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Como são as vidas de seis recuperados da Covid-19. Estão curados mas mantêm os mesmo cuidados

Todos superaram a Covid-19 mas, por muito que ouçam falar na possibilidade de se terem tornado imunes ao vírus, mantêm os cuidados de antes. Ao Observador, a maioria conta que continua isolada em casa

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Manuel é enfermeiro e voluntariou-se para passar a fazer serviço junto dos infetados, mas não arrisca mais e continua a dormir num quarto diferente do da mulher e a manter-se longe das filhas.

Sílvia já não passa a vida a limpar a casa com água e lixívia mas ainda não se atreve a reunir-se com o resto da família alargada — nem sequer com os que também foram infetados e já foram dados como recuperados.

E se Sara já se permite finalmente brincar com o filho, de 2 anos e meio, sem usar máscara, por outro lado não quer nem ouvir falar em voltar a meter um pé na rua — o que não deixa de ter a sua quota parte de ironia, já que foi precisamente em casa que apanhou o novo coronavírus.

Todos tiveram Covid-19 e todos foram dados como recuperados — fazem parte do único valor verde-esperança que consta dos relatórios onde a  Direção-Geral de Saúde vai dando conta da evolução da doença, exatamente aquele que sobe de forma mais lenta e continua, pelo menos para já, a não conseguir suplantar o número negro dos óbitos.

“Sabemos tão pouco sobre o vírus, tão pouco como ele interage com o hospedeiro humano e sobre a resposta imunológica das pessoas, que qualquer estudo que consigamos fazer com acesso a amostras é inovador e importante”
Sérgio Dias, investigador do Instituto de Medicina Molecular

Livres do vírus, continuam cautelosos e a comportar-se como antes de descobrirem que estavam infetados — ou seja, como a grande maioria da população portuguesa. “O que me disseram foi para seguir a minha vida normal, como quem não tem Covid, e quem não tem Covid está em casa”, diz Adalberto que, na dúvida, prefere manter os cuidados e continua a não ter coragem para beijar a filha recém-nascida.

A filha de Tiago é mais velha, faz 11 anos na próxima terça-feira, dia 21, e tudo aquilo que ele quer é que o cordão sanitário que o cerca, e à sua cidade, agora “praticamente deserta”, seja levantado para poder conduzir até Almada e cantar-lhe os parabéns. “Pesquisei algumas coisas, alguns dizem que sim, outros dizem que não, ninguém tem certezas sobre se estamos imunes”, diz ao Observador.

Apesar de ser expectável que a infeção com o novo coronavírus crie nos pacientes alguma imunidade, como acontece com a generalidade dos vírus, a verdade é que não existem ainda informações suficientes que permitam aos cientistas garantir que seja mesmo assim. “Há vírus e bactérias que dão uma imunidade protetora duradoura, alguns até para a vida”, mas outros “decrescem ao longo do tempo”, já explicou a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, ao Observador.

“Sabemos tão pouco sobre o vírus, tão pouco como ele interage com o hospedeiro humano e sobre a resposta imunológica das pessoas, que qualquer estudo que consigamos fazer com acesso a amostras é inovador e importante”, acrescentou Sérgio Dias, um dos diretores do biobanco do Instituto de Medicina Molecular, que esta semana anunciou a criação de um repositório de amostras para estudar e decifrar o novo coronavírus em Portugal.

"Não é garantido, podemos ter alguma imunidade, ninguém sabe dizer ao certo se de 20% ou de 50%, mas os médicos também me avisaram que se por acaso vier uma segunda vaga (que é o mais provável), e se o vírus entretanto tiver sofrido alguma mutação, essa situação deixa de se colocar”
Fernando Rocha, humorista

Por isso mesmo, e para ter algumas garantias que lhe permitam voltar à vida normal, Adriana Rua, neurologista, só está à espera que o marido, anestesista, também fique negativo para poder marcar os testes serológicos que vão determinar se ficaram ou não imunes ao vírus. Se tudo correr como esperado, vão ter um verão incomparavelmente mais tranquilo do que a restante população que ainda não foi infetada — “Já tínhamos férias marcadas para junho, para Menorca”, diz a médica. Resta saber se o mundo recupera, se os aviões voltam a voar e se os restaurantes, lojas e hotéis começam a funcionar, acrescenta.

A avaliar pelo comportamento de outros agentes semelhantes, como os coronavírus responsáveis pelo SARS e pela MERS, o mais provável é mesmo que quem já derrotou este não tenha de se defrontar nos tempos mais próximos com novas infeções — três anos, no máximo, foi quanto duraram os anticorpos avaliados em pacientes curados, segundo dois estudos aqui citados. Um outro, feito com macacos, por cientistas chineses e já com amostras do SARS-CoV-2, concluiu que as hipóteses de reinfeção são praticamente nulas.

Planos pós-Covid: fazer voluntariado

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Nunca chegou a saber como nem onde foi infetado — em menos de uma semana esteve nos aeroportos de Lisboa, Porto, Paris e Nova Iorque e a mulher, que o acompanhou em todas as viagens, nem sequer ficou doente. “Pode ter sido em qualquer lugar, posso ter pegado num carrinho ou num tabuleiro infetado, nunca saberei. Há pessoas imunes, a minha mulher pode ser uma delas. Também pode ter sido só uma questão de sorte”, diz o humorista Fernando Rocha ao Observador.

A dias de terminar o seu período de azar (esta sexta-feira fez o primeiro teste para perceber se já está negativo, se tudo correr bem só precisará de esperar mais dois para fazer a contra-prova que o poderá dar como recuperado), o humorista diz que, apesar da incerteza, confia “em alguma percentagem de imunidade do vírus” e já tem planos para o day-after.

“Quando for dado como recuperado vou continuar a fazer o meu isolamento, mas já vou poder sair e tentar gravar uns sketches e fazer comédia no meu estúdio, sempre sozinho. Depois, como sou embaixador da Cruz Vermelha aqui na minha terra — Gondomar e Valongo — vou fazer voluntariado e juntar-me às pessoas que estão na rua a ajudar e a entregar compras aos mais velhos.”

Uma teoria que poderá cair por terra a partir do momento em que o vírus sofra uma mutação, explicaram os médicos que têm acompanhado o humorista Fernando Rocha (ver caixa), que se descreve ao Observador como “sintomaticamente mas ainda não oficialmente curado”. “Não é garantido, podemos ter alguma imunidade, ninguém sabe dizer ao certo se de 20% ou de 50%, mas os médicos também me avisaram que se por acaso vier uma segunda vaga (que é o mais provável), e se o vírus entretanto tiver sofrido alguma mutação, essa situação deixa de se colocar.”

No final, são demasiados “ses” e demasiados pontos de interrogação para que se permitam arriscar, concluem Manuel, Sílvia, Sara, Adalberto, Tiago e Adriana. Para que quem não passou pelo mesmo possa compreendê-los — ou pelo menos perceber o que está em causa — os seis partilharam com o Observador as suas horas de doença e recuperação. E as dúvidas e receios que têm em relação ao futuro.

“Estiveram sempre todos protegidos, mas conseguia reconhecer os meus colegas. Foi muito estranho estar do outro lado”

Manuel Cordeiro

Enfermeiro

44 anos

Aveiro

Teste positivo a 18 de março

Recuperado desde 9 de abril 

É enfermeiro há 23 anos — atualmente no serviço de urgências pediátricas do Hospital de Aveiro —  e há praticamente duas décadas que faz serviço na viatura médica do hospital, a que acrescenta ainda o trabalho a bordo dos helicópteros do INEM na zona centro do País. Por isso mesmo, quando ao final da tarde do passado 24 de março a chamada chegou, quem estava de serviço no CODU (o Centro de Orientação de Doentes Urgentes) soube imediatamente quem era o paciente, infetado com o novo coronavírus, que tinham de ir buscar.

Os médicos e enfermeiros que acorreram à chamada são seus colegas e amigos — “pessoas que trato por tu” —, sobre os bombeiros que vieram na ambulância não diz tanto, mas não deixam de ser “caras conhecidas”. Quando, depois de dez curtos minutos de viagem, chegou ao hospital, tanto na urgência como no internamento, o que encontrou foram olhos e vozes familiares. “Como era diagnosticado infetado estiveram sempre todos protegidos, mas conseguia reconhecer os meus colegas. Foi muito estranho estar do outro lado”, resume Manuel Cordeiro, seis dias depois de ter sido considerado curado e dois após ter regressado ao trabalho.

Manuel Cordeiro é enfermeiro nas urgências pediátricas do Hospital de Aveiro. Diz que foi infetado por "fogo amigo"

“Como acredito que terei maior probabilidade de imunidade e como as minhas filhas têm 12 e 17 anos e já compreendem o isolamento de outra forma que os filhos de outros colegas, mais novos, eu próprio me voluntariei à chefe para ficar na zona de infetados com Covid-19 em permanência”, explica o enfermeiro, que no regresso ao Hospital de Aveiro, quando se reencontrou com uma colega médica — como ele infetada e recuperada —, fez questão de a cumprimentar

Depois de três semanas doente e de cinco dias internado no hospital onde trabalha, com uma pneumonia viral acentuada que o fez ter de receber oxigénio de forma artificial mas não obrigou ao recurso a ventilador, reservou quatro dias para dar um “bocadinho de mimo” à mulher e às filhas e entretanto já tratou de se mudar novamente para o quarto do lado e de se manter à distância, como aliás fez assim que soube que havia casos de infeção no hospital. “Continuo a ter de manter todo o equipamento de segurança e proteção quando estou em contacto com as crianças e com os jovens que vêm à consulta. Tomo banho ainda no hospital, depois de tirar a farda, e quando chego a casa tiro a roupa que trago e faço a desinfeção e lavagem das mãos. Se tiverem imunidade, as pessoas que foram infetadas fazem a quebra do transporte e da transmissão viral, mas se o vírus vier na roupa ou nas mãos, mantém-se o risco”, explica Manuel Cordeiro.

Foi infetado por “fogo amigo”, que é como quem diz, por colegas, numa altura em que, equipado dos pés à cabeça, ainda achava que o maior risco viria de fora e daria entrada pela porta das urgências. Começou a sentir os primeiros sintomas na noite de sexta-feira, dia 13 de março, fez o primeiro teste positivo cinco dias depois, numa altura em que à febre se juntaram dores musculares e articulares, “num nível de intensidade que nunca antes tinha sentido”.

“Como acredito que terei maior probabilidade de imunidade e como as minhas filhas têm 12 e 17 anos e já compreendem o isolamento de outra forma que os filhos de outros colegas, mais novos, eu próprio me voluntariei à chefe para ficar na zona de infetados com Covid-19 em permanência”

Mal sabia nessa altura que o pior estava por vir: seis dias depois do teste, já a febre e as dores tinham passado, pediu a um amigo, médico do INEM, que lhe trouxesse um oxímetro — cansava-se muito, até a falar, queria perceber como estavam os seus níveis de oxigénio no sangue.

“Assim que ele olhou para mim, disse-me logo que tinha de ir para o hospital. Quando lá cheguei disseram-me que não estava autorizado a ir para casa, era preciso perceber se tinha de ser ventilado”, recorda o enfermeiro, que à exceção de umas quantas hérnias discais — que são medalhas de trabalho — era saudável e estava em boa forma.

“Estive doente durante três semanas e foi doloroso, aquilo que costumo dizer é que isto não é mesmo uma gripezinha. Claro que não sabemos se é por causa da componente genética ou de qualquer outro fator, mas a alguns de nós este vírus vai provocar um grande nível de desconforto e vai obrigar a alguma complexidade ao nível dos tratamentos necessários. Não vamos ficar todos bem, essa certeza não existe, basta olhar para as estatísticas”, avisa. “Por isso é que é necessário, pelo menos e acima de tudo, que protejamos os nossos pais e avós porque eles correm grande risco de não poder suportar esta doença.”

“Testa contra testa, um pouco mais chegada, é tudo o que há por enquanto. Beijos nem pensar”

Adalberto Gonçalves

Escriturário

40 anos

Maia

Teste positivo a 24 de março

Recuperado desde 13 de abril

É o normal e acontece a qualquer pai, sobretudo de primeira viagem: quando o bebé nasce é quase como se a linha do tempo fosse interrompida e tudo passa a ser contabilizado em dois blocos distintos, antes do parto e depois do parto.

No caso de Adalberto Gonçalves, desde 6 de março, dia em que nasceu Isabel, que o calendário está partido assim. Problema: associado ao nascimento da primeira filha está outro marco, sobejamente indesejado — terá sido quando foi ao centro de saúde para retirar os agrafos da cesariana que Elsa, a sua namorada, terá sido infetada com o novo coronavírus. “Tudo o que aconteceu eu faço as contas à bebé”, confessa Adalberto, escriturário numa empresa de transportes.

"No dia seguinte fui eu com a bebé, ao Hospital de São João. Por causa dela, que é muito pequena, não fomos para a tenda que está montada à porta mas para o interior do hospital. De manhã recebi um sms a dizer que estava negativo, só percebi depois que o resultado não era meu, era da bebé. À tarde ligaram-me a dizer que eu também era positivo"
Adalberto Gonçalves, escriturário

Depois de vários picos de febre, houve várias chamadas para a linha Saúde 24. “Primeiro, disseram-lhe que podia estar associado ao facto de ter retirado os pontos. Depois ela deixou de sentir o paladar e o olfato e, como tinha lido em qualquer lado que podia ser um sintoma de Covid, mandou um e-mail para a Saúde 24 e chamaram-na para fazer o teste. Deu positivo. No dia seguinte fui eu com a bebé ao Hospital de São João. Por causa dela, que é muito pequena, não fomos para a tenda que está montada à porta mas para o interior do hospital. De manhã recebi um sms a dizer que estava negativo, só percebi depois que o resultado não era meu, era da bebé. À tarde ligaram-me a dizer que eu também era positivo”, conta o escriturário ao Observador, dois dias depois de ter recebido o certificado que o dá como recuperado.

Isabel tinha apenas 18 dias de vida quando o pai e a mãe foram diagnosticados com Covid-19. Nascida em plena pandemia, no hospital só pôde ser vista pelo pai, mas chegou a receber as visitas dos avós paternos, da avó materna e dos tios em casa, logo nos primeiros dias e antes de ser decretado o encerramento das escolas ou o estado de emergência. Nenhum deles lhe fez uma festa, nem sequer no pé, assegura Adalberto: “Ninguém lhe tocou, só nós, ficaram todos à distância”.

Adalberto Gonçalves e Elsa Silva souberam que estavam infetados 18 dias depois de a filha nascer

Agora, que já tem quase um mês e meio, a bebé, que nasceu com apenas 2 quilos mas se revelou resistente ao vírus (foi testada três vezes, em todas deu negativo), continua a ser tratada de luvas, por pais com as faces cobertas por máscaras. Adalberto já fez dois testes negativos, Elsa, que entretanto deixou de amamentar a filha — que a acreditar na balança caseira já quase duplicou o peso — só na próxima segunda-feira vai repetir o exame.

Todos os cuidados continuam a ser poucos, diz Adalberto, que perante a incerteza generalizada prefere não arriscar e nem sequer se permitiu dar um beijinho ao de leve na filha acabada de nascer. “Vamos ter de continuar assim. Uma pessoa não sabe e eles também não informam, ninguém sabe durante quanto tempo uma pessoa pode transmitir o vírus e isso é assustador. Testa contra testa, um pouco mais chegada, é tudo o que há por enquanto. Beijos nem pensar, logo se verá, mais para a frente.”

“Só fazemos planos para sair de casa quando isto começar a diminuir em termos de contágio”

Sara Ribeiro

Educadora de infância e diretora técnica de uma creche

31 anos

Porto

Teste positivo a 18 de março

Recuperada desde 13 de abril 

Asmática, Sara Ribeiro, educadora de infância e diretora técnica de uma creche em Lousada, um dos concelhos mais afetados pelo novo coronavírus no início da pandemia em Portugal, andava tão apavorada com a possibilidade de ser infetada que, quando finalmente isso aconteceu, chegou a pensar que estava a ser sugestionada pelo próprio medo e a fabricar sintomas psicossomáticos. “Quase não tive sintomas. Algum cansaço, mas pouco, uma dor nos gémeos, uma ligeira dor de garganta e nada mais. Estava com imensa ansiedade em relação ao vírus, cheguei a pensar que podia ser stress”, recorda ao Observador.

Soube que estava infetada dois dias depois de o marido, técnico de radiologia no Hospital de São João, que já antes se tinha queixado de umas dores de garganta, ter tido uma temperatura superior a 38.ºC no controlo imposto à saída do turno.

Quando Nuno — que desde o início do surto entrava em casa pela garagem, onde se despia, punha a roupa a lavar a alta temperatura e seguia diretamente para o banho — deu positivo, Sara e Martim, de 2 anos e meio, também foram fazer os testes. Ela deu positivo, ele negativo. Foi o princípio de um pesadelo que ainda não terminou: apesar de Sara estar desde o início da semana recuperada, o marido continua a ser portador do vírus.

Sara Ribeiro foi infetada em casa, pelo marido, técnico de radiologia no Hospital de São João

“Numa fase inicial questionámo-nos sempre sobre se a situação ia piorar, se íamos ter mais sintomas. Confesso que fui um bocadinho persistente e paranóica nessa fase. Achava que tinha falta de ar, começava a sentir-me mal. Tivemos muita sorte com o médico que nos acompanhou, o Dr. Pedro Palma, que foi sempre muito compreensivo e acessível, liguei-lhe muitas vezes, com muitas dúvidas, algumas delas durante o fim de semana e a horas pouco recomendadas”, confessa a educadora de infância. “O meu marido também tem tido acompanhamento de um psicólogo do hospital, que lhe telefona todos os dias; ele já sofre de ansiedade, ficou com imenso receio sobre a forma como a doença se podia vir a desenvolver.”

Apesar de todos os medos que alimentaram, Sara e Nuno acabaram por não ter sintomas severos da Covid-19 e não necessitaram de internamento sequer. Depois de uma primeira noite longe do filho, acabaram por ser aconselhados a cumprir a quarentena juntamente com Martim. “Inicialmente a Saúde Pública disse-nos que o melhor era ele não estar connosco. Foi terrível, foi o que me levou às lágrimas e me partiu o coração. Acabou por estar em casa dos meus pais menos de 24 horas. O Dr. Pedro Palma disse-nos que ele ainda podia manifestar a doença ao longo dos 14 dias seguintes e que, como os meus pais já estão entre os 60/65 anos, era melhor estar connosco.”

Até ser finalmente dada como recuperada, Sara dormiu no mesmo quarto do que o filho, mas em camas separadas. “Ele questionava o porquê de termos a máscara, de não lhe podermos dar beijinhos, de não nos podermos encostar a ele. Dissemos-lhe que tínhamos uns bichinhos que eram perigosos e ele percebeu, fiquei surpreendida com a maturidade que revelou”, analisa a educadora de infância. “Claro que às vezes saltava para cima de mim e quase tocava na máscara, eu ralhava e ele ficava a chorar, é muito pequeno, só tem 2 anos e meio. Para além de andar sempre de máscara e de desinfetar constantemente as mãos, quando pegava nele ao colo tentava sempre que não se virasse para mim, e que ficasse assim, a ler uma história ou até a ver um bocadinho de televisão.”

“Ainda não saí à rua, continuo a ter receio de tudo, estou um bocadinho apavorada. E apanhei o vírus sem sair de casa. Neste momento o que os médicos nos dizem é que não sabem sobre se estamos ou não imunes, estão em estudos, é um vírus muito recente, não podem afirmar nada. A indicação que nos deram é de que devemos comportar-nos como se nunca tivéssemos tido o vírus"
Sara Ribeiro, educadora de infância

Desde que no passado dia 13 recebeu o segundo teste negativo, Sara já deitou fora as máscaras e brinca normalmente com o filho mas continua a não querer nem ouvir falar em sair à rua. Desde 6 de março, altura em que se isolou com Martim, que só saiu duas vezes, ambas para fazer testes ao novo coronavírus — e numa delas nem sequer chegou a sair do carro, conduziu até ao Queimódromo, no Parque da Cidade, e fez o exame em modo “drive thru”.

“Moramos numa vivenda de três andares, no de baixo é a garagem. Abrimos a porta com o comando, os meus pais ou os meus sogros entram, deixam-nos as compras, saem, e depois nós vamos buscar os sacos”, explica Sara Ribeiro ao Observador. “Ainda não saí à rua, continuo a ter receio de tudo, estou um bocadinho apavorada. E apanhei o vírus sem sair de casa. Neste momento o que os médicos nos dizem é que não sabem se estamos ou não imunes, estão em estudos, é um vírus muito recente, não podem afirmar nada. A indicação que nos deram é de que devemos comportar-nos como se nunca tivéssemos tido o vírus. Para já, só fazemos planos para sair de casa quando isto começar a diminuir em termos de contágio.”

“Um dia o meu filho disse-me: ‘Tenho tantas saudades de te dar um abraço, mãe’. Fechei-lhe a porta e fui para o quarto chorar”

Sílvia Cunha

Comercial

41 anos

Idães, Felgueiras

Teste positivo a 8 de março

Recuperada desde 20 de março

O marido e seis cunhados, mais uma série de outros amigos e familiares, trabalham na fábrica de sapatos em Santo Estevão de Barrosas, concelho de Lousada, considerada um dos primeiros grandes focos do novo coronavírus em Portugal — mas Sílvia Cunha nem sequer sabe se foi através dele, que chegou a estar internado durante duas semanas no Hospital de Santo António, no Porto, que ficou infetada.

“Só aqui de Felgueiras foram umas 400 pessoas para a feira de Milão, e eu sou comercial, vendo atacadores e fechos, todos os dias visito entre oito e dez fábricas de calçado. Eu é que comecei com sintomas, nem foi o meu marido. No dia 1 de março fiquei com tosse. O primeiro caso surgiu no dia 5, o meu marido foi internado no dia 7. No dia seguinte eu, o meu filho mais novo, a minha cunhada e a minha sogra fomos de carro para o São João fazer os testes. Só o meu filho é que deu negativo”, recorda ao Observador.

Ao todo, entre a família direta e a mais afastada, pelo menos 21 pessoas ficaram infetadas — só uma das sobrinhas, de apenas 2 anos, é que ainda não foi dada como recuperada. Mesmo assim, e apesar de os médicos lhes terem dito que “a probabilidade de serem reinfetados era muito pequena”, ainda não tiveram coragem de retomar os almoços de domingo, semana sim, semana não, em casa dos sogros. “Somos 30 pessoas, sete filhos, todos casados, com dois filhos cada — só um é que tem três. Ontem o meu sogro fazia 75 anos e um dos meus sobrinhos fazia 6. Foi um dia muito difícil, não pudemos fazer a festa como sempre. A minha cunhada ainda deu a ideia de nos juntarmos num campo de futebol que eles têm, onde podíamos manter as distâncias, mas acabámos por não fazer isso. O problema são os que não foram infetados e os que ainda não têm a certeza de estar recuperados, nunca na vida se podiam misturar”, contou Sílvia Cunha esta quarta-feira, dia 15 de abril, ao telefone com o Observador.

"Ontem o meu sogro fazia 75 anos e um dos meus sobrinhos 6. Foi um dia muito difícil, não pudemos fazer a festa como sempre. A minha cunhada ainda deu a ideia de nos juntarmos num campo de futebol que eles têm, onde podíamos manter as distâncias, mas acabámos por não fazer isso"
Sílvia Cunha, comercial

Foi a primeira paciente com Covid-19 a ser autorizada a cumprir o período de internamento no domicílio, já lá vai mais de um mês. Na altura, com a mãe em Santarém, em casa de uma das irmãs; com Lucas, o filho mais velho, em Coimbra, onde este ano entrou na universidade; e com o resto da família ou em isolamento ou no hospital, Sílvia não tinha a quem recorrer e não quis nem ouvir falar em internar também José Rodrigo, acabado de completar 11 anos — “Doutora, eu não consigo entregar o meu filho a ninguém”.

Como o seu caso foi considerado leve — “Só tive de dores no corpo, rouquidão e muita, muita tosse. Era tanta tosse que eu não conseguia nem controlar os músculos nem respirar. Quando parava para respirar, o ar que entrava para dentro dos pulmões era gelado, como a sensação que temos quando vamos à neve” — a equipa médica acabou por autorizar o confinamento domiciliário, que entretanto, com o aumento dos casos, acabou por tornar-se regra em Portugal para os infetados com sintomatologia mais ligeira.

Na casa de dois pisos onde moram, em Idães, concelho de Felgueiras, criou dois espaços independentes — um “limpo”, para o filho, outro “sujo”, para si. “Limpei e desinfetei tudo com água e lixívia e preparei um quarto, uma salinha e uma casa de banho para ele no andar de baixo. Lá dentro deixei a Playstation, cereais, fruta, água e chocolate de barrar e todos os dias lhe deixava à porta o leite e as refeições, que vinham preparadas de fora”, detalha Sílvia que, a dormir num quarto no piso superior, só circulava pelo resto da casa para tratar da comida e fazer máquinas de roupa, que depois estendia e engomava — sempre equipada com luvas e máscaras cirúrgicas.

O marido foi internado mas Sílvia recusou e conseguiu autorização para passar a quarentena em casa, com o filho mais novo

No total, mãe e filho passaram 14 dias quase sem se verem e sem se tocarem, dentro da mesma casa — “Só falávamos pelo Instagram ou quando lhe ia levar a refeição. Um dia disse-me: ‘Tenho tantas saudades de te dar um abraço, mãe’. Naquele momento só tive vontade de o agarrar, mas não o fiz, para não deitar tudo a perder. Fechei-lhe a porta e fui para o quarto chorar. Passámos aqui momentos tão maus… de chorar, de desabar mesmo. À noite, quando desligava os telefones, a minha força quebrava”.

Quando foi dada como recuperada, Sílvia continuou a desinfetar todas as superfícies da casa várias vezes ao dia, sobretudo porque entretanto o marido, ainda infetado, tinha tido alta do hospital. “Ele chegou no dia 18 à noite, foi muito estranho, abraçámo-nos e logo a seguir afastámo-nos: ‘Não pode ser!’”, recorda.

Durante 10 dias, dormiram em quartos separados, mas usaram a mesma casa de banho — “Tínhamos de desinfetar tudo de cada vez que lá íamos, passava a vida a limpar”. Depois, no domingo dia 29 de março, três semanas depois de tudo ter começado, ambos com testes negativos, sentaram-se pela primeira vez à mesma mesa, com o filho mais novo — “Fiz carne assada no fogão a lenha, com batata assada e arroz. Era o que ele queria no fim da quarentena”. Resgatado o filho mais velho a Coimbra, dias depois, permanecem os quatro em casa, isolados, desde então.

“A normalidade ainda não voltou e também não sabemos quando vai voltar. A fábrica onde o meu marido é encarregado está em lay-off até ao final do mês, os meus filhos vão tendo aulas no computador, e eu estou a pensar numa estratégia para voltar a trabalhar, mas confesso que estou com receio das respostas, neste momento ninguém atende ninguém”, revela a comercial da indústria de calçado. “Parou tudo, está tudo congelado no tempo, tive encomendas até este mês mas nunca mais ninguém ligou. Saber que já tive o vírus e que a probabilidade de voltar a ter é pequena dá-me algum conforto no sentido de poder ir para a rua. Mas como é que eu vou para a rua? E vou encontrar-me com quem?.”

“Quando tiver o teste serológico a dizer que sou imune se calhar vou estar mais confiante, enquanto isso vou continuar a ter as mesmas precauções”

Adriana Rua

Médica

36 anos

Porto

Teste positivo a 23 de março

Recuperada desde 14 de abril 

“Testar, testar, testar”. Adriana Rua anseia tanto pelo regresso a uma vida dita “normal” — “O isolamento é uma experiência horrível, foi muito complicado” —, que os planos que tem para os próximos tempos se reduzem à ordem que o diretor-geral da OMS deu aos países no início da pandemia.

Em primeiro lugar, vai testar Guilherme, o filho de apenas 15 meses, para perceber se o bebé, tal como ela e o marido, também esteve ou está infetado com o novo coronavírus. A seguir, o objetivo é submeter a família aos testes serológicos que lhes permitirão aferir se desenvolveram imunidade ao vírus. Só assim, admite, terá o à vontade necessário para regressar à vida tal como a conheciam antes — e gozar as férias que já tinham marcadas para o próximo mês de junho, em Menorca, nas Ilhas Baleares. “Aí a nossa questão será só mesmo saber se podemos ir, se há voos, se as coisas estão a funcionar”, admite a médica ao Observador.

“Tenho esperança de que sejamos imunes mas, para já, pouco se sabe relativamente a isso,  parece que nem toda a gente desenvolve imunidade — na China há quase uma centena de casos de reinfeção —, e também não se sabe quanto tempo poderá durar a imunidade nos casos em que exista"
Adriana Rua, médica

“Tenho esperança de que sejamos imunes mas, para já, pouco se sabe relativamente a isso, parece que nem toda a gente desenvolve imunidade — na China há quase uma centena de casos de reinfeção —, e também não se sabe quanto tempo poderá durar a imunidade nos casos em que exista. Quando tiver o teste serológico a dizer que sou imune se calhar vou estar mais confiante, enquanto isso, na dúvida, vou continuar a ter as mesmas precauções na minha vida profissional e na normal provavelmente usarei máscara.”

Médica neurologista no  Centro Hospitalar do Médio Ave, em Famalicão e Santo Tirso, Adriana Rua está isolada em casa desde 13 de março, dia em que foi anunciado o encerramento das creches e escolas e deixou de ter onde deixar Guilherme. Começou a sentir-se mal uma semana depois, a 20 de março. “Febre, tosse, náuseas, astenia, mialgia, cefaleias intensas — eu tive tudo”, recorda Adriana, ao telefone mas em letra de médico. “Liguei logo ao meu marido, que é anestesista no Hospital de Gaia, e disse-lhe para fazer o teste. Deu positivo.”

Adriana Rua acredita que o filho, de 15 meses, também teve Covid-19: "É preferível que ele tenha estado infetado em casa, do que voltar à creche e ter a doença"

Apesar de o marido só ter experimentado perdas de olfato e de paladar, ainda permanece infetado — já Adriana, que teve uma semana difícil, mitigada apenas por paracetamol, foi dada como recuperada esta terça-feira, dia 14. A forma como afeta uns em detrimento de outros será apenas mais um exemplo de como este vírus é incerto, diz a médica: “Há casos descritos de doentes que se mantêm positivos até 50 dias depois do aparecimento dos sintomas. As cargas virais podem ser diferentes; uns negativam mais depressa do que outros; uns desenvolvem imunidade e outros não”.

Ao longo dos dias do isolamento possível com um bebé de 15 meses — “Foi muito complicado, tínhamos de tentar ter algum isolamento e ele é muito pequenino, queria estar sempre em contacto próximo, tentava tirar-nos a máscara” —, Guilherme chegou a estar adoentado, com tosse e bastante ranho no nariz, mas sem febre.

É exatamente por esse motivo que o bebé vai agora ser testado para o novo coronavírus, explica a mãe que, mais do que acreditar que o filho também já teve Covid-19, deseja efetivamente, e apostando as fichas todas na hipótese da imunidade, que o bebé tenha sido infetado. “É preferível que ele tenha estado infetado em casa e que já esteja tudo controlado, do que voltar à creche e ter a doença nesse contexto.”

“Antes de ir ver a minha filha quero tentar perceber se a vou colocar em risco”

Tiago Leite

Treinador de futebol

33 anos

Ovar

Teste positivo a 24 de março

Recuperado desde 1 de abril 

Começou a ter sintomas no dia 16 ou 17 de março, nem se recorda bem, estava o estado de calamidade prestes a ser declarado no concelho e um cordão sanitário quase a rodear Ovar. Do que nunca irá esquecer-se é da quinta-feira dessa semana, dia que considera o do seu pico, quando a febre subiu e os arrepios e dores “muito fortes”, tanto nos músculos como nas articulações, o mantiveram acordado a noite inteira, sem conseguir pregar olho.

“Nem sei quantas vezes liguei para a Saúde 24. Nunca me ligaram de volta”, recorda o treinador da equipa principal de futebol da Associação Desportiva Ovarense, desde 1 de abril considerado recuperado. “Acabei por ligar para uma linha que temos aqui só para Ovar — e aí, sim, tive um acompanhamento ótimo. Aliás, tivemos: no domingo o meu irmão também começou a passar mal, na terça-feira seguinte fizemos o teste juntos e fomos logo diagnosticados devido aos sintomas, tínhamos falta de olfato e paladar, cansaço extremo e falta de ar quando tentávamos fazer algum exercício”, recorda.

“Só espero que o cerco acabe, sou uma pessoa extremamente ativa, estar fechado em casa é muito complicado”, diz Tiago Leite

Luís, de 29 anos, saiu de casa da mãe, onde vive, e mudou-se para a moradia de três quartos e dois andares do irmão, onde, juntos, convalesceram e cumpriram o período de confinamento obrigatório. “A minha mãe mora a dois minutos de carro e eu, como sou solteiro, ia lá muitas vezes almoçar ou jantar, mas agora temos de a proteger, já tem 62 anos”, conta o treinador.

Apesar de ambos já terem sido testados e de estarem negativos, continuam a manter-se longe da mãe, que também fez o teste (“deu inconclusivo”), e a sair de casa à vez e apenas para fazer compras ou para dar umas corridas no pinhal das traseiras. “Evitamos estar com outras pessoas. Não sabemos ainda se pelo facto de termos tido a doença temos imunidade ou não, ninguém nos disse nada sobre isso. Pesquisei algumas coisas, alguns dizem que sim, outros dizem que não, ninguém tem certezas sobre se estamos imunes”, lamenta Tiago que, na dúvida, continua a observar os cuidados que já tinha antes de ser infetado: vai ao supermercado de máscara e desinfeta as mãos antes de entrar e depois de sair.

“Sinto falta da minha filha, que vive com a minha mãe em Almada e faz 11 anos de hoje a uma semana — já não a vejo desde as férias do Carnaval e o mais certo é não poder estar lá no aniversário dela, isso é o que mais me magoa e me deixa em baixo, mas antes de ir vê-la quero tentar perceber se a vou colocar em risco”
Tiago Leite, treinador de futebol

“A minha preocupação principal é encontrar um equilíbrio quando falo nisto: as pessoas têm de perceber que isto é um problema grave; pode não ser para todos, como não foi para mim, mas para muita gente será, e nós temos a obrigação de proteger essas pessoas. Por isso mesmo temos de tentar minimizar o contacto com as pessoas, mas também temos de ter pensamento positivo e saber que vamos ultrapassar isto”, explica o treinador da Ovarense, esta época a disputar o acesso ao Campeonato de Portugal, que nas primeiras entrevistas que deu ainda tentou “relativizar” a situação, numa tentativa de “acalmar o pânico generalizado” na cidade.

Apesar de Ovar ser um dos concelhos mais afetados pela Covid-19 em Portugal (com quase 600 casos confirmados no final desta semana e pelo menos 25 mortos), diz que não tem amigos entre os recuperados — portanto, mesmo que até estivesse na disposição de arriscar um reencontro entre ex-doentes, supostamente imunes a reinfeções, a questão não se coloca.

“Só espero que o cerco acabe, sou uma pessoa extremamente ativa, estar fechado em casa é muito complicado”, responde quando questionado sobre o que tenciona fazer quando puder retomar a vida dita normal, três dias antes de ser anunciado o fim do cordão sanitário em Ovar. “Sinto falta da minha filha, que vive com a minha mãe em Almada e faz 11 anos de hoje a uma semana — já não a vejo desde as férias do Carnaval e o mais certo é não poder estar lá no aniversário dela, isso é o que mais me magoa e me deixa em baixo, mas antes de ir vê-la quero tentar perceber se a vou colocar em risco.”

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