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Mafalda Pombo Lopes

Mafalda Pombo Lopes

Casa Vadia: uma casa que pode ser o que quiser

É em Melides que podemos encontrar o epicentro da CASAVADIA. O que começou como um pequeno hobby, é hoje a ocupação de duas mulheres que encontraram no antigo a missão de criar algo novo.

É depois de uma pequena estrada de terra batida que o caminho se vai estreitando e se começa a ver, ao longe, aquela que será uma das três Casas Vadias. Depois de parar o carro, é altura de esticar as pernas, apreciar a vista e deixar que o silêncio se instale. Estamos em pleno coração de um monte, na Costa Alentejana, onde nada mais se faz ouvir do que o som dos pássaros e das árvores que por ali habitam o espaço. Se a paisagem é de cortar a respiração, o ar apura todos os sentidos e rapidamente somos recebidos por uma paz que não se encontra no frenesim dos dias na cidade.

Carla e Joana, fundadoras deste projeto, rapidamente nos recebem, encaminhando-nos para a primeira casa. A conversa decorre naquilo que será a sala, com grandes janelas que em momento algum obstruem a vista para o exterior. O contacto com a natureza é constante, mesmo com uma parede pelo meio. Chegámos à CASAVADIA. Um projeto que começou na zona do Meco, com uma casa velha e abandonada. Um projeto que começou como um hobby, paralelo aos trabalhos que ambas tinham, mas que rapidamente ocupou mais espaço e é hoje a ocupação principal.

“Neste momento, o projeto da CASAVADIA existe só aqui em Melides, mas começou no Meco. Fui parar ao Meco no final do curso. Estava um bocado perdida, à procura de outro sítio para viver”, começa por nos contar Joana. Enquanto Carla se ocupa da casa, que em breve será ocupada por hóspedes, é Joana que assume as rédeas da conversa, continuando: “E então, quando fui morar para o Meco, num passeio de bicicleta, encontrámos uma casa abandonada e surgiu a ideia de a restaurar, com a finalidade de depois alugar. E pronto, foi um projeto que na altura foi feito muito com coisas que os nossos amigos iam dando, com coisas velhas que tinham e que nós restaurámos, com muita mão-de-obra da nossa parte”.

Tudo começou com zero pretensões. Carla trabalhava numa produtora e Joana é licenciada em Psicologia. Na altura, o conhecimento que tinham sobre alojamento era quase nulo, mas a vontade de começar levou a melhor. “Tínhamos zero noções de turismo e de como é que as coisas funcionavam e foi um bocadinho surpresa. Claro que acreditávamos que estávamos a pôr uma casa muito fofinha e que alguém iria achar piada e iria querer ir para ali, mas foi também surpresa quando começámos a perceber que havia, de facto, um mercado de pessoas que queriam mesmo ir para o meio da natureza, para uma casa com umas paredes tortas e com um charme de casa antiga, mas no meio da natureza. E de repente a casa teve muito sucesso, estava sempre cheia”.

Passar do Meco para Melides foi igualmente uma surpresa. Por ser uma região que não conheciam até então, esta era uma mudança que não estava nos planos. “Quando surgiu a oportunidade de virmos para Melides, basicamente foi assim um bocadinho por acaso também. Foi através de uma pessoa que era um dentista da Carla. Basicamente, ela foi ao dentista, falou-lhe do projeto que tínhamos feito no Meco e ele e o irmão eram donos deste monte onde estamos”, recorda, prosseguindo: “É um monte grande, com sete hectares, então convidaram-nos para vir aqui ver. Nós ficámos completamente apaixonadas, porque é um sítio único, e quando viemos cá ver tínhamos duas casas também para restaurar, porque também eram antigas. Não estavam no estado da primeira, mas estavam também a necessitar de obras e com mobílias muito antigas, tudo muito antigo. Mas pronto, arriscámos, viemos, restaurámos as casas e, neste momento, já temos três, portanto o projeto foi crescendo”.

No fundo, este acaba por ser um alojamento diferente da ideia que, por norma, associamos a este tipo de espaços. Funciona como uma espécie de troca entre os proprietários do terreno e Carla e Joana. O espaço não é delas, mas é como se fosse. Pelo menos no que diz respeito à sua exploração. “Isto é uma parceria. No fundo, nós exploramos o espaço – eles são os donos do espaço – e damos uma percentagem de toda a faturação dos alojamentos. Acho que é um acordo que funciona. Obviamente que a comunicação é essencial. Mas temos o apoio deles também para crescer”, esclarece Joana.

E o nome “CASAVADIA”, de onde vem?

Para além do nome, existem outras características que diferenciam este projeto. Para além de nómada e em constante mutação, se assim o quiser, este é também um espaço que oferece o que dificilmente se encontra fora de nossa casa: privacidade. Quando pensaram nestas três casas, e tendo o terreno tanto espaço para que coabitassem, tanto Joana como Carla não quiseram prescindir do sossego para quem as ocupar. “Agora temos três casas no monte, mas tentámos que as três tivessem privacidade: cada uma tem o seu espaço exterior, cada uma tem a sua piscina…porque acredito, obviamente, em projetos mais comunitários, onde as pessoas vão para estarem juntas e partilharem coisas, mas acho que há espaço para as duas coisas. Também há espaço para isto, para te sentires como se estivesses no teu bocadinho do monte. Essa sensação mais de isolamento, e de estares mais contigo, foi sempre essa a ideia. Fazer uma coisa mais para as pessoas estarem com elas próprias, ou em família ou com amigos, mas estarem mais no espaço delas. É como se fosse a tua casa de férias, sem a teres”. Para quem procura uma casa longe de casa, ou a casa de férias que nunca teve, é aqui que poderá encontrar esse recato.
Para além da privacidade, o que mais distingue as 3 casas?

É possível encontrar a CASAVADIA nas plataformas de alojamento habituais ou no site próprio. E é também lá que podemos ler que ficar numa destas casas é mais do que desfrutar das praias ou do bom tempo do verão. Esta é uma experiência para se ter em qualquer altura do ano, com a promessa de que cada estação trará consigo uma magia diferente. “Existe mais para além de vir aqui em julho e agosto usufruir da praia. Eu adoro estar aqui no inverno. Tu tens um ritmo que é completamente diferente…às cinco da tarde já é de noite, mas vai-se acender a lareira, tens outra rotina que não tens no verão, tens pores do sol que não tens no verão porque os de inverno são mil vezes mais bonitos. Ou seja, usufruis de outras coisas”, explica Joana, acrescentando em seguida que, aqui, também se encontra uma paz capaz de nos retirar do stress da rotina diária. Sendo os hóspedes, na sua maioria, pessoas da cidade, Joana acredita que este é o espaço ideal para “essas pessoas. Que podem fazer as suas compras de supermercado e não precisam mais de sair daqui”. Ainda assim e, se porventura, a vontade for a de explorar as redondezas, o trabalho das duas também tem sido feito nesse sentido: de ligar o projeto à comunidade, dando a conhecer aos seus hóspedes opções de atividades e projetos que podem fazer fora do monte. “Eu acredito mesmo que, quando estás num negócio destes, tens mesmo que trabalhar com as outras pessoas e fazer acontecer. Aqui nesta zona tens muita observação de aves, por exemplo. E nós tentamos também trabalhar com pessoas que possam desenvolver esse tipo de atividades. Passeios a cavalo, aluguer de bicicletas elétricas, spa…para nós faz todo o sentido, aliás, faz muito mais sentido poder trabalhar com essas pessoas e todos beneficiarmos desta troca. Nós dizemos sempre que o nosso negócio é o alojamento. Para mim faz todo o sentido trabalhar com outras pessoas. E o nosso objetivo é esse, é sempre trabalhar com outras pessoas e estamos sempre muito disponíveis para ideias que as pessoas tenham e que queiram fazer”.

Porque é precisamente de pessoas que uma casa se faz, este é um projeto que se tem construído de histórias. Histórias das casas que restauram, das pessoas que nelas habitaram, das novas roupagens e de tantos outros que por aqui vão passando. Afinal, é precisamente esse “charme” que Joana defende ser tão especial numa casa antiga: “Este tipo de casas permite dar asas à nossa imaginação. Para mim, é chegar a uma casa e encontrar coisas que pertenceram a outras pessoas que já não estão cá, é perceber que existiram vidas ali. E eu acho que o gosto que me dá é um bocado também perceber isso, encontrar objetos, e coisas, que ligam a pessoas que já pensaram isto antes de ti e tu continuares a dar sentido a isso, continuares a escrever uma história no espaço. Porque a casa não vai estar aqui para sempre, mas, entretanto existem aqui imensas histórias”.

Com a certeza de que esta é a história que estão a escrever neste momento, Joana olha para o futuro de braços abertos para todas as possibilidades. Afinal, tudo começou fruto do acaso e é assim que pretendem continuar. “Sempre quisemos uma coisa que pudesse ir mudando. Gostamos de ir fazendo coisas diferentes. Mais do que a parte do alojamento, que gostamos muito, a parte que gostamos ainda mais é a de idealizar e restaurar casas. E dizemos muitas vezes, se tivéssemos, um dia, a possibilidade de só fazer aquilo que queremos, seria isso: comprar casas antigas e restaurar. Agora, a CASAVADIA, enquanto alojamento, o objetivo é continuar, seja de que forma for”. Afinal, ser “Vadio” é ser-se livre, é ser-se como, quando e onde se quiser. Não fosse a palavra escolhida para definir este projeto – pelas duas – a palavra: aventura. O que começou como um hobby, é agora um sonho realizado, mas nunca estanque. Porque esta é uma história feita de vários capítulos e, com certeza, daquelas que terá sempre um final feliz.

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