O início do confinamento coincidiu com um internamento no Hospital de São José, em Lisboa, devido a uma pneumonia. De regresso a casa, Clara Pinto Correia passou uma grande temporada na cama e esse sufoco levou-a a uma conclusão, revelada em entrevista à revista Sábado no início de 2025: “Se continuar em Lisboa, morro”. Escolheu então Estremoz para viver, já que, além de achar a cidade luminosa, esta lhe lembrava o primeiro amor — e também o mais recente, que acabou por inspirar a personagem Bandido, de Antares, o 59.º e último livro, publicado no verão de 2024.
Em 2020 arrendou um T5 do século XVIII, no centro da cidade, onde entretanto acolheu dois cães, Jeremias e Sebastião, e era no escritório que passava grande parte do dia, a escrever. Foi em casa que esta terça-feira, 9 de dezembro, foi encontrada inanimada pela empregada doméstica, que terá chamado os bombeiros e o INEM logo pela manhã. Embora ainda não tenha sido revelada a causa da morte da escritora, jornalista e cientista de 65 anos, a SIC Notícias fala de um “episódio de doença súbita”.
Em Estremoz, Clara Pinto Correia encontrou sossego longe das polémicas de outros tempos, doou mais de 100 livros de divulgação científica à biblioteca local e inscreveu-se num coro feminino, As Velhas Gaiteiras. Porém, as frequentes maleitas não a deixavam ser ativa como gostaria. Atualmente era colunista da publicação digital Página Um onde, na crónica mais recente, publicada a 23 de novembro, revelou ter sido vítima de violação no Natal de 2020 — o artigo foi escrito a propósito da lei contra a violação das mulheres reconhecida na Assembleia da República.
“Fiz o que fazem todas as mulheres violadas, sejam quais forem as nossas razões para as nossas escolhas: tomei duche, calei-me e nunca, mas nunca na vida, contei nada a ninguém”, escreveu.
Perante a notícia da morte de Clara Pinto Correia, os depoimentos de outras figuras públicas têm-se multiplicado, começando pela reação do Presidente da República. “Não deixou nunca ninguém indiferente. Daí o sentido de ausência por todos partilhado neste momento”, pode ler-se no site oficial da Presidência da República.
Rui Zink, que trabalhou com ela em televisão em 2007, descreveu Clara Pinto Correia numa publicação do Facebook como “garrida, atrevida e maior que a vida, até que a vida (como um dia fará a todos nós) lhe tirou o tapete”.
Já no Instagram, o escritor Pedro Chagas Freitas reconheceu-lhe uma “curiosidade constante” e uma “intensidade extrema”.
Na entrevista dada à revista Sábado em janeiro deste ano, dizia que gostava que lhe dessem os parabéns, mas que dizia sempre que tinha mais idade “[…] para as pessoas dizerem que estou ótima. […] Este ano tenho dito 67; para o ano acho que dizer 68 não tem graça, 69 é um número obsceno e 70 é demais.”
Uma bióloga reconhecida
Maria Clara Amado Pinto Correia nasceu em Lisboa, na maternidade Alfredo da Costa, a 30 de janeiro de 1960. Era prematura, com sete meses, e tinha eczema. Aos dois anos teve poliomielite, doença infecciosa. “A boca torta é por causa da polio”, garantiu.
Parte da infância foi passada em Angola (com três irmãs mais novas, incluindo a jornalista Margarida Pinto Correia), onde o pai foi professor de medicina e médico durante a guerra colonial. A mãe também era médica e, de acordo com uma publicação que Clara Pinto Correia fez no Facebook aquando da morte dela, uma das primeiras daquela geração e “do grupo de amigas a trabalhar e a criar as filhas ao mesmo tempo”.
Por essa altura, aos seis anos, já inventava e escrevia histórias, além de folhear, fascinada, os números da National Geographic que o pai assinava. Foi esse gosto pela natureza e pelos animais que a levou à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Licenciou-se em Biologia, trabalhou no Laboratório de Biologia Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência e foi para os EUA para preparar um doutoramento em Biologia Celular que terminou no Porto. Regressou aos EUA, escreveu sobre clonagem de embriões em mamíferos e, de volta a Lisboa, criou a licenciatura em Biologia e o mestrado em Biologia do Desenvolvimento na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Nos anos seguintes dividiu-se entre o ensino catedrático em Portugal e nos EUA. Publicou dezenas de livros sobre biologia e assinou centenas de artigos em revistas científicas.
Com o pai, José Manuel Duarte Pinto Correia — ou “o professor”, como era tratado até em casa —, tinha uma relação especial que recordou numa newsletter de outubro de 2018 da Faculdade de Medicina. Os dois davam passeios por um pomar plantado pelo pai na quinta familiar de Tremez, em Santarém, onde ele lhe colocava o polegar e o indicador por detrás do pescoço enquanto pedia: “Anda, Tim”. Referia-se ao cão dos livros de Os Cinco. “Ao menos eu sei para mim, frame by frame, que todos os passos que dei a seguir na vida seguiram sem desvios o caminho silencioso que ia ter ao pomar. Só nós os dois e a passarada, em manhãs muito lindas, cintilantes de sol de Inverno”, escreveu Clara Pinto Correia.
▲ Com António Mega Ferreira, o primeiro marido
LUSA
Jovem reivindicativa, jornalista por acaso e o plágio que deitou tudo por terra
A paixão pelas ciências conviveu sempre com a escrita e, com 12 anos, já colaborava com o jornal A Capital. No suplemento juvenil Os Quadradinhos escrevia histórias e fazia parte de um grupo de miúdos revolucionários e reivindicativos que viveram o 25 de Abril em êxtase. Ela andou a pôr “cravos nas espingardas, como toda a gente”, recordou no programa Retratos – 25 Nomes, 25 Anos, 25 Dias, emitido pela RTP1 em abril de 1992.
No início da década de 80, quando vivia no mesmo prédio do semanário O Jornal, um dia perguntou se estavam à procura de pessoas. Começou como estagiária e foi subindo de posto entre 1980 e 1985. No Jornal de Letras dirigiu a secção científica de 1983 a 1986. Publicou o primeiro livro, Anda uma mãe a criar filhas para isto, em 1983, e em 1985, tinha então 25 anos, publicou Adeus, Princesa, um livro que lhe valeu rasgados elogios pela imaginação, o humor e a idade. Por esta altura era já escritora, jornalista e cientista.
Quando Maria João Avillez lhe perguntou no programa Interiores, de outubro de 1992, se não eram demasiadas coisas ao mesmo tempo, respondeu assim: “Portugal é um país muito pequeno, pelo que é muito fácil a pessoa começar a ramificar para outras áreas”.
Por isso, e por se ter tornado figura pública muito jovem, fugiu tantas vezes para os EUA. “Uma pessoa começa a crescer em público aos 20 anos e aos trinta pergunta-se: ‘Mas que pessoa é que eu sou? Sou eu ou sou a minha imagem?’ Hoje em dia, penso que sou uma pessoa muito mais madura, muito mais definida e muito mais em paz comigo própria do que antes de ir para a América”, explicou na mesma entrevista.
Ao mesmo tempo, sentia-se maltratada por ser considerada por muitos uma “menina mimada da literatura portuguesa”. “Sou uma “menina mimada” que se licenciou em biologia enquanto trabalhava a tempo inteiro como jornalista, a dar explicações e a fazer colaborações para tudo o que era sítio, lançando mão de todos esses expedientes de sobrevivência. E será por ser ‘mimada’ que — depois de ter a cama feita em Lisboa — deixei tudo e vim para Buffalo, onde cai neve de Outubro a Abril, sozinha, preparar o doutoramento…? Mais uma vez, são os estereótipos a funcionar: se a pessoa é alegre e não esconde a alegria, é leviana, nunca sofreu…”, desabafou em entrevista à revista Máxima em 1991.
Ainda assim, sempre que estava em Portugal acumulava trabalhos atrás de trabalhos. Foi cronista do Diário de Notícias, apresentou programas na rádio e na televisão (Domingueiro, 1982; Música para Camaleões, na Rádio Comercial, 1986) e chegou a publicar quatro ou cinco livros por ano. Assinou a crónica semanal A Deriva dos Continentes na Visão até Fevereiro de 2003. Nessa altura, a revista publicou um texto, O castelo, que se revelou ser uma cópia quase integral de um artigo publicado em janeiro de 2003 na revista The New Yorker. Chamava-se Leaving The Castle e era da autoria do diretor da revista, David Remnick.
Sobre o assunto, a escritora garantiu que tudo não passou de uma confusão que se deveu ao cansaço. “Deixei o texto aberto sobre Vaclav Havel [presidente da República Checa de 1993 a 2003], que tinha traduzido, guardado e assinado com o nome da pessoa [colunista David Remnick], para citar. Mas eram 3h da manhã e eu estava completamente estafada. Depois deixei cair. Foi colado às outras partes que escrevi”, garantiu à revista Sábado.
O problema é que aquilo que ela considerou ser um lapso deixou de poder ser descrito como tal quando, poucos dias depois, se descobriu que outro artigo de Clara Pinto Correia, O eixo do mal, tinha passagens muito semelhantes a um texto igualmente da New Yorker, de Hendrik Hertzberg. Pior, em declarações ao jornal Público, a escritora criticou alunos que copiavam trabalhos. “Nem se apercebem de que estão a plagiar e que o plágio é crime”.
A ligação à Visão terminou logo aí, assim como ficou suspenso um livro de crónicas que a Oficina do Livro estava prestes a publicar. Depois disso, fez escolhas no mínimo inusitadas, como a participação no filme Kiss Me (2004), como uma tia moderna ou o papel de jurada no reality show A Bela e o Mestre (2007), que juntava mulheres bonitas e homens cromos — e onde trabalhou com Rui Zink.
Os três maridos, a maternidade e o escândalo Sexpressions
Clara Pinto Correia casou três vezes. Primeiro com o escritor António Mega Ferreira, depois com o académico norte-americano conhecido apenas como Dick, e de seguida com um fotógrafo, Pedro Palma.
Do segundo marido sempre guardou as melhores recordações e uma das mais divertidas foi no dia em que trocaram alianças, em Las Vegas, em 1995. Ambos de camisa branca, calças de ganga e botas de cowboy — as dela feitas de pele de cobra — escolheram uma das capelas que já tinha visto o “sim” uma data de celebridades, a Candlelight Wedding Chapel.
Quis ter filhos durante muito tempo. Após quatro tentativas falhadas, desistiu e teve uma depressão. Criou uma linha SOS com uma amiga psicóloga e uma espécie de terapia de grupo semanal. “As pessoas responderam avidamente. Toda a gente levava petiscos, era a noite inteira à conversa”, recordou à Sábado.
Com Dick acabaria por adotar dois rapazes, com sete e seis anos, quando já tinha quase 40 anos. Agora adultos, deram–lhe seis netos.
Quando o casamento acabou, Dick ficou com os bens que estavam nos EUA e Clara com o que havia em Portugal — só que a casa ainda estava por pagar e acabou entregue ao banco. “Tive de me apresentar à insolvência”, admitiu à Sábado.
▲ Os últimos cinco anos foram vividos em Estremoz, onde arrendou uma casa do século XVIII
Clara Pinto Correia / Facebook
Refeita a vida com o fotógrafo Pedro Palma, foi a imagem de uma uma exposição fotográfica que ele apresentou no Centro Cultural de Cascais em 2010. Sexpressions reunia várias imagens da escritora em pleno orgasmo. Foi mais um escândalo que, segundo Pinto Correia, lhe valeu ficar sem qualquer tipo de trabalho. “[Pedro Palma] estava lixado comigo. Eram para ser só dez fotos, ele pôs todas as que me tinha tirado, umas 20 e tal, sem o texto, sem explicar o que é que aquilo era.”
Porém, recuando a essa altura, Clara começou por descrever o projeto como “um ensaio apaixonado e apaixonante sobre essa fuga infinita de um rosto através dos caminhos secretos do desejo partilhado”. Passada a paixão (ou dois meses de casamento), os dois desentenderam-se, Pedro Palma acusou-a de traição e de fingir a reação nas imagens, seguindo-se um pingue-pongue de acusações nas revistas cor de rosa — sete anos mais tarde, o fotógrafo foi encontrado morto na bagageira do próprio carro.
Pouco depois da polémica exposição, numa viagem do Penedo, onde vivia, à Lusófona, desmaiou ao volante. O carro capotou, ela acabaria a ter de ser operada à coluna. “Era para ter ficado numa cadeira de rodas. O médico que me operou, e era ateu, disse-me: ‘O que aconteceu só pode ser um milagre. Reze e agradeça a Deus’, recordou à Sábado.
Sem trabalho, trocou Sintra por Xabregas e começou a dar explicações de biologia e português num centro de estudos em Moscavide. Depois teve uma breve carreira como modelo. “Passei muitas peças da Maria João du Valle, grande amiga, estilista.”
Em 2011, os filhos foram viver para Londres e ela para os EUA. Estudou técnicas de reprodução assistida no humano e escreveu Fear, Wonder, And Science – In The New Age Of Reproductive Biotechnology [Medo, admiração e ciência – na nova era da biotecnologia reprodutiva em tradução livre], editado em 2017 pela Columbia University Press.
Nesse ano recebeu o Prémio Mulher Empreendedora 2017, no domínio da literatura. Numa entrevista à revista Eles & Elas dois anos mais tarde falou sobre a distinção, mas também sobre o facto de sentir que vivia “como se já estivesse morta”.
Na mesma conversa, admitiu ter ponderado o suicídio. “De repente fiquei sem qualquer espécie de trabalho e tive de pedir ajuda a toda a gente em que ainda confiava. E vivia numa aldeiazinha muito isolada. E, à noite, às vezes pensava o óbvio. Claro que, se eu morresse, a esta hora já andava toda a gente a dizer que eu sou uma figura incontornável da segunda metade do século XX. Veja bem isto, é espantoso o que um autor tem de fazer para vender, né?”
Apesar de todos os sucessos acumulados em diversas áreas, tinha noção de que o que muitos viam era apenas “uma gaja que fez um plágio e teve um orgasmo” e essa era uma das grandes mágoas da vida de Clara Pinto Correia.