André Ventura tem, nos últimos anos, feito um esforço quase diário para marcar a agenda mediática do país, seja por que motivo for. Nas últimas semanas viu o partido ser engolido por essa mesma realidade, sem controlar o rumo dos acontecimentos. O apontar de dedo a ‘casos e casinhos’ fez ricochete e o Chega viu na moção de censura ao Governo um balão de oxigénio que procurava há muito. Ainda mais quando em causa estava uma empresa criada pelo próprio primeiro-ministro Luís Montenegro.

No debate da moção — o momento alto após dias de avanços e recuos –quase todos se mostraram interessados em ter mais respostas de Montenegro, mas o saco de pancada do dia teve outro nome: André Ventura — que além das críticas unânimes da direita à esquerda, ainda viu Hugo Soares a revelar que iria distribuir por todos os nomes dos deputados do Chega que também têm empresas imobiliárias.

A divulgação do nome dos deputados permitiu-lhe, já à saída do debate da moção de censura, dar seguimento a uma estratégia que tem usado e abusado nas últimas semanas: o que exigimos aos outros, exigimos para nós. E sobre Filipe Melo, que tem uma imobiliária e é coordenador do grupo parlamentar do Chega na Comissão de Economia, Obras Públicas e Habitação, atirou: “Se há participações em casos de conflitos de interesses, a participação tem de cessar.”

Ora, o PSD trazia afinado o slogan que coloca em pólos opostos “populismo” e “competência”, no entanto André Ventura ouviu muito mais do que isso de todos os partidos: que “qualquer boato serve para o Chega tentar derrubar o Governo” (Paulo Núncio, do CDS); que Ventura “marcou um autogolo” (Hugo Soares, do PSD); que “estava à beira do precipício da falta de dignidade e resolveu apresentar esta moção” (Rui Rocha, da IL); que “a moção foi uma peça de teatro” (Rui Tavares, do Livre); uma “fuga para a frente de um partido desorientado” (Paula Santos, do PCP); uma “manobra de diversão (Pedro Nuno Santos, do PS); ou uma moção para “tapar as vergonhas” da bancada do Chega (Mariana Mortágua, do BE). Praticamente ao cair do pano, o líder parlamentar do PSD ainda tinha mais uma machadada final para André Ventura: “Vieram tosquiar, saíram daqui tosquiados.”

Numa tarde, aquilo que foi visto pelo Chega como uma lufada de ar fresco para estancar os casos que têm colocado o partido todos os dias nas notícias foi utilizado pelos restantes para contra-atacar André Ventura, numa tentativa de desmascarar as intenções do Chega — o que levou até o líder da Iniciativa Liberal a enumerar oito casos que fizeram notícia entre dirigentes e deputados do partido nas últimas semanas.

Como se nada fosse, como é habitual, André Ventura desvalorizou as críticas, considerou que algumas são “de rir”, e tentou sempre continuar a jogar ao ataque (com todos na mira) — além das perguntas ao primeiro-ministro que insistiu até ao último segundo que ficaram por responder, distanciou-se do PSD comparando o que o Chega fez a Miguel Arruda com o não afastamento de Miguel Albuquerque, acusou o CDS de ser “muleta” do Governo; lembrou a falsificação de assinaturas de Tiago Mayan na Iniciativa Liberal e apontando a um partido “mais desgovernado do que um bacanal”; atacou o PCP pelas sedes que vendeu e o Bloco de Esquerda pela falta de “vergonha e decência”, com referências ao caso das trabalhadoras despedidas quando estavam a amamentar.

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

“Este gajo é mesmo bom”

À la Ventura, ainda arrancou uma gargalhada geral — incluindo a Luís Montenegro — quando contou uma história de 2018, dizendo que só tem uma fotografia com Luís Montenegro numa altura em que o agora primeiro-ministro foi a “correr para Loures” para andar ao seu lado e “tirar fotografias” quando era candidato autárquico pelo PSD. E acrescentou que teve conhecimento de uma mensagem de Montenegro sobre si que dizia: “Este gajo é mesmo bom.”

Pouco antes também tinha sido provocado pelo primeiro-ministro quando satirizou: “Se em 2018 eu me tivesse candidatado [a líder do PSD] o André Ventura ainda estava no PSD.” E Mariana Mortágua juntou-se às provocações quando pediu que “diga aos portugueses ‘eu queria era estar no Governo ao lado de Luís Montenegro, mas como não consegui apresentou moções de censura’.”

A moção de censura teve o desfecho anunciado — o chumbo —, Ventura já o sabia e podia ter recuado, mas não o fez. E voltou a ficar isolado no Parlamento numa discussão que se virou constantemente contra o proponente e em que todos afinaram notas para rebaixar o adversário comum. Mas o líder do Chega tornou-se um especialista em capitalizar isso a seu favor, num legado comum de ‘nós contra eles’ em que se orgulha de poder usar a cartada de ficar sozinho a lutar contra os “partidos do sistema”.

E além do mediatismo momentâneo durante as três horas de debate e as muitas horas de notícias e comentários que se multiplicarão, Ventura consegue um dos seus principais trunfos: colocar nas redes sociais as suas intervenções, sem contraditório, e de forma praticamente instantânea. O debate ainda decorria e já nas redes sociais Ventura usava a hashtag “Somos Alternativa” quando, depois de ser atacado por Hugo Soares por esta ser uma moção de censura que tinha o nome de Miguel Arruda e André Ventura como “padrinho”, o líder do Chega contra-atacou com Miguel Albuquerque e o facto de ser novamente o candidato do PSD ao Governo da Madeira. “Na nossa bancada eliminámos as malas de roupa, já a bancada do PSD continua com as malas de dinheiro”, escreveu.

No final das contas, André Ventura conseguiu de facto colocar todos contra si, mas o selo de solitário tem-lhe servido em variadíssimas ocasiões e há muito que não tenta ver-se livre dele — ao contrário do que tentou fazer quando procurou um acordo com Luís Montenegro para participar na governação. Quanto à tentativa de esvaziar os casos e casinhos que têm deixado o partido sem capacidade de ficar à tona, voltou a marcar a agenda, a ter todos os microfones apontados a si por uma circunstância que escolheu (e não por embaraços) e o Chega até acredita que pode capitalizar essa tal solidão. Resta saber se a estratégia de todos unidos contra um tem maneira de continuar além da discussão da moção de censura e se isso pode abalar Ventura.