Gordievsky — do KGB a trabalhar para o MI6 — e Kim Philby — britânico a trabalhar para os russos. Sempre com o objetivo de contar as histórias de pessoas e das suas motivações psicológicas, mais do que qualquer outra coisa: “Estou muito mais interessado nas complexidades morais destas histórias”, resume.

O “cerco” à embaixada que teve uma personagem improvável. “Há uma espécie de heroísmo no herói comum”

Neste novo livro escreve que a operação de resgate na embaixada iraniana no Reino Unido foi a primeira operação do género que passou totalmente na televisão. Na altura, os sequestros não eram novidade, mas as pessoas não estavam habituados a vê-los em direto. Que impacto teve isso?
Foi a primeira vez que uma situação com reféns foi transmitida em direto pela televisão. Acho que foi a primeira vez que uma notícia de última hora foi transmitida ao vivo na televisão e vista por todo o mundo, graças ao avanço tecnológico dos satélites que permitiram emitir isto literalmente para todo o globo. É claro que já tinha havido transmissões em direto antes; neste país, por exemplo, a Coroação de 1953 foi filmada e transmitida. Mas isto era uma notícia de última hora. Isto era uma notícia a decorrer ao vivo e a entrar nas salas de estar das pessoas. Hoje em dia estamos habituados a isto, não é? Qualquer pessoa com um iPhone pode fazer uma transmissão para todo o mundo. Mas na altura era sem precedentes, nunca tinha acontecido. Neste país existiam na altura três canais de televisão — sabe Deus quantos temos agora… — e todos estavam a transmitir imagens em direto. Isso nunca tinha acontecido na História. Acho que de certa forma isso fez o mundo compreender que as notícias não tinham de ser relatadas depois de as coisas acontecerem, que podiam estar a acontecer e as pessoas verem-nas em tempo real. É claro que o exemplo máximo disso foi o 11 de Setembro, quando todos estávamos a ver à medida que as coisas aconteciam e foi muito chocante. Mas isto à altura também foi muito chocante.

"Towfiq — ou Salim, se quisermos usar o seu 'nom de guerre' — era de muitas formas um homem extraordinário. Era muito inteligente, era instruído, não era a típica figura de um terrorista. Não era um rufia. Não era um tolo, nem um maníaco suicida."

Há muitas coisas nesta história que são atípicas, como os próprios sequestradores. Por um lado, ameaçam matar toda a gente; por outro, distribuem valiums pelos reféns… Como os descreveria e em particular o líder, Salim?
Uma das razões pelas quais escrevi este livro é que aqueles sequestradores e também os tipos das SAS [Special Air Service, as forças especiais do Exército britânico que fizeram a operação de resgate] são sempre retratados como figuras a preto e branco. Não são bem pessoas, são símbolos de algo, e [os sequestradores] são muitas vezes descritos apenas como terroristas. Ninguém tinha tentado explorar quem eles eram ou por que fizeram o que fizeram. Não me refiro às suas intenções políticas — mesmo sendo essas algo obscuras —, mas às suas intenções pessoais, às suas motivações psicológicas. Queria ser cuidadoso e não justificar ou desculpar o que fizeram, porque a verdade é que eram homens violentos que estavam preparados para cometer crimes terríveis a fim de conseguirem o que desejavam. Mas tinham uma razão para fazê-lo. Não estou a dizer que foi justificado, mas eles tinham uma causa: tinham sido brutalizados pelo regime iraniano, tinham perdido familiares… Towfiq — ou Salim, se quisermos usar o seu nom de guerre — era de muitas formas um homem extraordinário. Era muito inteligente, era instruído, não era a típica figura de um terrorista. Não era um rufia. Não era um tolo, nem um maníaco suicida. Era um tipo pensante que chegou àquela decisão de fazer o que fez. Foi manipulado, sabemos que foi usado pelos iraquianos. Provavelmente era ingénuo. Mas era, como diz, atípico. Porque não era o tipo de tolo que é facilmente levado a fazer este tipo de coisas. Ele não estava de olhos tapados, tinha um motivo. Onde acho que havia ingenuidade era nos seus objetivos. As expectativas deles de que conseguiriam sair desta situação, de que conseguiriam trocar os reféns pelos prisioneiros no Irão, de que lhes seria dado um avião, de que a mensagem deles seria transmitida em todo o mundo… É certo que não eram exigências novas, isso já tinha sido concedido no passado. Nos anos 70, os governos estavam prontos a entrar nesse tipo de negociação. É por isso que cito o exemplo de Carlos, “O Chacal”: em muitos círculos extremistas aquele continua a ser o exemplo da operação terrorista perfeita [o sequestro a uma reunião da OPEP em 1975]. Eles sobreviveram, mataram pessoas sem terem sido mortos, conseguiram imenso dinheiro e ainda a liberdade. Portanto, não é que não tivesse acontecido antes. Aquilo que eles não tiveram em conta foi um fator muito importante: Margaret Thatcher.

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▲ A primeira-ministra Margaret Thatcher ficou com uma imagem de proximidade dos militares desde o sequestro na embaixada iraniana em Londres

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É interessante porque, depois disto, ela passou a estar muito associada às próprias SAS.
Sim. A decisão dela de deixar as SAS entrarem para resolver aquilo foi uma jogada enorme. [O sucesso da operação] não era uma conclusão óbvia, de todo. Disseram-lhe que havia uma probabilidade de 40% de vítimas, que quatro em cada dez pessoas dentro do edifício poderiam ficar feridas ou morrer. Esse é um número muito elevado… Se tivesse acontecido, teria sido considerado um desastre.

E não um “triunfo”, como escreve no livro?
Sim. Porque teria sido uma catástrofe que acho que até teria acabado com o seu cargo como primeira-ministra. Teria certamente mudado a opinião das pessoas no Reino Unido em relação às SAS, acho que teriam sido desmanteladas. Todas essas coisas não aconteceram, foi visto como uma vitória esmagadora e ela referia-se a isso constantemente. Tornou-se sem dúvida num elemento simbólico da forma como ela governava e forjou uma relação muito próxima dela não só com as SAS, mas com as Forças Armadas em geral. Creio que ela achava que isto a deixou imbuída de uma espécie de aura militar. O que para ela e para os seus eleitores, a maioria conservadora no Reino Unido, era algo muito importante. Estamos a falar da Grã-Bretanha pós-imperial… Vocês em Portugal sabem como são as situações pós-Império. Este era um tempo em que o Império Britânico estava a colapsar, os seus últimos elementos estavam a desaparecer. De certa forma havia uma crise de confiança no país: como vai ser um Reino Unido moderno? Isto foi antes da era de Tony Blair, quando o Reino Unido recuperou de certa forma o seu propósito. Neste singelo ato, Margaret Thatcher pareceu mostrar que o Reino Unido ainda conseguia ser um ator no palco mundial. Talvez de forma enganadora, mas deu a impressão a muitos dos seus apoiantes de que a Dama de Ferro era uma representante de uma Grã-Bretanha mais antiga, mas também de uma Grã-Bretanha moderna que olhava para o futuro. Por isso diria que foi o acontecimento mais importante do primeiro período dela no poder.

Falando em situações atípicas, o herói do livro, Lock, também é atípico…
[Interrompe] Sem dúvida, sem dúvida!

Li um artigo seu no The Times em que fala dele e do Oleg Gordievsky [espião do KGB que trabalhou como agente duplo para o MI6] como os seus heróis. O que é que o fascina nestes dois homens? Porque eles não têm nada a ver um com o outro…
Não têm, de todo. “Heroísmo” é uma palavra que está gasta, eu uso-a demasiado… Mas digamos que o Gordievsky assumia o seu próprio heroísmo. Ele decidiu deliberadamente fazer algo que sabia ser incrivelmente perigoso e fê-lo com base num propósito ideológico firme. Trevor Lock era o oposto. Não queria ser um herói e não se considerava corajoso. Tinha-se tornado num agente de segurança porque era um trabalho aborrecido, onde não acontecia muita coisa. Era um emprego seguro, ele só queria receber o seu salário e ir de volta para Barking. O que acabou por acontecer é que a coragem foi-lhe imposta à força, ele não teve escolha. E essa é uma forma de heroísmo muito especial. Não quero fazer um contraste entre os dois, mas é um tipo de instinto muito diferente. Por exemplo, um soldado das SAS abraça o perigo, diz ‘Este é o tipo de pessoa que eu sou, sou capaz de enfrentar o perigo’ e isso exige muita coragem. Mas, de certa forma, exige ainda mais coragem quando não se quer fazer nada disso, quando não se quer entrar deliberadamente num sítio onde se ouvem tiros, mas, apesar disso, faz-se e consegue-se lidar com isso e acabar por salvar muitas vidas… Acho que podemos dizer que, sem Trevor Lock, a situação teria corrido muito pior e muito rapidamente. Acho que ele deu confiança quer aos reféns, quer aos sequestradores — fez com que eles sentissem que eram ouvidos e ele acabou por atuar como uma espécie de intermediário entre eles e a polícia no meio da crise. Tudo isso se revelou extraordinariamente importante. Acho que ele foi o salvador da maioria daquelas 25 pessoas que sobreviveram.

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▲ Trevor Lock e Oleg Gordievsky representam para Macintyre dois tipos de "herói"

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Gordievsky também salvou muitas vidas, mas de uma forma mais teórica. Ajudar a por fim à Guerra Fria é um ato de coragem macro. Mas o micro ato de coragem no pequeno mundo de Trevor Lock é fascinante. Ele não é um herói convencional, de todo. Não é um durão. É um bófia gordo, um bocado preguiçoso, e isso é maravilhoso. Adorava que todos [os heróis] fossem assim.

Um tipo que só quer ir ver o espetáculo para o qual comprou bilhetes a seguir ao “cerco”…
Sim. Ele era um tipo muito banal, com um conjunto de crenças muito simples. Não era uma pensador profundo, não era uma pessoa política. Era um tipo comum e acho que há uma espécie de heroísmo no herói comum.

“Acho fascinante a ideia de que se pode ter um objetivo honrado, mas um método para lá chegar que é extremamente duvidoso em termos éticos”

Escreve frequentemente sobre espionagem e histórias de operações militares. Para nós, no Ocidente, durante muitos anos isso pareceu algo do passado e, de repente, está muito presente. Acha que as pessoas começaram a ler os seus livros de forma diferente?
Acho que esse é um ponto muito válido. Quando comecei neste caminho da espionagem, que já dura há uns 25 ou 30 anos, estas eram histórias pitorescas do passado. Eram histórias de guerra meio amadoras, mas bem sucedidas, como a Operação Mincemeat, que foi uma espécie de armadilha. Foram importantes, mas eram histórias pitorescas do passado, coisas que não eram propriamente relevantes para o nosso mundo de hoje em dia. Acho que isso mudou ao longo do tempo em que tenho vindo a escrever. A recolha de informações e a espionagem nunca foram tão importantes como são hoje. Olhemos para as crises que que estão a acontecer no mundo, Gaza, Ucrânia, etc: as informações estão completamente no centro destas histórias. Foi um falhanço das informações em Gaza que deu o pontapé de saída para esta história horrível. A invasão de Putin também foi baseada em informações erradas, a decisão de ir para a Ucrânia é um exemplo clássico do tipo de erros que os alemães cometeram durante a [II] Guerra — pedir que fossem encontradas determinadas coisas. Putin queria que lhe dissessem que iam ser bem recebidos, que as tropas iam ser recebidas com rosas enquanto marchavam para Kiev, e foi isso que os seus espiões lhe disseram. É um clássico dos serviços de informações. Aconteceu no meu país: a guerra do Iraque aconteceu porque [George W.] Bush e Blair queriam que fosse encontrada uma coisa específica, as armas de destruição massiva. E quando se pede a espiões que encontrem provas de algo que já se acredita que existe, eles vão encontrá-las. Portanto, estes são apenas alguns exemplos.
Basta abrir qualquer jornal hoje em dia e vai lá estar uma história sobre o mundo das secretas. Nós imaginamos que as informações cibernéticas empurraram o mundo para um espaço diferente e sim, isso aconteceu de várias formas. As informações de sinais, a SIGINT, é mais importante do que nunca. É tudo sobre o que acontece aqui [mostra o seu smartphone], sobre o que está no computador, sobre o que se consegue intercetar. Mas as informações humanas, aquilo sobre o qual eu escrevo — que são indivíduos a tentarem encontrar secretamente informação clandestina —, nunca foram tão importantes. Pode ter-se tudo num telefone, mas não é como olhar para alguém que está sentado do outro lado da mesa e tentar perceber se se pode confiar nele, sem saber a verdade. Por isso é fascinante como a espionagem se tornou mais e mais vital e, no entanto, mais e mais opaca, mais e mais invisível, mais e mais difícil de identificar. É muito fácil para mim escrever sobre os serviços secretos das [grandes] guerras e da Guerra Fria, porque as pessoas estavam sempre a escrever, sempre a apontar tudo. Há registos em papel de tudo isto. E isso não é verdade hoje. Vai ser muito, muito mais difícil para os historiadores do futuro perceberem o que estava a passar.

"[Ser espião] requer uma mentalidade específica. É preciso ser um tipo de pessoa peculiar que acredita que os interesses do seu Estado, seja qual for a sua tez política, têm mais peso do que a complexidade moral daquilo que se está a fazer. Porque como agente do MI6 está-se a pedir às pessoas que façam coisas que não são o melhor para elas."

Li que foi abordado [pelos serviços secretos] a certa altura…
[Risos]

Por que é que decidiu escrever sobre espiões em vez de ser um deles?
Acho que seria um espião sem remédio. A verdade é que seria muito mau naquilo. Sempre me interessei mais por contar segredos do que por guardá-los. Quando me abordaram há anos — eu devia ter uns 21 ou 22 — fiquei lisonjeado por me convidarem. Por isso alinhei em ter uma reunião e tivemos uma conversa meio bizarra em que, no final, era muito claro para todos que eu não era a pessoa certa para aquele trabalho. Acho que é preciso ser um tipo de pessoa específico para se querer ser um agente de informações, muito diferente de quem quer ser um agente de segurança. Um agente de informações tem uma carreira para a vida, onde está deliberadamente a assumir um papel cuja função é de ir para o estrangeiro e roubar os segredos dos outros países. E persuadir cidadãos de outros países a quebrarem as regras dos seus países ao dar-te informações. Isso requer uma mentalidade específica. É preciso ser um tipo de pessoa peculiar que acredita que os interesses do seu Estado, seja qual for a sua tez política, têm mais peso do que a complexidade moral daquilo que se está a fazer. Porque como agente do MI6 está-se a pedir às pessoas que façam coisas que não são o melhor para elas, está-se a pedir-lhes que coloquem as suas vidas e dos seus familiares em risco. Isso exige uma clareza muito específica, que eu não tenho. Estou muito mais interessado nas complexidades morais destas histórias. Não tenho uma visão cristalina do meu país, esteja ela certa ou errada. Não é assim que vejo o mundo.

Porque é difícil uma pessoa justificar a si própria as mentiras e o engano?
Mas eles fazem-no. E, quer dizer, há um argumento [válido], eu percebo-o. Conheci muitos agentes, talvez centenas, ao longo dos anos e eles são pessoas muito impressionantes, porque, de certa forma, conseguem colocar de lado os seus escrúpulos pessoais por aquilo que consideram ser a causa maior. Isso é impressionante, mas não é para mim, não é algo que conseguisse fazer. Mas, quando corre bem, o serviço secreto é uma vocação nobre. Pode mudar o rumo da História, pode deixar-nos mais seguros, pode prevenir uma calamidade, pode vencer uma guerra. Olhemos para um exemplo da II Guerra Mundial, o Bletchley Park. Era ali que eles intercetavam todas as mensagens transmitidas pelos alemães e as descodificavam, naquela que foi a maior operação de descodificação de sempre e que foi um sucesso impressionante. Criaram tecnologia nova, foi uma espécie de nascimento do computador, para aceder às mensagens alemãs — e isso foi um triunfo impressionante. Mas exigiu que se quebrassem muitas regras, exigiu muita trapaça. Exigiu que se roubasse muita informação e há uma complexidade moral naquele sucesso. Acho tudo isso fascinante, a ideia de que se pode ter um objetivo honrado, mas um método para lá chegar que é extremamente duvidoso em termos éticos. Para mim esse é um território muito interessante.

A Rússia da Guerra Fria e a de hoje. “Putin é um coronel do KGB de cima abaixo. Pensa o mundo completamente dentro daquela mentalidade”

Vladimir Putin em tempos disse algo parecido: que queria tornar-se num espião porque um único homem era capaz de fazer mais do que exércitos inteiros. Quanta desta mentalidade do KGB é que acha que ele ainda tem?
Acho que ele é um coronel do KGB de cima abaixo. Acho que ele pensa o mundo completamente dentro daquela mentalidade de fim de Guerra Fria do KGB. É um agente do KGB que não foi reconstruído. Mas nesse aspeto que disse ele tem parcialmente razão. É verdade que a espionagem, quando funciona — e nem sempre funciona, às vezes corre mesmo muito mal — pode transformar situações. Absolutamente. Sabe, Putin cresceu com o equivalente russo ao James Bond, numa série de televisão que tinha bravos espiões soviéticos a vencerem a guerra penetrando nos serviços secretos alemães. Uma forma de ver o mundo muito simplista e muito à James Bond. Mas ele vê o mundo assim, a preto e branco, e é por isso que ele tem todo este desprezo [pelo Ocidente]. É uma forma fascinante de “duplopensar” [palavra criada por George Orwell no livro 1984, que significa a capacidade de acreditar ao mesmo tempo em duas ideias contraditórias]: por um lado, ele detesta pessoas como Gordievsky, que vê como traidoras da pátria; por outro, manda erigir estátuas a Kim Philby, o agente britânico que trabalhava para o KGB e que fez exatamente o mesmo, mas levando a mais mortes. Portanto acho que a espionagem exige uma certa forma de “duplopensar”.

Não há problema em ser-se um traidor, desde que seja um traidor do nosso lado.
Se for bom para nós, exato [risos].

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▲ Vladimir Putin foi espião do KGB. Macintyre considera que mantém a mesma mentalidade ainda hoje

Sputnik/AFP via Getty Images

Acha que o Ocidente avaliou mal a Rússia de Putin? Depois de o Muro cair houve a sensação de que a Rússia já não era uma grande potência e, pelo menos agora, é.
Acho que aconteceram duas coisas. Estou um pouco fora de pé aqui, mas… Uma delas é que houve um assumir de que o KGB tinha desaparecido, de que, da noite para o dia, esta grande máquina tinha sido desmantelada e que os tipos do KGB se tinham tornado nuns ursinhos de peluche. Bem, isso foi uma idiotice. Foi um completo erro de avaliação de como funcionam os serviços secretos. Em segundo lugar, acho que subestimámos quão humilhadas pessoas como Putin e outros patriotas a sério — ele não é um patriota a sério, é um nacionalista xenófobo a sério — se sentiram pela atitude do Ocidente em relação à Rússia. Em vez de ajudar a Rússia a integrar a comunidade das nações, eles foram tratados como se fossem os vencidos, os derrotados. Como se fossem nada, como se não fossem importantes. Subestimámos quão humilhante isso foi e como isso criou ressentimento na Rússia. Estamos agora a ver as consequências disso.

As coisas mais inusitadas “acontecem na vida real”. “Há um enorme prazer no ordinário que é extraordinário”

Imagino que algumas pessoas que leem os seus livros não tenham completa noção de que são não-ficção e de que há muita pesquisa por trás deles. Não tem qualquer vontade de escrever ficção? Acha que a realidade é sempre melhor?
Bem, eu escrevo sobre um mundo que é mais estranho do que a ficção. A verdade muitas vezes é mais estranha do que a ficção e isso é sem dúvida verdade no mundo do espiões. Porque é tão extravagante, é tão improvável, exige uma imaginação tão grande, que se torna próximo da ficção. As pessoas que trabalham neste mundo estão a criar um mundo falso e a tentar atrair as pessoas para ele, a tentar persuadi-las de que algo é algo que não é. De certa forma, estão a criar um mundo fictício. De certa forma, podemos argumentar que os espiões são romancistas. É por isso que tantos espiões se tornam romancistas… Porque eles vivem numa espécie de mundo imaginário e ficcionado.

"Para estes livros funcionarem, tenho mesmo de saber: 'De que cor era o tapete?', 'O que é que eles comeram ao pequeno-almoço?', 'Ela estava com uma dor de cabeça naquela manhã?', 'Qual era a cor do cabelo dela?'. Porque são estes pequenos detalhes que (...) vão dar à minha narrativa uma veracidade, uma verosimilhança, que (...) traz os leitores comigo."

O difícil é encontrar as provas finas que façam [o livro] parecer um romance. Para estes livros funcionarem, tenho mesmo de saber: “De que cor era o tapete?”, “O que é que eles comeram ao pequeno-almoço?”, “Ela estava com uma dor de cabeça naquela manhã?”, “Qual era a cor do cabelo dela?”. Porque são estes pequenos detalhes que, se conseguir inclui-los e tiver a certeza que são verdadeiros, vão dar à minha narrativa uma veracidade, uma verosimilhança, que — espero eu — traz os leitores comigo. Para quê inventar quando não é preciso? Aprecio muito quando, de vez em quando, as pessoas me desafiam e dizem “Você disse que a sala cheirava a pão acabado de cozer. Como é que sabe isso?”. É claro que eu nunca teria escrito isso se não o soubesse. No “Cerco”, por exemplo, tive muita sorte. Tinha testemunhas vivas, que estiveram dentro daquelas salas quando [a ação] estava a decorrer, e que me puderam dizer com base na sua memória a que é que cheirava, o que se ouvia, quais eram as expressões das pessoas… Agora, é claro que a dificuldade com isto é que estamos a lidar com a memória. E a memória não é a verdade…

A memória não é de confiança?
Não é. Bem, às vezes pode ser. Quanto mais testemunhas se tem, mais provável é que se chegue a algo o mais próximo possível da verdade. Mas, de certa forma, sou tentado pela ficção. Adorava tentar um dia. Mas questiono-me se seria capaz de parar, é esse o problema. Assim que se começa a inventar, onde é que se pára? Com os meus livros eu pelo menos estou limitado por aquilo que sei, a minha imaginação só pode ir tão longe quanto as provas que recolhi. Se eu fosse deixado à solta na ficção, não tenho a certeza de que conseguiria regressar, estaria a escrever [o livro] para sempre. Dito isto, talvez experimente um dia.

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▲ Um dos reféns libertados durante o sequestro e um dos sequestradores apanhado a espreitar à porta da embaixada

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Mas aí perde detalhes quase irónicos como o de Rob Morris [mordomo da embaixada] a ler em pleno “Cerco” um livro sobre Carlos, “O Chacal”…
Exatamente. [Perderia] aquelas coisas que se fossem inventadas num romance iam parecer estranhas. Por exemplo, acho que o meu melhor exemplo no “Cerco” é o daquela personagem maravilhosa, o Ali Guil Ghanzafar, que ressona muito alto e é por isso que acaba por ser libertado. Acho que se pusesse isso num romance as pessoas iam dizer “Isto é ridículo, isto nunca aconteceria na vida real”. Mas estas coisas acontecem na vida real! Por isso há um enorme prazer no ordinário que é extraordinário. Falou em como o Trevor Lock queria ir ao teatro naquela noite… Saber exatamente a que teatro é que ele ia é algo que para algumas pessoas é o tipo de detalhe que se põe num romance para parecer real; mas na verdade é real, portanto não é preciso pô-lo num romance. Esta é uma longa e complicada resposta, mas… Bom, acho que, de qualquer forma, para mim ficção ainda não.

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