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MIGUEL A. LOPES/LUSA

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Marcelo fez teste à imunidade na Champalimaud, DGS diz que é "muito prematuro" começar a testar

PR revelou que fez teste e não está imune ao novo coronavírus. DGS diz que "é muito prematuro" começar a fazer testes à população e que é preciso esperar pela ciência. Ministério da Saúde não comenta.

A revelação foi feita pelo próprio Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista à Antena 1, na terça-feira. O Presidente da República contou que, depois de ter dado negativo nos testes ao novo coronavírus, no início de março, e depois de ter estado 14 dias em isolamento voluntário, fez “há poucos dias um teste dos novos que chegaram, de imunidade, que já é de uma nova geração, os chamados testes serológicos”. E concluiu: “Posso dizer-lhe que não estou imunizado porque não tive nenhum contacto com nenhum portador de Covid-19, o que é uma ironia, porque, se havia pessoa que contactava de próximo com os portugueses nas semanas anteriores, era eu”.

Presidente da República já fez teste de imunidade e revela que ainda pode ficar infetado

Já era conhecida a existência de testes à imunidade de quem teve a doença — essenciais para perceber não só quantas pessoas estiveram, de facto, infetadas (admitindo que muitos possam ter sido assintomáticos e não tenham chegado a ser diagnosticados), mas também para avaliar a futura proteção da comunidade contra uma nova investida da doença. Mas as autoridades de saúde portuguesas sempre falaram de projetos que estavam em marcha para fazer um estudo da população, ainda numa fase embrionária, não havendo qualquer recomendação para que os cidadãos procurassem esses novos testes.

Apesar de ter revelado que fez o teste — e que o resultado foi negativo —, Marcelo Rebelo de Sousa não explicou em que condições o fez, com que entidade e para que propósito. Fonte de Belém diz ao Observador que a análise foi feita na Fundação Champalimaud há cerca de uma semana. O teste em causa foi importado do estrangeiro, é britânico e já foi certificado na Europa. Quando decidiu fazê-lo, Marcelo Rebelo de Sousa falou com o primeiro-ministro para lhe dar conta disso mesmo. António Costa foi, depois, o primeiro a ser informado do resultado negativo. A mesma fonte explica que o Presidente da República entendeu fazer o teste por ser alguém com uma grande exposição pública e de contacto mais próximo com a população.

O teste à imunidade de Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido numa altura em que o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) — que fez, por exemplo, os testes de março que mostraram que Marcelo Rebelo de Sousa não estava infetado pelo novo coronavírus — está a dar os primeiros passos num projeto piloto para testar a imunidade da população. O projeto já está em marcha, mas está ainda na fase de definir a metodologia: quando devem começar a ser feitos os estudos serológicos, que tipos de testes vão ser usados, a que amostra devem ser aplicados e como será feita a recolha. Só depois de analisados e decididos esses critérios começará o trabalho de campo, ou seja, a realização prática dos estudos. Até porque alguns dos dados fundamentais para se perceber se determinada pessoa está ou não imune à Covid-19 ainda não existem — nomeadamente o nível de anticorpos a partir do qual passam a ser efetivamente protetores.

Depois de ter estado na linha da frente dos testes ao novo coronavírus, o Instituto Nacional Ricardo Jorge está agora a preparar inquéritos serológicos para determinar a imunidade da população

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foi esse, aliás, um dos pontos em que Graça Feitas mais insistiu na conferência de imprensa desta quarta-feira. Questionada sobre a eventual realização de inquéritos serológicos — os testes para estudar a imunidade da população —, a diretora-geral da Saúde lembrou que “é muito prematuro” fazer esses estudos. Primeiro, explicou, é preciso decidir “o tipo de testes que estamos a utilizar, o método que vai ser usado e, depois, o nível de anticorpos que é protetor” — exatamente aquilo que o INSA está a fazer.

Questionado pelo Observador, o Ministério da Saúde diz que “não comenta assuntos da Presidência da República”. Questionado também sobre se os cidadãos devem procurar esse tipo de testes, seguindo o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa, diz apenas que “quanto a capacidade de testagem, o SNS tem capacidade e recursos para realização de testes, desde que tecnicamente validados”.

Ao Observador, o especialista Germano de Sousa explica que os testes, nesta altura, detetam apenas a existência (ou não) de anticorpos contra o novo coranvírus — indicador de se a pessoa já teve a doença, mesmo sem se aperceber. Mas sublinha que, só isso, não dá qualquer informação sobre a eventual imunidade de uma pessoa. “Se o Presidente quer saber — ele ou seja quem for — se teve a doença e não deu por ela, pode fazer o teste. Se tiver anticorpos anti-SARS-CoV-2, sim senhor, provavelmente teve e não deu por ela. Se lhe dá imunidade, ainda não é possível dizer”.

"Para o sarampo, nós sabemos. Para a papeira, nós sabemos. Para a rubéola, nós sabemos. Mas eu só posso saber para este novo coronavírus quando houver mais estudos porque ter anticorpos pode não ser suficiente para dizer que estou protegido, tem de haver um número suficientemente elevado de anticorpos para haver proteção."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Não foi o caso de Marcelo Rebelo de Sousa. Segundo o Presidente da República, o teste foi negativo, o que significa que “não está minimamente imune”, explica Germano de Sousa.

Testes contam anticorpos, mas ainda não determinam imunidade

Para perceber como pode vir a ser determinada a imunidade de uma pessoa ao novo coronavírus é preciso olhar primeiro para a forma como o corpo humano reage às doenças.

Quando um vírus ou bactéria entra no corpo de alguém, chega a uma célula e começa a multiplicar-se, provoca uma resposta do sistema imunitário — a forma como o organismo entra em modo de combate para se proteger. Na prática, os soldados desse combate são os anticorpos — ou imunoglobulinas —, que começam a ser produzidos para fazer face à ameaça.

“Desde o momento em que a pessoa entrou em contacto com o vírus, ele instala-se nas nossas células e só lá dentro consegue multiplicar-se. E só a partir de uma determinada quantidade de vírus nas células é que o detetamos e só partir de certos sintomas é que o sistema imunitário fica alerta”, explica ao Observador Germano de Sousa, especialista em Patologia Clínica e fundador de um dos maiores grupos portugueses de laboratórios de análises clínicas.

Os testes mais simples são apenas qualitativos, só detetam a presença de anticorpos, sem determinarem a quantidade

PAULO NOVAIS/LUSA

Essa reação, que pode ser detetada em laboratório, produz dois tipos de anticorpos: a imunoglobulidade M (IgM) e a imunoglobulina G (IgG). A primeira é detetada na fase aguda da doença — que, no caso da Covid-19, situa-se, geralmente, por volta do sétimo dia a contar dos primeiros sintomas. A segunda é produzida mais tarde, entre o 14.º e o 21.º dias. É esta última a que pode traduzir uma imunidade futura, por ser produzida já de acordo com o vírus ou bactéria invasora, sendo o momento em que “o organismo começa a vencer a batalha”, diz Germano de Sousa.

Fazer um teste de imunidade é, no fundo, detetar no organismo de alguém a presença destes anticorpos, que podem servir de proteção para novos “ataques”. Para isso, bastará um teste simples, apenas qualitativo, que só implica uma picada no dedo para recolher uma gota de sangue. Mas só isso diz muito pouco — confirma apenas que há anticorpos no organismo. É preciso recorrer a um teste mais complexo, com uma amostra de sangue, para determinar a quantidade desses anticorpos.

O problema é que não é uma soma simples, é uma equação da qual dependem vários fatores. A começar pela quantidade de anticorpos a partir da qual a imunidade pode estar assegurada. Quantos são precisos para garantir proteção contra a Covid-19? Ainda ninguém sabe.

“Para o sarampo, nós sabemos. Para a rubéola, nós sabemos. Para a papeira, nós sabemos. Mas eu só posso saber para este novo coronavírus quando houver mais estudos”, explicava esta quarta-feira a diretora-geral da Saúde, que sublinha que “ter anticorpos pode não ser suficiente para dizer que estou protegido, tem de haver um número suficientemente elevado de anticorpos para haver proteção”.

"Gostava de poder dizer 'esteja à vontade', mas, em boa verdade, eu nunca passaria um teste de imunidade a ninguém."
Germano de Sousa, especialista em Patologia Clínica

É para isso mesmo que alerta Germano de Sousa. O especialista confirma que, nos seus laboratórios, já estão a ser feitos testes que detetam a presença dos anticorpos e em que número — “para casos muito específicos” —, mas sublinha que, para já, permitem apenas saber se a pessoa esteve infetada com o novo coronavírus. Isso pode ser útil nos casos de doentes assintomáticos ou que tiveram sintomas tão ligeiros que nem se aperceberam da presença da infeção, até porque acredita que “há muita gente que teve a Covid e nunca soubemos, porque tiveram sintomas muito ligeiros, confundidos com uma constipação, mas era Covid”. Mas é cedo para perceber se passaram a estar protegidos: “Se tiver anticorpos contra o novo coronavírus, podemos dizer ‘sim senhor, provavelmente teve a doença e não deu por ela’. Mas, se isso lhe dá imunidade, não é possível dizer”, garante. Tudo por causa do tal “nível protetor” que a ciência ainda não conseguiu determinar qual é.

É também por isso que recusa a ideia de ser possível começar a passar os chamados “certificados de imunidade”, como está a ser ponderado na Alemanha. “Gostava de poder dizer ‘esteja à vontade’, mas, em boa verdade, eu nunca passaria um teste de imunidade a ninguém.” Para ter essa certeza, “precisamos de aguardar o que a ciência nos vai dizer nos próximos meses”, diz também Graça Freitas.

Alemanha pondera criar “passaporte imunológico” para saber quem pode ir à rua

Imunidade agora não significa imunidade depois

O timing parece ser mesmo uma das questões mais relevantes no que diz respeito aos testes de imunidade. Primeiro porque testar antes do tempo pode não ter qualquer relevância, já que a eventual presença do vírus, depois de curado, não provoca imediatamente uma subida dos anticorpos. Depois porque é preciso ainda determinar a partir de que quantidade de anticorpos a pessoa passa a estar protegida. E, por fim, porque também é preciso perceber se a imunidade é duradoura — e isso pode demorar algum tempo.

Graça Feitas explica que, depois de curados, “há vírus e bactérias que dão uma imunidade protetora duradoura, algumas até para a vida”, mas outros “decrescem ao longo do tempo”. Para saber exatamente quanto tempo dura essa autoproteção, é preciso repetir os testes: “Quando terminarmos o primeiro inquérito serológico, vamos ter de fazer repetições para saber se os anticorpos que sobem e a partir de certa altura se tornam protetores, o que é que lhes vai acontecer: se se vão manter ou se vão baixar a imunidade. Porque isto varia de micro-organismo para micro-organismo”.

Na conferência de imprensa desta quarta-feira, Graça Freitas explicou que a ciência vai precisar de "alguns meses" para determinar o nível a partir do qual os anticorpos podem garantir a imunidade

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Esse primeiro inquérito imunológico ainda nem sequer começou a ser feito. Nesta altura, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge está ainda “a trabalhar com outros países para afinar a metodologia dos testes”, explicou a diretora-geral da Saúde. Ao Observador, fonte do INSA explica que essa é a primeira fase do projeto piloto. Por agora, por exemplo, o departamento de doenças infecciosas está a estudar os vários testes que têm sido disponibilizados no mercado para perceber quais serão os mais adequados e com o maior grau de sensibilidade.

Ao Observador, Germano de Sousa conta que tem usado, nos seus laboratórios, “testes mais fiáveis, com 97% de sensibilidade”. Não cabe ao INSA certificar ou validar aquilo que as várias marcas têm colocado no mercado — essa é uma tarefa do Infarmed. O que os técnicos estão a fazer é escolher aqueles que vão querer usar quando avançarem para o terreno e começarem a testar a população.

Esse trabalho é importante porque os testes específicos para determinar a imunidade ao novo coronavírus, naturalmente, não existiam, por ser uma doença recente, ao contrário de infeções como o sarampo, por exemplo, para o quais essa análise já existe. “São idênticos na forma de funcionamento, o que muda é se são sensíveis para esta doença, que é nova”, explica o Instituto Ricardo Jorge.

"Vai ser muito importante perceber a quantidade de pessoas que tiveram e nós não detetámos. Se tivermos imunidade em 70% da população, fantástico! Mas volto a interrogar-me — será que vai durar durante muito tempo?"
Germano de Sousa, especialista em Patologia Clínica

Esse será mais um passo para definir a “metodologia firme” que Graça Freitas diz ser necessária para se começarem a fazer os inquéritos serológicos à população, analisando amostras de sangue que terão de ser recolhidas entre um grupo alargado de pessoas — a amostra, que também ainda está a ser definida. E não é estranho que esse trabalho ainda não tenha começado: “Nós temos a infeção em Portugal há pouco mais de um mês”, lembra a diretora-geral da Saúde.

Os primeiros dados, ainda assim, serão um avanço importante para perceber de que forma a pandemia afetou o país, incluindo aqueles que podem não ter sido diagnosticados com a doença, apesar de a terem tido. “Eu tenho de saber qual é a imunidade de grupo”, explica Germano de Sousa. “Vai ser muito importante perceber a quantidade de pessoas que tiveram a doença e nós não detetámos. Se tivermos imunidade em 70% da população, fantástico! Mas volto a interrogar-me — será que vai durar muito tempo?”.

* com Pedro Benevides

(Artigo atualizado às 23h54 de quarta-feira com a informação prestada por fonte de Belém sobre o teste feito por Marcelo Rebelo de Sousa)

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