Manuel Pizarro é, pela terceira vez, candidato à presidência da Câmara Municipal do Porto. Não se querendo comparar, recorda que François Mitterrand e Winston Churchill também perderam eleições e relativiza — a derrota é normal em democracia. No entanto, diz ter a convicção de que, depois do ciclo de Rui Moreira, chegou a vez dele. Para isso, tem de derrotar o principal adversário, Pedro Duarte, a quem não poupa críticas nesta entrevista: segundo o socialista, o ex-ministro não passa de um “delegado do Governo”.
Esta é mais uma das várias entrevistas em formato Carpool que o Observador está a fazer nas eleições autárquicas de 2025. Pizarro aparece sozinho, junto à Câmara Municipal do Porto, e mostra-se à vontade para fazer de GPS sempre que a máquina falha. Garante que conhece muito bem a cidade a que quer presidir e recorda os muitos anos dedicados à Invicta. Mais do que isso, mesmo não tendo sido presidente, recupera os tempos em que foi vereador e número dois de Rui Moreira para apresentar obra feita.
Não se compromete com cenários para o pós-eleições. Admite que, se vencer sem maioria, tentará conversar com todos os que quiseram fazer parte da solução — algo que não vê o partido de André Ventura disposto a fazer. “Só se o Chega a deixar de ser Chega porque eu não estou a imaginar que o Chega consiga concordar com a minha visão de uma cidade onde temos políticas que ajudam a reduzir as desigualdades.”
“Mitterrand só conseguiu ganhar na terceira eleição”
Já é a terceira vez que se candidata à Câmara Municipal do Porto. Desta vez não tem um adversário como Rui Moreira. Acha que pode ter o trabalho facilitado?
Tenho a expectativa de poder vencer as eleições e estou mesmo muito convencido que é isso que vai acontecer, embora tenha consciência que é preciso pedir com humildade e com tenacidade o voto a cada um dos portugueses. Mas, em política, quem não for capaz de resistir a uma adversidade eleitoral não merece os lugares. Não me vou comparar com nenhuma das pessoas que vou citar, mas o Presidente [François] Mitterrand só conseguiu ganhar na terceira eleição; Churchill, com todo o seu prestígio, depois da II Guerra Mundial, perdeu duas eleições e voltou a ganhar uma terceira. Portanto, para quem quer fazer política em democracia, ganhar e perder as eleições tem de ser encarado como algo normal.
Soube-se que era candidato em dezembro. Se José Luís Carneiro, que chegou a ser também apontado para este cargo, já fosse o líder do PS nesta altura, seria escolhido por ele como candidato?
Tenho mesmo convicção de que era isso que acontecia. José Luís Carneiro estava empenhado na mesma coisa que eu: que o PS tivesse o melhor candidato possível para o Porto. A certa altura, tornou-se claro e consensual [que era eu]. Conseguimos uma união total, uma convergência total de posições, dentro do Partido Socialista. Mas conseguimos também alargar a nossa candidatura e a nossa lista muito para fora do espaço político do partido.
Em 2013, Rui Moreira venceu e foi presidente da Câmara Municipal. Nessa altura, aceitou o pelouro da Habitação e da Ação Social e trabalhou vários anos ao lado dele. Esse entendimento não acabou muito bem. Arrepende-se de ter feito esse acordo?
Não me arrependo absolutamente nada. Foram anos luminosos para a vida autárquica do Porto. Ainda hoje muitas pessoas do Porto têm saudades desse primeiro mandato de Rui Moreira, em que estive coligado com ele. Tive uma extraordinária honra de trabalhar a favor da minha cidade e tenho a consciência de que contribuí para melhorar a vida de milhares de famílias. Fizemos muita obra pelo Porto.
E pode garantir que, aconteça o que acontecer, não vai juntar-se a Pedro Duarte se for ele o vencedor?
Estou concentrado em vencer as eleições autárquicas no Porto e estou convencido que as vou vencer. Repito com a humildade de quem sabe que quem decide são as pessoas do Porto e que é preciso conquistar a sua confiança e o seu voto. Depois das eleições, faremos os cenários possíveis para governar a cidade. Vou continuar sempre a lutar e a trabalhar pelo Porto.
“Alojamento Local? Medidas tomadas são mais do que suficientes”
Estamos a passar pelo novo Mercado do Bolhão. Gosta do que vê ou não é fã?
As obras do Mercado do Bolhão são extraordinárias e a reabilitação de mercado é uma grande conquista que orgulha os portuenses. Temos um trabalho a fazer para conseguir viabilizar o Mercado do Bolhão como um grande mercado de frescos ao serviço da população da cidade. Ainda falta dinâmica no mercado, o que faz com que uma grande parte do negócio seja feito à margem.
Compreende as queixas dos comerciantes?
É um trabalho a fazer com eles. Tenho na minha lista a responsável pelo Mercado do Bolhão e tenho acompanhado com muita satisfação o trabalho de diálogo com os comerciantes que ela tem vindo a fazer. E acho que é com esse diálogo que encontraremos as medidas certas para aproveitar a reabilitação do Mercado do Bolhão e conseguir de novo projetá-lo como o grande mercado de frescos do centro do Porto.
Mas há mais de dez anos, quando tinha também uma proposta para o Bolhão, era isto que esperava em termos de obras, está satisfeito com o resultado?
A minha obra teria sido um pouco menos ambiciosa do ponto de vista de algumas infraestruturas de apoio, mas estou muito contente com a obra que está feita. Tenho orgulho no Mercado do Bolhão reabilitado. O essencial era que nós realizássemos o Bolhão e esse é que não o transformássemos numa espécie de um centro comercial. Isso não aconteceu. Temos todas as condições para que o espírito do Bolhão perdure no tempo, há um trabalho a fazer em cooperação com os comerciantes para que isso seja conseguido.
Estamos ainda no coração da cidade do Porto. As lojas históricas devem ser protegidas, mesmo que a autarquia tenha de financiar esse tipo de negócios?
Devem mesmo ser protegidas. O meu projeto nessa matéria visa selecionar um conjunto de artérias da cidade, que são muito relevantes do ponto de vista do seu comércio e daquilo que é o sentimento que os portuenses têm. Exemplos como a Rua de Santa Catarina e as ruas adjacentes, a Formosa, Firmeza, Fernandes Tomás, a Rua Costa Cabral, na Rua da Boavista… Nessas ruas temos que estabelecer planos de revitalização urbana e comercial e temos que envolver os moradores e os comerciantes nesses planos. Sou um adepto da desburocratização e não sou contra os mecanismos de simplificação do licenciamento, mas tenho que reconhecer que a total ausência de mecanismos de verificação tem conduzido a um abastardamento da sua função.
A Câmara, no limite, deve financiar esses projetos?
Este plano de revitalização urbana e comercial de algumas ruas pode envolver financiamento, por exemplo, utilizando uma parte da receita da taxa turística. O turismo é bom e é essencial para o futuro do Porto, mas também é preciso prevenir alguns aspetos negativos dessa pegada turística.
Pretende aumentar o valor da taxa turística nos próximos anos?
Temos que ir vendo passo a passo. A taxa turística foi durante vários anos dois euros e aumentou 50% no ano de 2025. Vai permitir à Câmara arrecadar cerca de 30 milhões de euros no final do ano. É preciso ponderar se se justifica, no curto prazo, um novo aumento ou não. Depende de como o fenómeno do turismo venha a evoluir e, naturalmente, das necessidades que a Câmara venha a ter.
Há muitos hotéis que foram construídos nos últimos anos, muitos alojamentos locais que foram permitidos. Se chegar a presidente da Câmara vai colocar algum travão tanto numa coisa como noutra?
Sobre o alojamento local, as medidas que já foram tomadas pela Câmara são mais do que suficientes. Não faço parte dos que acham que o alojamento local é que causou a crise de Habitação. A verdadeira causa desta crise é uma escassez de oferta em relação às necessidades. Se limitarmos pelo lado da procura, não vamos conseguir nenhuma resposta. As casas que estão disponíveis para o alojamento local não se tornarão disponíveis para a habitação, nomeadamente para a habitação dos jovens e das classes médias a custos moderados.
O que se tem dito nos últimos anos é que algumas das pessoas que colocavam as casas no mercado de habitação acabam por ter mais benefícios por fazer alojamento local.
Se for visitar os bairros mais históricos do Porto, ali no bairro da Sé, vai ver que há muitos prédios em alojamento local, mas não há nenhuma rua do centro histórico do Porto que não tenha dois, três ou quatro prédios inteiramente abandonados. É difícil dizer que não temos que concentrar esforços na reabilitação do que ainda não está reabilitado. Vou procurar acabar com esses conflitos: o conflito dos portuenses com os turistas, o conflito dos inquilinos com os senhorios, o conflito dos que são a favor do alojamento local com os que são contra, dando uma resposta que, no contexto das políticas públicas portuguesas, é inovadora: através de um conjunto de Parcerias Público Privadas (PPP) e de colaboração com as cooperativas e associações de moradores para construir 5000 fogos para renda moderada para os jovens e para a classe média. Isto nos primeiros quatro anos de mandato. Também vou tomar medidas de foro legislativo e económico que mobilizem os 20 mil fogos devolutos, em grande parte degradados, que ainda continuam a existir no Porto.
Proibir a construção de mais hotéis está fora de questão?
Sim, está fora de questão, embora considere que devíamos trabalhar em conjunto para definir qual é a carga que a cidade deve suportar também em matéria de estabelecimentos hoteleiros. Vejo com alguma preocupação que há hotéis que já estão prontos e que continuam fechados ao público há muitos meses, o que significa que também esse setor precisará de uma regulação.
“Renda moderada ‘à moda do Porto’: T2 a 550 euros”
Numa passagem pelo Bairro das Fontainhas, prometeu cinco mil casas de renda moderada. Com que valores?
Uma renda que seja pelo menos 20% abaixo da renda de mercado. No Porto, a renda de mercado de um T2 é 1.250 euros; a renda acessível seriam mil euros, mas quem são as pessoas jovens ou as famílias da classe média que podem pagar mil euros de renda por um T2? No meu conceito de ‘renda moderada à moda do Porto’ um T2 custará 550 euros e um T1 custará 400 euros. E estas cinco mil casas permitirão não apenas dar uma boa solução às famílias, como vão permitir ajudar a regular o conjunto do mercado.
Como é que pretende fazê-lo e até quando?
É para fazer no primeiro mandato, em quatro anos. Já identificámos quais são os terrenos. São terrenos municipais ou terrenos do Estado em que essas casas vão ser edificadas. Serão, no essencial, edificadas na base de um concurso de PPP e serão construídas, financiadas e mantidas por parceiros privados. Depois, a Câmara tratará de arrendar às pessoas e com o dinheiro dessas rendas pagar os primeiros 30 anos a esses parceiros privados. Nalguns casos, os parceiros não serão privados, serão cooperativas ou associações de moradores.
Mas nesse caso está a falar apenas de construção nova, certo?
Sim, não estamos a falar de habitação social. Continuaremos a gerir as 13.000 casas de habitação social que a Câmara tem, a melhorar as condições de vida das pessoas que lá moram. Aqui estamos a falar de habitação para os jovens e para a classe média e de um período temporal de um mandato de quatro anos.
Porquê habitação nova e não reabilitação? Neste momento é mais difícil reabilitar do que construir?
Temos 20 mil fogos devolutos no Porto. Mas é mais difícil porque estas casas têm proprietários e não pretendo expropriar estas casas. Tem de se encontrar um programa certo para ajudar a mobilizar esses fogos, mas não tenho dúvida nenhuma que isso vai ser mais mais demorado.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Criminalidade associada ao tráfico e ao consumo de droga é muito grave”
Um dos seus adversários, Pedro Duarte, disse que alguns bairros sociais são verdadeiros guetos afogados no centro da cidade. Teme que este problema aumente?
Não devemos generalizar. Na esmagadora maioria dos bairros do Porto vive-se bem, com tranquilidade, com segurança, de forma confortável. Alguns bairros têm hoje problemas muito sérios, causados pelo tráfico e consumo de drogas. Isso exige uma ação muito decidida do município, que [precisa] da componente de autoridade e repressão ao tráfico de droga e, ao mesmo tempo, de um grande programa municipal de apoio aos dependentes que reduza a procura de drogas.
Esta é uma das principais queixas dos portuenses, a forma como essa questão da droga está a tomar conta de algumas das ruas por onde passam e também por ser desconfortável.
É desconfortável e há um aumento da criminalidade. Estamos a falar de uma pequena criminalidade aquisitiva, mas que perturba muito as famílias e a segurança das pessoas e a tranquilidade das pessoas. Essa criminalidade associada ao tráfico e ao consumo de droga é muito grave.
A Câmara tem uma quota parte de culpa naquilo que se está a passar atualmente?
Estou sobretudo concentrado naquilo que é preciso fazer para melhorar. Não vale a pena estarmos agora a apontar o dedo a um ou outro. São assuntos muito difíceis e precisamos de cooperação. Se queremos melhorar o tema da segurança, precisamos de ser mais rápidos a instalar as câmaras de videovigilância e o sistema global de videovigilância. Precisamos de maior cooperação da Polícia Municipal com a PSP e até, eventualmente, com a GNR, para ter um policiamento de maior visibilidade e de maior proximidade nas ruas.
Mas nessa sua proposta há algo que possa ser feito no imediato?
Aumentar a presença da Polícia Municipal nas ruas, diminuindo o peso das tarefas burocráticas. É uma medida que a Câmara pode tomar de imediato, digamos, nos primeiros 100 dias do meu mandato.
Estamos perto do Bairro Rainha D. Leonor. Este bairro deve ser um exemplo do que é feito a nível de habitação municipal?
É um exemplo em pequena escala que mostra que o meu programa para a habitação é exequível. E é preciso ver o contexto político e económico do país nesse primeiro mandato, entre 2013 e 2017: estávamos com a intervenção da troika, havia problemas financeiros e constrangimentos muito sérios à ação do município. Tínhamos um bairro profundamente degradado na encosta do rio Douro, o bairro Rainha Dona Leonor, onde viviam 40 e tal famílias em muito más condições. O que fizemos foi lançar um concurso, fazendo com que fosse um privado a construir um novo bairro. Onde viviam 48 famílias, há hoje um bairro para 72, sendo que o privado foi ressarcido e pôde construir um empreendimento para casas de custo muito elevado na outra metade do terreno, de forma a compensar o investimento que fez.
É esse equilíbrio que procura?
Precisamos de cooperação. Os problemas da nação portuense não se resolvem alimentando conflitos. Resolvem-se, em muitos casos com cooperação entre as diferentes, entre as diferentes instituições da cidade.
“Não se pode permitir construções ilegais”
Estamos a chegar à Rotunda da Boavista, sendo que uma das principais queixas das pessoas no Porto é a questão da mobilidade. Falou-se muito do Metrobus, houve nos últimos tempos um passa-culpas quase constante entre a Metro do Porto, a Câmara Municipal e até a STCP. O que é que pode ser feito para resolver o problema das pessoas a curto prazo?
É mais um daqueles casos em que precisamos de mais cooperação e de menos conflitualidade. Tenho algumas dúvidas sobre a forma como foi conduzida a obra e o próprio projeto da obra do Metrobus. Mas depois de tudo o que sofremos e de tudo o que se gastou para o fazer, não tenho dúvida nenhuma de que agora é preciso pô-lo em funcionamento. Só faltava agora que, depois de tudo isto, fizéssemos obras outra vez para alterar o Metrobus. Já há pelo menos um candidato, que aliás foi ministro até há algumas semanas, que já quer fazer obras outra vez… Eu levo as mãos à cabeça. Não vamos inventar uma nova guerra para termos de novo obras na Avenida da Boavista. Era o que nos faltava.
Propõe que o passe da cidade, o Andante, seja gratuito para os maiores de 65 anos. A longo prazo, faz sentido pensar em transportes públicos gratuitos para toda a gente na cidade do Porto?
Só se for a muito longo prazo. Neste momento as pessoas com mais de 65 anos já têm 50% de desconto no Andante. Se o colocarmos totalmente gratuito significa um encargo anual de cerca de três milhões de euros, que é um encargo que podemos suportar. Tornar gratuito toda a operação só se for mesmo a muito longo prazo. Neste momento, precisamos de muito investimento para melhorar a qualidade do transporte público do Porto. Não podemos prescindir de uma conta que anualmente andará entre 30 a 40 milhões de euros da bilhética nos passes e nos bilhetes ocasionais. Se o fizermos vamos condenar o transporte público do Porto à ruína.
Seria oferecer um passe a quem não precisa.
E, sobretudo, será descapitalizar completamente o sistema de transporte público, porque precisamos de muitos milhões de euros para investir naquilo que, do meu ponto de vista, é indispensável para atrair as pessoas para o transporte público, como autocarros mais confortáveis. Quero que uma parte dos autocarros passe a ser de dois andares.
Pretende travar os TVDE no Porto. Tem um número limite na sua cabeça, o que é que é aceitável para para a região?
Lutarei junto do Governo para que haja uma mudança da legislação, porque a a atual faz com que a Câmara não tenha qualquer informação sobre quantos existem. Seria impensável abolir os TVDE, seria um disparate. Mas tem de haver também uma regulação, nomeadamente do número de viaturas que circulam na cidade.
Mas funcionaria com licenças, como acontece nos táxis?
Deve haver pelo menos um registo que permita esse controlo.
E isso não existe.
Não existe. É impossível, não há limite de localização geográfica de circulação. O facto de o motorista morar em Braga e de o carro estar registado em Famalicão não o impede de circular no Porto. Precisamos de regular um pouco esse sistema.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Estamos agora ao Bairro da Pasteleira. Acha que o trabalho que ficou em termos de habitação social foi bom?
Não tenho dúvida que melhorámos muito as condições de vida nos bairros. E acho que as pessoas reconhecem isso. O Bairro da Pasteleira não era nada disto. Estas obras modificaram completamente as condições de vida das habitações. Claro que há sempre mais trabalho a fazer nos bairros. Não vamos construir nova habitação social, o que não quer dizer que não possamos vir a construir alguns edifícios de residência apoiada para pessoas idosas. Nos cerca de 13 mil casas dos bairros, há mais de três mil onde mora uma pessoa idosa isolada ou um casal de pessoas com idade avançada. Muitas dessas pessoas, para poderem continuar a viver de forma autónoma, beneficiariam de viverem em residências apoiadas. E será isso que faremos em alguns bairros: um novo edifício, que é um edifício de residência apoiada.
As demolições às habitações ilegais que foram feitas em Loures marcaram durante algumas semanas a atualidade nacional. A Câmara deve demolir, no imediato, qualquer construção ilegal que exista?
O que é relevante é que essas demolições sejam feitas de imediato. Não se pode permitir a instalação de comunidades que criam ali a sua alternativa de vida e depois fazer processos que perturbadores do ponto de vista social.
Custou-lhe o que viu em Loures?
Imagino que tenha custado ao próprio presidente da Câmara de Loures, que conheço e que é uma pessoa sensível. Não estou dentro do conjunto de motivações que levaram a uma medida tão drástica. Agora, há uma coisa da qual não tenho nenhuma dúvida: nada daquilo teria acontecido se não se tivesse permitido que chegasse àquele ponto. Felizmente, no Porto temos uma política que é uma política consensual há duas ou três décadas, desde que Fernando Gomes conseguiu eliminar os bairros de barracas que havia na cidade, construindo habitação alternativa para as pessoas.
E os inquilinos de casas municipais que não paguem as rendas ou que estejam em falta…
Isso no Porto não existe.
Não?
Quando herdei o pelouro da Habitação, Rui Rio tinha promovido um conjunto de medidas e o nível de incumprimento das rendas era muito baixo, cerca 5,2%. É inferior ao nível de incumprimento do crédito à habitação. Quando deixei o pelourom, o nível de incumprimento das vendas estava mais próximo de 4%.
Portanto, quem não paga deve ser despejado?
Não é preciso chegar a esse ponto. Deve-se evitar que a pessoa não pague e temos conseguido fazer no Porto com grande sucesso.
Já percebi que a taxa é muito baixa, mas essa taxa existe…
Nunca fui confrontado com a necessidade de ter que fazer um despejo por não pagamento de renda. A verdade é que sempre que a câmara interviu, de forma mais ou menos coerciva, foi possível que as pessoas pagassem.
“Presidente da Câmara não pode ser um representante do Governo na cidade”
Regressando à questão do day after das eleições, qual é a sua disponibilidade para falar com todos? E estaria, ganhando sem uma maioria absoluta, disponível para contar a sua equipa com Pedro Duarte ou próprio Filipe Araújo?
Há uma coisa sobre a qual não há dúvidas: tenho toda uma vida política, nomeadamente no Porto, que demonstra que sou capaz de estabelecer pontes para o diálogo e de encontrar soluções. Espero vencer as eleições. Se isso acontecer sem ter maioria absoluta, ou mesmo que eu tenha a maioria absoluta de vereadores, não deixarei de dialogar com os outros partidos.
Se não tiver maioria absoluta será mais necessário.
Não tenho dúvidas nenhumas de serei capaz de o fazer com forças políticas ou com vereadores que estejam disponíveis para participar num projeto de governação da cidade. No jogo democrático esta é a fase em que somos adversários uns dos outros. Chegará o momento em que teremos que cooperar uns com os outros.
Mas há mesmo espaço para conversar com todos ou tem algumas linhas vermelhas em termos autárquicos?
Está a perguntar-me se há uma linha vermelha em relação ao Chega?
Sim.
Vou responder-lhe com a mesma ironia a que costumo responder a isso. Só se o Chega a deixar de ser Chega. Não estou a imaginar que o Chega consiga concordar com a minha visão de uma cidade onde temos políticas que ajudam a reduzir as desigualdades, que ajudam a diminuir as tensões sociais, não estou a imaginar nada disso. Parece-me que, desse ponto de vista, não haverá espaço de entendimento. Também não ignoro que, na sequência das anteriores eleições autárquicas, uma grande parte dos eleitos deixaram de o ser pouco tempo depois das eleições. Portanto, as pessoas também contam.
Sérgio Aires, do Bloco de Esquerda, disse que não quis uma coligação à esquerda e que prefere negociar com a direita. Tendo em conta o cenário que existe no Porto considera que pode ter mais aliados à direita?
O que fiz e tenho orgulho de ter feito é ter construído uma proposta política para o Porto que, para além de pessoas do PS, tem muitas pessoas de fora do PS. Algumas delas à direita do PS, no centro direita, ou à esquerda do PS. E tenho até dificuldade em compreender que outras forças políticas de esquerda não compreendam que isto é muito importante. Na candidatura que lidero não andamos a perguntar às pessoas de onde é que elas vinha, mas para onde é que querem ir. Tenho satisfação em haver pessoas que tiveram noutras forças, como no movimento independente Rui Moreira, até noutras candidaturas à direita ou à esquerda.
Considera que grande parte do moreirismo está consigo. O que o leva a dizer isso?
Isso é factual. O movimento Rui Moreira preside a cinco junta de freguesia da cidade do Porto, três desses presidentes de junta apoiam-me, mais de metade. Há vereadores da Câmara do Porto na lista, nomeadamente o vereador Fernando Paulo, que foi eleito na lista de Rui Moreira. Há pessoas da Assembleia Municipal da lista de Rui Moreira que aparecem nas minhas iniciativas a apoiar-me. Estamos a passar a freguesia de Ramalde, que é freguesia onde moro, e o antigo presidente da Junta de Ramalde durante oito anos, eleito pela lista do Rui Moreira, é o mandatário da minha candidatura.
Quando fala em moreirismo refere-se apenas a pessoas que estavam no movimento de Rui Moreira e não a pessoas que votaram no Rui Moreira.
Acho que há uma relação íntima entre as duas coisas. Tenho boas razões para acreditar que uma grande parte dos eleitores também o vão fazer. Até porque esta minha candidatura tem que ser mesmo uma candidatura construída a partir do Porto. Não sou um portuense de ocasião; sou um portuense convicto, com décadas de trabalho cívico e político a favor da cidade. As pessoas vão reconhecer isso.
Sente-se perfeitamente confortável com o seu mandatário tenha decidido dar apoio a Carlos Moedas, em Lisboa.
Não me perturba nada. Tenho um enorme orgulho em ter como mandatário uma pessoa como o Virgílio Bento, um dos mais extraordinários empreendedores portugueses. O Virgílio é portuense e mora no Porto, mora na Foz do Douro, e o voto dele vai ser para a minha candidatura.
Diz que Pedro Duarte é o delegado do Governo nas eleições do Porto. Porquê?
Achei absolutamente indecoroso que uma candidatura à Câmara seja lançada no intervalo de uma reunião do Conselho de Ministros. O Conselho de Ministros reuniu no Mercado do Bolhão e, no intervalo, um dos ministros sai para dizer que é candidato à Câmara do Porto? Com franqueza, acho isso absolutamente inadmissível e tenho a certeza que há muitos milhares de portuenses que acham, como eu, que isso não é adequado. O presidente da Câmara do Porto representa os cidadãos do Porto na cidade e no país. Não é um representante do Governo na cidade do Porto.
Podia ter-lhe acontecido, se a maioria de António Costa não tivesse caído, ser ministro da Saúde e ter de tomar a decisão sobre vir para o Porto. Acha que o seu coração iria pesar mais para a Câmara?
O Porto foi sempre a coisa mais importante da minha vida política. Estive sempre muito ligado ao Porto. Agora, é impossível prever o que é que teria acontecido se o mundo fosse diferente do que foi.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Portajar VCI é absolutamente disparatada”
Entrámos agora na VCI…
A esta hora da manhã, fora de hora de ponta, veja a fila daquele lado, um inferno.
Tem falado na necessidade de transformar a VCI numa avenida urbana. Qual é que é a ideia e como é que funcionaria essa via urbana?
Não é um projeto para se fazer num ano ou em dois.
Mas é possível fazer num mandato?
É para se fazer progressivamente. Um mandato não é suficiente para essas mudanças. A primeira coisa que é preciso fazer é reduzir o fluxo de trânsito na VCI. Para isso, é preciso que finalmente se eliminem as portagens, nomeadamente as dos pesados na CREP, que se tomem medidas para que o trânsito de pesados, que não é dirigido à cidade do Porto, não venha à cidade do Porto. A VCI foi imposta pelo centralismo como se fosse uma autoestrada, uma ferida, no meio do porto. Nunca nenhum planeamento urbano municipal defendeu que a VCI devia ter este perfil de autoestrada e sempre se defendeu que devia ter o perfil de uma alameda urbana, de uma avenida urbana. Fazer a correção deste erro é hoje muito mais complexo.
Mas a longo prazo como é que vê a VCI?
Temos que reduzir o trânsito. Escrevi ao senhor primeiro-ministro reclamando que no próximo Orçamento de Estado seja clarificado em que dia é que entra em vigor essa medida de isenção das portagens dos pesados na CREP e que se acabe com as portagens para as circulações periféricas à volta do Porto. Se essas portagens forem eliminadas, reduziremos em cerca de 10% o trânsito na VCI. Depois precisamos de ir tomando medidas paulatinas para que a VCI possa deixar de ter este perfil de autoestrada.
Quantos anos precisava de estar à frente da Câmara para fazer isso?
Precisamos bem de uns 10 ou 12 anos. O que não quer dizer que não possa haver coisas feitas logo no primeiro mandato.
A ideia de Pedro Duarte de portajar a VCI é disparatada?
É absolutamente disparatada. Tenho a certeza que não há nenhum problema de VCI que fica resolvido por se introduzirem portagens. E até gostaria de saber como é que essas portagens vão ser depois implementadas. Com o trânsito da VCI, com a poluição e ainda temos de pagar para ir à VCI… só faltaria isso.
“Quando fui ministro, nunca aconteceu haver dez dias de greve no INEM”
Estamos a dirigir-nos ao Hospital de São João. É médico, foi ministro da Saúde. Como é que olha para aquilo que se está a passar no Serviço Nacional de Saúde?
Sou médico dos quadros do Hospital São João e tenho muito orgulho nisso. Acho que o que está a acontecer na Saúde é muito experimentalismo e pouca reflexão sobre as medidas. Quando se chega a um Ministério tão complexo como o da Saúde, a ideia de querer começar tudo de novo é muito perigosa. As mudanças de um sistema tão complexo como o Serviço Nacional de Saúde têm que ser incrementais. Não acredito nada em coisas mais ou menos revolucionárias, que vão mudar tudo de um dia para o outro. E tenho visto muita agitação…
E muitas críticas também àquilo que deixou feito, principalmente na questão da gestão do SNS.
Conforme o tempo vai passando, vai-se percebendo que talvez essas críticas tenham pouco fundamento. A verdade é que, enquanto fui ministro, apesar das dificuldades que não nego e que nunca escondi, nunca aconteceu as três maternidades da Península de Setúbal estarem fechadas no mesmo dia. Nunca aconteceu as três maternidades do Oeste estarem fechadas no mesmo dia. Era mesmo para isso que servia a direção executiva do SNS, para fazer uma articulação que garantia que, não havendo o que é desejável, não houvesse lacunas dramáticas.
A Linha de Saúde para Grávidas não faz sentido ou poderia ser útil?
Faz parte do pacote de medidas que tem que se tomar, mas não pode existir sem serviços que depois as possam acolher em tempo útil. Se a resposta da linha de saúde conduz a que uma grávida demore duas horas a chegar a uma maternidade… Há qualquer coisa que está a funcionar mal e a culpa não será da linha. Tenho sobre a situação da saúde uma visão muito moderada e de grande compreensão para as dificuldades. Agora, quando fui ministro, nunca aconteceu haver dez dias de greve no INEM e isso não pode acontecer.
Num balanço do final de julho já tinham nascido 42 bebés fora das maternidades, 38 em ambulâncias. A ministra podia ter feito melhor para antecipar este verão?
Foi cometido um erro brutal quando se decidiu substituir o Fernando Araújo como diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde. A ideia de colocar na direção executiva do SNS alguém que cumpre as ordens diretas do ministro, sem mais, é uma ideia que torna a direção executiva inútil. Se calhar sou uma pessoa mais autoconfiante, mas não me causava nenhum problema que Fernando Araújo, com toda a sua autoridade técnica reconhecida, tivesse intervenção pública.
O Porto está um bocadinho fora desta realidade problemática que temos visto nos últimos dias?
Está mesmo muito fora. Ao longo das últimas décadas, conseguimos soluções consensuais para defender o Serviço Nacional de Saúde no Porto. Não há nenhuma maternidade que deixe de funcionar, não há anúncio de grávidas não atendidas, todas as pessoas têm médico de família. Isso tem a ver com coisas que foram feitas ao longo do tempo. Tenho orgulho de ter tenho participado nessas coisas, mas Fernando Araújo foi absolutamente essencial nesse processo, nomeadamente quando foi presidente da Administração Regional de Saúde do Norte, há dez ou 15 anos.