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Ilustração de Tiago Albuquerque

Ilustração de Tiago Albuquerque

Campanha nos EUA. Dois candidatos na mesma cidade, um discurso encurtado pela chuva e críticas ao Facebook /premium

Tudo o que tem de saber sobre o que se passa na campanha dos EUA. Joe Biden e Donald Trump estiveram no mesmo dia em Tampa, na Flórida, mas a tempestade Zeta não ajudou as candidaturas.

Todos os dias fazemos-lhe um resumo do que se está a passar na campanha eleitoral nos Estados Unidos: as principais histórias do dia, as frases descodificadas, fact checks e recomendações de leitura para estar sempre bem informado até à eleição do próximo Presidente.

O que se passa na campanha

É raro, mas aconteceu esta quinta-feira. Os dois candidatos discursaram na mesma cidade com uma diferença de poucas horas. Trump e Biden foram a Tampa, na Flórida, apelar ao voto dos eleitores num dos estados mais decisivos para a campanha (há um século que o estado praticamente não se engana no vencedor). Quem não deu tréguas foi a meteorologia, que obrigou Donald Trump a cancelar um comício na Carolina do Norte e Joe Biden a encurtar a sua intervenção na Flórida. Continua, por estes dias, a polémica à volta da decisão do Facebook de restringir os novos anúncios de campanha a uma semana da eleição, numa altura em que pelo menos um terço dos eleitores recenseados já votou por correio ou por voto antecipado.

1Campanhas jogam todas as fichas na Flórida

Em quase um século, só houve duas eleições presidenciais em que um candidato foi eleito Presidente dos EUA sem vencer na Flórida. Ao longo da história, os eleitores daquele estado têm pendido alternadamente para republicanos e democratas, com o vencedor a garantir os 29 votos a que a Flórida tem direito no Colégio Eleitoral por uma margem habitualmente curta (Trump venceu a Flórida com 48,6% dos votos, contra 47,4% para Hillary Clinton).

Não surpreende, por isso, que a Flórida seja um dos “swing-states” a que vale mesmo a pena prestar atenção durante esta campanha. Nem surpreende que, esta quinta-feira, a poucos dias da eleição, ambos os candidatos tenham estado na mesma cidade para comícios separados por poucas horas: Trump esteve em Tampa ao início da tarde, Biden discursou na cidade ao fim do dia.

As sondagens mais recentes dão uma ligeira vantagem a Joe Biden na Flórida: 48,7% das intenções de voto para o democrata, contra 46,5% para Trump. Historicamente, isto só joga contra o atual Presidente: em 96 anos, nunca um candidato republicano venceu a eleição sem ganhar a Flórida (as duas exceções que referimos no início do artigo aconteceram com candidatos democratas). A julgar pelas sondagens, Trump teria de ser o primeiro em quase 100 anos.

As contas atuais, porém, não favorecem o republicano. Olhando à distribuição de votos no território norte-americano, Trump precisa de ganhar numa combinação de estados que inclui a Flórida na maioria dos cenários possíveis para poder ser Presidente. Já Biden terá mais facilidade em ganhar a eleição mesmo que perca a Flórida (precisando apenas de somar aos estados que Hillary Clinton venceu em 2016 o Arizona, o Michigan, o Nebraska e o Wisconsin ou, em alternativa, o Arizona, o Michigan e a Pensilvânia — algo que as sondagens apontam como provável).

Ainda assim, para garantir a vitória com mais segurança, Biden precisa da Flórida — e as sondagens dão-lhe uma margem curta. Por isso, os dois candidatos estiveram esta quarta-feira em Tampa, a terceira maior cidade do estado, a tentar garantir o voto dos eleitores da Flórida, piscando o olho sobretudo aos eleitores latinos.

2Trump e a Covid-19. “Se eu consigo ficar melhor, qualquer pessoa consegue ficar melhor”

O primeiro candidato a falar em Tampa esta quinta-feira foi Donald Trump, que subiu ao púlpito instalado nas imediações de um estádio perante cerca de 3 mil apoiantes ao início da tarde, para um discurso que tocou numa série de assuntos, mas sempre com o mesmo tom: o ataque a Joe Biden.

“Enquanto eu for Presidente, a América nunca vai ser um país socialista”, disse Trump. “Esta eleição vai decidir se os nossos filhos estão condenados à miséria do socialismo ou se vão poder herdar o sonho americano.” O Presidente disse ainda que, se Biden vencer a eleição, os EUA se tornarão “numa versão muito grande da Venezuela”. “Esta eleição é a escolha entre o sonho americano e o pesadelo socialista”, insistiu.

Trump voltou aos argumentos de sempre e tornou a desvalorizar a gravidade da pandemia da Covid-19, assunto central da campanha eleitoral. “Sabem o que acontece no fim? Vão ficar melhores”, disse, referindo-se àqueles que contraíram o vírus. “Se eu consigo ficar melhor, qualquer pessoa consegue ficar melhor. E eu recuperei rapidamente”, acrescentou, aparentemente desvalorizando o facto de já terem morrido mais de 228 mil pessoas nos EUA e de o tratamento que recebeu ter custado cerca de 100 mil dólares — um valor dificilmente acessível a “qualquer pessoa”.

O comício de Trump em Tampa reuniu uma grande multidão de apoiantes, muitos sem máscara, o que levou Biden a classificá-lo como um "evento supertransmissor"

NurPhoto via Getty Images

Esta quinta-feira, os Estados Unidos voltaram a bater o recorde de casos diários ao registar mais de 90 mil casos em 24 horas, ultrapassando os 9 milhões de casos no total acumulado.

O Presidente prometeu também uma vacina “nas próximas semanas”, embora as autoridades de saúde já tenham alertado múltiplas vezes para o facto de, ainda que uma primeira vacina possa estar pronta no final deste ano, só estará disponível para a generalidade da população no próximo ano.

Trump lembrou ainda que os seus conselheiros lhe disseram que deveria focar o discurso na economia (sobretudo num dia em que se soube que o PIB norte-americano cresceu no terceiro trimestre do ano), mas o Presidente explicou aos apoiantes que prefere falar do oponente e dos negócios obscuros com a China e a Ucrânia em que o seu filho, Hunter Biden, estará envolvido.

“Recebo telefonemas dos especialistas, tipos que se candidataram a Presidente seis, sete, oito vezes, nunca passaram da primeira ronda, mas ligam-me a dizer ‘senhor, não devia andar a falar do Hunter, não devia dizer mal do Hunter, porque ninguém quer saber’. Discordo. Sabem, se calhar é por isso que eu estou aqui e eles não”, afirmou Trump. “Dizem-me ‘fale do seu sucesso económico, fale dos 33,1%, o maior [crescimento] da história’. Reparem, se eu fizer, quantas vezes o posso dizer?”

Embora tenha mantido um discurso otimista relativamente a uma vitória, Donald Trump ainda perguntou aos seus apoiantes: “Conseguem imaginar se eu perder para este tipo?”

Da Flórida, o Presidente devia ter seguido para mais um comício na Carolina do Norte, dando continuidade ao seu incansável roteiro pelo país de discurso em discurso, mas o evento foi adiado devido às condições meteorológicas adversas provocadas pela passagem da tempestade tropical Zeta naquele estado. Trump acabou por visitar apenas uma base militar, onde se encontrou com membros das Forças Armadas.

3Biden. Além do vírus, Trump espalha “a divisão e a discórdia”

As condições meteorológicas também afetaram a campanha de Joe Biden, que, horas depois de Donald Trump, discursou na mesma cidade da Flórida. O discurso — em modo comício drive-in, para que os apoiantes pudessem levar os carros e manter o distanciamento físico — decorreu maioritariamente sob uma ligeira precipitação. Mas, quando a chuva torrencial se abateu sobre o parque de estacionamento onde Biden discursava, o candidato viu-se obrigado a encurtar a intervenção.

Ainda assim, Biden teve tempo para lançar os seus ataques contra Trump, acusando o Presidente de ter organizado, horas antes, “um evento supertransmissor” naquela cidade. Mas Trump “está a espalhar mais do que apenas o vírus, está a espalhar a divisão e a discórdia”, acrescentou o candidato do Partido Democrata.

Na sua passagem pela Flórida, que incluiu dois comícios, Joe Biden procurou essencialmente apelar ao voto das minorias, incluindo os latinos e os negros, argumentando que o atual Presidente não as tem como prioritárias. “Donald Trump não acredita que o racismo sistémico é um problema. Ele não dirá que as vidas negras importam. Nós sabemos que importa”, disse Biden. “Os nomes de George Floyd, Breonna Taylor e Jacob Blake não serão esquecidos, não por mim, não por nós, não por este país.”

Antes de Tampa, Biden tinha estado na cidade de Coconut Creek para apelar diretamente ao voto dos eleitores latinos. “Cuba não está hoje mais perto da liberdade e da democracia do que estava há quatro anos. Na verdade, há mais prisioneiros políticos e a polícia secreta é tão brutal como sempre foi, e a Rússia tem outra vez uma presença significativa em Havana”, disse Biden perante uma plateia com muitos cubanos e americanos de origem cubana.

“O Presidente Trump não consegue fazer a democracia e os direitos humanos avançarem para os povos de Cuba e da Venezuela se tem elogiado tantos autocratas por todo o mundo”, acrescentou Biden, que não ficaria sem resposta de Trump, através do Twitter: “Os nossos oponentes querem transformar a América na Cuba comunista ou na Venezuela socialista”.

A propósito das questões da imigração na fronteira sul dos Estados Unidos, o candidato democrata lançou também um novo anúncio televisivo em que promete emitir uma ordem executiva no primeiro dia enquanto Presidente, com o objetivo de garantir que as 545 crianças que ainda se encontram separadas dos pais depois da entrada ilegal no país são reunidas às suas famílias.

Nas entrelinhas

“É claríssimo que o Facebook estava completamente impreparado para lidar com esta eleição, apesar de ter tido quatro anos para se preparar.”
— Rob Flaherty, diretor digital da campanha de Joe Biden

Num comunicado publicado esta quinta-feira, o diretor digital da campanha de Joe Biden atirou duras críticas ao Facebook, sugerindo que a rede social poderá estar a contribuir para dar uma vantagem injusta a Donald Trump com a sua política de anúncios a uma semana das eleições. Para Rob Flaherty, o papel das redes sociais na eleição de 2016 e na Presidência de Trump deveria ter sido suficiente para que o Facebook se preparasse melhor para esta eleição histórica.

O contexto é o seguinte: na noite de segunda para terça-feira, o Facebook implementou uma nova política de anúncios relacionados com a campanha eleitoral. O objetivo? Restringir a emissão de novas campanhas publicitárias dirigidas a públicos-alvo do eleitorado norte-americano na reta final da eleição, numa altura em que há menos tempo para realizar a verificação dos factos incluídos nos anúncios que podem alterar o curso da eleição.

Porém, como o próprio Facebook reconheceu esta semana, a implementação das novas restrições fez com que, inadvertidamente, alguns anúncios (de ambas as campanhas) que já tinham sido aprovados para divulgação tivessem também sido retirados da plataforma. A campanha de Biden — a quem o Facebook cobrou mais pelos anúncios — foi a que reagiu com mais veemência.

Num comunicado, o responsável pela estratégia digital de Trump disse que a equipa de Biden sempre interagiu com o Facebook “de boa-fé” e mostrou-se preocupado com a retirada de muitos dos anúncios que tinha difundido. “Estamos a cinco dias do dia da eleição e não sabemos se podemos confiar que os nossos anúncios vão ser difundidos em condições ou se os nossos oponentes estão a receber uma vantagem partidária injusta”, disse Flaherty.

“Para nós não é atualmente claro se o Facebook está ou não a dar a Donald Trump uma vantagem eleitoral injusta”, insistiu o responsável, acrescentando que é “claríssimo que o Facebook estava completamente impreparado para lidar com esta eleição, apesar de ter tido quatro anos para se preparar”.

Num tweet mais recente, Flaherty deixou uma pista para perceber melhor a frustração que expressou no comunicado. “O Facebook não pausou nenhum anúncio manualmente, mas estão a retomar os anúncios manualmente, o que nos leva a algumas questões, como eles priorizam tudo o resto”, explicou. Ou seja, ainda que o algoritmo tenha sido cego na remoção indevida dos anúncios, são funcionários que os estão a repor — e a campanha de Biden diz não saber que critérios estão a ser usados.

Fact-check

A frase

“Olhem o que ele está a fazer em Filadélfia. Vejam o que está a acontecer. São as pessoas que ele apoia. Ele nem as conseguiu condenar ontem.”

Donald Trump, durante o comício em Tampa

Na segunda-feira, um homem negro de 27 anos, Walter Wallace, foi abatido a tiro pela polícia na cidade de Filadélfia depois de ter empunhado uma faca na rua e de as autoridades terem sido chamadas ao local. Naquela altura, várias pessoas tentavam acalmar Wallace e pediam-lhe que largasse a faca. Mais tarde, uma dessas pessoas — a mãe de Wallace — revelou que o filho tinha problemas psiquiátricos e estava a atravessar uma crise. Num ano profundamente marcado pelo homicídio de George Floyd por parte da polícia e pelos protestos sem precedentes que originou, a morte de Wallace deu lugar a violentas manifestações sob o lema “Black Lives Matter” em Filadélfia nos últimos dois dias, opondo manifestantes antirracismo e polícia.

No comício que protagonizou em Tampa, na Flórida, esta quinta-feira, Donald Trump acusou diretamente Joe Biden de não condenar publicamente os desacatos na cidade por serem levados a cabo por pessoas que o apoiam.

O desespero de um afro-americano e cacique democrata quando ouve um vizinho dizer: “Eu gosto é de Donald Trump”

Porém, não é verdade. Nos últimos dois dias, Biden já fez várias intervenções a condenar explicitamente a violência em Filadélfia. A primeira posição do candidato democrata foi feita através de um comunicado conjunto de Joe Biden e Kamala Harris publicado no site da campanha. No texto, os candidatos do Partido Democrata condenam a morte de Wallace, que “era uma vida negra que importava”, ao mesmo tempo que censuram os protestos violentos que lhe sucederam.

“Nenhuma raiva perante as injustiças muito reais da nossa sociedade justifica a violência. Atacar os agentes da polícia e vandalizar os pequenos comércios, que já estão a sofrer durante uma pandemia, não aproxima da justiça o arco moral do Universo. Magoa os nossos concidadãos”, escreveram. “O saque não é um protesto, é um crime. Desvia atenção da real tragédia que foi uma vida encurtada.”

Na quarta-feira, quando foi depositar o seu voto em Wilmington, no Delaware, Biden falou com os jornalistas e condenou mais uma vez a violência em Filadélfia. “Não há qualquer tipo de desculpa para o saque e a violência. Nenhuma”, disse o democrata, citando o pai da vítima mortal: “Não façam isto. Não estão a ajudar, estão a magoar. Não estão a ajudar o meu filho”.

Conclusão: errado. Ao contrário do que Donald Trump disse no comício desta quinta-feira, Joe Biden já condenou explicitamente os protestos em curso na cidade de Filadélfia.

A foto

A chuva forte que caiu ao fim do dia em Tampa, na Flórida, obrigou Joe Biden a encurtar o seu discurso ao ar livre

Getty Images

A opinião

No The Washington Post, o colunista David Ignatius analisa o impacto das eleições norte-americanas no resto do mundo. Vários países, aliados e adversários, estão a acompanhar de perto o ato eleitoral nos EUA e têm muito a ganhar e a perder com uma eventual troca de poder. Rússia, Coreia do Norte, China, Turquia, Arábia Saudita têm interesse na manutenção de Trump na Casa Branca; o Irão e alguns países tradicionalmente aliados, incluindo o bloco europeu, o Japão e a Austrália, estão a torcer por uma vitória de Biden. Ignatius explica neste texto a posição de cada um destes países perante a eleição.

As Election Day approaches, there’s a reckoning ahead for countries that placed big bets, pro and con, on President Trump. For foreign leaders who stroked Trump and prospered during his presidency, there’s potential danger if he loses to former vice president Joe Biden. For those who defied Trump, there’s opportunity.
Talking with foreign officials in recent weeks, I’ve been struck by the intensity of their interest in what happens on Nov. 3. They have studied up on the electoral college, the quirks of mail-in voting, the prospect of post-election violence in the streets and disputes in the courts. To say the world is watching does not begin to describe the global focus on the United States.

Esta quinta-feira, o editorial do The Wall Street Journal chama a atenção para a “contradição de Biden“. Começando por assumir que não apoia oficialmente um candidato desde 1928, o jornal explica que pretende explicar os riscos de votar em cada um dos candidatos e dedica o editorial desta quinta-feira ao democrata. Para aquele jornal, Biden está a candidatar-se puramente com base no carácter e no combate à Covid-19, assumindo-se como a antítese de Trump, mas tem falado muito pouco das suas ideias políticas concretas — que são “o programa político mais à esquerda em décadas”. Por isso, os americanos que votarem nele vão votar apenas na pessoa, sem saber que políticas estão a escolher, diz o editorial.

The Wall Street Journal hasn’t endorsed a presidential candidate since 1928—Hoover—and we aren’t about to change this year. But we do try to sum up the risks and promise of the candidates every four years, and we’ll start today with the contradictory candidacy of Joe Biden.

The former Vice President is running as a reassuring moderate, a man of good character who can reunite the country and crush Covid-19 after the disruptive Trump Presidency. Yet he also is running on the most left-wing policy program in decades.

Voters have little idea about these policies because Mr. Biden mentions them only in the most vague, general terms. The press barely reports them. Americans may think they’re voting for Joe’s persona, but they will get the platform of Kamala Harris, Nancy Pelosi, Elizabeth Warren and Bernie Sanders.

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