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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Com "notáveis" a apoiar Seguro, Ventura procura movimento do povo contra as elites

André Ventura quis agregar a direita e viu os notáveis dessa mesma direita a virar-lhe as costas. "Sozinho", monta estratégia do povo contra as elites em busca do eleitorado que não quer socialismo.

A esperança da noite eleitoral vai-se evaporando a cada dia que passa. Com as sondagens desfavoráveis e o desfile de apoios a Seguro, a narrativa de “agregar e unir” a direita — que procurou construir logo na noite eleitoral — está a transformar-se rapidamente numa luta pelo voto do cidadão comum, numa distinção entre “o povo” e as “elites”. Para o candidato a Belém, se não dá para os conquistar, é tempo de adotar o discurso mais populista do Chega para criar um fosso que coloque os “notáveis” como inalcançáveis aos olhos do povo.

O tema dos apoios a António José Seguro marca os últimos dias e André Ventura não foge dele. Pelo contrário. Sempre que está em frente a jornalistas ou apoiantes faz questão de abordar o tema, de o desvalorizar e de o virar a seu favor. Ao ver apoios de pessoas que nunca pensou votarem num socialista, destaque para figuras do CDS e IL, mostra-se surpreendido, às vezes estupefacto. Mas sabe que o discurso que foi afinando ao longo dos últimos anos cola na perfeição ao que se está a fazer.

De tal forma que, em plena campanha para a segunda volta, apressou-se a estrear um novo cartaz para dizer o que tem repetido à exaustão: “Quando estão todos contra um homem é porque está no caminho certo.” É por aí que tem ido e é por aí que deve continuar.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Socialismo vs. pessoas que votam à direita e não são notáveis

Na terra onde vive António José Seguro, nas Caldas da Rainha, ao lado da estátua do Zé Povinho, Ventura não foi de meias medidas: é do povo que precisa para ganhar, mais ainda quando tem vindo a atacar ferozmente as “castas” do país. Ali, em cima de um banco e a acariciar o chapéu da famosa personagem portuguesa, realçou: “É o símbolo do povo, é com estes que vamos ganhar as eleições. Não queremos as elites que andam atrás deles. É com o povo que vamos mudar Portugal.”

Daí para a Baixa da Banheira, procura manter a mesma ideia de que é possível que o povo tenha uma palavra a dizer. “Há muitas décadas, talvez há muitos séculos, [que Portugal] não tinha um movimento tão forte de povo contra as elites, do povo contra aqueles que o subjugaram e contra aqueles que o estupidificaram”, atira num pequeno discurso no final de uma arruada no distrito de Setúbal.

O candidato presidencial, que já na primeira volta tinha assumido que a segunda seria uma missão complicada, reconhece agora que esta é uma “luta difícil” e justifica: “São as elites todas contra mim.” Vai dizendo que está interessado “sobretudo no povo português que não está vendido às elites”, de quem que “não está dependente das empresas públicas”, do dinheiro público ou “dependente de cargos”. “Quero o voto do povo português que tem que sair de manhã para trabalhar, quero um país melhor para os seus filhos, não quero que os seus filhos emigrem, quero viver com segurança, quero viver em paz, quero uma alternativa, e sabe que o socialismo lhe deu tudo menos uma alternativa, deu-lhe uma alternativa má.”

Ventura tem procurado mostrar que há uma razão para que todos se unam contra a sua candidatura: “Se nos estão a atacar tanto é porque estão a sentir que os interesses deles estão postos em causa. E se nos estão a atacar tanto e a querer tanto destruir, da esquerda à direita, ao centro, é porque alguma coisa devemos estar a fazer bem.”

É com este discurso, do já habitual nós contra eles, que Ventura está a tentar não só convencer o eleitorado do Chega a ir votar novamente — sabe-se que tem os eleitores mais fiéis —, mas também a alargar essa base. Porém, tem deixado cair o discurso de que pode ser o líder da direita capaz de agregar e de chegar ao eleitorado de Marques Mendes, Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo.

Agora, fá-lo com outra técnica ao “distinguir entre o povo que não quer o socialismo, o povo não socialista, a grande massa dos portugueses não socialistas, e um conjunto de notáveis [que pretende] manter os seus privilégios, as suas conexões, os seus círculos de interesses”. É nesse saco que coloca todos os que se têm chegado à frente para defender Seguro, pedindo para “não misturar pessoas que já não representam nada no centro-direita e na direita, que são apenas ex-figuras, com aqueles que são hoje os votantes, os eleitores, que não querem certamente voltar para o socialismo”. É nesta nova ponderação que assenta o discurso de Ventura: deixou o socialismo vs. direita e substituiu-o pelo socialismo vs. povo que vota direita à exceção de notáveis.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os apoios desprezados servem

Ao longo dos últimos dias, Ventura não se mostrou tão surpreendido com os anúncios vindos do PSD — Marques Mendes e Cavaco Silva incluídos — e foi reforçando a estupefação com CDS e Iniciativa Liberal, por considerar que estarem a apoiar Seguro “é uma espécie de confissão de que nunca quiseram combater socialismo e sistema nenhum.” Aliás, já nesta corrida da segunda volta chegou a dizer que com o posicionamento da Iniciativa Liberal e de Mariana Leitão “só falta fazer um funeral político à frente do país todo”, frisando que não conhece nenhum partido liberal de direita na Europa “que vai apoiar um candidato socialista”.

Para o candidato a Belém, há nos “partners do sistema” quem esteja a “enterrar os seus espaços ideológicos por uma questão de mesquinhez, ou, mais grave que isso, [por] uma questão de interesse” e critica os que “eram tão antissocialistas, tão antissocialistas, até se tornarem socialistas e apoiarem um candidato socialista”.

Para Ventura, não está em causa uma “luta da democracia contra autoritarismo” e sim uma “luta dos tachistas contra quem quer acabar com os tachos”. E, mais do que isso, está crente de que os apoios a Seguro servem apenas para “travar a [sua] eleição” e não por qualquer tipo de entusiasmo.

“Só vão estar dois nomes no boletim de voto e pendem sempre para o socialista”, criticou, depois de na noite eleitoral se ter autodenominado líder da direita e ter jurado que tudo faria para “agregar” esse espaço político e para “liderar o espaço não socialista”. Porém, os planos (chegou a sugerir que era preciso ver “de que fibra” eram os líderes dos partidos) saíram furados com a quantidade de figuras que optaram por dizer publicamente que depositariam o voto em Seguro.

E aquela luta que vinha mesmo a calhar — “A luta que começa daqui a meia hora mobiliza-me mais do que qualquer outra luta que pudéssemos travar com qualquer outro adversário” — tornou-se numa batalha em que “parece” que está a “falar sozinho” e onde quase suplica para que o adversário lhe responda. Ventura, que esteve moderado para agregar a direita, vê-se abandonado por quem fala em nome dessa mesma direita. Resta-lhe o povo. E a esperança de que, no final, haja um capital político para usar como líder da oposição.

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