Presidenciais não são legislativas e o resultado deste domingo voltou a comprová-lo. Apenas 31% do eleitorado da AD das últimas eleições nacionais, há exatamente sete meses, seguiu os apelos do primeiro-ministro para votar em Marques Mendes. De resto, o eleitorado que escolheu a coligação do Governo é aquele que mais se dividiu na primeira volta das presidenciais. A seguir a Mendes, 27% votaram em Cotrim, 16% votaram em Seguro e a mesma proporção em Gouveia e Melo. Até Ventura conseguiu resgatar 8% do eleitorado do Governo nas últimas eleições.
Os valores são avançados por um estudo de opinião de ICS/ISCTE, GfK e Pitagórica, baseados em parte da amostra das sondagens à boca de urna realizadas este domingo. E mostram que Ventura foi quem melhor segurou o eleitorado do respetivo partido nas legislativas de maio. O líder do partido manteve 83% dos votos e quem lhe conseguiu roubar mais eleitorado foi Cotrim, ainda que se trate de apenas 7%, seguido pelo almirante com 4%.
O pouco entusiasmo de vários notáveis do PS com Seguro não foi partilhado pelo eleitorado socialista. O antigo secretário-geral conseguiu garantir o apoio de 69% daqueles que votaram em Pedro Nuno Santos em maio e atingiu uma percentagem quase igual entre os eleitores do Livre (65%). Para quem votou nestes dois partidos, o segundo candidato favorito foi Gouveia e Melo, que desviou 13% dos votos no PS e 8% dos que obteve o partido de Rui Tavares em maio.
Contudo, Pedro Magalhães, um dos responsáveis pelo estudo, pede “muitas cautelas” na análise aos dados que dizem respeito a partidos que não sejam PS, PSD e Chega. Tal como acontece com o Livre, as sub-amostras do eleitorado da IL são “pequenas” e não oferecem tanta fiabilidade. Ainda assim, a sondagem mostra que Cotrim fidelizou 70% do eleitorado da IL e que o segundo candidato que mais cativou liberais foi Seguro (13%). Os abstencionistas das últimas legislativas distribuíram-se pelas principais candidaturas: 26% votou em Ventura, 20% em Seguro, 19% em Gouveia e Melo, 13% em Cotrim e 12% em Marques Mendes.
Seguro ganha nas mulheres e Cotrim nos jovens
O estudo feito à boca de urna — com uma amostra de 5.522 pessoas, segundo o método Kish que ajusta o valor de cada entrevistado para melhor representar a população — também se debruçou sobre o género, a idade e a nível de escolaridade dos candidatos.
Seguro é o campeão entre o eleitorado feminino, junto do qual obteve 36% dos votos, e é também o candidato com maior diferença de votação (cerca de 9%) entre mulheres e homens. Ventura aparece no extremo oposto com uma vantagem próxima dos 6% para o eleitorado masculino face ao feminino, que lhe deu, ainda assim, 20% dos votos. Seguro acaba por liderar no eleitorado masculino por apenas um ponto (27% contra 26%), mas a vantagem para o líder do Chega no voto feminino é de 16 pontos (Ventura teve 20%).
No mesmo sentido, mas com uma diferença menos pronunciada, ficou Cotrim, que teve 18% dos votos dos homens, mais quatro pontos do que conseguiu junto das mulheres. Tanto para Marques Mendes como para Gouveia e Melo o género não foi um fator determinante, tendo ambos uma variação de apenas 1% a favor do eleitorado feminino.
Estes dois candidatos também tiveram distribuições de votos parecidas entre os vários grupos etários. O candidato apoiado pela AD e o almirante tiveram ambos 17% entre os mais velhos (mais de 65 anos). Gouveia e Melo levou a melhor na faixa etária média (entre 35 e 64 anos) com 12% contra os 9% de Marques Mendes. Pelo contrário, entre os jovens (entre 18 e 35) o almirante recolhe apenas 5%, enquanto o ex-líder do PSD recebeu 7% dos votos.
Mas entre os candidatos que ficaram no pódio, a distribuição é ainda mais desigual. Cotrim liderou no voto dos jovens com 30%, com uma margem mínima sobre Seguro (29%) que conseguiu contrariar as dificuldades do PS junto deste eleitorado em eleições recentes — um estudo homólogo nas legislativas de maio atribuía 11% aos socialistas, nos eleitores com idades entre 18 e 24 anos. No entanto, o eurodeputado da IL obtém só cerca de metade desse resultado entre a faixa etária média (16%) e, apesar das visitas a lares, recolhe apenas 8% dos votos dos eleitores mais velhos.
Esse também é o grupo etário em que André Ventura tem o seu pior resultado (19%) — ficando pouco à frente de Gouveia e Melo e Marques Mendes — e onde Seguro é líder incontestável com uns esmagadores 35%. O socialista também é o favorito dos portugueses com idades entre os 35 e os 64 anos, faixa etária em que mantém os 29% que teve entre os jovens. O líder do Chega surge logo atrás de Seguro com 28% dos eleitores desse grupo intermédio, naquele que é o seu melhor resultado ao nível etário.
Seguro lidera nos concelhos mais ricos. Ventura alarga base entre menos letrados
Na análise à escolaridade dos eleitores, Ventura lidera duas das três categorias: os que não completaram o secundário (35%) e os que o fizeram, mas não têm cursos de ensino superior (31%). Por outro lado, a sua grande fragilidade são os eleitores que têm cursos superiores junto dos quais tem apenas 12% dos votos. Em todas as categorias das três métricas analisadas — género, idade e escolaridade — o grupo dos licenciados é aquele em que o líder do Chega tem o pior resultado.
Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa especialista em estudos de opinião, assinalou que a “correlação negativa entre escolaridade e voto em Ventura/Chega” se acentuou nas últimas legislativas, mas revelou-se ainda mais forte nas presidenciais. “O Chega não chegava tão bem nem aos mais nem aos menos instruídos, mas a segunda parte já não é verdade”, escreveu o investigador nas redes sociais com base em estudos passados.
Já João Cotrim de Figueiredo teve um resultado inverso ao de Ventura: foi o escolhido por 23% daqueles que têm um curso superior, por 17% dos que têm o secundário e por apenas 4% daqueles que não completaram o ensino obrigatório. Por sua vez, Seguro teve o melhor desempenho entre os portugueses com formação superior (36%), um quadrante no qual os socialistas têm tido dificuldades. Já entre aqueles cuja habilitação académica é o secundário teve 25%, menos seis pontos do que Ventura, e entre os que não completaram o 12º ano teve 30%, ficando a cinco pontos do líder do Chega.
Marques Mendes e Gouveia e Melo também partilham distribuições idênticas nesta métrica e são os dois candidatos mais constantes entre as três categorias de escolaridade. São ligeiramente mais fortes no eleitorado que não completou o secundário (15% para o almirante e 13% para o social-democrata), têm os piores resultados com os portugueses que têm apenas o ensino obrigatório (11% e 10%, respetivamente) e melhoram um pouco junto daqueles com formação superior (12% para Gouveia e Melo e 11% para Jorge Pinto).
António José Seguro também liderou a votação nos quatro concelhos com maior poder de compra do país, segundo dados do INE de 2023: Lisboa (com 35,2% dos votos), Porto (33,4%), Oeiras (33,6%) e Sines (36,7%). Por sua vez, Ventura venceu nos três municípios com menor poder de compra, segundo a mesma fonte: Porto Moniz (29,1%), Ponta do Sol (36,2%), Tabuaço (34,2%). O socialista venceu no quarto concelho com menos poder de compra do país, onde também teve o seu melhor resultado (71,3%): trata-se de Penamacor, a sua terra natal.
Seguro venceu em 225 concelhos, Ventura em 80 e Mendes em 3
Entre os candidatos que não passaram à segunda volta, Marques Mendes foi o único a ganhar concelhos. Foi o mais votado em três municípios: Sernancelhe, em Viseu, com uma vantagem de 0,3% sobre Ventura; Boticas, em Vila Real, com uma vitória folgada; e em Fafe, sua terra natal, onde obteve 31,2% dos votos, mais 3 pontos do que Seguro. O socialista liderou num total de 225 concelhos, enquanto Ventura ganhou em 80, fazendo o pleno nos 13 municípios da Madeira.
No continente, o único distrito em que Ventura venceu foi Faro, onde liderou 9 dos 16 concelhos, mas as sua melhor votação foi em Elvas (39,9%), no distrito de Portalegre. Para Seguro, depois de Penamacor, os melhores resultados foram também no distrito de Castelo Branco: em Belmonte (46,8%), Idanha-a-Nova (45,6%) e Covilhã (45%). O socialista também venceu na terra natal do seu adversário da segunda volta. Em Sintra, onde o Chega venceu nas legislativas de maio, Seguro teve 31,1% e Ventura teve 24,5%.
Olhando para os resultados por distrito, é possível concluir que Seguro obteve os seus melhores resultados em distritos ganhos pela AD nas últimas eleições. Foram 40,2% em Castelo Branco, 35,9% na Guarda, e 35,47% em Coimbra, todos ganhos pela coligação do Governo em maio. Mas Seguro também conseguiu roubar um distrito a Ventura: Beja, onde o Chega tinha ganho nas últimas eleições e o socialista recolheu agora 33,7% dos votos. O quinto distrito em recebeu mais votos foi Évora: o único em que o PS ganhou nas últimas legislativas, ainda que a votação de Seguro seja quase 10% maior do que o resultado dos socialistas nessa altura.
O Presidente do Chega obteve o seu melhor resultado (33,4%) num bastião social-democrata, a Madeira — foi o pior resultado de Seguro em todo o país (22,8%). Entre os melhores resultados de Ventura, seguem-se os três distritos onde o partido teve mais votos nas legislativas: Faro, onde teve agora 33%; Portalegre, onde chegou aos 31%; e Beja, onde mesmo com 28,8% ficou atrás do seu adversário na segunda volta. O Chega venceu as legislativas em mais um distrito — Santarém — onde, desta vez, o líder do partido não passou do segundo lugar e teve apenas o seu 10º melhor resultado em círculos eleitorais.
Para Cotrim e Marques Mendes, os melhores resultados vieram em distritos onde a AD ganhou em maio. O liberal teve 19,3%, em Lisboa; 17,5%, no Porto; 17,3%, em Leiria; 16,5%, em Braga; e 16,4% em Aveiro. De forma parecida, todos os distritos onde o ex-líder do PSD obteve mais de quinze 15% foram ganhos pela coligação do Governo: Vila Real, Bragança, Braga, Viana do Castelo e Viseu. Já Gouveia e Melo teve uma votação melhor distribuída pelo país e obteve votações acima dos 13% em distritos ganhos pela AD (Coimbra, Santarém e Aveiro), mas também pelo Chega (Setúbal) e pelo PS (Évora).
No estrangeiro, Ventura manteve o sucesso do Chega e foi líder incontestável com 41,9% dos votos, sendo que, à hora de publicação deste artigo, ainda estavam 5 dos 190 consulados com resultados por apurar. Teve maiorias esmagadoras na Suíça (63,4% dos votos), em França (60,5%), no Brasil (48,8%) e nos EUA (44,3%). Seguro ganhou na Alemanha (31,8%) e no Reino Unido (33,4%), enquanto Marques Mendes venceu na China (46,9%). João Cotrim de Figueiredo venceu em Espanha (39,9%) onde Ventura apenas teve 9,8% dos votos.