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O número mágico agora é 320. Para trás ficaram 19 meses de negociação com a União Europeia (UE), três ministros britânicos para o Brexit (David Davis, Dominic Raab, Stephen Barclay) e 585 páginas de proposta de acordo para a saída do Reino Unido. Agora, no tudo ou nada que é a apresentação do documento perante a Câmara dos Comuns, que será votado esta semana, só um número importa: 320, o número de deputados que tem de aprovar o acordo para que Theresa May possa respirar de alívio.

Ao todo, há 650 Members of Parliament (MPs) na câmara baixa do Parlamento britânico. Como 11 não votam (o presidente dos Comuns, John Bercow, os seus vices e os deputados do Sinn Féin, que recusam ocupar os seus lugares), a maioria alcança-se quando 320 dos 639 votantes se unem. Em teoria, tal deveria ser fácil para um Governo como o de May, que tem maioria parlamentar: há 315 deputados do Partido Conservador, a que se somam 10 deputados do Partido Unionista Democrático (DUP na sigla original) que apoiam o Executivo nos Comuns.

Não é, no entanto, assim tão simples. No que toca ao Brexit, as divisões não se fazem pelas tradicionais linhas partidárias, nem por um separar de águas entre esquerda e direita. E são tantos os tories, companheiros de partido de May, que têm demonstrado descontentamento com este acordo que, olhando para a matemática, o mais certo é a primeira-ministra precisar de ir buscar votos tanto à direita como à esquerda para conseguir aprovar a sua proposta de acordo.

Era assim em novembro, em dezembro e continua a ser assim em janeiro. Desde que a votação foi inicialmente anunciada, May adiou-a para tentar conseguir mais “garantias” em Bruxelas, sobreviveu a uma moção de censura interna do partido e enfrentou uma ameaça de moção de censura parlamentar dos Trabalhistas que ainda não se concretizou. Pelo meio, o Parlamento esteve encerrado para férias de Natal dando aos deputados mais tempo para refletir. No entanto, à beira da votação, o cenário parece inalterado em janeiro: é muito pouco provável que a primeira-ministra consiga aprovar este acordo esta terça-feira. Ou, como resumiu o deputado tory eurocético Mark François, “como disse a primeira-ministra, nada mudou. Que eu saiba, nenhum deputado conservador que se afirmou contra o acordo veio a público retratar-se.”

Conseguirá a primeira-ministra puxar da calculadora e dar a volta a este problema de aritmética?

O ponto de partida: convencer mais de 120 deputados

Ao longo dos últimos dias, enquanto a proposta foi sendo discutida em plenário, as verdadeiras ações foram sendo tomadas nos corredores. Os whips, as figuras dos partidos que tentam manter a disciplina de voto e convencer — ou, segundo alguns relatos do passado, ameaçar — os deputados a votarem de acordo com os interesses da liderança das várias forças políticas, estarão a trabalhar a todo o vapor. “Os whips enfrentarão um grande desafio para tentar convencer os potenciais rebeldes”, resumiu ao Observador Henry Newman, diretor do think tank Open Europe e ex-assessor de Michael Gove, ministro do Ambiente e um dos principais Brexiteers deste Governo. “Mas, nesta fase do campeonato, parece impossível que a primeira-ministra consiga vencer esta votação”, previa ainda em dezembro.

Em janeiro, pouco mudou. Olhemos para os números: assumidamente contra estão os 35 deputados do Partido Nacional Escocês, 11 dos Liberais Democratas, os 4 MPs do Playd Cymru e a única deputada dos Verdes. Dentro do Partido Trabalhista, prevê-se que 230 a 240 deputados — os que acompanham a linha do líder Jeremy Corbyn, bem como os mais entusiastas da UE — também votem contra.

Sobram alguns grupos que podem ser persuadidos. Os tories mais europeístas (a favor de Remain no referendo), por um lado, ou, paradoxalmente, os trabalhistas a favor do Brexit, por outro, podem encontrar pontos em comum neste acordo e ser convencidos por May. Mas, mesmo assumindo que este é o ponto de partida, continuam a faltar cerca de 120 votos à primeira-ministra. E nem é certo que os 19 trabalhistas pró-Brexit aprovem todos o acordo — mas já lá vamos.

Para facilitar o raciocínio, imaginemos que tal acontece e que May fica só 120 votos aquém da meta. Como pode conquistá-los? As estimativas feitas pelo Observador, com base nas intenções de voto recolhidas sobretudo pelo Guardian e pela Bloomberg, colocam várias hipóteses em cima da mesa — mas, na matemática deste acordo, por um deputado se ganha e por um deputado se perde. Vejamos, então, quais são algumas das hipóteses.

Uma hipótese: May convence os tories indecisos. Mas não chega

Dentro do Partido Conservador, há opiniões sobre o Brexit para todos os gostos. Há os chamados Brexiteers “radicais”, geralmente associados ao European Research Group (ERG) de Jacob Rees-Mogg, que querem uma saída da UE a toda a força, mesmo que isso signifique não ter acordo. Há os que gostariam de ver modelos alternativos de Brexit a serem aplicados, como o chamado “modelo da Noruega”, defendido pela ex-ministra da Educação Nicky Morgan, por exemplo. E há os que defendem a realização de um novo referendo, como Anna Soubry, ou os que simplesmente preferiam ficar dentro do espaço europeu, mas podem ter-se resignado, como é o caso Stephen Hammond.

Mas há, sobretudo, uma massa indistinguível de deputados conservadores que são a favor do Brexit, mas que ninguém sabe onde se encaixam exatamente no que diz respeito a este acordo. “Foi a hesitação dela, a prevaricação, a falta de coragem e de liderança que me fizeram pensar que ela tem de ir embora, que o problema é ela”, resumia um deputado torie em outubro sobre May, a propósito de mais uma das guinadas do acordo. “Mas depois pensei ‘eeeeh, eeeh, esperem um minuto, se calhar isso não está certo. Quem teríamos em vez dela? O que seria do país? Respira fundo. Tem cuidado com o que desejas’”, acrescentou.

É este pensamento que os whips de May tentarão passar à força a estes deputados mais indecisos — ou mais influenciáveis, dependendo da perspetiva. “Se não for aprovado este acordo, o que será do país?”, dirão. No passado, outros já foram convencidos, sobretudo quando lhes foi oferecido algo em troca — como Geoffrey Cox, nomeado procurador-geral depois de ter apoiado o plano de Chequers de May. Haverá ofertas e persuasão suficiente para convencer os cerca de 65 indecisos?

Novo cenário: tories indecisos + aliados unionistas. Ainda não chega

Imaginemos então que esse desafio foi ultrapassado e que May convence os tories pró-europeus, os trabalhistas pró-Brexit e os conservadores indecisos. Continua, no entanto, com apenas 263 votos, mais coisa menos coisa. Terá de convencer mais 57 pessoas a apoiarem a sua proposta de acordo para alcançar o tal número mágico de 320.

Pode ser, então, altura de tentar fazer as pazes com os unionistas norte-irlandeses do DUP. Até aqui, o pequeno partido tem servido como muleta de May no Governo, mas ameaça agora dar o grito do Ipiranga nesta matéria fulcral. Porquê? Por causa da solução encontrada para o problema na fronteira da Irlanda, claro está.

Em causa está a chave para evitar uma fronteira física a separar as duas Irlandas (como previsto nos Acordos de Paz de Sexta-Feira Santa). Uma chamada “apólice de seguro” que entraria em vigor caso não seja encontrada uma solução até ao fim do período de transição, que manteria todo o Reino Unido numa união aduaneira com os parceiros europeus. May crê que, assim, está a respeitar os desejos do DUP de ter as mesmas condições para a Irlanda do Norte do que para o resto do país.

Só que, como a líder do partido, Arlene Foster, deixou claro num comunicado a 13 de novembro, o DUP não concorda de todo com esse backstop. “Seria democraticamente inaceitável para a Irlanda do Norte ter regras comerciais definidas por Bruxelas. A Irlanda do Norte não teria qualquer representação em Bruxelas e estaria dependente do Governo de Dublin”, escreveu.

Dois meses mais tarde, a posição do partido parece inalterada. “O backstop continua a ser o veneno que torna qualquer voto a favor deste acordo tóxico”, declarou o líder parlamentar do DUP, Nigel Dodds, a 7 de janeiro. Será difícil para May ganhar esses 10 votos sem mexer no acordo que está em cima da mesa e retirar o backstop — e isso, por enquanto, parece impossível. Portanto, a não ser que haja uma guinada total e completa de May — ou que os seus whips trabalhem de forma extraordinária —, parece difícil o DUP mudar de opinião.

Quantos conservadores eurocéticos seriam ainda precisos para aprovar este acordo? Quase 50

Imaginemos, mesmo assim, que May e os seus whips fazem um passe de mágica e conseguem o que agora parece impossível. Com 273 votos a favor, falta convencer quase 50 deputados. Onde ir buscá-los? Bom, tem apenas duas hipóteses: entre os tories mais eurocéticos ou nos adversários do Labour. E as duas estão bastante mais interligadas do que se poderia pensar, já que a solução poderia passar por conquistar alguns votos num lado e no outro.

Para apelar a tories conservadores, defensores de um Brexit radical — os “ultras”, como lhes chama o Guardian —, May só pode repetir o disco de que “este acordo é um bom acordo”. Contudo, é pouco provável que os convença. Boris Johnson, por exemplo, que tem repetidamente mostrado os dentes à primeira-ministra e revela não ter qualquer receio de uma saída da UE sem acordo, está disposto a chumbar a proposta sem hesitação.

A oposição a May entre os Brexiteers é tanta que foram eles os responsáveis por assinar cartas para forçar uma moção de censura à primeira-ministra. Conseguiram-no, mas o resultado não foi o que esperavam: May venceu a votação e sobreviveu para continuar a lutar, embora tenha deixado a promessa de que não irá recandidatar-se. Contudo, questionado sobre um possível voto a favor de uma moção de censura iniciada pelo Labour, Rees-Mogg rejeitou essa hipótese. Tal significa que, talvez, não haja assim tanto desejo de deitar abaixo May entre os menos de 70 tories deste grupo. Desses, 51 apoiaram publicamente a campanha StandUp4Brexit, contra este acordo. Mas também não é certo que todos esses resistam às pressões e adulações de última hora dos whips.

Se os conseguisse convencer a todos, May veria a proposta do acordo ser aprovada confortavelmente. No entanto (e assumindo que convenceu todos os grupos anteriormente mencionados), não precisa sequer de todos: precisa de 47. Ou menos, se conseguir compensar esses votos com trabalhistas rebeldes que desafiem o líder Jeremy Corbyn. O que nos leva… ao papel do Labour.

Trabalhistas são chave — para aprovar acordo e para o futuro

Ao todo, os trabalhistas têm 257 deputados na Câmara dos Comuns. Segundo as estimativas da consultora Edelman, May precisa que pelo menos 14 votem a favor da sua proposta para que ela seja aprovada. Corbyn tem declarado que o Partido Trabalhista votará contra o acordo, por não respeitar os seis princípios exigidos pelo Labour.

O mais provável é que, tendo em conta as declarações que os vários deputados têm feito, a maioria do partido siga a linha do seu líder. As únicas esperanças de May assentam em dois grupos de deputados trabalhistas: os cerca de 5 ou 6 que defendem abertamente o Brexit, como Kate Hoey, e os 13 que representam círculos eleitorais que votaram a favor da saída da UE (como Caroline Flint, por exemplo) e que não querem ir contra os desejos dos seus eleitores.

No início deste texto, assumimos que tal poderia ser o caso e que a primeira-ministra poderia contar com quase 20 votos de deputados trabalhistas. Só que, claro está, nada é assim tão simples. A própria Kate Hoey, abertamente a favor da saída da UE, tem criticado a proposta que está em cima da mesa: “Isto não parece ser aquilo para o qual as pessoas votaram há dois anos”, declarou há duas semanas, falando num acordo em que o Reino Unido estaria “um bocadinho dentro e um bocadinho fora” do espaço europeu.

Por essa mesma altura, o Guardian noticiava que fontes dos tories falavam na possibilidade de se convencerem cerca de 20 deputados trabalhistas, mas que, um dia depois, já havia rumores de que muitos poderiam estar decididos a acompanhar Corbyn. Entre os Brexiteers trabalhistas, Graham Stringer já disse “ter quase a certeza” que votará contra o acordo e há rumores de que outro destacado membro do Labour pró-Brexit, Dennis Skinner, está inclinado a fazer o mesmo. Desde então, um muro de silêncio tem-se erguido entre os deputados trabalhistas.

O número mágico de 320 está, por isso, cada vez mais dependente do maior partido da oposição. A guerra pelos votos continuará, nos bastidores. E, com o Labour a anunciar que, em caso de chumbo, apresentará uma moção de censura, a perspetiva de queda de Governo e eleições antecipadas está sempre no horizonte — apesar de, mesmo votando contra o acordo, a maioria dos conservadores poder recuar face à possibilidade de afastar May.

Esse será um elemento que, sem dúvida, estará presente na argumentação dos whips de parte a parte. “Tem a certeza que quer chumbar o acordo e abrir a porta a um possível Governo de Corbyn?”, perguntarão os tories aos membros do seu partido descontentes com o acordo. “Tem a certeza que quer aprovar o acordo e fechar a porta a um possível Governo de Corbyn?”, perguntarão, por seu turno, os whips do Labour aos membros do seu partido pró-Brexit. Qual das frases terá mais peso e em quem? Nesta batalha política, a luta faz-se voto a voto, deputado a deputado. E, nas contas de Theresa May, 1 pode ser, afinal, o número mais importante.