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Uma das entradas do campo de Al Hol

AFP via Getty Images

Uma das entradas do campo de Al Hol

AFP via Getty Images

Caos na Síria leva à fuga de centenas de membros do Estado Islâmico. O risco para o mundo provocado pelas "crias do califado" é real

Combates entre forças sírias e os curdos deixaram campos e prisões onde estão membros do EI sem controlo e centenas terão fugido. Especialistas alertam para o risco de o grupo terrorista se reforçar.

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As filas de tendas brancas a perder da vista fazem pensar à primeira que Al Hol é um campo de refugiados, mas isso não é verdade. As grades, o arame farpado e a presença de soldados indicam-nos que, na verdade, estamos perante, na prática, uma prisão a céu aberto. Não há sistema de esgotos e a comida e água potáveis são limitadas, dependentes do apoio enviado por organizações de ajuda humanitária. Há desnutrição e doenças, que afetam sobretudo as crianças.

Cerca de 40 mil almas, a esmagadora maioria mulheres e crianças, ocupam esta área imensa. São as mulheres e os filhos dos combatentes do Estado Islâmico (EI) que ocupou e controlou durante alguns anos o nordeste da Síria, com capital em Raqqa. Derrotados pela coligação internacional liderada no terreno pelos curdos, os homens foram presos (há quase nove mil ainda em detenção) e as famílias colocadas em campos como este, o maior de todos.

Al Hol está dividido em seis secções. Na maior, nas áreas 1 a 3, estão os iraquianos; na 4 e 5 os sírios; e na 6, classificada como de alta segurança, estão as mais de seis mil mulheres estrangeiras que voaram para o “califado” para se casarem com combatentes e se juntarem à luta. São consideradas as mais perigosas, porque, na maioria, mantêm-se devotas às ideias extremistas que as atraíram para esta zona do mundo. E, no terreno, continuam a tentar garantir que o “califado” não morre, através de uma polícia informal a que chamam Hisba, que castiga todos os que considera infiéis.

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O campo de Al Hol é composto sobretudo por mulheres e crianças

AFP via Getty Images

Em 2019, por exemplo, uma mulher azeri asfixiou a própria filha de 14 anos por esta se recusar cobrir-se com o niqab. A média de homicídios em Al Hol é de dois em cada mês. “O sistema e forma de governar do EI estão implementados no campo”, reconheceu em tempos a sua diretora, Jihan Hanan, que definiu Al Hol como “uma bomba-relógio”.

“As mulheres em muitos destes campos são aquilo a que chamamos ‘verdadeiras crentes’”, analisa ao Observador Colin Clarke, investigador do Soufan Centre. “Por outras palavras, são radicais e extremistas e estão a passar a ideologia do Estado Islâmico à próxima geração, aos próprios filhos.”

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As crianças de Al Hol estão a ser radicalizadas. Chamam-lhes "as crias do califado"

AFP via Getty Images

Apesar de a maior parte das crianças já ter nascido depois de o EI ter caído, a maioria cresce radicalizada, absorvendo as ideias do grupo terrorista perpetuadas pelos adultos. Não por acaso, chamam-lhes “as crias do califado”. Anand Gopal, jornalista da New Yorker, visitou o campo de Al Hol em 2024 e viu essa radicalização de perto quando falou com dois rapazes que lhe disseram “Não falamos com infiéis” e lhe atiraram pedras. Uma mulher abordou-o aterrorizada, com medo das mulheres mais radicais. “Tinha igual medo das crianças, algumas das quais estavam há tempo suficiente no campo para se terem tornado adolescentes e aterrorizarem os residentes.”

Não faltam relatos de como os menores são instrumentalizados. Há inclusivamente casos de exploração sexual, com as mulheres mais radicalizadas a obrigarem muitos adolescentes a terem relações sexuais com mulheres mais velhas. O objetivo é garantir que o Estado Islâmico se reproduz mais facilmente e não morre.

“Não há guardas”. Centenas escapam de Al Hol e de prisões sem controlo

Há mais de dez anos que Al Hol subsiste nestas condições, com os esforços de repatriamento dos estrangeiros a fluir a conta-gotas. Mas o campo voltou a estar nas bocas do mundo esta semana, depois de uma fuga. Por entre o caos dos combates entre as forças do novo regime sírio (HTS) e as forças curdas (SDF), perdeu-se o controlo de Al Hol e de várias prisões.

“Não há guardas”, ouve-se uma mulher a dizer num dos vídeos que captaram o momento da fuga de dezenas de mulheres vestidas de negro dos pés à cabeça. “Está toda a gente a fugir?”, questiona outra. “Estado Islâmico do Iraque e da Síria, estamos orgulhosos disto”, canta uma terceira. Ninguém sabe ao certo quantas mulheres de negro escaparam.

E não foi só de Al Hol que fugiram pessoas com ligação ao EI. Na prisão de Shaddadi, vários homens aproveitaram a confusão dos combates e saíram tranquilamente. Um jornalista do Le Monde relata o que se pode agora ver quando se entra no edifício: “Nas pequenas celas da cave do edifício, o chão está coberto de destroços, comida a apodrecer e lençóis largados. O cheiro que ainda permanece é um testemunho da doença e da sobrelotação de corpos.” No andar de cima, os escritórios da prisão foram destruídos e saqueados. Também há relatos de fugas das prisões de Al Aqtan e Deir al-Zour.

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Imagem da prisão de Al Hasakah. No chão veem-se as roupas dos detidos que fugiram

dpa/picture alliance via Getty I

O Ministério da Administração Interna sírio admite que 120 detidos ligados ao Estado Islâmico fugiram de Shaddadi, enquanto os curdos, que acusam a comunidade internacional de “indiferença face ao assunto da organização terrorista Estado Islâmico”, falam num número astronómico de 1.500 prisioneiros em fuga. Qual é o número real? Não sabemos. “Ambos os lados têm incentivos para culpar o outro e nenhum dos relatos é passível de ser verificado de forma independente”, assegura ao Observador Nanar Hawach, analista especialista na Síria do Crisis Group.

“O que é claro é que a tutela [dos prisioneiros] mudou durante o combate sem quaisquer procedimentos acordados e, no meio do caos, as pessoas escaparam”, acrescenta. Um cenário facilitado pelas condições “improvisadas” e “sobrelotadas” das prisões, “que nunca foram desenhadas como instalações a longo prazo” e que ficaram “degradadas em termos de segurança e humanitários por anos de falta de financiamento”.

“O que é claro é que a tutela [dos prisioneiros] mudou durante o combate sem quaisquer procedimentos acordados e, no meio do caos, as pessoas escaparam.”
Nanar Hawach, especialista na Síria do Crisis Group

O que isso significa na prática é que, neste momento, entre as fugas das prisões e a situação no campo de Al Hol, há centenas de pessoas ligadas ao Estado Islâmico — muitas possivelmente ainda ligadas à ideologia radical do grupo — que estão agora em liberdade e em parte incerta. Os relatos dos poucos jornalistas que conseguiram entrar em algumas destas prisões no passado dão conta de detidos profundamente radicalizados. “A fé deles no Estado Islâmico fortaleceu-se no prisão, a organização está viva”, alertava o diretor da prisão Panorama em fevereiro de 2025 ao The Guardian. “Por agora, está adormecida, mas, se abrirmos as portas, vai voltar à vida.”

O risco de prisioneiros controlados pelo Governo sírio e da retirada dos EUA

Mas como chegámos até aqui?

Primeiro é preciso clarificar o que se passa no terreno. Durante os quase 15 anos de guerra civil na Síria, a zona nordeste do país foi palco de combates entre as forças curdas das SDF e o Estado Islâmico, tendo este último sido derrotado em 2019 pelos curdos (com o apoio de uma força internacional liderada pelos Estados Unidos da América). Desde então, a minoria étnica — que tem pretensões autonómicas — passou a controlar de facto a região e ficou responsável pelos sobreviventes do grupo, que estão há mais de sete anos detidos sem terem sido julgados.

Em 2024, a guerra civil chegou ao fim depois de as forças do HTS, lideradas pelo comandante Ahmed al-Sharaa (que teve em tempos ligações ao próprio Estado Islâmico, mas se afastou do grupo), terem derrotado o Exército de Bashar al-Assad. Desde então, a situação do nordeste ficou num limbo.

Recentemente, Al Sharaa tentou retomar o controlo da zona gerida pelos curdos, num esforço de unificação do país — que os curdos temem, pelas ligações de Al Sharaa ao líder turco Recep Tayyip Erdoğan, inimigo declarado das pretensões independentistas curdas que abrangem o território da Turquia.

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Forças curdas das SDF

Getty Images

Ao longo dos últimos dias, as negociações políticas colapsaram e as HTS avançaram militarmente. A 17 de janeiro, o regime passou a controlar Deir Hafer. Nos dias seguintes, os curdos retiraram de Tabqa, Raqqa e Deir Ezzor. Pelo meio, houve uma primeira trégua que colapsou.

A queda das SDF só foi possível graças a uma mudança de postura por parte das forças norte-americanas no terreno, que deixaram de proteger os aliados curdos. Os curdos relatam, por exemplo, que uma das prisões onde se registou uma fuga fica a apenas três quilómetros de uma base militar norte-americana, mas que os soldados do país “não intervieram”, apesar dos vários pedidos de auxílio das SDF.

Na terça-feira, o enviado especial dos EUA para a Síria, Tom Barrack, oficializava a posição. “A situação mudou”, escreveu no X. “O propósito original das SDF como principal força anti-EI no terreno há muito que expirou, já que Damasco está agora disponível e posicionado para assumir responsabilidades de segurança, incluindo o controlo dos campos e instalações de detenção do Estado Islâmico.” “A posição dos EUA mudou drasticamente”, resume o analista do Crisis Group Nanar Hawach.

No entanto, um futuro em que o controlo dos antigos combatentes do EI seja assegurado pelas forças de Al Sharaa não é necessariamente cor de rosa. Por um lado, o regime tem um historial de gestão tenebrosa de outros campos de prisioneiros na Síria, com relatos de tortura e mortes — embora os próprios curdos sejam alvos de críticas semelhantes por parte de organizações como a Amnistia Internacional.

Por outro, o passado de alguns membros das HTS indicia que alguns soldados podem ter afinidades ideológicas com o próprio Estado Islâmico: “Considerando que muitos destes membros apoiam o EI em segredo, não há forma de ter a certeza quem é que, dentro desta organização que é muito variável, vai ficar a gerir Al Hol”, alertava recentemente a investigadora Hannah Kearns. Um responsável das SDF já tinha alertado para o mesmo, em declarações ao The Times: “O perigo é que sabemos que o Exército inclui um grande número de fações extremistas.”

Há ainda outro fator que pode auxiliar o ressurgimento do EI na região, alerta Hawach: a retirada militar dos norte-americanos deixa o grupo mais solto para aturar. “Para o EI, menos capacidades dos serviços de informação e de ataque dos EUA importa. Os ataques norte-americanos de precisão têm mantido a liderança do Estado Islâmico em modo de sobrevivência; se essa pressão alivia, o grupo ganha espaço operacional para respirar.” Em 2014, quando conquistou largas bolsas de território na Síria e no Iraque, o EI provou que floresce no vácuo de poder. “Uma retirada dos EUA, combinada com umas forças de Damasco sobrecarregadas e um sistema de segurança ainda não testado, criam exatamente condições que o EI consegue explorar”, avisa o especialista.

“Só os benefícios de propaganda são significativos: fugas bem sucedidas demonstram capacidade e dão energia aos apoiantes globais. E, para além da propaganda, os que fugiram irão provavelmente reforçar as redes do Estado Islâmico.”
Nanar Hawach, especialista na Síria do Crisis Group

E o grupo terrorista tem há muito um modus operandi treinado para lidar com uma situação deste género. As fugas de prisões, por exemplo, já ocorrem no passado: há cerca de dez anos, o EI promoveu a campanha “Derrubando Muros”, onde levou a cabo uma série de ataques terroristas em prisões que facilitaram a fuga dos seus membros. Em 2022, voltaram a fazê-lo na prisão de Hasakah. Agora, “os media ligados ao EI já estão a reivindicar ter ajudado pessoas a fugir de Al Hol”, nota Hawach. “Só os benefícios de propaganda são significativos: fugas bem sucedidas demonstram capacidade e dão energia aos apoiantes globais. E, para além da propaganda, os que fugiram irão provavelmente reforçar as redes do Estado Islâmico.”

Redes essas que, embora fragilizadas pelos curdos ao longo dos últimos anos, continuam a existir. Em junho de 2025, por exemplo, o grupo realizou um ataque suicida numa igreja ortodoxa em Damasco, provando que tem presença na capital síria. E, no nordeste da Síria, tem levado a cabo emboscadas, explosões e assassinatos, perpetuando uma forma de guerrilha. Em agosto do ano passado, o Estado Islâmico tinha concretizado 117 ataques naquela região desde o início do ano, ultrapassando os 73 em todo o ano de 2024.

Ao mesmo tempo, tem reforçado as suas fontes de financiamento através de, por exemplo, ataques a camiões que transportam petróleo. E com a queda de Assad, conseguiu assumir o controlo de muito do armamento e equipamento militar que pertencia ao regime. Com a fuga das prisões e de Al Hol, pode reforçar as suas fileiras em termos de membros.

“Cigarros, chá e água”. ONU vai assumir Al Hol, mas ainda nada nem ninguém entram no campo

Os especialistas ouvidos pelo Observador são unânimes em alertar para o risco para a região e também para o resto do mundo, já que tudo isto reforça a capacidade do grupo planear e levar a cabo atos terroristas noutros países, como avisou o Sindicato da Polícia alemã e um consultor da legislação anti-terrorismo no Reino Unido, Jonathan Hall, que alertou mesmo para a possibilidade de os membros do EI se infiltrarem nos contingentes de migrantes que tentam atravessar o Canal da Mancha de barco.

“Se o cessar-fogo não aguentar, isso beneficiará o Estado Islâmico.”
Colin Clarke, analista do Soufan Centre

Neste momento, as autoridades síria garantem que 81 dos detidos que fugiram foram capturados e que “os esforços de segurança intensos para encontrar os restantes continuam”. Os Estados Unidos também reagiram, firmando um acordo com as autoridades iraquianas, que se comprometeram a absorver sete mil dos que ainda estão detidos. Uma ponte aérea já transferiu 150 ao longo dos últimos dias. É um esforço que, para Colin Clarke, “é admirável”. “O secretário da Defesa Pete Hegseth já foi a público aplaudir os iraquianos pela sua ajuda”, acrescenta.

Quanto à situação dos combates entre o regime sírio e os curdos, apesar de ter sido acordado um cessar-fogo, tudo permanece instável. “Se o cessar-fogo não aguentar, isso beneficiará o Estado Islâmico”, avisa Clarke. “Se os curdos não forem integrados nas forças sírias sem combates, essa é uma distração da missão contra o Estado Islâmico.”

E o Estado Islâmico continua a ser uma ameaça de peso na Síria, com o Departamento de Estado norte-americano a avisar que “se não forem contidos, estes combatentes do EI podem reemergir como uma comprometida força experiente de combate que pode ser usada contra a Coligação [internacional na Síria] e forças parceiras”.

Clarke nota que o EI “não é de longe tão poderoso como foi no seu pináculo” e não deverá voltar aos níveis de sucesso de 2014. “Contudo, tem capacidade para persistir como uma insurgência de baixo nível no futuro.”

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A ONU comprometeu-se em assumir o controlo de Al Hol, mas ainda não conseguiu entrar

Anadolu via Getty Images

Já Hawach nota que ainda não temos a certeza do perfil dos que fugiram, mas que há sinais preocupantes. “Os canais do EI dizem ter ajudado as mulheres a fugir [de Al Hol], o que indicia um envolvimento organizacional em vez de uma fuga espontânea. Se isso for verdade, o grupo provavelmente deu prioridade a ajudar a escapar os seus membros mais comprometidos.” Esses podem engrossar as fileiras na Síria, mas também no resto do mundo — “nos outros países o risco é mais indireto, mas a fuga de membros de relevo alimenta a propaganda que chega à audiência global e podem inspirar outros a agirem”.

Neste momento, o campo de Al Hol continua sem uma gestão organizada. “Ao longo dos últimos dois dias, não há nada a não ser cigarros, chá e água. As crianças estão no limite”, avisou Hazem al-Joubouri, um iraquiano residente no campo, ao Le Monde. Esta quinta-feira, as Nações Unidas anunciaram que vão assumir a gestão do campo, estando neste momento a coordenar-se com o Governo sítio.

O porta-voz da ONU Stephane Dujarric admite que, neste momento, os funcionários do ACNUR ainda não conseguiram entrar em Al Hol. “A situação no campo mantém-se tensa e volátil, com relatos de saques e incêndios.”

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