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Cem anos de Gore Vidal: o provocador americano

Romancista que ambicionava mais, ensaísta de excelência, lê-lo é ler toda uma época, uma longa época de alguma paz e com uma explosão imensa de divertimentos — e Vidal passou por todos eles.

Imagine-se um homem que ainda nasce enfeitado pelos halos de glória de um avô fundador de um estado americano; que cresce e, antes dos trinta anos, já trilhou todos os passos de uma carreira literária gloriosa: escreveu um dos primeiros (ou mesmo o primeiro) livros conhecidos sobre a experiência da Segunda Guerra Mundial, chocou o meio com um romance homossexual, experimentou a glória e a proscrição, e as consequências da originalidade em todas as suas formas, na incompreensão e nos mais encomiásticos elogios.

Imagine-se que, na fase mais negra, adota um pseudónimo e escreve policiais de grande êxito, que o deixam rico e com a garantia de que não deve o êxito a um capricho da sorte; não bastasse isto, o homem redime a sua imagem e recupera o seu nome a trabalhar como guionista em alguns dos principais filmes da MGM durante a era dourada de Hollywood, escreve peças que se tornam também elas êxitos na Broadway e nos cinemas, e ganha com isso uma reputação mais generalizada que o leva aos ecrãs televisivos. Aí, torna-se um influente comentador político, ajuda a eleger um presidente, torna-se também ele um político e ganha fama como um dos mais críticos intelectuais da vida política americana.

Nunca deixa de escrever romances, nunca deixa de aparecer na televisão, nunca perde palco como comentador político nem como crítico literário. É uma estrela no mundo do espetáculo, da política, no meio literário, é popular e erudito, escreve romances históricos e ensaios sobre as vanguardas literárias, tem graça, perfídia, inteligência, berço, erudição, influência, dinheiro, poder e move-se em todas as esferas mediáticas, reputadas, populares, marginais e decisivas. Um homem destes não parece real, parece uma personagem de um mau romance histórico do século XX, daqueles romances em que os protagonistas passeiam por tudo o que de significativo aconteceu no mundo, mas um homem destes existiu e chamou-se Eugene Louis Gore Vidal.

Não se trata apenas de revelar o mundo secreto por trás do mundo em que vivemos; trata-se de fazê-lo sem medo de parecer um traidor, sem má-consciência em relação a um lugar de privilégio, que lhe dá um toque de um snobismo waughiano fácil de detetar, e ao mesmo tempo com uma graça e uma sofisticação que não banalizam os mundos mais seletos.

Gore Vidal (que nasceu a 3 de outubro de 1925 e morreu a 31 de julho de 2012), disse-o várias vezes nas muitas entrevistas que deu, sempre se viu mais como um futuro político do que como um futuro escritor; o seu avô, Thomas Gore, foi responsável pela junção do Oklahoma à União, mesmo o pai, um aviador, fez parte do gabinete de um presidente, veio a ter um famoso primo, Al Gore, a concorrer à casa branca, e até, para continuar as ligações familiares à política, a sua mãe, depois do divórcio, foi casada com Hugh Auchincloss, também segundo marido da mãe de Jacqueline Kennedy. Curiosamente, porém, a sua carreira política ativa foi bastante tímida (talvez a única coisa tímida em Gore Vidal) – concorreu sem êxito ao congresso em 1960, voltou a candidatar-se a Senador pela Califórnia nos anos 80 mas a ambição política não lhe correu como a carreira literária.

Esta descolou logo em 1946, quando publicou Williwaw (nome tirado de uma espécie de tempestade própria das Aleutas, onde Gore Vidal esteve destacado durante a segunda Guerra); não se trata de um grande romance. Tem os traços típicos dos romances em cenário de guerra, com os conflitos clássicos entre medo, camaradagem, remorso e bravata, mas não traz nada de especialmente novo a um género muito cultivado nos anos anteriores, por conta da Primeira Guerra. Traz, isso sim, uma característica que será permanente na obra de Gore Vidal: uma capacidade quase omnisciente de perceber aquilo que interessa ao público.

Mais: Vidal irá afinando esta capacidade – que aparece em todo o seu esplendor nas suas memórias ou, antes disso, em peças como O Melhor Homem – através da consciência de que ele próprio está em lugares altamente mediatizados, mas de alguma maneira opacos. A vida interior de um batalhão, quando se conhecem apenas os feitos bélicos, as manobras políticas numa eleição presidencial, a arquitetura dos filmes da Grande época, é de todos esses interiores que a carreira de Gore Vidal é feita.

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Gore Vidal é um homem mundano, e isso leva-o a ter simpatia mesmo por alguns dos lugares-comuns mais óbvios e pelo sentimentalismo mais básico

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Ora, Vidal é especialmente capaz de navegar nestes elementos porque não tem medo de abraçar o lado mais obscuro de tudo isto. Não se trata apenas de revelar o mundo secreto por trás do mundo em que vivemos; trata-se de fazê-lo sem medo de parecer um traidor, sem má-consciência em relação a um lugar de privilégio, que lhe dá um toque de um snobismo waughiano fácil de detetar, e ao mesmo tempo com uma graça e uma sofisticação que não banalizam os mundos mais seletos.

Há, nos mundos de Gore Vidal, uma gravitas, até uma ressonância clássica, que de alguma forma traz justiça aos eleitos. Aqueles homens são mesmo os mais brilhantes, ou os mais carismáticos, e não estão nas posições de poder por acaso. Têm os seus segredos, que Vidal revela com uma coragem velhaca, o tipo mais estranho e por isso mais interessante de coragem, mas são segredos à medida daquilo a que se propõem, o que transforma o mundo de Vidal numa curiosa mistura entre o mundo intriguista de revistas cor-de-rosa, alimentado a despeito e ressentimento, mas também admiração, e um mundo de horizontes mais vastos, que atira a política do dia-a-dia para uma crónica de feição romana, com uma grandiosidade e um potencial narrativo que muitas vezes os episódios não têm.

Esta vontade de dar ao seu mundo as qualidades do mundo Antigo e uns contornos quase épicos vê-se bem também noutros assuntos que não a política. O modo como Vidal tratou a homossexualidade nas suas intervenções públicas, além de não poder deixar de ser mencionado – porque foi central na sua mundividência e no seu mundo literário – bebe também deste modo de olhar para as coisas. Vidal começou por tratar das relações homossexuais num romance de juventude, A Cidade e o Pilar, que lhe trouxe uma série de problemas, uns que ele exagerou, sim, mas outros bem reais; depois desse romance, o tópico fundamental do seu discurso em torno da homossexualidade passa pela tentativa de mostrar o mundo cristão como um intervalo bizarro no modo de encarar a sexualidade, facilitado por uma crise demográfica que pretenderia encorajar as relações heterossexuais; à sua incursão pelos romances históricos não será alheio o desejo, que nunca escondeu, de popularidade, mas é sobretudo a esse desejo de mostrar mundos morais alternativos que ele se deve.

Vidal pode não ser um dos maiores romancistas da sua geração; no entanto, os seus ensaios são o cúmulo da inteligência, graça, conseguem ser desconcertantes nos temas, não perdem aquele tom de quem está a falar a partir de dentro, e estão num lugar muito mais apropriado para entrar representar o modo de Gore Vidal se relacionar com a cultura popular.

Gore Vidal foi um romancista popular, num modo muito próprio do século XX americano, o modo de que também beneficiou Capote, por exemplo, e que consistiu numa estranha aliança entre um reconhecimento académico capaz de fechar os olhos a certas concessões a artifícios narrativos básicos, próprios do cinema de massas, e um público capaz de tolerar a elevação do seu mundo a um patamar mais sério do que aquilo a que estava habituado. Os romances de Vidal não são extraordinários, mas a sua ideia, como um todo, é agradável sob vários aspetos. Trata-se de um mundo guloso e de um modo de integrar a cultura popular contemporânea no mundo das grandes civilizações.

Gore Vidal é um homem mundano, e isso leva-o a ter simpatia mesmo por alguns dos lugares-comuns mais óbvios e pelo sentimentalismo mais básico. Isto convive, nos seus romances, com uma fineza na interpretação dos caracteres e até com um arrojo na denúncia de tabus impossível de negar; no entanto, os seus romances saem prejudicados por esta espécie de falta de critério, capaz de aceitar tudo: subgéneros, enredos básicos, personagens mal-cuidadas, na esperança de que tudo isto possa ser redimido pela inteligência e pelo estilo ritmado do autor, e entendido como uma democraticidade pós-moderna, vanguardista, capaz de integrar a baixa-cultura.

Não nos parece que esta integração, nos romances, seja inteiramente conseguida. No entanto, e curiosamente, aquilo que poucas vezes resulta no romance é precisamente a sua grande arma enquanto ensaísta. Vidal pode não ser um dos maiores romancistas da sua geração; no entanto, os seus ensaios são o cúmulo da inteligência, graça, conseguem ser desconcertantes nos temas, não perdem aquele tom de quem está a falar a partir de dentro, e estão num lugar muito mais apropriado para entrar representar o modo de Gore Vidal se relacionar com a cultura popular.

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Não será um grande romancista; no entanto, é tudo o que o mundo do espetáculo americano trouxe ao mundo, na sua melhor versão

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O seu ensaio sobre os best-sellers do ano de 73, em que mostra de onde vêm todas as tendências dos romances religiosos e sentimentais, os seus ensaios sobre os críticos literários dos anos 40, sobre a vida nos estúdios cinematográficos, a escrever lixo encarado depois como pepitas de ouro, tudo isso revela a sua capacidade para traçar genealogias culturais imprevisíveis, revela o seu enorme conhecimento das nuances populares, e traz uma verdadeira história das pequenas ideias.

Claro que os seus ensaios sobre a política Americana no sentido mais clássico do termo também têm a sua importância, e constituem como que um anúncio mais ligeiro dos inimigos de Chomsky: o imperialismo, as grandes corporações, o lobbying e todo esse mundo que, durante talvez uma década – a década de George W. Bush – preocupou o Partido Democrata; no entanto, é nos seus ensaios mais ligeiros, sobre o Tarzan ou sobre a televisão, que o melhor de Vidal se revela: um mundo divertido, brilhante, e erudito de um modo descomplexado, quer sobre mundos passados, quer sobre mundos presentes.

Não será um grande romancista; no entanto, é tudo o que o mundo do espetáculo americano trouxe ao mundo, na sua melhor versão. Se não valer por mais nada, valerá pelo menos por isso: lê-lo é ler toda uma época, uma longa época de alguma paz e com uma explosão imensa de divertimentos — e Vidal passou por todos eles.

[O que realmente se passou nas eleições presidenciais de 1986, as primeiras e únicas decididas a duas voltas? Uma história de truques sujos, acordos secretos, agressões e dúvida até ao fim. “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

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