Caso Verónica. “Todos podemos ser as pessoas que partilham o vídeo, comentam e não fazem nada” /premium

01 Junho 2019184

A psicóloga Ana Moniz olha para o suicídio da jovem do vídeo sexual partilhado pelos colegas como a prova do poder de um grupo que age em bloco — e diz que, por mais que nos custe, também somos assim.

A experiência foi feita nos anos 1950, na Universidade de Swarthmore, nos Estados Unidos, e mostra o desconforto que alguém sente quando foge da norma e, sobretudo, a forma como prefere errar para não ser diferente dos que o rodeiam. A um grupo de pessoas foram mostrados cartazes de vários tamanhos. Apenas dois deles tinham as mesmas dimensões e o desafio era identificá-los. Cada grupo estudado era composto por sete atores e um único participante real, que ficava sempre para o fim, na hora de dar as respostas. Assim, ia ouvindo todos os outros — os atores — antes de falar. Nas duas primeiras rondas, todos deram a resposta certa — que era sempre evidente e fácil de perceber — e o participante estava confortável em acertar também. Na terceira, porém, os atores deram todos a mesma resposta errada. Como reagiu o participante?

Quase um terço dos que participaram na experiência — conhecida como “O Paradigma de Asch” — concordou sempre com o grupo nas escolhas erradas, apesar de saber que estavam erradas.

O teste é citado em “Este Livro Não é Para Fracos” (Ed. Planeta), escrito pela psicóloga e psicoterapeuta Ana Moniz. Na obra, a autora explica que os resultados mostram “a facilidade com que concordamos e mudamos de opinião apenas para não ir contra o grupo — um traço do nosso comportamento que talvez preferíssemos não conhecer.”

A psicóloga Ana Moniz

É também isso que salta à vista da especialista no caso de Verónica Rubio. A história trágica da jovem espanhola de 32 anos tornou-se tão viral quanto o vídeo que a levou a suicidar-se. Há cinco anos, Verónica filmou-se a si própria a ter relações sexuais. Agora, já casada e com dois filhos, viu as imagens serem partilhadas por centenas de pessoas, nos grupos de Whatsapp dos seus colegas de trabalho na empresa de camiões da Iveco, em Madrid. Ninguém sabe ainda como é que o vídeo lhes chegou.

Incapaz de lidar com as centenas de dedos apontados diariamente — “É aquela ali!” —, a jovem ainda pediu ajuda ao departamento de recursos humanos, mas de pouco valeu. A cunhada, também funcionária na empresa, acabou por mostrar as imagens ao marido. Um dia depois, Verónica Rubio enforcou-se.

Em entrevista ao Observador, Ana Moniz, especializada em psicoterapia cognitivo-comportamental e coaching executivo, começa por sublinhar que o suicídio não tem apenas uma causa e que é preciso conhecer a história toda de quem o faz. No caso de Verónica, por exemplo, a partilha do vídeo pode ter funcionado como uma gota num copo cheio de água, por ser evidente que a jovem se sentiu encurralada e incapaz de encontrar uma solução. E, quando é assim, o mais importante é encontrar toda a ajuda possível e o mais rapidamente possível. Mas, mais que isso, a especialista diz que temos de olhar para o fenómeno com o foco naqueles que funcionaram como agressores.

“Há um instinto natural. Há um grupo que está a fazer a mesma coisa que eu ou alguém até instiga. E há uma diminuição da responsabilidade. É um pouco semelhante a alguém que é morto ao pontapé: toda a gente deu um pontapé, mas ninguém sente que matou a pessoa.”

Em 2.500 funcionários, não há relato de que alguém tenha tentado travar um grupo que funcionou quase como uma matilha. Mesmo os que, eventualmente, em algum momento, possam ter pensado que aquilo não era correto. O problema, diz a psicóloga, é que todos sentimos medo de ir contra a norma ou contra um grupo que está a agir em bloco. “O primeiro instinto do medo é travar, travar, ‘é melhor não fazer nada’, ‘se fosse assim tão mau, os outros também paravam, ‘se o Manel está a fazer, então é porque não é assim tão mau’. Nós criamos uma série de ideias que nos permitam não nos sentirmos mal e não fazermos nada. E é isto que nós temos de saber àcerca de nós próprios”, explica a psicóloga.

Além disso, há uma desresponsabilização individual, por todos os outros fazerem o mesmo. É como quando um grupo mata uma pessoa ao pontapé. Ninguém se acha responsável por aquela morte porque só deu um pontapé — os outros é que deram todos os outros. Em situações como esta, o essencial é fazer uma pergunta: “Se eu estivesse sozinho, o que é que fazia?”.

O que é que explica um caso como o de Verónica Rubio?
O primeiro aspeto que todos os psicólogos e psiquiatras dirão que é importante reforçar é que o suicídio nunca tem uma causa. É sempre multicausal. Uma pessoa pode suicidar-se numa determinada situação e noutra não o faria. E isto é importante porque, quando se vê frases do género “telefonema da cunhada levou ao suicídio”, é preciso ter atenção, porque isto não é de todo rigoroso e é perigoso passar esta informação. Esta pessoa tinha aqui, com certeza, vulnerabilidades internas também, que terão a ver com a vida dela, com a história dela, com alguma impulsividade também — o enforcamento é uma das formas mais violentas, nunca é para sequer ter alguma atenção, é mesmo para morrer.

Era claramente uma tentativa.
Exatamente, era claramente uma tentativa, parece-me uma coisa impulsiva e é importante esta questão de ser sempre multicausal.

“Estamos a falar da tempestade perfeita. Houve uma série de fatores que levaram a que esta mulher se suicidasse, mas todos os dias podem estar a acontecer pressões deste género que não levam ao mesmo resultado e que, por isso, não têm a mesma atenção que este caso está a merecer.”

Diria, então, que isto pode ter funcionado mais como uma espécie de gota de água?
Sim, sim. Pelo contexto, há fatores internos e fatores externos. Isto é uma violência continuada, não há dúvida nenhuma disso, e se os recursos da pessoa ou a fase em que está forem mais escassos para lidar com isto, pode haver aquela sensação de encurralamento, de pessoa que está encurralada e que, naquele momento, não consegue, não vê outra saída, quer parar de viver como está a viver e, aí, é uma das razões para levar ao suicídio.

Essa sensação de encurralamento é o impacto principal da exposição de uma situação íntima de alguém?
Sim. O que parece aqui pela informação disponível é que ela foi tentando. Foi tentando pedir ajuda e a ajuda não foi chegando, pelo menos não conseguiu parar a tempo, permitindo que ela se organizasse de modo a perceber que outras hipóteses é que teria e que outras fugas ou outras ajudas poderia ter tido.

E aqui a questão sexual faz diferença? Tem uma dimensão maior ou diferente de qualquer outra?
Poderá ter, dependendo do contexto. Pelo que é dito — e isso foi bastante reforçado na notícia —, é uma mulher num ambiente de homens. Poderá ser sentido — dependendo da cultura e dependendo de várias coisas — como mais humilhante.

No seu livro, fala muito sobre o comportamento de grupo. O que é que leva alguém a entrar na roda e começar a partilhar um vídeo ou participar de insultos? É a pressão de grupo? A vontade de agradar?
Essa é a questão sobre a qual, no meio desta tragédia, é importante pensar. Porque o que dá vontade agora é pensar “onde é que estão os culpados?”, “quem são estas pessoas?”, “estas pessoas são cruéis, não têm princípios”, etc. Mas aquilo que a psicologia mostra é que, em determinada situação, todos podemos ter tido… eu já não digo partilhar, ser das pessoas que partilham, mas ser das pessoas que veem, que comentam, que não fazem nada. E estamos todos em risco de isto acontecer.

“Haverá pessoas que, no meio disto tudo, acharam "isto é injusto, eu amanhã faço qualquer coisa". Até isto podemos pensar. Mas depois o tempo e a situação vão passando e nós vamos ficando naquilo a que se chama o efeito espectador: ficamos a ver acontecer.”

E isso porquê? Porque é um instinto natural?
Porque há um instinto natural. Há um grupo que está a fazer a mesma coisa que eu ou alguém até instiga. E há uma diminuição da responsabilidade. É um pouco semelhante a alguém que é morto ao pontapé: toda a gente deu um pontapé, mas ninguém sente que matou a pessoa.

Porque só deu um pontapé…
Porque só deu um pontapé. “Eu só dei um pontapé”. E o mais importante perceber aqui é que o contexto é fortíssimo, tem um peso enorme. Temos esta ideia de “a mim não me aconteceria isto” e de não aprender com a experiência — e a investigação em psicologia o que mostra é que as pessoas têm de estar muito alerta para os fatores do contexto e para a pressão do grupo. Caso contrário, o mais provável é não agirem como gostariam de ter agido. Eu não acredito que alguém aqui quisesse que esta mulher morresse.

O caso de Verónica Rubio deu origem a várias imagens que circulam nas redes sociais com o alerta para o perigo de partilhas como aquela que aconteceu.

É como a experiência de Milgram [uma outra experiência citada no livro], que mostra que as pessoas são levadas a fazer coisas que não gostariam de fazer?
A experiência do Milgram fala mais em obediência à autoridade. Aqui, pelo que eu percebi, não é exatamente uma figura de autoridade, mas é o resto do grupo. E a ideia de alguém poder parar o que está a acontecer, é uma coisa que, para o conseguirmos fazer, temos de ter uma grande consciência da situação e é aqui que eu acho que a sociedade deve investir: é dizer “atenção que agir de acordo com os nossos princípios e valores em situações críticas, em que é preciso, não aparece automaticamente e é preciso estar alerta para isto”.

E requer coragem.
Exato. O tempo vai passando. Haverá pessoas que, no meio disto tudo, acharam “isto é injusto, eu amanhã faço qualquer coisa”. Até isto podemos pensar. Mas depois o tempo e a situação vão passando e nós vamos ficando naquilo a que se chama o efeito espectador: ficamos a ver acontecer.

“Isto é uma violência continuada, não há dúvida nenhuma disso, e se os recursos da pessoa ou a fase em que está forem mais escassos para lidar com isto, pode haver aquela sensação de encurralamento, de pessoa que está encurralada e que, naquele momento, não consegue, não vê outra saída.”

Quem o faz tem noção do risco real que esse comportamento pode ter e decide ignorá-lo, ou não tem noção de todo?
Eu acredito que esta notícia faz com que haja aqui um alerta e é importante que a sociedade reaja — até do ponto de vista jurídico e tudo mais —, que haja aqui uma maior noção que isto pode acontecer e pode acontecer assim à vista de toda a gente e sem ninguém o parar. Acredito que é possível — e isso sabemos — que pessoas “normais”, que não tenham, digamos assim, comportamentos muito fora da norma habitualmente, entrem em esquemas destes, façam coisas destas. Como acontece com o bullying, por exemplo. Falamos muito de como os jovens estão a ficar menos empáticos, mas eles não são menos empáticos do que muitos adultos. O fenómeno é semelhante.

Estamos muito habituados a falar de bullying entre crianças. Há alguma diferença entre crianças e adultos, ou isto mostra que não há assim tanta?
Creio que não há assim tanta. Não conheço investigação que mostre isto assim. Creio que não há assim tanta até porque as fases mais violentas do bullying são na adolescência. E, por isso, não são propriamente crianças. São ali pré-adolescentes e adolescentes e muito dentro desta linha de expor — o cyberbullying, por exemplo, que é o que aconteceu aqui. Isto é cyberbullying.

Neste caso, estamos a falar do extremo, de suicídio, com todo o contexto de que já falámos que um suicídio tem de ter…
Estamos a falar da tempestade perfeita. Houve uma série de fatores que levaram a que esta mulher se suicidasse, mas todos os dias podem estar a acontecer pressões deste género que não levam ao mesmo resultado e que, por isso, não têm a mesma atenção que este caso está a merecer.

“O que é que a vítima poderia fazer? Pedir ajuda o mais rapidamente possível, o que obriga a algo muito difícil também que é aguentar a vergonha, superar a vergonha. A vergonha pode ser um travão enorme ao pedido de ajuda. E isto sabe-se no bullying, por exemplo.”

No seu livro cita um estudo que mostra que, quando o bullying sobre uma criança é reiterado, os danos no futuro são semelhantes aos de crianças que passaram a vida em instituições, ou à espera de adoção. É assim também quando acontece com um adulto? Há aqui um quadro que pode levar a doença mental, depressão, solidão…?
Baseando-me em estudos, não lhe consigo dar uma resposta. Nós não sabemos qual é a história desta mulher, para trás. Esse estudo sobre as crianças também indicava que a taxa de suicídio podia estar aumentada, há outros estudos que o indicam, mas neste acabava por não ser possível concluir com o mesmo rigor com que se concluía em todos os outros, que é maior doença psiquiátrica, menor ajustamento, maior dificuldade interpessoal, menor satisfação com a vida — e de uma maneira muito grave e ao longo de muitos anos. Isto era um estudo longitudinal e até com as pessoas quando eram adultas. Aqui não sabemos. Muita da vulnerabilidade pode vir da história dela, não sabemos isso. Agora, estes comportamentos, que parecem… não é inofensivos, mas não se imagina que a consequência pudesse ser esta, e estes comportamentos reiterados e o não fazer nada para que isto pare como sociedade tem um efeito muito, muito negativo.

E como é que uma vítima pode lidar com uma situação destas? Que ferramentas pode usar durante e depois de uma situação destas?
O que ela tiver ao dispor. Pode ser afastamento, sem dúvida apoio psiquiátrico e psicológico, apoio especializado, perceber o que seria aqui necessário e conter estes comportamentos, evidentemente. Agora, o que é que a vítima poderia fazer? Pedir ajuda o mais rapidamente possível, o que obriga a algo muito difícil também que é aguentar a vergonha, superar a vergonha.

Qual é o papel da vergonha aqui? É esse papel que faz com que, muitas vezes, a vítima não peça ajuda?
Sim. A vergonha pode ser um travão enorme ao pedido de ajuda. E isto sabe-se no bullying, por exemplo.

Porque as crianças preferem que os pais não saibam…
Exato. Depende da expectativa que têm de como vai ser visto. A vítima vai ser vista como fraca, como pessoa que não se pode defender? A vergonha é um travão importantíssimo à afirmação, ao pedido de ajuda, à noção de direitos, à assertividade, sem dúvida.

"Nós, naturalmente, temos tendência a olhar para nós de uma maneira mais benevolente do que, de facto, devíamos. Se nós perguntássemos a alguém "o que é que tu fazias, se visses isto a acontecer?", a maior parte de nós diz "eu falava com não sei quem, parava imediatamente”. (…) Infelizmente, nos momentos-chave, não é para quem quer, é para quem pode."

E como é que alguém que participa num momento destes pode travar-se?
Primeiro, é ter a noção completa, que não é automática, de que sou sempre absolutamente responsável por tudo o que faço. E conseguir ter a autoconfiança suficiente — e isto sim, convém que seja educado desde o início e estimulado desde o início em adultos e em crianças — que é a autoconfiança para conseguir estar fora do grupo ou ir contra o grupo. Não ir. Ao mesmo tempo que o automatismo é ir atrás, conseguir parar e pensar: “Se eu estivesse sozinho, o que é que fazia?”.

Essa pergunta é essencial?
Sim.

Mesmo sem um aliado que faça o mesmo?
Quando estamos nos treinos específicos, fala-se muito da importância do primeiro aliado. O primeiro aliado tem um papel importantíssimo. Mas para o que nós temos de estar preparados é para ser o primeiro aliado ou o primeiro dissidente, a pessoa que pára. E isto não tem de ser, necessariamente, a pessoa que manda ou a pessoa que tem maior poder formal.

Esse espírito autocrítico parece-lhe que pode ser ensinado?
Parece-me que pode ser estimulado ou treinado. Diria que, naturalmente, não aparece assim. Nós, naturalmente, temos tendência a olhar para nós de uma maneira mais benevolente do que, de facto, devíamos. Se nós perguntássemos a alguém “o que é que tu fazias, se visses isto a acontecer?”, a maior parte de nós diz “eu falava com não sei quem, parava imediatamente, ia falar, fazia com que ela saísse dali, não estivesse ali até se resolver o problema”. Infelizmente, nos momentos-chave, não é para quem quer, é para quem pode. É para quem está robusto emocionalmente o suficiente para conseguir agir. E é importantíssimo ter esta noção.

No seu livro, além da questão da vergonha, fala do medo do ridículo e da dificuldade em lidar com ele. Quando é que esse medo começa a ser uma coisa consciente?
Eu falo na vergonha e medo do ridículo um pouco como sinónimos. Quando é que ele começa a ser consciente? A vergonha é uma emoção básica, que está presente muito desde o início e que, dependendo da maneira como fomos educados — e aí a cultura, a família estão muito nisso —, pode ser usada como um travão ou como algo que é desagradável, custa, a pessoa sente-se mal, mas consegue ultrapassar. Se nós pensarmos do ponto de vista mais instintivo, estar sozinho contra um grupo é perigoso. Se pensarmos em termos mais básicos de perigo, estamos mais expostos e até em termos de violência.

Há também aqui um medo…
Sim. Só que a verdade é que nós corremos muito menos riscos físicos nestes casos. Alguém que dissesse “atenção, é preciso parar com as mensagens” teria maneira de fazer isto em proteção. Só que o primeiro instinto do medo é travar, travar, “é melhor não fazer nada”, “é mau para mim”, “se fosse assim tão mau, os outros também paravam”, “se o Manel está a fazer, então é porque não é assim tão mau”. Nós criamos uma série de ideias que nos permitem não nos sentirmos mal e não fazermos nada. E é isto que nós temos de saber àcerca de nós próprios.

E sabemos pouco, como sociedade? Mesmo sendo um tema cada vez mais debatido, ainda assim, não estamos alerta?
Sim. Há 70 anos que se sabe isto, pelo menos, que a psicologia estuda isto e mostra isto. E dá ideia de que a mensagem ainda não passou. E então numa situação destas, andamos assim à procura… isto foi um microcosmos, isto foi uma sociedade. É como se não estivéssemos todos expostos a este perigo a todo o momento. E como se não dependesse de nós parar com isto. Cada um de nós.

"É preciso ter a autoconfiança suficiente para conseguir estar fora do grupo ou ir contra o grupo. Não ir. Ao mesmo tempo que o automatismo é ir atrás, conseguir parar e pensar: 'Se eu estivesse sozinho, o que é que eu fazia?'".

E quem é vítima de uma situação destas, tem, em Portugal, uma rede de apoio?
Depende do seu contexto. O primeiro alerta é ir procurar ajuda e ir procurar toda a ajuda que puder. Arriscando. Porque, de facto, um dos travões para procurar ajuda é “e se ficam a saber”? “E se mais gente sabe, como é que vai ser?” Há aqui um momento de incerteza, o medo e a vergonha fazem-nos ficar quietos e é preciso avançar.

E quanto a políticas ou leis? Nós olhamos para Espanha e vemos que 2.500 pessoas podem vir a ser acusadas de terem participado naquilo e fazerem parte de um destino trágico. Isso ajuda, de alguma forma? Ou não muda o mais importante, que é a forma como cada um de nós reage a estas situações?
Acredito que ajuda e que é preciso mais que isso. As consequências das ações são dos melhores travões que existem. As consequências imediatas das ações que temos. É um óptimo travão. Deixámos de andar a uma velocidade muito alta porque somos multados. E é um travão imediato. E por isso esse lado parece-me que pode ser necessário, do lado mais jurídico. Do lado de percebermos, cada um de nós, individualmente, como é que não permitimos que estas situações cheguem a acontecer sequer, aí acho que é mais uma pedagogia, acho que é mesmo aprender como é que as pessoas funcionam. E, nesta área, é a psicologia que tem a dar alguma coisa.

Esta realidade, mesmo que em casos menos extremos ou, seguramente, menos mediáticos, é uma coisa rara ou, até pela sua experiência, pode dizer-se que casos semelhantes acontecem, por exemplo, em Portugal?
Os casos do cyberbullying são cada vez mais frequentes agora. Mesmo por cá. E, claro, desde o momento em que há a possibilidade de ser exponencial a quantidade de pessoas que recebe aquele vídeo, a intensidade é mais forte do que 10 pessoas saberem, que é o que acontecia antes. E, por isso, a amplitude ainda é maior, a exposição é ainda maior. Acredito que nós estamos em risco. Estamos permanentemente em risco de, na pessoa do lado, isto acontecer. E mesmo connosco.

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