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Alguns estudos apontam para uma incidência menor da Covid-19 entre os fumadores

Corbis via Getty Images

Alguns estudos apontam para uma incidência menor da Covid-19 entre os fumadores

Corbis via Getty Images

Covid-19. Se o tabaco agrava a doença, a nicotina pode preveni-la?

Por um lado, um fumador tem maior probabilidade de ter doença grave se for infetado. Por outro lado, há menor incidência da doença entre os fumadores. Agora, a nicotina surge como aliado improvável.

Numa aparente contradição com os alertas que têm vindo a ser repetidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), um estudo científico francês ainda em processo de revisão afirma que a luta contra a Covid-19 pode ter a ajuda de um aliado improvável: a nicotina. Os efeitos do tabaco na doença provocada pelo coronavírus têm sido discutidos com grande controvérsia. Se por um lado é certo que os fumadores que contraem o vírus têm maior probabilidade de desenvolver uma forma grave da doença, alguns estudos apontam para um menor número de contágios entre aqueles que fumam.

É o caso de um estudo feito por investigadores chineses e publicado no final de fevereiro no The New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas científicas no campo da medicina. Na investigação, são estudados e sistematizados vários elementos de contexto e os respetivos sintomas de uma amostra de 1.099 pacientes chineses diagnosticados com Covid-19. Segundo a tabela apresentada no estudo, dos doentes que compuseram a amostra, 12,6% eram fumadores, 1,9% já tinham sido fumadores, e 85,4% nunca tinham fumado.

Fumadores (e ex-fumadores) têm risco aumentado de desenvolver casos graves

A percentagem altera-se quando se olha apenas para os doentes graves. Aí, 16,9% eram fumadores, 5,2% eram antigos fumadores, e 77,9% nunca haviam fumado. Já no que diz respeito aos doentes menos graves, a diferença registada neste indicador parece confirmar o senso comum: 11,8% eram fumadores, 1,3% tinham sido fumadores e 86,9% nunca fumaram.

Poderá a nicotina prevenir e combater a Covid-19?

Adesivos de nicotina contra a Covid-19

Menos imediato para o senso comum é comparar a percentagem de fumadores entre os doentes (12,6% da amostra) com a percentagem de fumadores na população chinesa, que segundo estimativas da OMS estará ligeiramente acima dos 25%. Significando isto que há menos fumadores entre os infetados do que na população em geral, poderá deduzir-se que o vírus afeta menos aqueles que fumam? O infecciologista Jaime Nina, médico do hospital Egas Moniz e professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, olha para estes dados com cautela.

"Fumar tem consequências patológicas graves e é um perigo para a saúde. Porém, em circunstâncias controladas, os agentes nicotínicos podem fornecer um tratamento eficiente para uma infeção aguda como a Covid-19"
Estudo liderado por Jean-Pierre Changeux

Correlação não é o mesmo que causa”, diz numa entrevista à Rádio Observador, sublinhando que nesta contabilização não é tido em conta um terceiro fator: a idade. “Fumar faz morrer mais cedo”, resume. Com efeito, a maior incidência de sintomas nas pessoas de maior idade, aliada à existência de menos fumadores idosos (uma vez que quem não fuma tem uma esperança média de vida maior), pode contribuir para uma conclusão precipitada.

A conclusão de que a incidência da doença entre os fumadores é relativamente baixa não é, porém, exclusiva da China. Em França, segundo dados do hospital de Paris citados pelo Le Monde, entre 11 mil doentes hospitalizados, apenas 8,5% eram fumadores. Isto num país cuja taxa de fumadores é de 25,4%.

Estes dados levaram um grupo de investigadores do hospital universitário de Paris e do Instituto Pasteur, no qual se inclui o reputado biólogo francês Jean-Pierre Changeux, a procurar entender as motivações por trás da menor incidência da doença entre os fumadores.

Num estudo ainda em processo de revisão científica, cuja pré-publicação está disponível em acesso público, os investigadores sugerem que há semelhanças entre os recetores que permitem a entrada do coronavírus nas células humanas e os recetores da nicotina — ou seja, que o vírus também entra no células humanas através desses recetores que também permitem a entrada da nicotina. Nesse sentido, os autores do estudo apontam para a possibilidade de a administração de nicotina — mas não o consumo de tabaco — poder ser utilizada como “agente preventivo contra a infeção Covid-19”. Ao entrar no corpo humano através daqueles recetores, a nicotina poderia bloquear a entrada do coronavírus nas células, impedindo a infeção, argumenta o estudo.

“Não se pode esquecer que a nicotina é uma droga de abuso, responsável pelo vício do tabaco. Fumar tem consequências patológicas graves e é um perigo para a saúde. Porém, em circunstâncias controladas, os agentes nicotínicos podem fornecer um tratamento eficiente para uma infeção aguda como a Covid-19”, defendem os investigadores.

Em França, no início de abril, entre 11 mil doentes hospitalizados, apenas 8,5% eram fumadores

IAN LANGSDON/EPA

O estudo avançará para uma aplicação prática. Os autores da investigação propõem levar a cabo no hospital de Paris um tratamento experimental, recorrendo a adesivos de nicotina — como os utilizados por quem quer deixar de fumar, para poder repor os níveis de nicotina sem ter de fumar tabaco — “em doentes hospitalizados e na população em geral”. O ensaio clínico aguarda ainda a aprovação do Ministério da Saúde francês.

“Estamos no domínio das hipóteses”

A sugestão de que a Covid-19 pode afetar os fumadores em menor número do que os não-fumadores e de que a própria nicotina poderá contribuir para a prevenção da doença está a ser olhada com cautela e desconfiança pela comunidade científica. “O artigo é muito especulativo”, diz o infecciologista Jaime Nina, referindo-se à possibilidade a ser estudada em França. “A probabilidade de se confirmar, a partir dos dados que estão disponíveis, é muito pequena.”

Sobre o estudo chinês, Jaime Nina reconhece o prestígio da publicação e os méritos do artigo, mas considera que estão a ser feitas interpretações exageradas. “É um estudo retrospectivo que descreve as características dos doentes, começando pela idade, o género, e mais quatro páginas e meia de características”, explica o infecciologista. É “no meio disso” que surge a informação relativa ao histórico de consumo de tabaco.

O infecciologista não nega, porém, que a investigação possa vir a confirmar um efeito positivo no tratamento da Covid-19. “É mais importante um estudo que encontra uma surpresa do que um estudo que só confirma aquilo que já se sabia”, diz, sublinhando que “se de facto isto se confirmar é importante”. Contudo, deixa uma certeza: “Mesmo os países mais afetados pela Covid vão chegar ao final do ano com mais mortes por tabaco do que por Covid”.

"Não é particularmente avisado que as pessoas vão a correr à farmácia comprar adesivos. Independentemente da circunstância, a nicotina é aditiva e tem efeitos secundários nocivos"
Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge

Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, também olha com reservas para estes estudos. “Não temos ainda muita evidência sobre isto, portanto não podemos ainda ser muito concretos. Há agora esta possibilidade de usar os adesivos de nicotina para testar se reduz a incidência da doença, mas estamos no domínio das hipóteses”, diz ao Observador.

“Não é particularmente avisado que as pessoas vão a correr à farmácia comprar adesivos. Independentemente da circunstância, a nicotina é aditiva e tem efeitos secundários nocivos”, adverte o médico. “Se se vier a provar que a nicotina até consegue reduzir o tempo de internamento ou a transmissão, depois temos de avaliar o custo-benefício. Por agora, acho que é prematuro tirar conclusões.”

Também o pneumologista Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19, tem muitas dúvidas sobre a possibilidade de a nicotina ser a solução. À agência Lusa, o especialista classificou a hipótese como “surreal”, uma vez que até hoje “nenhum estudo demonstrou a eficácia do tabaco em qualquer infeção respiratória”.

Para Filipe Froes, o momento atual, em que há uma grande “necessidade de divulgar conhecimento científico” sobre a infeção, “faz com que a revisão e o rigor sejam mais frágeis”. “Nesta fase de tentativa de conhecimento sobre a Covid-19 há estudos que não seguem metodologias corretas e que tiram conclusões precipitadas. Assistimos nos últimos meses a estudos cujos resultados não se confirmaram”, acrescentou.

Existe atualmente “demasiada especulação para os curtos meses que a doença tem”, afirma o pneumologista, lamentando a multiplicação de “estudos milagrosos” que acabam por não se comprovar. “Valoriza-se o que se quer ouvir para se fazer o que se quer fazer.”

Os fumadores têm maior probabilidade de desenvolver uma forma grave da doença se forem infetados com o coronavírus

MARK R. CRISTINO/EPA

Mesmo que a nicotina possa, em algumas circunstâncias, bloquear a infeção pelo coronavírus, uma coisa já tem sido comprovada: quando um fumador é contagiado, tem uma maior probabilidade de sofrer uma forma grave da doença. “As pessoas que têm alguma dificuldade na sua ventilação têm mais probabilidade de ter desfechos mais negativos em doenças que afetem precisamente o sistema respiratório”, diz Ricardo Mexia.

“Mas se há uma diferença na percentagem de fumadores que estão infetados relativamente à generalidade da população, isso tem de ser estudado”, reconhece o médico. Em Portugal, esse estudo ainda não estará a ser feito. “Não sei se no inquérito epidemiológico temos dados sobre o consumo de tabaco”, diz Ricardo Mexia. “Continuamos à espera de que a DGS nos faculte os dados.”

Ainda assim, entre os dados que podem ser fornecidos à comunidade científica pela DGS não se inclui o histórico de consumo de tabaco ou de outras substâncias.

Fumar aumenta risco de doença grave

Por diversas vezes, a Organização Mundial da Saúde tem sublinhado os perigos do tabaco para a transmissão da Covid-19. Numa informação publicada em março, a OMS explica que “os fumadores têm maior probabilidade de serem mais vulneráveis à Covid-19 uma vez que o ato de fumar implica que os dedos (e possivelmente os cigarros contaminados) estão em contacto com os lábios, o que aumenta a possibilidade de transmissão da mão para a boca”.

“Os fumadores também podem ter doenças pulmonares ou capacidades pulmonares reduzidas, o que aumenta ainda mais o risco de doença grave”, acrescenta a OMS. Ao mesmo tempo, a utilização de produtos de tabaco como cachimbos de água ou outros equipamentos que envolvem a partilha de objetos “pode facilitar a transmissão da Covid-19 em ambientes comunitários e sociais”.

"Ao contrário de alguma desinformação que circula, não há provas de que qualquer forma de fumo reduza o risco de ser infetado com a Covid-19"
Organização Mundial da Saúde

Numa outra informação, a OMS detalha que, com base em investigações iniciais, “ter um historial de consumo de tabaco pode aumentar substancialmente a probabilidade de resultados adversos para pacientes de Covid-19, incluindo a entrada em cuidados intensivos, a necessidade de ventilação mecânica e consequências graves para a saúde”.

Em simultâneo, o facto de o consumo de tabaco ser também uma das principais causas de problemas de saúde como doenças pulmonares e doenças cardiovasculares coloca por esta via indireta os fumadores entre os doentes de risco.

A própria OMS, numa mensagem destinada à população da Indonésia — país onde 63% dos homens adultos são fumadores —, deixou bem claro que, “ao contrário de alguma desinformação que circula, não há provas de que qualquer forma de fumo reduza o risco de ser infetado com a Covid-19”. Num conjunto de recomendações deixadas à população para o tempo de isolamento em casa, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, deixou claro: “Não fume. Fumar pode aumentar o risco de desenvolver uma doença grave se for infetado com a Covid-19”.

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