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Boris Johnson tem o caminho aberto, mas não é garantido que tenha vida fácil /premium

Com uma maioria na mão, Boris Johnson tem o caminho aberto para fechar o Brexit. Mas isso não significa que terá vida fácil — ainda tem muito que negociar com a UE e a Escócia promete ser um problema.

Já é de madrugada e Boris Johnson tem atrás de si onze políticos derrotados. Destes, oito ostentam uma cara de desagrado e, dos três que restam, não há como saber. Um deles, o candidato que se inscreveu como Count Binface (Conde Cabeça de Caixote do Lixo) tem a cara coberta, pelas razões que o seu próprio nome indica. O mesmo se aplica ao Lord Buckethead (Lorde Cabeça de Balde). E o único sorriso que o candidato que foi vestido de Elmo mostra é o da sua máscara, em honra àquela personagem da Rua Sésamo.

Mas se são sorrisos o que procuramos, enquanto se ouvem os resultados no círculo eleitoral de Uxbridge e Ruislip South, basta olhar para o de Alexander Boris de Pfeffel Johnson, o homem que o mundo conhece como Boris Johnson e que os britânicos escolheram para liderar um Governo com maioria do Partido Conservador, após uma campanha assente numa promessa que foi repetida vezes sem conta nos últimos meses: “Cumprir o Brexit”.

Inchado de felicidade por ter conseguido aquilo que queria, Johnson discursou por breves instantes. No Reino Unido, as noites eleitorais não são passadas em sedes de campanha, mas antes com cada candidato a ir aos centros de contagem do seu círculo eleitoral. É por isso que, em vez de rodeado pelos seus camaradas de partido, Boris Johnson falou em frente àquelas caras sombrias e personagens estranhas.

(OLI SCARFF/AFP via Getty Images)

OLI SCARFF/AFP via Getty Images

Começou por fazer uma lista de agradecimentos. “Agradeço aos meus colegas candidatos, em toda a sua glória, o Lord Buckethead, o Elmo e os outros”, disse, escusando-se a enumerar o adversário trabalhista ou liberal-democrata, entre outros.

Depois, agradeceu “ao povo deste país” por ter votado para “mudar este país pela positiva”. E tem razões para isso. Boris Johnson obteve para o Partido Conservador a maior vitória desde 1987 (ano da terceira e última eleição de Margaret Thatcher) ao conseguir derrubar a “muralha vermelha” do Partido Trabalhista, roubando votos a Jeremy Corbyn nos círculos que tipicamente votam Labour, mas que, agora, preferiram votar de forma a assegurar um Brexit a 31 de janeiro de 2020.

E já em jeito de despedida, porque aquele não é lugar para discursos demorados, acrescentou: “O nosso trabalho começa amanhã!”. Segundos depois, apercebendo-se de que eram quase 4 da manhã quando falava, fez um gesto teatralmente trapalhão e corrigiu-se: “Não é amanhã, é já hoje!”.

Seja “amanhã”, seja “hoje”, o caminho de Boris Johnson é agora mais fácil do que alguma vez o foi. Não é por isso, ainda assim, que não tenha umas quantas pedras no caminho.

E agora, como é que se cumpre o Brexit?

A lista de votações passadas em torno do Brexit na Câmara dos Comuns é extensa. Nem sempre a proposta levada a votos era a mesma, mas o resultado, ele sim, foi quase sempre o mesmo: nunca houve uma maioria de deputados a favor dos termos propostos para o Brexit. Foi assim no tempo de Theresa May e só começou a mudar no primeiro mandato de Boris Johnson — durante o qual o primeiro-ministro conseguiu aprovar o acordo, apesar de o processo ter sido suspenso logo depois.

No segundo mandato, porém, uma mudança total é certa. Ao contrário do que aconteceu com Theresa May, o Partido Conservador passará agora a ter uma maioria absoluta. Além disso, após vários episódios de discussão interna, nem todos pacíficos, o Partido Conservador levou a estas eleições um lote de deputados que é favorável à saída do Reino Unido nos termos ditados pelo acordo que Boris Johnson conseguiu com Bruxelas.

Mais do que nunca, o Brexit está mais perto de acontecer — e a data de 31 de janeiro de 2020 é agora verdadeiramente realista. Mas este é um tema longe de estar encerrado, porque depois disso o Reino Unido terá de negociar um acordo comercial com UE até ao final de junho. Um objetivo ambicioso para um calendário apertado.

Ou seja, neste “hoje” de que Boris Johnson falou na noite eleitoral, o caminho está aberto para o Brexit começar a acontecer efetivamente a 31 de janeiro 2020 — a data oficial para a saída do Reino Unido da UE, depois de terem sido furados os prazos iniciais de 29 de março e 31 de outubro de 2019. O Brexit é uma obsessão pessoal deste político que sempre usou o seu estilo de espalhafato ensaiado para promover uma agenda eurocética: foi assim como jornalista, continuou a sê-lo como colunista, assim permaneceu como mayor de Londres e foi com o seu chapéu de brexiteer que chegou a ministro de Theresa May e, mais tarde, a seu substituto no número 10 de Downing Street.

Por agora, bastaria continuar na Câmara dos Comuns o processo legislativa relativo ao acordo para o Brexit que Boris Johnson conseguiu com Bruxelas em outubro, aprovando todo o documento com facilidade — uma ideia simples, mas inconcebível até agora, em que os conservadores operavam sem maioria na Câmara dos Comuns e, por isso, tinham de lidar com cuidado com os seus parceiros do DUP (os unionistas da Irlanda do Norte, que na reta final desta legislativa queimaram pontes com os conservadores). Agora, os conservadores dependem apenas de si próprios e o que se sabe é que Boris Johnson quererá andar rápido: já terá feito saber que quer pôr os deputados a trabalhar durante o Natal, para acelerar a aprovação de toda a legislação. E não é difícil imaginar que pouco lhe daria mais orgulho do que conseguir sair da UE antes do final do prazo dado pela extensão mais recente.

Fim da história? Longe disso. Mesmo que o acordo seja definitivamente aprovado e o Brexit seja oficialmente acionado, pelo menos, a 31 de janeiro de 2020, a fase seguinte será o período de transição em que começa a negociação de um acordo comercial com entre o Reino Unido e a UE. O prazo para as duas partes chegarem a esse acordo bilateral é 30 de junho — e se não houver um acordo até essa data, o período de transição expira a 31 de dezembro de 2020 e o Reino Unido passará a ter uma relação comercial com a UE sem qualquer rede de segurança.

O caminho de Boris Johnson e do Brexit à sua medida não é, portanto, fácil. Mas ficou sem dúvida mais fácil agora que, à sua volta, além do alto e espadaúdo Lord Buckethead, mais ninguém lhe pode fazer sombra na política britânica.

A noite em que Corbyn percebeu que estas foram as eleições do Brexit

Também Jeremy Corbyn discursou esta noite tendo pelas costas um candidato com um chapéu peculiar — mas, ao contrário de Boris Johnson, o líder do Partido Trabalhista não sorriu. Afinal, não tinha razões para tal. Que o Labour ia perder já se esperava, com todas as sondagens a preverem unanimemente esta quarta derrota consecutiva trabalhista em eleições gerais — depois de 2010, 2015 e 2017. Porém, o que pouco previram foi a dimensão desta derrota, em que o Partido Trabalhista terminou com 203 deputados em 650 possíveis, registando assim o seu pior resultado desde a II Guerra Mundial.

Não foi, por tudo isto, surpreendente quando Corbyn anunciou uma espécie de demissão a seu tempo. “Não vou liderar o partido numa futura campanha para eleições gerais”, disse. “Vou discutir com o partido para garantir que há um processo de reflexão sobre os resultados e sobre as políticas futuras”, acrescentou, diante do pódio e com o candidato Nick The Incredible Flying Brick (Nick, o Incrível Tijolo Voador) pelas costas. Um período de reflexão interna que prometeu liderar.

Sem prazo definido para a sua saída, Jeremy Corbyn irá, ainda assim e inevitavelmente, sair pela porta pequena do Partido Trabalhista. É este o desfecho de uma liderança que começou em 2015 com a senda de puxar o partido para a esquerda e que, com essa promessa, atraiu um eleitorado jovem e radical, mas alienou os eleitores-tipo do Partido Trabalhista na “muralha vermelha”, isto é, nas cidades e vilas industriais e pós-industriais das Midlands e do Norte de Inglaterra.

Agora, aquele território que, até aqui, se pintava de vermelho é azul-conservador, por força de um tema em específico: Brexit. O próprio Jeremy Corbyn, que nunca definiu de forma clara qual é a sua posição em relação ao Brexit, reconhece isso mesmo.

Referindo que o programa do Labour estava marcado por ideias de “esperança e união” que iriam “corrigir os males das injustiças e desigualdades” neste país, Jeremy Corbyn acrescentou o que agora é óbvio: “No entanto, o Brexit polarizou tanto e dividiu o debate neste país, que se sobrepôs a muito do que marca o debate político normal. Reconheço que foi isso que contribuiu para o resultado que o Partido Trabalhista teve esta noite”.

"O Brexit polarizou tanto e dividiu o debate neste país que se sobrepôs a muito do que marca o debate político normal. Reconheço que foi isso que contribuiu para o resultado que o Partido Trabalhista teve esta noite."
Jeremy Corbyn

Antes de Jeremy Corbyn ter discursado, já vários dos seus camaradas de partido lhe tinham apontado o dedo na hora de procurar um responsável por esta hecatombe. A mais eloquente foi possivelmente a agora ex-deputada trabalhista Ruth Smeeth, líder do Movimento Judaico Trabalhista, que criticou fortemente o líder do partido pelo escândalo de anti-semitismo no seio do Labour.

“Ele fez de nós o partido nojento. Nós somos o partido racista e, quando há um primeiro-ministro que faz comentários islamofóbicos e, mesmo assim, nós é que somos o partido racista por causa das ações do meu líder — e a falta de ações dele e das pessoas com quem ele se relaciona —, então temos um problema sério”, disse aquela deputada que perdeu o lugar para o Partido Conservador.

Com vitória do SNP, Escócia pode tornar-se na Catalunha soft de Brexit

Se Nicola Sturgeon tiver festejado a eleição de cada deputado do SNP (sigla inglesa para os independentistas do Partido Nacionalista Escocês) da maneira como festejou a eleição da candidata Amy Callaghan em Dunbartonshire East, então é provável que tenha acabado a noite eleitoral com os braços doridos de tanto os erguer e agitar em sinal de triunfo, como foi captado pelas câmaras da Sky News.

É que não foi só um deputado que o SNP elegeu: foram 48, de um total de 59 possíveis em toda a Escócia. Este nem é o resultado mais elevado da história do SNP (acima deste, está o de 2015, com 56 deputados), mas, ainda assim, o momento em que os nacionalistas ressurgem é aquele que mais serve a sua agenda. Afinal de contas, o SNP é, além de nacionalista escocês, profundamente pró-UE. Ora, neste jogo de soma-zero em que se tornou a política britânica, a perspetiva do SNP é que a aproximação real do Brexit, agora que Boris Johnson tem uma maioria do seu lado, pode ser o combustível necessário para um novo ressurgimento nacionalista na Escócia.

"O povo da Escócia expressou a sua vontade de não ter Boris Johnson como primeiro-ministro e de não ter um Brexit."
Nicola Sturgeon

“Os resultados no Reino Unido são bastante sombrios, mas isso demonstra que a Escócia e o Reino Unido estão em caminhos divergentes”, disse Nicola Sturgeon já na madrugada de sexta-feira. “O povo da Escócia expressou a sua vontade de não ter Boris Johnson como primeiro-ministro e de não ter um Brexit.”

Ora, a única maneira de a Escócia não ter Boris Johnson como primeiro-ministro e de não fazer parte do Brexit caso este avance mesmo é se a Escócia não for… parte do Reino Unido. Por isso, nos próximos dias, Nicola Sturgeon deverá pegar num papel timbrado com o brasão de Holyrood (a sede do Governo escocês) e dirigi-lo ao número 10 de Downing Street com um pedido de Natal: um referendo à independência da Escócia.

A acontecer, o referendo não seria o primeiro. Em 2014, aquela nação foi a votos para decidir se queria ou não continuar dentro do Reino Unido — acabando por vencer a opção unionista com 55,3%, contra 44,7% que quiseram a independência. Aquele referendo, que foi possível graças à negociação entre o governo escocês e o governo central britânico, acabou por ser um modelo reclamado em Espanha pelo independentismo catalão. Porém, como se sabe, ali só se realizaram, até hoje, referendos ilegais: em 2014, convocado como tendo caráter meramente vinculativo; em 2017, que o governo regional catalão promoveu como vinculativo, mas que foi tudo menos isso.

Poderá a Escócia de 2020 assemelhar-se à Catalunha, marcando um impasse com o governo britânico? (Stewart Kirby/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

Stewart Kirby/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

A ironia desta situação é que os independentistas catalães poderão continuar a reclamar uma situação como a da Escócia em 2014, mas muito dificilmente farão o mesmo para a Escócia de 2019 ou 2020. Isto porque, de acordo com o que Boris Johnson já deixou claro várias vezes durante a campanha e os meses que leva de Governo, não há qualquer disponibilidade do Governo central para permitir um referendo na Escócia.

Esta situação foi habilmente resumida pelo ex-speaker da Câmara dos Comuns, John Bercow, no seu comentário da noite eleitoral na Sky News.

“Será um caso da força imparável [independentismo escocês] que choca contra o objeto imóvel [governo central britânico]”, disse. “Não será a primeira vez na política britânica, mas Boris Johnson já foi absolutamente claro ao dizer que os conservadores não têm qualquer intenção de permitir outro referendo à independência e, ao mesmo tempo, Nicola Sturgeon tem insistido de forma resoluta na ideia de que esse é o direito do povo escocês.”

Então, depois de tanto tempo em que a Catalunha pede para ser Escócia, é possível que seja a Escócia a passar a ser Catalunha?

"É preciso que haja um processo legal, constitucional, que consiga levar à aceitação do resultado não só no Reino Unido como também na UE."
Nicola Sturgeon

Para já, não. Numa entrevista concedida à BBC na última semana da campanha, Nicola Sturgeon prometeu a via da tensão, mas descartou por completo a convocatória de um referendo à revelia de Londres.

“O meu trabalho é tentar ganhar a independência da Escócia e não ficar apenas por um referendo para provar a minha posição ou ter um gesto. Então, é preciso que haja um processo. Por mais difícil que isso possa parecer às vezes, é preciso que haja um processo legal, constitucional, que consiga levar à aceitação do resultado não só no Reino Unido como também na UE”, disse Nicola Sturgeon, numa declaração que poderá fazer Boris Johnson suspirar de alívio. Mas até quando?

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