João Cotrim Figueiredo deixou a liderança da Iniciativa Liberal crente de que a sua “imagem pessoal limitava o crescimento do partido” e, anos depois, volta a assumir que se enganou, num relato que faz no livro “Porque Sou Liberal”, publicado antes de ir a votos nas próximas eleições Presidenciais. No final do livro, que dedica aos últimos anos ligados partido, reconheceu que certos temas internos o conseguiam “exasperar” e ajustou contas com Carla Castro, que voltou a acusar de deslealdade.

O ex-presidente liberal recorda os tempos em que — após anos de uma vida profissional que tocou áreas bastante distintas — percebeu que para “ajudar a mudar alguma coisa teria de o fazer num partido”. O “destino”, conta, deu-lhe essa “oportunidade”, que chegou pela mão de Carlos Guimarães Pinto, na altura líder da IL. Reunidos na pastelaria Versailles, o agora deputado lançou-lhe o desafio que “não estava à espera“: ser cabeça de lista por Lisboa nas eleições legislativas. Ainda que estivesse convencido que precisava de se envolver para “ajudar”, não estava preparado para o convite tão ambicioso, principalmente quando percebeu que “não era impossível” ser eleito — realidade que acabou mesmo por se confirmar em 2019.

Antes de aceitar, João Cotrim Figueiredo pediu para assistir, enquanto observador, a um Conselho Nacional do partido. “Nessa reunião, que teve lugar em Condeixa, houve de tudo, desde algumas intervenções e apresentações brilhantes, até àquelas coisas que mais tarde me viriam a exasperar no funcionamento do partido”, relembra Cotrim Figueiredo, que faz questão de sublinhar, mais do que uma vez, que as questões internas não lhe “agradavam” e tinham “aspetos que [lhe] tiravam anos de vida“. Aliás, na fase final da passagem pela liderança, o ex-presidente liberal foi-no reconhecendo, principalmente em fóruns privados, mas também em público.

Um dos momentos mais conturbados da vida da IL aconteceu exatamente no momento em que João Cotrim Figueiredo decidiu sair. Além de Rui Rocha, que foi prontamente indicado como o candidato da corrente da liderança apoiado pelo líder cessante, a deputada Carla Castro chegou-se à frente para a batalha mais renhida entre os liberais, sendo que ainda se juntou o há muito opositor José Cardoso. Os dois acabaram por abandonar o partido algum tempo depois da derrota. E Cotrim Figueiredo não esqueceu o que se passou nesses tempos. Chegou a dizer, durante a convenção que dividiu o partido, que a deputada e candidata tinha tido “falta de hombridade”. Agora, no livro, não deixa passar em branco: “Mantenho com todos eles [equipa que o acompanhou no gabinete de deputado único] uma relação de estreita amizade e camaradagem, com a exceção conhecida da Carla Castro com quem acabei por ter desavenças relacionadas com questões de lealdade pessoal. A ambição é o motor e o veneno da política.”

Ainda que a decisão tenha levado ao período agitado a nível interno, Cotrim entendeu que era o melhor a fazer. Com uma maioria absoluta conquistada pelo PS e o Chega a crescer mais do que a IL, o liberal explica a tese que o levou à decisão: “Para que o governo seguinte deixasse de ser socialista e a IL pudesse ter nele um papel, seria necessário que acontecessem várias coisas difíceis de conjugar em simultâneo: um crescimento significativo da IL para lá dos dois dígitos percentuais (sem ser apenas à custa do PSD), um crescimento significativo do PSD de novo para cima dos 30% (sem ser à custa da IL) e a recuperação de muitos dos descontentes que tinham optado por votar na direita radical.”

Reconhece, ainda hoje, que eram “objetivos muito difíceis“, contudo acreditava que havia “duas vantagens” para a IL: ser um partido “criativo e arrojado, o que facilita a forma de encontrar caminhos em cenários difíceis” e o facto de haver tempo, ao contrário do que tinha acontecido nos anos anteriores, já que a IL tinha concorrido a “cinco ou seis eleições, numa espécie de campanha permanente com pouco tempo para organizar e planear”.

O plano traçado na cabeça de João Cotrim Figueiredo assentava na ideia de que era preciso fazer crescer o partido para o “dobro, ou mais”, o que “implicaria alargar a base eleitoral das grandes cidades e do litoral para o resto do país”. Reconhece que não se sentia “motivado nem capacitado” para o “grande esforço de organização e implantação” a que isso obrigaria e, acima de tudo, concluiu o seguinte: “Acreditava, convictamente, que a minha imagem pessoal limitava o crescimento do partido nos eleitorados que precisaríamos de atrair.” Chegou a dizer, numa entrevista ao Observador, que reconhecia ter feito uma avaliação errada e que “de facto os mensageiros contam muitas vezes tanto quanto as mensagens e às vezes mais”, mas no livro reitera que “a decisão fazia sentido” na perspetiva de uma legislatura completa com maioria absoluta.

Ao contrário do que fez após as últimas legislativas, no livro Cotrim não faz comentários sobre os resultados eleitorais — que na altura considerou maus — e apenas fala de Rui Rocha para recordar que foi “sondado algumas vezes” devido à possibilidade de ser o candidato da IL às europeias, que acabariam por se tornar o melhor resultado da história do partido. O ex-presidente liberal recorda que, no partido, se considerou que a aceleração do calendário eleitoral após a queda de António Costa “aumentava muito a importância dos resultados das eleições seguintes” e que era “crucial manter o ritmo de crescimento eleitoral do partido em ambas as eleições”.

Nessa campanha, os liberais estrearam um novo modelo que João Cotrim Figueiredo assume no livro: “Pela primeira vez a IL personalizou uma campanha com o nome e fotografia do candidato.” Além disso, apostaram no TikTok, rede social que o próprio recusou um uso excessivo enquanto era presidente da IL devido às “fortes ligações ao regime autoritário controlado pelo Partido Comunista Chinês”. A conclusão veio pelo próprio: “Mais uma vez, os resultados de março indicavam que essa minha teimosia poderia ter sido um erro.”

João Cotrim Figueiredo prepara agora mais uma batalha eleitoral, desta vez à Presidência da República, e já estabeleceu que não passar à segunda volta é uma derrota. Seja como for, está avisado com uma frase o próprio que repete várias vezes no livro: “A vida ri-se de quem faz demasiados planos.”