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FOTOILUSTRAÇÃO: ANA MOREIRA/OBSERVADOR

FOTOILUSTRAÇÃO: ANA MOREIRA/OBSERVADOR

França. O Partido Socialista perdeu os trabalhadores, o centro e os radicais — e continua à procura de um rumo

Desde Hollande que os socialistas franceses nunca mais venceram uma eleição. Perdem eleitores para Macron e Mélenchon, mas também para a União Nacional. Perante o futuro, continuam divididos.

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[Este texto faz parte de uma série que o Observador está a publicar sobre os terramotos políticos provocados pelos partidos antissistema de direita radical em diferentes países da Europa Ocidental. Pode ler também sobre os casos da Alemanha, Espanha, Reino Unido e Grécia.]

Ninguém ainda acredita neste Partido Socialista. Os apparatchiks estão a mudar de ideias e a votar no Macron. Os ativistas não são touros, por isso estão a sair.”

Jean-Paul Diccone é um veterano socialista. É por isso que em 2022, quando fez estas declarações à AFP, estava, como fazia todos os anos, na Fête de la Rose — o festival anual dos socialistas em Frangy-en-Bresse, que chegou a ter quatro mil participantes. Nesse ano, não foi além dos 200. É um sintoma do declínio do partido histórico francês que, em pouco tempo, passou de uma das principais forças políticas do regime para um partido minoritário da esquerda.

Em 2012, o Partido Socialista elegeu o seu segundo Presidente no pós-guerra (o primeiro havia sido François Mitterrand), François Hollande. Nessa mesma altura, tinha maioria absoluta na Assembleia Nacional, o controlo do Senado e um enraizamento local extraordinário, controlando várias regiões e municípios.

Cinco anos depois, o retrato não podia ser mais diferente. A presidência de Hollande tinha sido um desastre, atingindo os piores níveis de popularidade já vistos em França (3% de taxa de aprovação). A aprovação do casamento gay provocou enormes manifestações do eleitorado conservador; a lei laboral afastou decididamente a presidência do eleitorado de esquerda, desiludido com um Presidente que em tempos tinha classificado como seu principal adversário “o mundo da finança”. Economicamente, o país definhava, com uma taxa de desemprego à volta dos 10%.

▲ O Presidente François Hollande decidiu não se recandidatar depois de o seu ministro da Economia, Emmanuel Macron, lançar um movimento independente

ALAIN JOCARD/AFP/Getty Images

Dentro do Palácio do Eliseu, borbulhava um novo movimento político de um homem só. Em 2016, o jovem ministro da Economia Emmanuel Macron decidiu enfrentar o Presidente e criar o Em Marcha!. Perante a sua impopularidade e a subida de Macron nas sondagens, Hollande anuncia que, pela primeira vez na V República, um Presidente não se irá recandidatar ao cargo. A escolha dos simpatizantes do partido nas primárias recai então sobre um candidato da ala radical, Benoît Hamon. Terá um resultado desastroso: 6,4%.

O choque entre as fileiras socialistas é enorme e agrava-se nas legislativas do mês seguinte — 7% na primeira ronda, 5% na segunda. Traduz-se num pequeno grupo parlamentar de apenas 30 deputados. Um artigo da France Info ilustra o ambiente dentro do Partido Socialista nessa noite eleitoral: “A atmosfera era lúgubre. O secretário-geral Jean-Christophe Cambadelis deu por si na sede da Rua de Solférino, em Paris, num edifício totalmente vazio, ‘sozinho, sem receber um único telefonema’, diria mais tarde.”

Quanto a Hollande, explicava a débâcle com a “traição” de Macron (cujo partido venceu também as legislativas de 2017). “O Partido Socialista sempre teve várias sensibilidades que se enfrentavam”, escreveria no seu livro Un président ne devrait pas dire ça… Les secrets d’un quinquennat (“Um Presidente não devia dizer isso… Os segredos de um quinquenato”). “O que é novo, e que talvez seja o ar dos tempos, é que já não há a disciplina que podia existir nos partidos, nomeadamente no PS. O que significava que, mesmo quando não concordávamos, apesar de tudo aceitávamos o voto.”

"Existe a expressão ‘traidores sociais’: não foi inventada há quatro anos, é tão antiga como o debate na esquerda! Assim que se aceita as regras do mercado, está-se a trair.”
François Hollande em 2019

Dois anos depois, ao Le Monde, voltava a falar em traição — mas desta vez do eleitorado socialista. “De Léon Blum até hoje, passando por François Mitterrand e Lionel Jospin, sempre houve a ideia de ‘Não cumpriram os vossos compromissos, falharam’. É um julgamento que se faz sempre à social democracia. Existe a expressão ‘traidores sociais’: não foi inventada há quatro anos, é tão antiga como o debate na esquerda! Assim que se aceita as regras do mercado, está-se a trair.”

O diagnóstico talvez fosse acertado, mas de pouco serviria para inverter a tendência. A hecatombe era visível: “Simbolicamente, o facto de o Partido Socialista não estar nos três primeiros lugares e já não ser sequer o maior partido da esquerda é um desastre”, resumia o cientista político e antigo militante do PS Rémi Lefebvre.

O “domínio artificial” da vitória de Hollande e os resultados catastróficos até aos 1,7% de Hidalgo

Os desastres eleitorais foram muitos e não pararam. Na verdade, segundo os especialistas, a tendência já existia antes de Hollande ter chegado ao poder. A sua vitória, acompanhada da vitória nas legislativas do mesmo ano (2012), foi sobretudo uma reação à presidência de Nicolas Sarkozy: “Houve um padrão de domínio artificial”, afirma Lefebvre.

Daí que, ao fim de apenas um ano no poder, a desilusão com Hollande já era tremenda: um estudo aponta que, em 2013, apenas 30% dos eleitores consideravam que o partido estava próximo das preocupações dos franceses. No ano anterior, o valor era de 55%.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]

Nas eleições seguintes, vieram os maus resultados. Nas europeias de 2014, o PS fica em terceiro lugar, atrás da Frente Nacional e da UMP (centro-direita): em lugares como Stains (Seine-Saint-Denis), onde Hollande tinha tido um resultado de 45% dos votos, não chega a 10%.  Quatro meses depois, perde 17 senadores na votação para a câmara alta.

As eleições locais de 2015 revelam nova queda. Fica novamente em terceiro lugar na votação para os departamentos e perde bastiões históricos — em Hauts-de-France, zona tradicionalmente de esquerda no norte do país, perde pela primeira vez a sua representação regional. Se em 2010 o partido controlava 21 das 22 regiões continentais (mais a Córsega), a partir de 2014 fica apenas com cinco. A nível municipal, perde mais de 400 vereadores e autarcas.

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▲ As candidaturas presidenciais de Benoît Hamon e Anne Hidalgo tiveram resultados de 6,4% e 1,75%, respetivamente

AFP/Getty Images

Seguem-se as presidenciais de 2017 e o resultado de pouco mais de 5% de Benoît Hamon, que termina em quinto. O Partido Socialista desce ainda para sexto nas eleições seguintes, as europeias. As legislativas desse ano revelam novo desaire, com o partido a perder o controlo do norte, onde a Frente Nacional lhe rouba diretamente quatro deputados.

Nas presidenciais de 2022, com a antiga autarca de Paris Anne Hidalgo ao comando, sela-se o destino que alguns pensam ser o fim do partido: 1,75% dos votos e o décimo lugar entre todos os candidatos na primeira ronda. Hidalgo fica atrás de Emmanuel Macron e Marine Le Pen, que avançam para a segunda ronda, mas também de muitas outras figuras, desde o candidato da extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon, ao da extrema direita, Éric Zemmour, passando pelo centro-direita, os verdes, os comunistas e dois independentes.

Um partido dividido entre ideologias, táticas e “o cálice envenenado” do poder

Dentro do partido, voavam teorias e passa-culpas.

Alguns alimentavam a ilusão de que tudo poderia ter sido diferente se Dominique Strauss-Kahn não tivesse estado envolvido num escândalo de assédio sexual e pudesse ter concorrido à presidência. Outros consideravam que o partido devia ter virado ainda mais ao centro do que na presidência Hollande. Era o caso do seu primeiro-ministro Manuel Valls, que sonhava com uma força política que seguisse “as lições do blairismo” — mas, nas primárias contra Hamon, Valls não foi além dos 6%, com os militantes a deixarem claro que não queriam essa terceira via.

Historicamente, o Partido Socialista francês sempre se manteve firmemente à esquerda, não seguindo a via da social democratização de Bad Godesberg, o congresso do SPD alemão de 1959 onde o partido alterou a sua orientação da luta de classes para a reforma do capitalismo. Ao mesmo tempo, muitos desiludidos com Hollande e Valls achavam que os socialistas no poder tinham traído a herança da esquerda. “Vou entregar o meu cartão e dar um passo atrás. Acho que vou voltar a ser ativista, mas num partido que não nega as fundações da esquerda”, já desabafava um militante ao Le Monde em 2014.

“Apesar de não explicarem tudo, as divisões da esquerda não devem ser subestimadas. Para além da oposição clássica entre uma esquerda de poder e uma esquerda mais antissistema, surgiram outras divisões que se sobrepõem parcialmente a estas.”
Adrien Broche, cientista político

Os maus resultados eleitorais levavam a uma hemorragia de militantes e ao esvaziamento dos cofres. O secretário-geral Cambadélis equacionava a possibilidade de o partido mudar de nome, como fizera a UMP de Chirac (agora Os Republicanos). Em 2019, era vendida a sua histórica sede na Rua de Solférino, um golpe que afetou o moral de muitos socialistas.

Internamente, o partido enfrentava lutas fratricidas. “É uma derrota moral. Zero ideologia, 100% tática”, lamentava-se Cambadélis ainda em 2017. “Alguns até me disseram que devíamos apoiar Macron porque ele iria perder e assim podíamos restabelecermo-nos à esquerda do macronismo. Tenho os nomes…” Os taticistas iam apoiando candidatos que achavam ter mais possibilidades de vitória; os ideólogos iam pondo em causa o rumo de cada candidato. “Apesar de não explicarem tudo, as divisões da esquerda não devem ser subestimadas. Para além da oposição clássica entre uma esquerda de poder e uma esquerda mais antissistema, surgiram outras divisões que se sobrepõem parcialmente a estas”, notou ao LeFigaro o cientista político Adrien Broche.

Alguns lembravam que os socialistas enfrentaram desafios no passado e conseguiram sempre reerguer-se: apontavam para os 5% de 1969 e o domínio de Mitterrand nos anos 80; recordavam a liderança de governo de Lionel Jospin. “O PS, eterno Lázaro, ressuscitou várias vezes”, dizia o Libération num artigo no ano fatal de 2017. Mas o jornal da esquerda francesa também avisava que, desta vez, “já não há nenhum François Mitterrand ou Lionel Jospin para o unir”. A crise de quadros era evidente.

Hubert Védrine considera que o partido não soube lidar com o poder. “De 1981 a 2017, dois terços desse período tiveram os socialistas no poder”, afirmou à France Culture o antigo ministro de Jospin. “François Mitterrand deu ao Partido Socialista um presente maravilhoso, mas era um cálice envenenado porque, para os socialistas, o poder só pelo poder não tem significado. Os socialistas foram criados para mudar a sociedade e, portanto, naturalmente desiludiram.”

A classe trabalhadora que se afasta da esquerda e corre para os braços de Le Pen

Entre as bases, o declínio ia-se acentuando, como é patente numa reportagem do Le Monde de 2021 na secção dos “Falcões Vermelhos” de Arras, que em tempos tiveram 1.500 socialistas inscritos e agora têm apenas 79.

Um dos atores políticos que iam beneficiando dessa perda era a Frente Nacional de Marine Le Pen. “Podemos agradecer aos socialistas, obrigada por serem quem são”, declarava Le Pen nas regionais de 2015, de olho na tendência de captura de votos à esquerda.

Historicamente marcado pelas declarações antissemitas de Jean-Marie Le Pen, o partido de extrema-direita ia-se reconfigurando sob a liderança da filha Marine. O processo que muitos académicos classificaram de “desdiabolização” foi fazendo o seu caminho: em 2011, Marine Le Pen expulsou membros mais radicais como Anne-Sophie Leclere, que havia chamado “macaca” à ministra Christiana Taubira, negra. Em 2015, ia mais longe e expulsava o próprio pai do partido. Em 2018, mudava o nome do partido, deixando cair o termo mais militarista “Frente” para o substituir por Rassemblement (palavra francesa que traduz a ideia de uma re-união, de convergência).

A estratégia ia dando frutos. Para além das mudanças cosméticas, Le Pen procurava ir além do discurso securitário e anti-imigração: “A FN costumava coxear, andando apenas com uma perna”, declarou a própria líder. “Quando se passa de 10% para 25% nas sondagens, é-se um partido a sério e é preciso comportar-se assim.”

Marine Le Pen, National Rally Candidate, Campaigns For President

▲ Marine Le Pen tem captado o voto da classe trabalhadora que votava tradicionalmente à esquerda

Getty Images

Na prática, essa mudança traduzia-se numa transição da ideologia liberal de Le Pen pai na economia, para uma nova posição muito mais à esquerda nessa matéria. “[Marine Le Pen] substituiu o liberalismo económico com a denúncia das consequências económicas e sociais da globalização e da pertença de França à União Europeia”, apontava o site Telos, próximo dos socialistas, ainda em 2015.

Ao longo dos tempos, o discurso foi-se tornando menos crítico da UE e mais e mais focado nas dificuldades económicas dos franceses, simbolizado no seu discurso regular sobre “o poder de compra” — embora nunca deixando cair o discurso anti-imigração. Le Pen propõe descidas dos preços da eletricidade e do gás e luta contra as propostas macronistas de aumento do horário de trabalho e da idade da reforma, ao mesmo tempo que deixa cair medidas do programa do partido como o regresso da pena de morte. Capitaliza com os protestos dos “Coletes Amarelos”, colocando-se ao lado da “França esquecida”, longe dos grandes centros urbanos.

“A classe trabalhadora mudou. As redes comunistas, os sindicatos, as grandes fábricas, tudo isso desapareceu com a desindustrialização. (...) Estamos a assistir ao desenvolvimento de um proletariado dos serviços, nas limpezas, na logística, na assistência aos idosos. Não há consciência de classe e há pouca ação coletiva.”
Nonna Mayer, investigadora da Sciences Po

A “desdiabolização” é ajudada pela candidatura à presidência de Éric Zemmour em 2022, que, por comparação, faz Le Pen parecer ainda mais moderada. E a candidata complementa essa imagem com uma ofensiva mediática onde se expõe mais, fala das suas fragilidades, tira fotos com os seus gatos.

Gatos e “poder de compra”. Como Marine Le Pen tenta “desintoxicar” a União Nacional e tornar-se presidenciável

As sondagens mostram que, em 2016, 61% dos franceses consideravam a Frente Nacional “um perigo para a democracia”; em 2022, o número desce para 54%. Em 2019, metade ainda mantinham uma opinião desfavorável sobre Marine Le Pen; três anos depois, apenas 34% dizem o mesmo.

E quem são os eleitores que se vão chegando a Marine Le Pen? Alguns vindos do centro-direita, é certo, mas também a classe trabalhadora que em tempos pertencera à esquerda — e, portanto, ao Partido Comunista e ao Partido Socialista.

Uma tendência que não é exclusiva de França e que revela a encruzilhada em que se encontra grande parte da esquerda no Ocidente, resultado da terciarização da sociedade e mudanças nesta fatia do eleitorado. “A classe trabalhadora mudou. As redes comunistas, os sindicatos, as grandes fábricas, tudo isso desapareceu com a desindustrialização”, declarou ao Le Monde Nonna Mayer, investigadora da Sciences Po. “É muito atomizado. Estamos a assistir ao desenvolvimento de um proletariado dos serviços, nas limpezas, na logística, na assistência aos idosos. Não há consciência de classe e há pouca ação coletiva.”

Essa transformação social traduz-se em transformações políticas. Em 1988, praticamente metade da classe trabalhadora francesa votava em partidos de esquerda; neste momento, apenas um terço o faz. Um quarto dos trabalhadores sindicalizados votam em Marine Le Pen. Dentro do CFDT, o sindicato mais próximo dos socialistas, 40% votaram em Hollande em 2012, mas em 2014 já só 19% se diziam com os socialistas, de acordo com dados mostrados pelo Les Echos.

O eixo esquerda/direita dividido por classe foi-se esbatendo: em 2021, 60% dos franceses que diziam ter dificuldades no final do mês votavam num candidato à direita. Nesse mesmo ano, Marine Le Pen decretava: “Nós somos a força tranquila” — o slogan usado pela campanha de Mitterrand em 1981.

PS perde votos ao centro para Macron e à esquerda para Mélenchon

O Partido Socialista vai perdendo o voto dos trabalhadores, particularmente fora das grandes cidades, mas essa não é a única transferência de votos que vai sofrendo. Classes profissionais tradicionalmente pró-PS, como os professores e os funcionários públicos, também se afastam. Alguns para a direita, mas, a grande maioria, para o macronismo. “Irá Macron comer o Partido Socialista?”, perguntava a certo ponto uma manchete do Le Parisien.

Os socialistas mais ao centro encontraram no movimento do Presidente uma casa mais confortável. “Emmanuel Macron é completamente social-liberal: abraça o legado da liberalização dos mercados e tem fé no pós-capitalismo, feito da glorificação do indivíduo e da paixão tecnófila”, analisava logo em 2017 o cientista político Gaël Brustier, ao Le Figaro. Ao mesmo tempo, perante o crescimento da União Nacional de Le Pen, assume-se como principal alternativa: “Continua a beneficiar do frágil voto útil”, notou ao mesmo jornal o antigo conselheiro do Eliseu Bernard Rullier. “Paradoxalmente, ao levantar o espectro do risco da extrema-direita, oferece-se a oportunidade ao mais capaz de a combater. E, hoje, não é o Partido Socialista.” É Macron.

Enquanto os socialistas vão perdendo os votos dos eleitores mais moderados para o centro, perdem também para a sua esquerda, onde Jean-Luc Mélenchon vai crescendo, alimentado por uma classe urbana jovem e por movimentos sociais identitários. Nas presidenciais de 2017, surgiu em quarto lugar com quase 20% dos votos, muito acima dos 6% de Hamon.

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▲ Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, assumiu o desejo de substituir o PS como maior força da esquerda

AFP via Getty Images

Antigo dissidente do PS, Mélenchon não esconde que tem ambições de ocupar o espaço tradicionalmente dos socialistas. “Não quero enfraquecer o Partido Socialista. Quero substituí-lo”, decreta logo em 2017. Os socialistas vão entretendo a ilusão de que Mélenchon não tem futuro: “Ele só tem esse resultado porque não há uma oferta mais à esquerda para o combater”, declarava um membro próximo da candidata socialista Hidalgo em 2022. “Quando o jogo estiver lançado, ele vai regressar aos 8%.”

Não foi assim. Em 2022, Mélenchon termina a primeira ronda das presidenciais em terceiro lugar (com quase 20% dos votos) e falha a passagem à segunda volta contra Macron por uma unha negra, ficando a apenas 1,2% de distância de Marine Le Pen. Provando que deseja que a França Insubmissa tome o lugar de primeiro partido da esquerda, não faz um apelo ao voto em Macron para combater Le Pen. Deixa a decisão nas mãos dos militantes, que apelam na maioria a um voto em branco ou nulo na segunda volta.

Depois da união à esquerda, o regresso ao centro? Hollande está à espreita

Perante a subida constante da União Nacional nas sondagens e o avanço da estratégia de “desdiabolização” agora com o candidato Jordan Bardella, nas legislativas de 2024 a esquerda decide concorrer unida: socialistas, insubmissos, verdes e comunistas juntam-se na Frente Popular (NUPES).

“Se Bardella vencer, a verdadeira primeira-ministra será Le Pen.” Entrevista a Pierre-Stéphane Fort, biógrafo do candidato a PM

À primeira vista, foi uma boa decisão: a esquerda unida consegue a vitória na segunda ronda, derrotando Le Pen e Bardella e relegando os macronistas para uma presença diminuída na Assembleia Nacional. Mas, à medida que se vai formando o novo governo, vão emergindo as divisões internas da esquerda, em particular entre socialistas e insubmissos, que procuram o lugar de destaque na coligação.

Mélenchon defende que o primeiro-ministro venha das fileiras do seu partido, enquanto os socialistas hesitam. Emmanuel Macron aproveita e nomeia como primeiro-ministro uma figura do centro-direita, Michel Barnier. Os barões do PS assustam-se, alertando para a subserviência do partido à França Insubmissa. “Lamento que, apesar do resultado obtido ter confirmado a relevância desta estratégia [de união da esquerda], tenhamos corrido para os braços de Jean-Luc Mélenchon”, dizia Bérnard Cazeneuve, que chegou a ser auscultado para o cargo de primeiro-ministro, mas não teve o apoio declarado do PS.

“O Partido Socialista está num limbo e isso pode ser muito perigoso para ele. Sem aliados nas próximas eleições, podem ser eliminados na primeira ronda e arriscar morrer.”
Gérard Grunberg, diretor do site Telos

Com a queda do governo de Barnier, surge novo desafio. Mas, desta vez, os socialistas liderados por Olivier Faure tomam uma posição diferente: decidem não censurar no Parlamento a escolha de François Bayrou, abstendo-se e deixando os insubmissos isolados. “Qual é a diferença entre Judas e um socialista? Judas só traiu uma vez”, comentou-se de imediato nos canais de mensagens do partido de Mélenchon, segundo o L’Express. A cisão face a Mélenchon consolidava-se.

Perante este cenário, o Partido Socialista tenta encontrar um caminho. À esquerda, bien sûr, mas longe de Mélenchon. O secretário-geral Faure tenta fazer a distinção entre “a esquerda que grita e a esquerda que trabalha”, colocando a França Insubmissa na primeira categoria e o Partido Socialista na segunda. Mas é um exercício de equilibrismo difícil, com parte do eleitorado mais à esquerda a não perdoar o apoio tácito ao macronismo.

O risco desta estratégia é elevado, como analisou ao Le Point o diretor do Telos, Gérard Grunberg: “O Partido Socialista está num limbo e isso pode ser muito perigoso para ele”, avisou. “Sem aliados nas próximas eleições, podem ser eliminados na primeira ronda e arriscar morrer.”

Mas dentro do partido há quem acredite que o futuro pode estar na aproximação ao centro. E, como hipótese presidencial, está um nome improvável: François Hollande. Eleito deputado nas eleições de 2024, está de regresso à política em pleno e tem feito uma campanha pouco discreta para regressar ao Eliseu. “François Bayrou abriu um novo período”, tem elogiado Hollande, defendendo que os socialistas devem “escolher a estabilidade política” e assim “ficar com as chaves até 2027”.

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▲ François Hollande regressou ao Parlamento e alimenta ambições de regressar ao Eliseu

Bloomberg via Getty Images

Responsável pela presidência mais impopular da História recente de França, François Hollande crê que será ele a resposta para retirar o Partido Socialista do buraco onde caiu desde 2017. “Continuo a ser responsável por isto”, afirmou ao Le Monde em 2018. “A criatura escapou-me”, acrescentou, referindo-se a Macron.

Nas presidenciais de 2027, o Partido Socialista enfrentará um novo mundo político: Emmanuel Macron não pode voltar a candidatar-se e ainda não é certo se Marine Le Pen conseguirá concorrer, depois de ter sido proibida por um tribunal de primeira instância. O antigo Presidente quer aproveitar as circunstâncias, recentrar o partido e voltar em glória ao Eliseu, de onde saiu de rastos.

Mas, pelo menos em 2025, os socialistas continuam divididos. “François Hollande não representa o futuro do Partido Socialista”, decretou o deputado Iñaki Echaniz. Foi um dos oito deputados socialistas que quebraram a orientação do partido e chumbaram a nomeação de Bayrou como primeiro-ministro.

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