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[Este texto faz parte de uma série que o Observador está a publicar sobre os terramotos políticos provocados pelos partidos antissistema de direita radical em diferentes países da Europa Ocidental. Pode ler também sobre os casos da Alemanha, Reino Unido, Grécia e França.]
“Vamos ver se, ao votar no Vox, há alguém que ponha isto na ordem. A balbúrdia na Catalunha. Os imigrantes — que os devolvam. Tenho medo. Sinto insegurança. E sobre os imigrantes… que venham, sim, mas com um contrato como faz a Alemanha.”
Manuel Aroca, atualmente reformado e que viveu na Alemanha durante 50 anos, vota no Vox, como contou ao jornal El País. Antes disso, era um eleitor fiel do Partido Socialista (PSOE), mas mudou profundamente as suas opiniões políticas. O sexagenário natural de Múrcia apoia agora um partido de direita radical. A questão catalã, que esteve na origem da força partidária liderada por Santiago Abascal, é um dos motivos. Outro é a insegurança e a questão migratória — que o Vox tem, à semelhança de partidos congéneres europeus, feito uma das suas principais bandeiras.
Em Espanha, desde 2013, o Vox foi ganhando o apoio de vários eleitores ao longo dos anos, como Manuel Aroca. No entanto, o partido nunca conseguiu impor-se como uma verdadeira ameaça ao bipartidarismo espanhol. Neste momento, apesar de ser a terceira força política no Congresso dos Deputados, tem 33 parlamentares, contra 120 do PSOE e 137 do Partido Popular (PP).
▲ Santiago Abascal, presidente do Vox
JAVIER LIZON/EPA
Os objetivos do Vox, partido irmão do Chega, são diferentes de outros noutras partes da Europa, incluindo em Portugal. Sendo de direita radical, usa o mesmo tom populista e explora os mesmos tópicos para ganhar votos. Porém, em Espanha, serve essencialmente para desenhar um projeto de alternância política — ao lado do PP, de centro-direita, liderado por alguém que tem a fama de ser moderado, Alberto Núñez Feijóo.
É inegável que há várias diferenças ideológicas entre o PP e o Vox. No entanto, passam para segundo plano assim que há eleições. Nas legislativas de 2023, a força política liderada por Santiago Abascal assegurou que apoiaria um governo liderado por Alberto Núñez Feijóo. O PP aceitou inicialmente o apoio de bom grado, ainda que nunca se tenha discutido em concreto quais seriam os pontos em comum na governação. Em todo o caso, os populares sabiam que os deputados eleitos pelo Vox poderiam ter sido úteis para concretizar um objetivo que ambos têm em comum: derrotar a hegemonia da esquerda em Espanha.
Os dois partidos estão do mesmo lado para derrotar e debilitar os socialistas comandados pelo chefe do governo, Pedro Sánchez, que está no poder há sete anos. Por sua vez, o secretário-geral dos socialistas espanhóis tem-se aliado aos parceiros à sua esquerda (como o Sumar ou o Unidas Podemos) e aos partidos regionalistas da Catalunha e do País Basco, duas regiões em que a direita está em clara desvantagem.
▲ O objetivo comum do PP e do Vox é retirar do poder Pedro Sánchez
JUAN CARLOS HIDALGO/EPA
Em Espanha assiste-se, assim, a um cenário de bipolarização entre dois blocos. O PSOE alia-se à sua esquerda e consegue seduzir os partidos independentistas e regionalistas — são, no total, oito partidos que apoiam o executivo de Pedro Sánchez. Em comparação, a direita está muito mais isolada — apenas conta com o PP, o Vox e um partido regionalista de Navarra, o que contribuiu para que estas formações partidárias não tivessem conseguido formar governo após as eleições gerais de 2023, isto apesar de os populares terem ficado em primeiro lugar.
Face a este isolamento imposto pela grande maioria dos partidos regionalistas e devido à impossibilidade de haver um bloco central com o PSOE de Pedro Sánchez, o PP tem apenas dois cenários para governar o país com estabilidade: ou obtém uma maioria absoluta (improvável), ou alia-se à sua direita. Na comunidade de Madrid, por exemplo, o PP de Isabel Díaz Ayuso governa sozinho, abdicando da influência do Vox. Porém, em regiões como Navarra ou a Extremadura, o apoio da direita radical foi vital para que fossem formados vários executivos sem a presença dos socialistas.
Apesar dos objetivos em comum, são frequentes os ataques e as dúvidas entre as duas forças políticas e as coligações regionais são marcadas por uma constante instabilidade. Aliás, em julho de 2024, o Vox rompeu a aliança com o PP em cinco comunidades autónomas: Castela e Leão, Aragão, Comunidade Valenciana, Extremadura e Múrcia.
▲ Alberto Núñez Feijóo, presidente do Partido Popular
FERNANDO VILLAR/EPA
O partido criado por insatisfeitos do PP contra o independentismo catalão
Em dezembro de 2013, Mariano Rajoy governava Espanha com maioria absoluta. Apostando numa imagem de tecnocrata em plena crise económica, na sequência do resgate à banca espanhola, o então chefe do governo cativava grandes partes do eleitorado, em particular o centro político. Rajoy defendia que era a “época dos tecnocratas e dos bons governantes”, focando-se no bom desempenho dos indicadores económicos.
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Mas esta imagem não agradava a todas as fações do Partido Popular. Alguns queriam um político mais conservador, que defendesse bandeiras eleitorais mais à direita. O independentismo catalão era também um tópico cada vez mais na ordem do dia em 2013 — e alguns simpatizantes e membros do PP exigiam uma resposta firme a este movimento que foi ganhando grande preponderância.
Foi neste contexto que surgiu o Vox. Alguns ex-membros e simpatizantes desiludidos com o rumo do PP, um dos quais Santiago Abascal, fundaram um novo partido político que defendia sobretudo a unidade de Espanha. Abertamente contra o modelo de autonomia e a favor de um Estado mais centralizado, o partido foi tentando ganhar apoio popular através de um discurso bastante duro contra o independentismo catalão.
▲ Manifestação de independentismo catalão, o movimento que deu força ao Vox
Europa Press via Getty Images
A estreia do partido foi relativamente bem-sucedida. Nas eleições europeias de 2014, seis meses depois de ter sido fundado, o Vox ficou perto de conseguir eleger eurodeputados. Apesar disso, o crescimento estancou. Nas eleições seguintes, as legislativas de 2015 e as de 2016, o partido obteve resultados bastante modestos, não tendo sequer atingido 1% dos votos. Por sua vez, o Podemos (à esquerda) e o Ciudadanos (à direita) começavam a desafiar a lógica do bipartidarismo em Espanha.
Tal como o Vox, o Ciudadanos também ganhou relevância por causa do independentismo catalão. O partido liberal liderado por Albert Rivera opunha-se categoricamente à independência da região, mas cativava eleitores mais urbanos e de classe média. O Vox tentava seduzir os mais conservadores e nacionalistas, mas por esta altura não estava a ter sucesso — Mariano Rajoy continuava a dominar junto deste eleitorado.
Porém, tudo mudou em 2017. O referendo de autodeterminação na Catalunha, a ativação do artigo 155.º por Rajoy (que suspendeu o estatuto de autonomia catalã) e todas as polémicas que se seguiram foram o principal trampolim para o crescimento do Vox. “Todo o processo após a tentativa de independência da Catalunha foi vivido em Espanha com um choque emocional muito forte, que fez com que um partido como o Vox se apoiasse nessa emoção, nessa reatividade”, lembrou a analista política Verónica Fumanal à Euronews.
Ganhando mais influência desde o referendo, a grande surpresa aconteceu nas eleições na Andaluzia em dezembro de 2018. O Vox elegeu 12 deputados para o parlamento daquela comunidade autónoma no sul de Espanha. Quase ninguém esperava por um resultado tão positivo para o partido. A dezena de parlamentares regionais foi, aliás, decisiva: o apoio do Vox a um executivo que juntava o PP e o Ciudadanos foi fulcral para que aqueles dois partidos retirarem do poder os socialistas, que, apesar de terem vencido as eleições, não tiveram apoios suficientes para viabilizar uma alternativa de governo.
Na Andaluzia, estas eleições terminaram com a hegemonia socialista na região, que já durava desde a transição espanhola de 1975. A nível europeu, mostraram também uma singularidade do Vox face aos partidos similares na Europa: em Espanha, nunca houve um cordão sanitário do centro-direita imposto à direita radical. Numa altura em que as atenções ainda estavam viradas para os partidos independentistas na Catalunha, o PP e o Ciudadanos nunca fizeram questão de impor linhas vermelhas.
Depois do sucesso na Andaluzia, a nível nacional, nas eleições de abril 2019, o Vox ficou em quinto lugar e elegeu 24 deputados. Sete meses mais tarde, noutro ato eleitoral convocado na sequência de um impasse na formação de um novo executivo, o partido passa a ser terceira força política mais votada, superando o Unidas Podemos e o Ciudadanos. Foi a consolidação do partido que, para além do combate ao independentismo, envergou bandeiras de outros partidos de direita radical como a luta contra a ideologia woke, o discurso anti-imigração ou o combate contra a corrupção. E também serviu como um voto de protesto.
▲ Festa eleitoral do Vox em 2019, após a eleição de vários deputados
Getty Images
Após várias tentativas de formar um governo estável, em 2020 Pedro Sánchez aliou-se ao Unidas Podemos e a outras forças independentistas (como a Esquerda Republicana Catalã) — o que contribuiu para uma pacificação dos movimentos independentistas. Em simultâneo, com certos partidos separatistas a integrarem o executivo de Pedro Sánchez e com Carles Puigdemont no exílio, a questão da independência da Catalunha foi perdendo destaque mediático.
Nos últimos anos, o Vox foi sobretudo um partido radical que combatia o independentismo catalão. Tinha presença mediática e foi-se impondo nas comunidades autónomas, em alianças com o PP. Contudo, o partido parece ter agora estagnado. Não teve o mesmo destino do Ciudadanos, que foi extinto do panorama político espanhol, mas os resultados não acompanharam os de outras formações partidárias do mesmo espaço ideológico na Europa.
Há dois anos, apesar de se ter mantido como a terceira força política, o Vox perdeu 19 deputados face a 2019. Após a crise do curto mandato de Pablo Casado, o Partido Popular também ganhou um novo ímpeto com a liderança de Alberto Núñez Feijóo, que venceu as eleições em 2023. Mesmo assim, a formação partidária de direita radical nunca causou nenhum susto aos dois partidos do centro político.
▲ Membros do Vox numa manifestação contra o independentismo catalão
AFP via Getty Images
Num futuro próximo, isso continua a parecer improvável. O Vox tem cerca de 13% nas sondagens mais recentes para as eleições legislativas de 2027. É certo que, a confirmar-se, melhorará o resultado face a 2023 — mas a trajetória de crescimento é bastante modesta. Isto porque, em parte, existe a convicção no eleitorado de que o Vox será um apoio parlamentar ao PP e não o partido que liderará o governo.
A ambiguidade e os afastamentos ensaiados. A complexa relação entre PP e Vox
As eleições legislativas em julho de 2023 deram a possibilidade a Pedro Sánchez de manter-se à frente do governo espanhol. Os socialistas ficaram em segundo lugar, mas jogaram com a aritmética parlamentar para formar uma maioria e assegurar a viabilização do seu governo. A direita bem tentou e o rei Filipe VI até deu uma oportunidade inicial a Alberto Núñez Feijóo para que tentasse uma investidura. Falhou. Com apenas o apoio da União do Povo Navarro (UPN), da Coligação Canária (CC) e do Vox, o PP não concretizou o objetivo de alternância política.
Atualmente, segundo os agregadores de sondagens para as eleições gerais de 2027, o Partido Popular deverá aumentar ligeiramente a representação parlamentar face há dois anos. No entanto, o PP está longe da maioria dos 176 deputados. Ao contrário do que aconteceu há dois anos, o apoio do Vox é, contudo, suficiente para alcançar uma maioria absoluta. Assim sendo, os populares sabem que ainda precisam da direita radical para chegar ao Palácio da Moncloa — e têm feito uma estratégia para se aproximarem, ao mesmo tempo que, por motivos eleitoralistas, se afastam.
▲ Para derrubar Sánchez, Feijóo ainda precisa do apoio do Vox
Europa Press via Getty Images
A estratégia é arriscada, mas é recíproca. O PP e o Vox entram publicamente em rota de colisão, mas, nos bastidores, sabem perfeitamente que precisam um do outro. Os populares precisam do apoio da direita radical para governar e derrotar os socialistas; a formação política liderada por Santiago Abascal necessita do centro-direita para influenciar a governação e tentar mostrar obra feita, rompendo o cordão sanitário e a fama de ser apenas um simples partido antissistema.
Mesmo assim, o Vox sabe que não pode perder essa reputação de outsider se quer cativar os eleitores insatisfeitos e mais radicais, num espaço político que já viu a emergência de uma nova alternativa — o Se Acabó La Fiesta, que elegeu três eurodeputados nas eleições europeias em junho de 2024, ainda que já tenha perdido grande fulgor entretanto. Paralelamente, o PP não pode aproximar-se completamente da mensagem mais radical de Santiago Abascal; caso contrário, corre o risco de alienar o eleitorado de centro e oferecê-lo de bandeja aos socialistas.
Neste cenário, os dois partidos ensaiam certas ruturas. Em julho de 2024, em parte ameaçado pelo fenómeno Se Acabó La Fiesta que um mês antes tinha tido um bom resultado nas europeias, o Vox tirou o apoio aos executivos liderados pelo PP em cinco comunidades autónomas. O motivo apresentado foi um tema fundamental para um partido de direita radical: a imigração. Santiago Abascal alegou que o apoio dos populares a uma medida do governo de Pedro Sánchez — que implicava a distribuição de 347 menores migrantes não acompanhados que chegaram às ilhas Canárias e Ceuta e que seriam alojados em diferentes regiões — era uma linha vermelha.
▲ Migrantes nas Ilhas Canárias causaram um choque entre o PP e o Vox
GELMERT FINOL/EPA
“É impossível compactuar com quem não quer ceder, com quem nos quer impor uma política de fronteiras abertas. Ninguém votou no Vox ou no PP para que continue a invasão da imigração ilegal e de menores migrantes. Se o senhor Feijóo quer enganar os seus eleitores e continuar a aplicar políticas socialistas e globalistas, que o faça ele”, declarou, na altura, Santiago Abascal.
À partida drástica, esta medida acabou por ter impactos limitados. Apesar de não ter o apoio do Vox, o PP pode negociar com outras forças políticas nos parlamentos regionais — e até novamente com o partido de Santiago Abascal. Alberto Núñez Feijóo garantiu logo que os populares iam continuar a governar as regiões, apesar de reconhecer que existiria “algum acréscimo de dificuldade”. A aprovação passou a ser medida a medida, mas nenhum executivo regional caiu até ao momento.
Esta rutura deu ao PP a oportunidade de se mostrar como uma alternativa moderada ao eleitorado, enquanto o Vox revelou que continua a ser antissistema e tem capacidade de ser um partido de protesto. Esta é um exemplo da dinâmica existente entre os dois partidos, marcada por uma ambiguidade e taticismo constante. Entre os cálculos políticos, uma aliança com o Vox é sempre uma hipótese. Como escreve o El País, o Partido Popular “fez acordos [com o Vox] desde o primeiro minuto, dando-lhe poder e legitimidade, colocando-se assim à margem dos partidos irmãos” na Europa.
Se por um lado a inexistência de um cordão sanitário nunca fez grande mossa ao PP (que venceu as regionais de 2023 e ficou em primeiro lugar nas eleições legislativas), por outro, é uma arma de arremesso política perfeita para Pedro Sánchez. A estratégia de colar o centro-direita à extrema-direita tem sido o alfa e o ómega da estratégia política socialista em Espanha, que dramatiza o discurso e alerta para os perigos que pode representar um executivo mais à direita.
Isso não só cativa o eleitorado mais ao centro que pode temer um Vox com capacidade de influência num executivo do PP, como também serve de cola para aglutinar os partidos regionais (em particular os catalães) e de esquerda que apoiam o PSOE no Congresso dos Deputados. Para eles, se a alternativa é um executivo que tem o apoio da direita radical, então mais vale apoiar Pedro Sánchez, mesmo que a solução não seja perfeita e haja desacordos.
Aliança com o Vox? Assunto não é pacífico dentro do PP e Vox exige contrapartidas
Todos os grandes partidos têm diferentes fações e o Partido Popular não é exceção. Entre centristas e membros mais conservadores, a aliança com o Vox é sem dúvida algo que os separa. Para chegar ao poder, ainda assim, existe a perceção geral de que uma coligação com a direita radical seria o caminho a seguir, se isso fosse preciso para tirar do poder Pedro Sánchez. Mas há alguns que aceitam essa opção com mais naturalidade, ao passo que outros preferiam lidar com outros partidos.
▲ No Partido Popular há diferentes perspetivas sobre que rumo tomar em relação ao Vox
Europa Press via Getty Images
Conhecido na Galiza por ser um político moderado, Alberto Núñez Feijóo assumiu implicitamente essa aliança com o Vox durante a campanha eleitoral de 2023. No entanto, o presidente do PP já demonstrou de forma tácita que preferia negociar com outros parceiros governamentais. “Feijóo ainda tem a ilusão de que chegará ao Palácio da Moncloa com os votos nacionalistas do PNV [Partido Nacionalista Basco, atual parceiro de Sánchez] e do Junts per Catalunya [partido independentista de centro-direita que apoia o atual executivo]”, observa o jornalista do El Mundo Iñaki Ellakuría.
Em sentido inverso, há quem no PP não tenha dúvidas de que uma aliança com o Vox é algo natural, tendo de haver cedências das duas partes. Um desses rostos é o presidente da comunidade da Comunidade Valenciana, Carlos Mazón, que já formou uma coligação para governar a região em 2023. Mesmo depois do que aconteceu em julho de 2024, com o fim do apoio do Vox a vários executivos regionais, o líder valenciano negociou diretamente com a formação partidária de Santiago Abascal o orçamento regional para 2025. Estas vozes preferem, no entanto, negociar nos bastidores e são, em geral, discretas entre os populares.
Ainda há outra estratégia: o abraço de urso ao Vox. Para alguns membros do PP, o partido deve colocar-se mais à direita, atraindo os eleitores menos moderados. Para isso, estes populares acreditam que devem adotar as ideias de Santiago Abascal e usar uma retórica mais radical do que a de Feijóo. O maior exemplo desta estratégia é Isabel Díaz Ayuso. Com uma forte presença mediática e com uma maioria absoluta no Assembleia de Madrid, a presidente da Comunidade da capital espanhola não tem dúvidas de que é esta a estratégia que pode levar os populares de volta ao poder em Espanha .
▲ Isabel Díaz Ayuso prefere a estratégia do abraço de urso ao Vox — que a leva a procurar o seu eleitorado
MARISCAL/EPA
É certo que Isabel Díaz Ayuso tem uma maioria absoluta em Madrid, mas subsistem várias dúvidas se a estratégia funcionaria em outras partes de Espanha e a nível nacional. Em relação ao Vox, a presidente da Comunidade de Madrid e os seus aliados defendem que, se for preciso, se deve negociar com o partido. Mas só em última instância; antes disso, deve tentar-se competir diretamente com a direita radical, mesmo que isso afaste o PP do centro político.
Diante destas diferentes abordagens, o Partido Popular está numa encruzilhada. “A equipa de Feijóo está no divã. Como conseguir o sucesso de Ayuso, que trava o Vox e derrota a esquerda, mas com Feijóo? Não podem chegar ao governo sem o Vox e atacá-lo alimenta e dá razão ao discurso socialista sobre os riscos da extrema-direita”, reflete o ex-deputado popular, Joan López Alegre, no portal Agenda Pública.
É um “dilema sem solução”, como analisa o El País, mas que vai tentar ser respondido no início de julho deste ano, altura em que o Partido Popular vai ter o seu Congresso para esclarecer não só a relação que deve ter com a direita radical, como para afinar a sua ideologia. Desse evento, o Vox já disse que não “espera nada”. “Há que ter muitíssimos cuidados, porque, com as suas dúvidas, com o impulso que tem o PP para fazer acordos com o Junts e o PNV, isso já impossibilitou que tirássemos a banda mafiosa da Moncloa em 2023”, atirou o porta-voz do partido de direita radical, José Antonio Fúster.
O mesmo porta-voz recordou recentemente que o “Partido Popular sabe perfeitamente” que o Vox se “ofereceu para construir uma alternativa necessária para tirar do poder Sánchez”. Deixou também uma importante ressalva: “Mas não só Sánchez, todas as suas políticas”. Dito de outro modo, o partido de direita radical já assinalou que exigirá contrapartidas para apoiar um executivo liderado por Alberto Núñez Feijóo.
Embora tenha tido um impacto limitado nas regiões, o Vox já demonstrou que pode não ser um parceiro completamente fiável para o PP, como ficou demonstrado ao retirar o apoio aos populares em cinco comunidades autónomas. Santiago Abascal tem exigido ao PP que endureça as suas posições à direita, em particular em dois tópicos: nas políticas climáticas e na imigração. “Não acredito que alguma vez tenha havido um bom PSOE e tenho a estranha certeza de que jamais houve um PP útil”, resumiu José Antonio Fúster no que concerne à relação dois partidos.
A retórica é por vezes exagerada, os ataques são duros e as comparações com o PSOE são frequentes. De qualquer modo, o Vox não tem a porta fechada para uma aliança governamental à direita, ainda que Santiago Abascal reclame certas condições. Entre estar sob pressão da direita radical ou ficar quase isolado no Congresso dos Deputados, cabe ao PP escolher entre um destes caminhos.