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Bruno Lage tentará travar duas derrotas consecutivas na deslocação a Turim para defrontar a Juventus, numa fase em que ganhou apenas metade dos últimos oito jogos
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▲Bruno Lage tentará travar duas derrotas consecutivas na deslocação a Turim para defrontar a Juventus, numa fase em que ganhou apenas metade dos últimos oito jogos

CARLOS COSTA

▲Bruno Lage tentará travar duas derrotas consecutivas na deslocação a Turim para defrontar a Juventus, numa fase em que ganhou apenas metade dos últimos oito jogos

CARLOS COSTA

Conferências, foco na Juventus, decisões por tomar e a identidade do "Diogo": as ondas do terramoto no Benfica por um áudio de 114 segundos

Lage voltou a defender posição sem receio de mais fugas, Rui Costa só fala na quinta-feira, plantel não gostou de ser exposto, ex-dirigentes classificam como "situação grave": o momento do Benfica.

Um áudio valeu mais do que uma derrota. Se o desaire em Rio Maior frente ao Casa Pia na 19.ª jornada do Campeonato funcionou como um forte abalo depois da cruel derrota na Liga dos Campeões com o Barcelona, a divulgação de parte de uma conversa de Bruno Lage com adeptos na garagem do Estádio da Luz, que teve um ponto inicial nas redes sociais antes de tornar-se a notícia do dia, provocou um autêntico terramoto no universo dos encarnados. Pediu-se a saída imediata do treinador, uma posição de força do líder Rui Costa, o cenário de eleições antecipadas. O que aconteceu? Uma conferência de imprensa do técnico com a estrutura do futebol na primeira fila, algumas explicações incompletas para o teor das frases proferidas, a garantia de que o plantel não tinha sentido qualquer onda de choque pelo sucedido. O resto, só o tempo dirá.

Bruno Lage critica jogadores em conversa com adeptos. “Sofremos golos de bola parada porque ninguém salta!”

“Quero apenas deixar uma mensagem de muita confiança e esperança para o jogo de amanhã [quarta-feira]. Percebo que tenham muitas perguntas. Vão-me respeitar mas o foco é unicamente o jogo, que tem muita importância para nós. Depois do jogo vou responder a todas as questões. Há muita confiança da parte de toda a gente, dos jogadores, da equipa técnica e do presidente. É um jogo de grande responsabilidade para nós e iremos todos fazer de tudo para continuar na prova. Depois do jogo, independentemente do que acontecer, irei esclarecer tudo aquilo que tiverem para me perguntar, para esclarecer os adeptos também”, comentou Rui Costa no aeroporto de Lisboa, antes da partida de toda a comitiva para Turim.

Há muito em jogo no encontro desta quarta-feira com a Juventus. A possibilidade de apuramento do Benfica para o playoff da Liga dos Campeões até pode não estar de forma obrigatória dependente de pontuar frente ao conjunto italiano mas a resposta que a equipa dará depois de duas derrotas consecutivas e uma série de apenas quatro triunfos nos últimos oito encontros (com três desaires nos derradeiros quatro partidas do Campeonato) dirá tanto ou mais do que o resultado. A seguir, falará Rui Costa. Não sendo impossível, torna-se complicado passar ao lado deste episódio até ao final da temporada. O que pode mudar? Resultados.

Bruno Lage não se retrata de declarações polémicas e garante ter “confiança” de Rui Costa

Segundo soube o Observador, o impacto da fuga do áudio de Bruno Lage foi grande mas menor do que tem sido escrito nas últimas 48 horas. Razões? Quase todos estavam no mesmo espaço quando essa intervenção aconteceu e, de facto, o técnico tinha deixado algumas ideias abordadas nessa conversa ainda no balneário em Rio Maior. Mais: se não existisse essa “fuga”, nem haveria tema. No entanto, há outros dois pontos que correm em paralelo com as ideias supracitadas: 1) não é de agora que existe um sentimento que alude a tratamentos “diferenciados” no plantel, mesmo tendo em conta os estatutos naturais que todos os grupos de trabalho têm; 2) nenhum jogador ou plantel gosta de ser exposto mesmo que num plano coletivo para fora, algo que acabou por acontecer nessa conversa onde estariam cerca de 30 adeptos dos encarnados.

Perante o impacto do áudio, a estrutura do futebol do Benfica reuniu, falou sobre o sucedido e anuiu à ideia de que o melhor seria haver uma conferência de imprensa de Bruno Lage e apenas Bruno Lage a responder a partes das afirmações que se ouviam no áudio. Apesar do impacto que essa fuga teve em termos internos, a grande prioridade passou sempre pelas condições para a equipa trabalhar e corrigir os últimos resultados na última jornada da Champions, colocando o ónus não no treinador mas em todo o grupo de trabalho.

Rui Costa a deixar tribuna antes do final, adeptos revoltados, Lage a confrontar contestatários junto ao autocarro: o pós-derrota do Benfica

Em paralelo, e fora de campo, as movimentações eleitorais nos bastidores sucedem-se. No plano interno, ainda não existe uma decisão tomada por Rui Costa em relação a uma possível recandidatura ao sufrágio de outubro, sendo que a permanência ou não na Liga dos Campeões, o fecho do mercado e a recuperação na Liga são por agora os únicos focos. No entanto, existe a clara perceção de que a temporada desportiva e a conquista de títulos depois da Taça da Liga poderá ter peso nas eleições, o que adensa ainda mais a necessidade de uma reflexão antes da tomada de qualquer medida sobre o terramoto provocado na manhã de domingo com 114 segundos de uma conversa de meia hora que abalou o universo benfiquista.

Ex-dirigentes esperavam demissão de Bruno Lage e deixam “reparos” a Rui Costa

Da parte de alguns dirigentes, a questão do áudio não passa ao lado. Gaspar Ramos viveu muitos momentos distintos no Benfica. Foi diretor geral do futebol no final dos anos 70 e 80 – com três títulos de campeão conquistados –, mas também foi vice-presidente na época do “Vietname” benfiquista. Ainda assim, mesmo para quem viu tanta coisa, há sempre espaço para algo “inédito”. “Esta questão só se pôs por causa do áudio e por se ter feito aquela conferência de imprensa, que eu não julgava que fosse possível acontecer no Benfica”, destaca o antigo dirigente, que responsabiliza Rui Costa pelo que aconteceu.

“Acho que já à saída do jogo de Rio Maior, ele devia ter aconselhado o treinador a estar calado. E depois cometeu outro erro, porque não devia ter permitido que se fizesse aquela conferência de imprensa. É realmente uma situação que eu não entendo”, diz Gaspar Ramos ao Observador. Ainda assim, para o antigo dirigente, o impacto maior, com ou sem conferência de imprensa, adveio do áudio partilhado nas redes sociais da conversa entre Bruno Lage e os adeptos. José Gaspar Ramos esteve em vários balneários do Benfica e liderou o futebol encarnado durante oito épocas. Com a experiência que tem, não tem grandes dúvidas: o balneário das águias estará em mau estado e de costas voltadas com o treinador.

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“Aquilo que ele disse e a forma como disse complicou-lhe muito a vida. Ele não tem condições, certamente, para dialogar com o grupo. Considero o balneário um fator muito importante para se poder ter uma boa equipa. Aliás, fundamental. E o estado de espírito daquele grupo deve estar de rastos”, diz Gaspar Ramos, completando com críticas à gestão de Lage que não vêm de hoje: “Ele, até agora, tem tomado atitudes e tem dito coisas que são realmente incompatíveis com um estado de espírito de um grupo conquistador”. O que fazer então? “A situação é muito complicada, disseram-se coisas que feriram muita gente. E é evidente que quem dirige, e quem tem a responsabilidade sobre tudo o que se passa no Benfica, tem de ponderar bem a situação. Dá a sensação que isto é um assunto tratado a um nível muito baixo,  que não tem nada a ver com a grandeza do Benfica. Lamento profundamente”.

"Ele, até agora, tem tomado atitudes e tem dito coisas que são realmente incompatíveis com um estado de espírito de um grupo conquistador. A situação é muito complicada, disseram-se coisas que feriram muita gente. E é evidente que quem dirige, e quem tem a responsabilidade sobre tudo o que se passa no Benfica, tem de ponderar bem a situação."
Gaspar Ramos, antigo dirigente do Benfica

Já João Braz Frade, vice-presidente de João Vale e Azevedo e depois de Luís Filipe Vieira no segundo mandato, não tem grandes dúvidas: o que se passou “foi de uma gravidade extrema”. Para o antigo dirigente do Benfica, tudo teria sido diferente se o caso tivesse ocorrido dentro de uma empresa e não de um clube, garantindo que ficou “surpreendido” com o facto de Bruno Lage não ter outra atitude na conferência.

“Pensei que o treinador ia apresentar a demissão ou pôr lugar à disposição. Depois cabia à Direção decidir ou não. Provavelmente, a Direção terá optado por falar com o treinador. Não sei o que se passou lá dentro, mas terá optado por manter o treinador. Aquilo que pensei, na altura, era que o próprio Bruno Lage iria sentir que não tinha condições para continuar e ia pôr o lugar à disposição. Não aconteceu. Explicou, detalhou e contextualizou o que tinha dito no tal áudio”, defende João Braz Frade em declarações ao Observador, recordando que a posição de Rui Costa era “difícil” devido ao jogo contra à Juventus, já esta quarta-feira, que decide a continuidade ou a eliminação na Liga dos Campeões.

▲ Rui Costa apostou em Bruno Lage após a saída de Roger Schmidt do comando técnico do Benfica após o empate com o Moreirense na quarta jornada

LUSA

No entender do antigo vice-presidente encarnado, Rui Costa deveria ter sido o primeiro a tomar a palavra na conferência de imprensa da tarde de domingo – ao invés de se ter limitado a surgir na primeira fila da sala do Benfica Campus, assim como o diretor desportivo Rui Pedro Braz e o diretor-geral Lourenço Coelho. “Acho que deveria ter falado primeiro e depois deixava o treinador falar. O presidente do Benfica deveria ter falado antes e explicado aos sócios o que se ia passar. Depois a contextualização, os detalhes, os pormenores, podiam ficar a cargo de quem causou isto tudo, que foi o treinador”, indica João Braz Frade, que passou pela Luz no final do século passado e depois entre 2006 e 2009.

João Braz Frade acredita que Lage disse a verdade quando garantiu que já tinha dito aos jogadores o que depois disse aos adeptos na garagem do Estádio da Luz, mas lembra que os jogadores “já não são como eram há 40 anos”. “São pessoas com um nível de sofisticação elevado que vivem as coisas como um jornalista, um economista ou um gestor. Sentem as coisas como toda a gente sente. O que penso é que a reação dos jogadores é a reação de um ser humano normal quando alguém fala de nós de forma crítica. É importante que exista contexto”, diz o antigo dirigente, embora não concorde com essa maneira de abordar as derrotas.

“Acho que os jogadores não têm de se expor a insultos, não têm de se expor a estas coisas só porque perdem. O futebol, o desporto, tem ganhar, perder e empatar. Não podem estar expostos a isto permanentemente, à selvajaria permanente, ao insulto, ao ter de ir pedir desculpa porque perderam. Uma coisa é perder porque se fez de propósito ou porque não se esforçaram… Mas mesmo assim não tem de se fazer isto em público e sistematicamente, começa a ser uma coisa doentia. Os jogadores nunca gostarão de saber que cá fora se diz que não correm, não saltam. Afeta sempre. Mas são profissionais, sabem que a vida continua, e os adeptos estão à espera de que reajam pela positiva e deem a volta ao texto. Acho que é isso que têm de fazer, independentemente de o treinador ter tido uma saída infeliz em público”, acrescenta.

"Acho que [Rui Costa] deveria ter falado primeiro e depois deixava o treinador falar. O presidente do Benfica deveria ter falado antes e explicado aos sócios o que se ia passar. Depois a contextualização, os detalhes e os pormenore, podiam ficar a cargo de quem causou isto tudo, que foi o treinador."
Braz Frade, antigo dirigente do Benfica

Ao Observador, João Braz Frade diz ainda que não concorda com a interpretação de que Bruno Lage, quando fala em jogadores “de 20 milhões que depois são vendidos por cinco”, sugerindo que é forçado pela Direção a lançar atletas específicos para que estes não desvalorizem no mercado. “Não consigo perceber sequer o que ele quer dizer com aquilo. Posso interpretar à minha maneira e já ouvi muitas interpretações. Aquilo pareceu-me tudo muito confuso, pareceu-me que estava sob tensão a dar explicações e a arranjar explicações à pressa para o que se passou. Porque também não acredito que venha para uma conferência de imprensa dizer que o presidente do Benfica não se mete nas escolhas dos jogadores depois de ter dito que sim. Por outro lado, é público que Rui Costa pode ser acusado de muita coisa, mas normalmente não pode ser acusado de ser um tipo que se mete e que é agressivo. Rui Costa não é normalmente assim, é uma pessoa ponderada. Até é acusado de ser demasiado ponderado. Conhecendo os interlocutores, acho estranho que seja o treinador a fazer observações daquele tipo”, afirma.

Por fim, o antigo dirigente do Benfica concorda com a ideia de que a atual temporada desportiva, particularmente a conquista do Campeonato e da Taça de Portugal, terá “um peso enorme” no resultado das eleições marcadas para o próximo mês de outubro. “Se a época desportiva for má acho que isso favorece as alternativas, é o costume. O que acho é que a bola entrar ou não entrar continua a ter influência. É a vida, os resultados dos clubes de futebol influenciam as opções eleitorais. Não faço ideia se Rui Costa vai recandidatar-se ou não, já existem três ou quatro alternativas conhecidas, umas já apresentadas e outras de protocandidatos. Com tanta alternativa, teremos umas eleições curiosas. Acho que a época desportiva, tal como sempre aconteceu no passado, afetará as opções dos sócios. Negar que os resultados têm um impacto enorme nas eleições é negar a realidade”, termina.

As 100 pessoas na área de um campo de futebol e quem era o “Diogo” da conversa

Depois da conferência de imprensa marcada de propósito para domingo à tarde, na sequência da divulgação do áudio de 1.54 minutos, Bruno Lage voltou a abordar o tema em Turim, sendo também questionado sobre o “Diogo” a quem se refere na gravação que inicialmente era apontado a Diogo Camacho, analista da equipa técnica, mas que esta quarta-feira foi associado pelo Record a Diogo Medeiros, membro destacado da claque No Name Boys que esteve envolvido no ataque à pedrada ao autocarro dos encarnados em 2019/20 e que foi um dos arguidos no processo da morte do adepto italiano Marco Ficini perto do Estádio da Luz.

“Já percebi… Estamos aqui para falar sobre o jogo da Champions, marcámos uma conferência de imprensa para falarmos sobre esse assunto. Não queria trazer este assunto para o dia de hoje porque temos um jogo para preparar e para ganhar. Sobre o que aconteceu nessa noite, tudo o que foi dito foi dito diante de 30 adeptos e com a intenção de defender o grupo. Não me escondi, fui falar com os adeptos perto do autocarro. Não falei baixinho, falei ao tom com que a conversa estava a ser feita. Tive de falar alto para me fazer ouvir”, referiu o treinador dos encarnados, recordando também todos os elementos presentes.

▲ Benfica tem um encontro decisivo em Turim frente à Juventus para confirmar o apuramento para o playoff da Liga dos Campeões

CARLOS COSTA

“Usei a mesma linguagem da conversa, também sei usar a linguagem de rua. E ao meu lado estava toda a comitiva que tinha chegado para o jogo do Casa Pia. Passei a polícia, tinha o doutor Lourenço Coelho quase ao meu lado, toda a comitiva do Benfica, o Ricardo Lemos também estava perto de mim, os jogadores e o capitão perto de mim, ninguém saiu dali. Estavam os polícias e os seguranças. No espaço de uma área de futebol estavam 100 pessoas a assistir a esta conversa. A conversa foi longa, de 30 minutos, e não me espanta se saírem mais áudios, estou tranquilo. A pessoa estava a tratar pelo meu nome, perguntei-lhe o nome, ele disse-me que se chamava Diogo, curiosamente com o mesmo nome que um elemento da minha equipa técnica. Não sei quem é, nunca o vi, percebi que é um adepto benfiquista e não tenho mais nada a acrescentar sobre esse assunto”, comentou Bruno Lage ainda a esse propósito na conferência antes do jogo.

“Apesar do que se diz fora, o grupo está concentrado. Temos de melhorar. A jogar de quatro em quatro dias temos a oportunidade de reverter a situação. Não houve desconforto, estamos 100% focados. Os problemas resolvem-se dentro, a trabalhar e a melhorar. O objetivo é claro. Vai ser uma grande partida. Temos um grande rival pela frente. Temos de ter a mentalidade ganhadora e confiar uns nos outros”, referiu Nico Otamendi, capitão do Benfica, à SportTV. “Áudio? Não ouvi nada, é um problema que há que deixar de lado. A mentalidade está na partida de amanhã. A partida é importante. Queremos fazer as coisas bem. Depois da partida, há que fazer uma autocrítica entre nós e melhorar. Não demos uma boa imagem ao perder por 3-1 fora de casa. Há que corrigir dentro e exigir o máximo nos treinos”, acrescentou na conferência

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