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Encerramento da XIII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda (BE): Mariana Mortágua é eleita líder do partido. 28 de Maio de 2023 Complexo Desportivo Municipal do Casal Vistoso, Lisboa TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
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TOMAS SILVA/OBSERVADOR

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Bloco volta ao divã. Mais frágil do que nunca

Mortágua deixa liderança e Parlamento. José Manuel Pureza pode ser solução, mas o partido enfrenta momento mais difícil da sua história. Críticos internos temem sucessão dinástica e prometem combate.

23 de novembro de 2014. Francisco Louçã, pai espiritual do Bloco de Esquerda, abandonara a liderança do partido há dois anos, entregando o poder a Catarina Martins e João Semedo, numa inédita (e nunca mais repetida) coordenação bicéfala. Pedro Filipe Soares, um dos protagonistas da corrente interna afeta à UDP, desafia a linha oficial, apresenta-se a votos e termina com os mesmíssimos votos. O Bloco de Esquerda não podia estar mais partido ao meio. No Pavilhão do Casal Vistoso, onde decorre a convenção bloquista, ninguém cede e o partido dá por terminada a reunião magna sem conseguir escolher um líder. A fratura entre as várias correntes é uma ameaça real à sobrevivência de um partido que nasceu, precisamente, para tentar unir a esquerda à esquerda do PS.

A solução para o impasse só foi possível graças a João Semedo, que morreria em 2018. O médico abdicou do seu lugar na direção e permitiu que Catarina Martins ficasse à frente do partido. As outras sensibilidades do Bloco de Esquerda teriam representação numa comissão permanente a seis — incluindo Pedro Filipe Soares. Estava enterrado o machado de guerra e ultrapassada a crise de identidade do partido. Nos anos seguintes, Pedro Filipe Soares, hoje afastado da primeira linha da  política, assumir-se-ia como um aliado importante de Catarina Martins, tendo mesmo chegado a líder da bancada parlamentar. As duas correntes que se enfrentaram em 2014 acabaram por se juntar numa linha oficial largamente maioritária no Bloco.

Durante os últimos dez anos, o partido foi da euforia da ‘geringonça’ à depressão da deputada única. Em 2015, os bloquistas conseguem uns históricos 19 deputados, tornam-se a terceira força política em Portugal e graças a António Costa sentam-se finalmente à mesa do poder. A confiança nas virtudes daquela solução era tal que o partido discutia abertamente que cargos queria e deveria ocupar num futuro governo de esquerda — Francisco Louçã chegou mesmo ao ponto de fazer de Mariana Mortágua ministra sombra das Finanças.

Mas os sinais estavam lá. Depois dos primeiros quatro anos de ‘geringonça’, os três partidos tiveram sortes diferentes: nas eleições de 2019, o PS cresceu muito, o PCP sofreu um primeiro tombo e o Bloco de Esquerda, mantendo o mesmo número de deputados, caiu em número de votos. Era o início do fim da ‘geringonça’, cujo atestado de óbito foi passado formalmente depois do chumbo do Orçamento do Estado para 2022 e das eleições antecipadas: maioria absoluta para Costa, seis deputados para o PCP (tinha 12) e cinco deputados para o Bloco (tinha 19).

A partir daí, o Bloco não mais se reencontrou. Catarina Martins abandonou a liderança do partido, Mariana Mortágua subiu ao poder, mas os resultados eleitorais e as dificuldades internas do partido só se agravaram. Este sábado, com o anúncio da saída de Mortágua, e numa altura em que o partido atingiu os seus resultados mais baixos desde a fundação, o futuro do Bloco de Esquerda é uma incógnita. A oposição interna, sabe o Observador, não se conforma com uma simples transição de poder entre os “protagonistas de sempre”. A linha oficial do partido parece estar a mobilizar-se em torno de uma figura com características pessoais e políticas muito diferentes: José Manuel Pureza.

Antigo deputado e candidato à Câmara de Coimbra nas últimas autárquicas, é uma das figuras mais respeitadas do partido. Foi deputado entre 2009 e 2011 e de 2015 a 2022. Liderou o grupo parlamentar e chegou também a ser vice-presidente do Parlamento. Católico assumido, foi um dos protagonistas na luta pela despenalização da morte medicamente assistida. Além da óbvia questão geracional, Pureza é reconhecidamente uma figura menos radical na forma como se apresenta no espaço político e mediático. Apesar de ter uma relação de natural proximidade com Mortágua, caso venha a suceder-lhe, será objetivamente uma rutura com a direção anterior.

Resta saber se terá ou não um caminho facilitado. Na primeira e única reação oficial aos rumores que o dão como certo na corrida à liderança do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza recusou qualquer tipo de “precipitação“. “No Bloco, cada moção apresentará à Convenção Nacional a sua proposta de orientação política e a sua solução de direção. Há, na moção que subscrevo, várias pessoas com grande capacidade para coordenar o Bloco. Estou empenhado nela exatamente da mesma forma que todos os meus camaradas. Nem mais nem menos. Estou certo de que saberemos encontrar na próxima Convenção do Bloco uma solução que dê força ao Bloco. Até lá, todos os cenários são precipitados“, sublinhou o bloquista.

A prudência de Pureza tem uma explicação evidente: evitar que se instale a ideia de que a linha oficial se prepara para uma mera sucessão dinástica — convicção que os principais críticos internos já têm e que a saída intempestiva de Mortágua só veio reforçar. Afinal, a cerca de um mês da convenção do Bloco de Esquerda, qualquer alternativa sem o carimbo da linha oficial do partido terá muitas dificuldades para reunir as condições políticas necessárias para vencer as eleições internas.

“Está escrito nas estrelas: oferece-se a cabeça da Mariana Mortágua para que se salve a direção. Mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma na próxima Convenção”, denuncia Pedro Soares ao Observador. Horas depois repetiria o mesmo à Rádio Renascença, pedindo ainda “uma vaga de fundo que dê uma nova orientação política ao Bloco”. “Se ainda for a tempo“, acrescentou o antigo deputado e o mais reconhecido crítico do rumo que o partido tem seguido sob as lideranças de Catarina Martins e de Mariana Mortágua. O próprio, no entanto, não está disponível para ser candidato.

Uma eventual luta fratricida em cima de um partido em francas dificuldades não é o único desafio no horizonte do Bloco de Esquerda. Este sábado, quando anunciou oficialmente a saída da liderança do partido, Mariana Mortágua revelou também que vai deixar o Parlamento no final do processo orçamental, a 27 de novembro — a reunião magna do partido realiza-se nos dias 29 e 30. O número dois na lista por Lisboa é Fabian Figueiredo, que alegou motivos profissionais para não ocupar o lugar durante a ausência de Mortágua. Acabaria por ser Andreia Galvão, de uma ala oposta à da linha oficial, a assumir o lugar.

Posto isto, e a menos que Fabian Figueiredo assuma a candidatura à liderança do partido, o que é pouco provável atendendo ao facto de estar muito associado à direção de Mariana Mortágua, é quase certo que o partido vai passar a ter, daqui em diante, um líder sem acesso ao palco parlamentar e com atenção mediática ainda mais limitada.

"Está escrito nas estrelas: oferece-se a cabeça da Mariana Mortágua para que se salve a direção. Mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma na próxima Convenção", denuncia Pedro Soares, crítico da atual direção, ao Observador. José Manuel Pureza pode ir a votos

Das lactantes afastadas à flotilha: dois anos a acentuar a perda

Mariana Mortágua assumiu o cargo de coordenadora do Bloco de Esquerda em maio de 2023, herdando um partido já em francas dificuldades. António Costa tinha conseguido a maioria absoluta em cima dos escombros da maioria relativa de 2019 e essencialmente graças ao esvaziamento dos partidos mais à esquerda. Com cinco deputados no Parlamento, os bloquistas recuavam para valores que já não registavam praticamente desde a fundação do partido.

A queda surpreendente de Costa e as consequentes eleições de 2024 agudizaram a crise de resultados do Bloco e mudaram a paisagem parlamentar, tornando a direita claramente maioritária. Nas eleições seguintes, à boleia da “Spinumviva”, o Bloco sofre nova derrota e fica reduzido apenas a uma deputada — Mariana Mortágua, precisamente. Com uma agravante: nestas últimas legislativas, o Bloco de Esquerda apostou tudo em reconquistar eleitorado, tendo feito regressar figuras como Francisco Louçã, Fernando Rosas e Luís Fazenda. Mas a estratégia não deu qualquer resultado. Em contrapartida, o Livre do dissidente Rui Tavares mostrou sinais de vitalidade, tendo reforçado a votação e a representação parlamentar.

Entre as duas legislativas, o Bloco de Esquerda ainda enfrentou umas europeias de má memória para o partido. Catarina Martins apresentou-se a votos e não foi além dos 168 mil votos, o pior resultado desde 2004. Nestas últimas eleições autárquicas, o partido sofreu nova derrota em toda a linha: além de ter perdido os lugares de vereação em autarquias relevantes, como Almada, Porto e Oeiras, esteve associado ao mau resultado de Alexandra Leitão em Lisboa — a participação de Mortágua acabada de regressar da flotilha tornou-se tema de campanha da socialista e um óbvio embaraço para o PS em Lisboa.

À ausência de resultados positivos juntou-se um caso que afetou profundamente a imagem do partido: o Bloco de Esquerda, ainda sob a direção de Catarina Martins, despediu quatro trabalhadoras que tinham sido mães pouco tempo antes (e pelo menos três estavam ainda a amamentar). Numa primeira reação, o partido ainda se esforçou por tentar desmentir a revista Sábado, que avançou com a história, mas foi rapidamente obrigado a reconhecer que aquelas mulheres tinham sido de facto afastadas. Mariana Mortágua, não sendo líder do partido à época dos factos, assumiu a responsabilidade e reconheceu que tinha sido cometido um “erro”.

Tudo isso aconteceu no arranque de 2025. Em agosto, Mariana Mortágua decidiu integrar a flotilha que se propunha a entregar ajuda humanitária em Gaza. Acabou intercetada pelas forças israelitas, detida e repatriada para Portugal, deixando o Bloco, num primeiro momento, sem representação parlamentar. Mariana Mortágua só aceitou suspender o mandato e permitir ver-se substituída na Assembleia da República depois de uma “profunda reflexão”, entregando o lugar temporariamente a Andreia Galvão, que não tinha, à data, qualquer experiência parlamentar.

A detenção e posterior regresso de Mortágua coincidiu com a reta final da campanha autárquica e foi um dos grandes temas da corrida a Lisboa. Mas a solução foi rejeitada pelos lisboetas, ao ponto de a frente de esquerda ter perdido 12.500 votos em quatro anos — sozinhos, PS, Livre, BE e PAN tinham tido melhores resultados em 2021. A última grande tentativa de Mariana Mortágua de manter o partido politicamente relevante num grande palco tinha falhado.

No primeiro grande desaire, logo a seguir às legislativas de maio, Mariana Mortágua recusou demitir-se e justificou o mau resultado o partido com a “viragem à direita no mundo”. Na noite das autárquicas, a bloquista falou antes num resultado “modesto” e defendeu a estratégia seguida, dizendo que era a “correta” e apontava um “rumo para o futuro”. Agora, duas semanas depois, é a própria que decide abandonar a liderança do partido, reconhecendo ter ficado aquém dos objetivos traçados.

A demissão surge depois de um artigo particularmente violento de Daniel Oliveira, fundador e antigo dirigente do Bloco de Esquerda. Num texto publicado no Expresso (“O que é preciso mais para a Mariana Mortágua perceber?“), o comentador apontava a porta de saída à bloquista: “É incompreensível que, a preparar a sua convenção, o Bloco ainda não tenha decidido mudar a liderança. Na realidade, é impensável que não seja a própria Mariana a decidi-lo, deixando espaço e tempo para uma verdadeira escolha dos militantes”, escreveu Daniel Oliveira.

No mesmo dia, Francisco Louçã, a grande influência de Mariana Mortágua, saiu em defesa da bloquista. “A direita mobiliza-se para a maior campanha de mentiras da história da democracia. Nunca houve uma mulher tão atacada pela violência do ódio. Chama-se Mariana”, escreveu o fundador do partido. Apesar de tudo, não foi suficiente para motivar Mortágua a continuar à frente do partido. O partido prepara-se agora para abrir um novo ciclo num quadro de grande incerteza sobre as suas hipóteses de sobrevivência.

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