Sebastião Bugalho deu mais um passo na sua afirmação como figura nacional do PSD. Incentivado por Luís Montenegro e Hugo Soares, o eurodeputado não só foi a mais de 80 autarquias nos últimos meses, como nas últimas duas semanas substituiu o líder do partido na volta nacional durante um dia inteiro e metade de outro. Nas últimas duas semanas, teve exatamente o mesmo palco que o substituto natural de Montenegro, o secretário-geral. A aposta em Bugalho, sabe o Observador, está relacionada com a notoriedade e com os pedidos dos próprios autarcas.
A presença de Bugalho a substituir o primeiro-ministro dá-lhe um estatuto que ajuda às ambições futuras do próprio (que não assume diretamente), mas também o vincula à atual liderança do PSD, gerido pela dupla Montenegro-Soares. Ambos são complacentes e apadrinham este crescimento interno do ex-jornalista e comentador político. Se é verdade que Bugalho não enjeita vir a liderar o partido, no PSD destaca-se que “não é concorrência geracional para Hugo Soares e muito menos para Montenegro”. A abordagem de Montenegro é pragmática: se Bugalho é popular, o melhor é aproveitá-lo a favor dos candidatos autárquicos.
O eurodeputado também não ousa afrontar ou desafiar a hierarquia formal e informal do partido. Numa ação de campanha em Cascais esta terça-feira, onde estava o Observador, deixava claro sobre esses dias que não estava a competir com Hugo Soares e muito menos com Montenegro: “Não estive a substituir o primeiro-ministro, estive em nome da direção do partido e do presidente do partido. E só substitui o presidente do PSD o secretário-geral do PSD, aquilo que pode acontecer pontualmente é eu substituir o secretário geral”. Há aqui uma nuance: ao mesmo tempo que tem essa humildade tática, assume-se como uma espécie de número três informal do PSD — o substituto de Hugo Soares.
O Observador já tinha noticiado em agosto que Bugalho estava a criar uma rede no partido, aproximando-se do aparelho com a ida a várias capelinhas autárquicas. Agora continuou a fazê-lo de forma intensa e ainda teve o tal bónus de ser convidado a fazer as vezes de primeiro-ministro, papel que interpretou sem falsas modéstias.
Bugalho não se encolhe e veste o fato de líder por inteiro: os ataques diretos a Carneiro
Apesar das autárquicas se realizarem em 308 concelhos, os líderes dos maiores partidos fazem por norma uma volta nacional. Os que estão na oposição, protagonizam essas campanhas. Por outro lado, quando estão no Governo, colocam um membro da direção a liderar a caravana. Em 2013, quando Passos era primeiro-ministro, foi o vice-presidente Marco António Costa a fazer a volta nacional em todos os dias que o chefe de Governo não podia. Desta vez, Montenegro é primeiro-ministro e por isso Hugo Soares esteve a substituí-lo um dia e meio e Sebastião Bugalho outro dia e meio.
Um dos dias foi, aliás, partilhado por ambos. No domingo antes do arranque oficial da campanha, Hugo Soares esteve ao final do dia na apresentação do candidato a Lamego, mas foi Bugalho a substituir Montenegro ao final da manhã em Águeda.
Perante a oportunidade que lhe é dada, Bugalho não vacila. Desde logo, prepara-se meticulosamente como fazia antes de cada comentário televisivo. Antes de ir a cada localidade, estuda quem são os dirigentes locais, o resultado das últimas autárquicas e o resultado esperado. Estuda também que são os candidatos (ao executivo e às assembleias municipais) com um grau de profissionalismo que lhe permite fazer boa figura (pelo conhecimento da sala) quando sobe ao palco.
Perante o público de Águeda, a 28 de setembro, Bugalho não se acanhou e — embora estivesse em mangas arregaçadas, a demonstrar juventude e ação — vestiu o fato de primeiro-ministro sem pejo. Dispensadas as cortesias obrigatórias aos candidatos locais, ainda antes dos quatro minutos de discurso já o eurodeputado se colocava ao mesmo nível do líder do PS (o maior rival do PSD nestas autárquicas).
“Permitam-me uma nota nacional“, começou por avisar Bugalho. O eurodeputado lembrou depois que se cumpria, naquele dia (lá está, o tal trabalho de casa), precisamente “três meses de liderança de José Luís Carneiro à frente do PS”. E definia: “É o tempo certo para fazermos um diagnóstico desta nova liderança do PS.”
Bugalho prontamente partiu ao ataque ao líder do PS para dizer que “já se percebeu que não se percebe nada sobre o dr. José Luís Carneiro. De forma extraordinária, em três meses o líder do PS desafiou o Governo para cinco pactos de regime. Passou esses três meses a acusar o Governo de estar ao lado do Chega. Quer fazer acordos com alguém que acusa de estar ao lado do Chega. É um pouco estranho.” Num discurso que podia ser feito um líder do partido, Bugalho acrescentava que é tempo de “José Luís Carneiro decidir se quer acusar, ou quer dialogar; se quer soluções; ou quer problemas. Se quer acordos em nome do interesse nacional ou se quer o populismo do seu interesse partidário. É que, sinceramente, não se percebe.”
Bugalho visava ainda Pedro Nuno Santos ao dizer que esperava que a atual liderança do PS fosse “mais coerente” e que nunca pensou que quando o PSD disse que ia “dialogar com todos”, teria de dialogar com “vários PS”. E não dispensou farpas mais mordazes dirigidas a Carneiro: “Tenho andado em campanha autárquica e cheguei aos Açores e disseram-me: ‘Olhe, aqui há umas semanas esteve cá o José Luís Carneiro. Chegou e disse: aqui falamos de oito realidades distintas com a sua própria singularidade. Os Açores são 9 ilhas, não são 8. Não deixa de ser extraordinário que estando nós a disputar eleições autárquicas, que visam escolher quem conhece melhor o território, tenhamos um líder da oposição que não sabe quantas ilhas tem os Açores.”
Bugalho, que estava perante uma sala cheia, fez questão ainda de comparar a sua capacidade de mobilizar pessoas com a de José Luís Carneiro. “Não é por acaso que, aqui há dias, quando esteve no [Parque] Sabugueiro aqui ao lado, o líder do PS não tinha mais de 100 pessoas. Pudera. Nesta sala estão bem mais de 100 pessoas. Não é de estranhar. Aqui nós sabemos quantas ilhas tem os Açores.”
A jogada final de Bugalho foi desafiar diretamente José Luís Carneiro, fazendo-lhe o que o próprio classificou de “diatribe”: “Doutor José Luís Carneiro há ou não faltas de casa disponíveis do mercado? Sim ou não? Segunda pergunta, as medidas deste Governo vão ou não em ter mais casas no mercado? Sim ou não?”
José Luís Carneiro mordeu o isco e respondeu a Bugalho, valorizando o eurodeputado do PSD. No dia seguinte, o líder do PS ripostou, atirando-se à juventude do social-democrata: “Sebastião Bugalho ainda tem muito que aprender e vai ter tempo para aprender. Espero que aproveite bem o tempo no Parlamento Europeu para ganhar experiência política, para poder depois colocar as questões nos termos em que elas podem ser colocadas. Tenho imenso respeito pessoal pela sua pessoa, tenho até uma relação de amizade, mas anda tem muito para aprender no plano político”.
Carneiro revelava que era amigo de Bugalho, mas, além de o atacar com a idade ainda o visaria pelo salário: “Já agora, julgo que o salário do deputado europeu é capaz de preencher os requisitos para as rendas assistidas do governo, ou seja, estará acima dos 2.300 euros”. Bugalho acabaria por repetir a receita, voltando a visar José Luís Carneiro no dia inteiro de campanha, em que fez discursos em Viseu e na Covilhã. A estratégia estava a correr-lhe bem.
As honras de líder
Por estar a substituir o líder do PSD, Sebastião Bugalho teve com ele toda a equipa do PSD de fotografia, vídeo e redes socais. Os discursos em Viseu e na Covilhã foram transmitidos em direto em todas as plataformas do PSD, que são seguidas por centenas de milhares de pessoas.
Bugalho foi aproveitando o à vontade que tem perante as câmaras para se destacar no palco. Fosse a gritar pelo PSD, pela JSD — com os respetivos gestos — seja nos prolongados elogios a candidatos locais. Além do candidato Fernando Ruas (com quem fez paralelismos por ter sido também deputado europeu), em Viseu não deixou de elogiar o ministro Leitão Amaro (que é dali) ou de de dar um cumprimento especial a José Cesário, histórico do PSD entre as comunidades.
Essa atenção às estruturas fê-lo elogiar o santanista Manuel Frexes na Covilhã, onde aproveitou uma interação com um jornalista para fazer uma graça. Quando o jornalista da CMTV pousou o microfone no púlpito tapando em parte o seu Iphone, Bugalho disparou: “Assim não vejo as minhas notas, caro amigo.” Mas, sempre em tom bom humorado, acabaria para acrescentar entre sorrisos: “Não tem mal nenhum”. Para Bugalho — que um dirigente do PSD descreveria ao Observador como “animal mediático” — a presença da comunicação social e a atenção mediática é sempre motivo de felicidade, não o contrário.
[Há um novo candidato a Belém. Soares fica em choque com o anúncio do amigo que considera irmão. Freitas elege Zenha como principal adversário. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui.]
A agenda paralela “sempre a subir…”. E a benção de Montenegro
Bugalho vai chegar ao fim da campanha autárquica com mais de oitenta carimbos de municípios que visitou. Além do dia e meio em que substituiu o líder, o eurodeputado teve uma agenda própria preenchida que foi impulsionada quer por convites diretos dos autarcas quer por sugestão da nacional do PSD (leia-se, Hugo Soares). A última semana de campanha não está a ser exceção. Na segunda-feira, esteve no Seixal, esta terça-feira à noite estará no comício de Marco Pina em Odivelas e ainda participou numa arruada com Carlos Moedas.
Outro exemplo aconteceu esta terça-feira de manhã , Sebastião Bugalho esteve a acompanhar Nuno Piteira Lopes, candidato da coligação PSD/CDS à Câmara Municipal de Cascais, numa ação de campanha em Carcavelos. Luís Montenegro já voltou à campanha, mas o eurodeputado continua essa agenda própria. Aos jornalistas, desvaloriza o número de viagens que tem feito (e vai continuar a fazer) na estrada para acompanhar os candidatos do PSD, dizendo que “o que conta são os votos nos candidatos“, e não os “quilómetros” que faz por eles. E mantém a contenção: “Tenho a certeza que a minha vinda aqui não vai influenciar a vitória que está a ser construída todos os dias”.
Mas a verdade é que nesta ação, em que praticamente não houve contacto com a população, o eurodeputado não deixou de ser abordado. Em visita a um dos edifícios na zona de Carcavelos que está a ser reabilitado para habitação acessível, um dos engenheiros responsáveis pela obra aproximou-se dele e confessou admiração pelo jovem social-democrata. “Isto agora é sempre a subir, não é?” Confrontado com possíveis caminhos futuros, Bugalho chuta para canto: “Subir só se for no guindaste”, afirma, antes de lembrar o cargo pelo qual foi eleito há pouco mais de um ano. “Eu estou lá bem“, garante.
Foi também numa dessas ações, na Amadora, que Sebastião fez questão de estar presente. Nesse caso, também esteve o líder Luís Montenegro, que se desfez em elogios, mas apresetando-se como uma espécie de padrinho político-partidário de Bugalho. Luís Montenegro comentou na altura que Bugalho “tem sido uma ajuda muito importante nesta campanha”, já que pelas suas “responsabilidades como primeiro-ministro” tem de se “valer de alguns dos nossos representantes máximos e o Sebastião é um deles”
Sobre se isso seria uma passagem de testemunho, Montenegro meteu água na fervura, para dizer que esta é “a oportunidade de o Sebastião continuar a conhecer bem o país, a sua realidade, os problemas das pessoas para nos ajudar a partir do Parlamento Europeu.” Mas, pouco depois, deixava escapar que quem tiver ambições de liderar o país tem de ir ao terreno: “Esta proximidade com os autarcas é muito importante. Este conhecimento do terreno, que espero ter sido uma escola que fique dos próximos anos para quem quer olhar para a gestão do país, aquilo que fizemos quando fomos aos 308 municípios do país.”
Montenegro chega a ser questionado sobre se pensa meter os papéis para a reforma, mas garantiu que não. Sobre sucessões, foi fugindo à conversa, embora admitisse que Bugalho é um “quadro altamente qualificado do nosso partido” e que tem “um grato prazer de ter contribuído para a sua entrada, quer na vida política propriamente dita, com a função elevada no Parlamento Europeu quer também com a vida partidária por ter assinado a sua ficha de propositura a militância, que hoje exerce”. Ou seja: elogio Bugalho, mas coloca-o num patamar de afilhado político.
Os eurodeputados não servem para nada?
Por estar em Portugal, Sebastião Bugalho teve de se fazer substituir em comissões no Parlamento Europeu. O eurodeputado, sabe o Observador, vai faltar esta semana à sessão do Parlamento Europeu em Estrasburgo, precisamente porque está a fazer campanha autárquica em Portugal. Fonte do PSD desvaloriza essa ausência, lembrando que “dois colegas de Bugalho, Catarina Martins e João Cotrim Figueiredo são candidatos presidenciais e também vão ter de se ausentar para fazer campanha”.
Há, dentro do próprio PSD, quem discorde. O ex-deputado e comentador político Miguel Morgado disse na última semana na Vichyssoise, da Rádio Observador, que esta aposta em Bugalho “significa que os eurodeputados não servem para nada.” E acrescenta: “Ele é eurodeputado e passa o tempo aqui em Portugal? Se ele é o líder da bancada do PSD, Sebastião Bugalho, devia lá estar. Não sei, há encontros, há a Rússia invadir isto, as grandes reformas da Europa e ele passa cá o tempo?”
Num tom crítico, Miguel Morgado acrescenta que Bugalho, que foi seu aluno, “tem lá as aspirações, já se percebeu o que é que ele está a fazer: está a preparar uma espécie de sucessão partidária a 10 anos, a 15 anos, tudo bem, nada contra. Mas depois não me peçam para votar em eurodeputados que passam o tempo cá.”
Morgado desconfia ainda que Montenegro e Hugo Soares estão a preparar uma sucessão para daqui a uma década. “A seguir a Luís Montenegro, há uma pessoa que manda, inequivocamente, e ninguém tem dúvida sobre isso no PSD, que é o Hugo Soares (…) E parece que com este apoio querem preparar o Sebastião Bugalho para 10, 15 anos, não sei, só pode ser essa razão.” A confirmarem-se as estimativas temporais, em 2035 ou 2040 se verá se Miguel Morgado tinha ou não razão sobre Bugalho. Esse calendário seria, porém, um caminho muito longo para quem já está desde 2024 na estrada.