1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

▲"Reparations, Baby!" é a nova criação de Marco Mendonça, depois do monólogo "Blackface" (2023)

▲"Reparations, Baby!" é a nova criação de Marco Mendonça, depois do monólogo "Blackface" (2023)

Como lidar com as reparações históricas? Esta peça leva o tema a palco e pergunta: “Portugal acordou ou continuamos em modo snooze?”

Aliando o humor à reflexão histórica, o ator e encenador Marco Mendonça criou "Reparations Baby!", um espectáculo que é também "uma chamada de atenção". Estreia-se este sábado, em Sintra.

É a noite de estreia de um novo concurso de televisão. O estúdio tem um cenário colorido e, à direita, três concorrentes plantam-se atrás dos respetivos púlpitos. Está prestes a começar o Reparations Baby, um game show sobre reparações históricas, a nova aposta do canal TVQI, que dá luz verde a um programa “assumidamente woke” para impulsionar o processo de reparação histórica que o Governo português ignora. “Portugal acordou ou continuamos em modo snooze?”, atiça a apresentadora do programa em que “Reparations é o tema e Baby é o tom”.

Assim começa a nova peça de Marco Mendonça, ator e criador que em 2023 criou o monólogo Blackface no qual se apropriava do formato de stand-up para expor a prática teatral racista. Agora, repete a lógica de recorrer ao humor para desbravar caminho num tema também incómodo na sociedade portuguesa: as reparações históricas.

O ponto de partida para o espetáculo foi um convite de Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), que deu ao artista carta branca para uma nova criação. “Achei que seria bom aproveitar para falar das questões das reparações, que já me andava a atormentar um bocadinho e continua, se calhar ainda mais do que quando pensei em escrever este texto”, diz Marco Mendonça ao Observador. A possibilidade de levar o tema ao Teatro Nacional “abria espaço a um outro nível de visibilidade”, reconhece. “Havendo oportunidade para abanar um bocadinho com as estruturas”, continua, elogiando o trabalho percursor da companhia de teatro Aurora Negra, “fez todo o sentido que esta provocação pudesse acontecer ao abrigo deste edifício”.

E assim surgiu Reparations Baby, que se estreia este sábado no Centro Olga Cadaval, em Sintra, passando pelo Theatro Gil Vicente, em Barcelos, a 14 de junho, e pela Casa da Cultura, em Ílhavo, a 21 de junho, até fazer carreira no Teatro Variedades, em Lisboa, de 9 a 27 de julho.

▲ "Reparations Baby!" partiu de um desafio lançado por Pedro Penim, diretor do TNDMII, a Marco Mendonça para uma nova criação. O ator tinha-se estreado como criador em 2023, com o monólogo "Blackface"

As luzes são frenéticas, há uma roda da sorte, montra de prémios e uma plateia ao vivo. “Vou ter sempre a tendência de procurar formatos que seja muito fortes a nível de entretenimento, porque isso é uma componente que me interessa muito no teatro”, explica Mendonça. “Gosto de fazer com que as pessoas sintam que valeu a pena sair de casa, que houve qualquer coisa de divertido na experiência teatral.”

A estrutura da peça, do que foi possível vislumbrar num curto ensaio, obedece às regras de um clássico concurso televisivo, com partes, intervalos, publicidade assumida como “problemática”, mas que paga as contas, e muitos dramas nos bastidores da produção. Mas mais do que o riso fácil ou a leveza do formato, o que cativou Marco Mendonça na ideia de concurso era a capacidade de transmitir conhecimento.

“Interessou-me o facto de ser um espaço em que as pessoas estão a partilhar informações e factos, aliados a uma ideia de jogo e desafio”, diz, explicitando a metáfora. “Como sinto que as pessoas negras em Portugal vivem uma espécie de desafio constante, de jogo permanente de afirmação de reivindicação de direitos, de procura por uma estabilidade social, emocional, interessou-me esta ideia de trazer o assunto para o formato de game show“. “Seria uma forma de trazer informação fácil sobre reparação histórica sem que surgisse de forma gratuita. Aliando o humor à reflexão histórica acho que é possível criarmos um outro tipo de ligação a estes temas, que são difíceis de debater, mas que são bastantes necessários”, crê.

Só que a necessidade de debate não é pacífica na sociedade portuguesa, tampouco entre as mais altas instâncias do Estado. Aliás, ainda na penumbra, antes mesmo de qualquer ator falar, Reparations Baby arranca com o discurso de uma voz reconhecível.

“Sempre achei que pedir desculpa é uma solução fácil para o problema… pede-se desculpa e nunca mais e fala nisso. Assume-se a responsabilidade por aquilo que de bom e de mau houve no Império […] Não se pode assumir só o bom sem o mau, ou só o mau sem o bom. […] Não podemos meter isto debaixo do tapete, ou dentro da gaveta. Temos obrigação de pilotar, de liderar este processo. porque se nós não o lideramos, […] vai-nos acontecer, […], o que aconteceu a outros países que, tendo sido potências coloniais, ao fim de x anos, perderam a capacidade de diálogo e de entendimento com as antigas colónias.”

As palavras são de Marcelo Rebelo de Sousa e foram proferidas em abril do ano passado. O Presidente da República, durante um jantar com correspondentes estrangeiros em Portugal, afirmou que “temos [Portugal] de pagar os custos” da escravatura transatlântica e igualmente do colonialismo. As declarações, citadas pela Reuters, acabariam por ser amplamente divulgadas.

“Foi um primeiro passo para a escrita deste texto”, admite Marco Mendonça, que considera que, para abrir um debate nacional profundo sobre o tema, as declarações do PR foram “um falso primeiro passo”. “Se calhar o próprio Presidente achou que estaria a lançar uma provocação que seria agarrada, mas, na verdade, foi completamente arrasado”, acredita.

Não foi a primeira vez que Marcelo considerou que Portugal, enquanto país durante séculos colonizador, nomeadamente em África, onde foi responsável pelo tráfico de quase 6 milhões de homens, mulheres e crianças, deveria pedir desculpa pela escravatura e outras práticas coloniais. Mas esse reconhecimento, em 2024, num contexto pós-eleitoral, teve ecos inéditos, com André Ventura, líder do Chega, a admitir mesmo uma queixa contra o Presidente da República pelo crime de “traição à pátria” — uma queixa que acabaria por nunca avançar.

O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, em 2024, em que defendeu o pagamento de reparações por crimes da era colonial foi "um primeiro passo para a escrita deste texto”, admite Marco Mendonça, que considera que, para abrir um debate nacional profundo sobre o tema das reparações históricas, tratou-se de "um falso primeiro passo": "Aquilo que podia ser um início de um ótimo debate, tornou-se uma questão adormecida, mesmo depois de ter sido trazida para o contexto público pelo próprio Presidente da República"

Já Luís Montenegro, primeiro-ministro recém-eleito, reagiria através de comunicado, garantido que as relações de Portugal e dos portugueses com todos os povos dos Estados que foram antigas colónias eram “verdadeiramente excelentes, assentes no respeito mútuo e na partilha da história comum” e que o Governo garantia, a propósito de qualquer “reparação a esses Estados”, que este se pautava “pela mesma linha dos Governos anteriores”. Ou seja: “não esteve e não está em causa nenhum processo ou programa de ações específicas com esse propósito”, lia-se no mesmo comunicado.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

O tema, trazido para as manchetes dos jornais, desvanecia-se, assim, em poucos dias. “Depois das considerações do Presidente Marcelo, houve um ligeiro espanto, não sei se posso chamar acordar, mas houve um arregalar de olhos, só que logo a seguir houve um franzir de testa”, nota Marco Mendonça. “Senti que as pessoas com algum poder davam a entender que o Presidente não sabia bem do que estava a falar, era uma coisa inconsequente, até inconveniente de se dizer naquela altura”, considera. “Durante essa semana houve alguns debates, houve pessoas a falar nas redes sociais, houve discussões, mas ficou por ali. É a prova de que é um tema ainda muito sensível de se tratar”.

No palco, Marco Mendonça quer mostrar como o blackface em Portugal “não é uma coisa pontual, não é uma coisa rara”

Mas foi um marco para os que defendem a urgência do debate, que tem vindo a ganhar novo fôlego nos últimos anos, tanto na Europa como a nível global. Países como a Alemanha reconheceram oficialmente crimes coloniais, como o genocídio dos herero e nama na Namíbia, e anunciaram compensações simbólicas. No Reino Unido, instituições académicas e culturais começam a enfrentar o seu envolvimento no comércio transatlântico de escravizados, com algumas universidades a criar fundos de reparação. Em França, o debate em torno da restituição de artefactos e a memória da colonização em África tem ocupado o espaço político e cultural.

“Para muitos, a forma como o Presidente falou foi demasiado invasiva, out of the blue. Para mim não foi, foi mais do que no momento certo, deu-me esperança, mas, na semana seguinte, a esperança esmoreceu toda. Aquilo que podia ser um início de um ótimo debate, porque é efetivamente um debate necessário em Portugal, tornou-se uma questão adormecida, mesmo depois de ter sido trazida para o contexto público pelo próprio Presidente. É uma evidência que ele está atento a essa questão, mas o resto do país não acompanha esse nível de atenção”, nota Mendonça. “Com este tipo de acontecimentos, é difícil manter um otimismo”.

▲ O ator Bernardo Lacerda (à esquerda) é o produtor do programa de televisão, enquanto Danilo da Matta e Vera Cruz são dois dos concorrentes que participam no concurso

Talvez por isso, em Reparations Baby, também seja difícil manter o otimismo do espectador, a quem é vendido um programa que prima por uma novidade: apesar de ser produzido por pessoas brancas, coloca pessoas negras no centro da narrativa. É feito para elas e jogado por elas, dizem-nos. Mas será mesmo sobre elas? Não tarda para que se perceba que não. Após uma série de perguntas — um caldeirão de teoria antirracista, cultura pop luso-africana e trivia colonial —, é tempo de um intervalo. O produtor (interpretado pelo ator Bernardo Lacerda) dá indicações: “Não pode haver espaço para tanto… ativismo”, diz. “Menos Catarina, mais Cristina”, repreende dirigindo-se à apresentadora (Ana Tang), que segundos antes se lamentara do espaço que tinha na estação televisiva de onde veio. “Os cabrões do CIS [canal de televisão fictício] só me punham a apresentar programas que tivessem ‘sem fronteiras’ no título”, desabafa a personagem interpretada pela atriz portuguesa com ascendência chinesa.

Mesmo quando se apresenta como alívio, o humor não suaviza aquilo que permanece incómodo. Reparations Baby expõe as nuances de um tema que continua a ser alvo de debate além fronteiras. “Há métodos de reparação que não funcionaram, há muitos ângulos mortos, falhas, complexidades”, resume Marco Mendonça, que rejeita a simplificação do tema, nomeadamente entre pessoas racializadas. “Queria o máximo de perspetivas, complexas e variadas em relação a este tema”, diz o criador, que escolheu Danilo da Matta, Márcia Medonça (irmã do encenador) e Vera Cruz para interpretar os três concorrentes e personagens-arquétipos que mostram como “nem todas as pessoas negras olham para as questões das reparações da mesma maneira, assim como nem todas as pessoas brancas”. “Tentei chamar pessoas negras que pudessem representar um certo espaçamento geracional”, sumariza.

A ambição de Marco Mendonça, ator e criador do espetáculo, é simples e urgente: “Uma chamada de atenção” que verdadeiramente “comunique”. “Há pessoas que ainda não pararam para pensar sobre estas coisas. O espetáculo pode ajudar um bocadinho nisso…”, diz. Sem oferecer respostas fáceis, Reparations Baby assume uma posição clara: “A questão das reparações históricas deve ser discutida.” Como criador, Mendonça não pretende oferecer soluções definitivas — “porque para isso não tenho qualquer poder, e como pessoa que cria objetos artísticos prefiro deixar perguntas na mesa do que tentar respondê-las.” O essencial, sublinha, é dar o primeiro passo: “Não há resposta certa sobre como fazer. Agora, em relação à necessidade das reparações para um país como Portugal, essa necessidade existe. E começa por uma responsabilização interna, dos atos do passado, e um olhar transparente e responsável para o que foram os 400 e 500 anos de domínio português por esse mundo fora. Falta que esse primeiro passo seja dado: um olhar para dentro, para que depois se possa pensar em como trabalhar para fora.”

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.