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Criticada pelos venezuelanos e dependente de Trump, Delcy Rodríguez enfrenta prova de fogo na gestão dos sismos

Processo de recuperação dos sismos será exigente para Delcy Rodríguez. Quase sem apoio popular e dependente de Trump, a forma como lidará com a crise pode derrubá-la ou reforçar o seu poder.

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“O que peço é que mantenhamos a unidade nacional com calma. E que saibamos que juntos podemos ultrapassar esta tragédia.” Foi esta a mensagem que a Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, enviou à população após os devastadores sismos que atingiram o país esta quarta-feira. Apesar das disputas políticas em curso, os próximos tempos não podem ser de divisão e fragmentação política, defende a líder venezuelana. Mas pedir isso será difícil para uma política que está cada vez mais a ser contestada internamente, após ter chegado ao poder em janeiro, na sequência da detenção de Nicolás Maduro, que está preso nos Estados Unidos da América (EUA).

Desde a detenção do antigo Presidente, a situação política na Venezuela permanece a mesma. Rostos da elite chavista vão governando o país, mas estão praticamente dependentes das vontades da administração Trump, que os vigia atentamente. Por imposição dos EUA, o regime deixou cair parte do sistema repressivo de Nicolás Maduro e está a tentar implementar reformas económicas que melhorem as condições de vida da população. Mesmo com estes esforços, a liderança de Delcy Rodríguez está longe de ser elogiada. A chefe de Estado em funções encontra-se numa difícil posição de equilibrismo, na qual tenta agradar aos homens fortes do chavismo, ao mesmo tempo que responde às exigências da Casa Branca.

O sismo que atingiu partes da Venezuela esta quarta-feira vem colocar ainda mais pressão no gelo fino em que caminha Delcy Rodríguez. Foi declarado o estado de emergência e vários países — incluindo os Estados Unidos e Portugal — já se disponibilizaram para enviar ajuda humanitária. Mas o pior virá agora: como vai uma líder interina contestada lidar com esta situação de crise extrema? As dificuldades serão muitas, num contexto agravado por uma profunda crise económica.

epaselect epa12818028 Venezuela's acting president, Delcy Rodriguez, attends a meeting with her cabinet and Colombian ministers in Caracas, Venezuela, 13 March 2026. President Rodriguez received a delegation of Colombian ministers to discuss the bilateral agenda on security, energy, trade and tourism after a planned meeting with Colombian President Gustavo Petro was canceled.  EPA/Miguel Gutiérrez

▲ Líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, vai liderar a reconstrução do país após os sismos

Miguel Gutiérrez/EPA

Em declarações ao Observador, José Holguin-Veras, professor venezuelano no Rensselaer Polytechnic Institute, refere que existe um “ambiente de discórdia, repressão, corrupção no setor público” na Venezuela, a que agora se juntam as consequências negativas do sismo. É neste contexto complexo que Delcy Rodríguez vai ter de liderar o país, correndo o risco de perder totalmente a confiança dos venezuelanos.

Segundo a Reuters, até ao momento não há registo de danos em refinarias venezuelanas. O setor petrolífero — o grande pilar da economia do país — terá escapado aos efeitos dos sismos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, o que terá aliviado muitos governantes (e também a Casa Branca). No entanto, as infraestruturas destruídas, as custosas operações de resgate e a paralisação económica dos próximos tempos vão criar problemas graves à precária situação da Venezuela. Delcy Rodríguez enfrenta uma prova de fogo — que deverá ser a mais difícil desde que chegou ao poder.

EUA não vão deixar cair regime chavista e prometem ajudar os “novos e grandes amigos”

A comunidade internacional tem reconhecido a difícil situação que a Venezuela enfrenta, com vários países a disponibilizarem ajuda humanitária. Enquanto principais apoiantes do atual regime venezuelano, os Estados Unidos foram rápidos a reagir. O Presidente norte-americano assegurou que os EUA “estão prontos, com vontade e disponíveis para ajudar”: “Instruí todas as agências do Governo para se prepararem para agir rapidamente. Estaremos lá para os nossos novos e grandes amigos”.

Politicamente, Caracas depende fortemente dos Estados Unidos desde a captura de Nicolás Maduro. A Casa Branca estabeleceu uma forte relação de dependência com o regime venezuelano e Donald Trump até já admitiu — tendo inclusive partilhado uma imagem nas redes sociais — que a Venezuela poderia tornar-se o 51.º estado. Washington controla praticamente muitos dos movimentos dos governantes da Venezuela e não vai deixar os seus “novos e grandes amigos” desamparados neste momento de crise.

O secretário de Estado norte-americano, conhecido pela sua proximidade à América Latina e por defender uma forte influência norte-americana no Hemisfério Ocidental, já deixou várias garantias de que não faltará apoio ao país. “O Departamento de Estado vai enviar imediatamente equipas de busca e salvamento, recursos médicos e assistência humanitária para a Venezuela”, anunciou Marco Rubio.

Num périplo pelo Médio Oriente esta quinta-feira, Marco Rubio parecia perfeitamente consciente dos problemas que a Venezuela enfrenta. “Precisam de equipas de resgate imediatamente — é preciso retirar as pessoas dos escombros em 48 horas ou não vão sobreviver”, afirmou o secretário de Estado, que também foi questionado sobre os efeitos que esta catástrofe poderá ter no processo de transição política em curso na Venezuela. O chefe da diplomacia norte-americana não deu uma resposta contundente; afirmou estar focado apenas “no aspeto humanitário”, acrescentando: “Acho que a Venezuela vai sair mais forte disto, apesar da tragédia que enfrenta agora”.

Para a administração Trump, a Venezuela representa um caso perfeito de intervenção (ao contrário do Irão): Nicolás Maduro foi detido, o narcotráfico aparenta ter diminuído e o fluxo de refugiados venezuelanos que chegam à fronteira norte-americana também. Em simultâneo, os Estados Unidos asseguram o controlo de parte das receitas do setor petrolífero venezuelano. Esta terça-feira, antes dos sismos, Donald Trump admitiu que os EUA já ficaram com “milhões de barris de petróleo venezuelano”. “Estamos a sair-nos muito bem. As pessoas que estão a administrar o país são nossas aliadas, ótimas pessoas e a população está feliz. As pessoas têm sorrisos nos rostos. Antes, estavam miseráveis e a passar fome”.

"Estamos a sair-nos muito bem [na Venezuela]. As pessoas que estão a administrar o país são nossas aliadas, ótimas pessoas e a população está feliz. As pessoas têm sorrisos nos rostos. Antes, estavam miseráveis e a passar fome."
Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump

Assim, os EUA não deverão deixar sem uma rede de apoio os novos aliados chavistas na Venezuela. Neste momento de crise, deverão apoiar fortemente o regime com apoio humanitário. Deixar o país sem ajuda seria incoerente com a política seguida até agora e poderia trazer ainda mais caos à Venezuela, sendo que um cenário de instabilidade ameaçaria diretamente o fluxo das receitas petrolíferas que agora entram nos cofres do Tesouro norte-americano.

Em declarações ao Observador, Patrick Duddy, antigo embaixador dos EUA na Venezuela e professor universitário na Fuqua School of Business, enfatiza que esta reação rápida faz parte da atual estratégia de política externa norte-americana. “Recorde-se que a mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA colocou o Hemisfério Ocidental como a região prioritária para os EUA. Por isso, parece-me provável que o Governo apresente uma resposta robusta, apesar dos compromissos que mantém noutras áreas”, constata.

Além disso, os próprios Estados Unidos sabem que terão um papel fundamental a desempenhar na reconstrução da Venezuela. Patrick Duddy indica que a “economia venezuelana está extremamente fraca e a recuperar de uma crise que vai requerer apoio internacional”. “Após 3 de janeiro de 2026, os EUA começaram a gerir as receitas de petróleo venezuelano e a canalizar dinheiro de volta para a Venezuela”, continua.

epa12636447 An oil tanker sailing on Lake Maracaibo in Maracaibo, Venezuela, 08 January 2026. Days after the United States' military capture of Venezuelan President Maduro and his wife, US President Trump announced a deal on 07 January 2026 with Venezuela's interim government officials to access the country's oil reserves, which are the largest in the world, totaling 364 billion barrels or 17 percent of the global total, although Venezuela's oil production only accounts for 1 percent of the world's total, according to an analysis by Standard and Poor's.  EPA/HENRY CHIRINOS

▲ Receitas do petróleo venezuelano serão essenciais para reconstruir a Venezuela

HENRY CHIRINOS/EPA

O fluxo de dinheiro do petróleo que é controlado pelos EUA será “crucial” para ditar a “resposta” do Governo venezuelano às consequências negativas dos sismos, mesmo que o papel central de Washington na reconstrução acabe por reforçar ainda mais a dependência de Caracas face à Casa Branca. “A Venezuela vai precisar de ajuda adicional, à medida que a extensão total dos danos nas infraestruturas e das perdas de vidas for sendo revelada”, assinala o antigo embaixador.

A longo prazo, o objetivo do Departamento de Estado até consistia em diminuir a influência norte-americana na Venezuela. O plano seria convocar eleições presidenciais dentro de alguns meses, mas ninguém na Casa Branca se arrisca a antecipar uma data. No início de junho, Marco Rubio declarou que o “futuro da Venezuela é livre e com eleições multipartidárias justas”. Antes disso, o país ainda tem de continuar numa “fase de recuperação”, em que a imprensa, a comissão eleitoral e os partidos se reorganizam.

É a essa esperança e a esta promessa de Marco Rubio que a oposição venezuelana liderada por María Corina Machado se tem agarrado. A mulher que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2025 tem prometido que vai voltar à Venezuela e assegura que se vai candidatar às eleições. No entanto, estes sismos poderão estender a “fase de recuperação“, devido ao tempo que a reconstrução das infraestruturas irá exigir.

epa13014065 US Secretary of State Marco Rubio testifies before the Senate Committee on Appropriations, Subcommittee on State, Foreign Operations, and Related Programs on the fiscal year 2027 Department of State budget request at the US Capitol, in Washington, DC, USA, 03 June 2026. The hearing examines a proposed budget estimate for fiscal year 2027 for the Department of State.  EPA/WILL OLIVER

▲ Marco Rubio quer reduzir dependência da Venezuela face aos EUA e quer convocar eleições

WILL OLIVER/EPA

Delcy Rodríguez. A líder criticada e a ajuda humanitária nas mãos dos aliados do regime

Apesar de permanecer no estrangeiro, María Corina Machado ainda usufrui de uma elevada popularidade na Venezuela. Uma sondagem recente, de meados de maio, mostra que 44% dos venezuelanos inquiridos votariam na líder da oposição se houvesse eleições, enquanto 12% optariam por votar no aliado que concorreu contra Nicolás Maduro nas presidenciais de 2024, Edmundo González. Apenas 8,5% votariam em Delcy Rodríguez. Estes dados mostram que a Presidente interina está longe de ser uma figura consensual — e que apenas se manterá no cargo pelo apoio que os EUA lhe dão e pela força que a entourage de Nicolás Maduro ainda tem no país.

Patrick Duddy também não tem dúvidas da elevada popularidade de María Corina Machado na Venezuela. Perante a popularidade da líder da oposição e a falta de apoio à Presidente que as sondagens evidenciam, o antigo embaixador considera que o desastre dos terramotos “vai testar a capacidade de liderança de Delcy Rodríguez e do regime”. A forma como a Presidente interina vai agir nos próximos tempos será escrutinada ao milímetro — e qualquer percalço poderá resultar numa onda de críticas.

O antigo diplomata norte-americano alerta para uma hipótese: a de que o regime “concentre os esforços” apenas em “áreas e comunidades” que sejam favoráveis ao chavismo. Neste cenário, a ajuda humanitária internacional corre o risco de apenas chegar a “bastiões” em que sobrevivem redes de clientelismo favoráveis a Delcy Rodríguez.

À Al Jazeera, Sarah Schiffling, vice-diretora da organização finlandesa HUMLOG, que trabalha em zonas de desastres naturais, aponta também para essa possibilidade: “Com os fundos governamentais, existe sempre a questão de se o dinheiro é apenas distribuído a quem está a defender uma determinada agenda política”. Esta especialista salienta ainda que será difícil para os EUA perceberem se todas as comunidades que precisam recebem apoios.

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▲ Especialistas alertam que ajuda humanitária pode chegar apenas a aliados do regime

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Na mesma linha, José Holguin-Veras expõe os problemas que o clientelismo político pode gerar na distribuição da ajuda humanitária. O especialista acredita que o Governo “não será capaz de coordenar a resposta”, graças à “falta de condições” — nomeadamente pela falta de competência “entre líderes honestos” e pelo facto de não existirem “relações sólidas entre os representantes da sociedade cívica”. “É provável que grupos informais de vizinhos desempenhem um papel muito importante na fase inicial da resposta.”

“A ajuda externa — dos EUA, Colômbia, Brasil, México, União Europeia — vai trazer uma grande quantidade de bens à Venezuela. No entanto, a História mostra que esses donativos não vão chegar às pessoas o mais cedo possível, porque não existem canais de distribuição para isso”, prossegue o especialista. Na mesma medida, não existem quaisquer formas de “colaboração” na Venezuela entre a sociedade civil — e criá-las a partir do nada será um “desafio”.

A oposição está ciente destes riscos. Num vídeo divulgado nas redes sociais esta quinta-feira, Edmundo González pediu ajuda à comunidade internacional, mas deixou vários recados ao regime. “O mundo deve saber que essa ajuda tem de chegar sem condicionamentos ou intermediários que a usem como instrumento de controlo”, avisou o homem que enfrentou Nicolás Maduro nas urnas em 2024. E González também atirou contra o chavismo: “Chegámos a esta catástrofe depois de décadas de destruição institucional. As equipas de resgate, o sistema de saúde e as infraestruturas de comunicações chegam a esta emergência destruídos”.

Para muitos venezuelanos, já existe esta crítica implícita ao regime liderado por Delcy Rodríguez: a de que o chavismo levou a que o país não estivesse preparado para lidar com desastres como estes sismos. “As infraestruturas da Venezuela — incluindo os serviços de água, o elétrico e os médicos — estavam dilapidadas antes dos sismos. E isso pode ser atribuído à negligência do regime e à corrupção”, sublinha Patrick Duddy. Ora, os terramotos desta quarta-feira expuseram novamente para muitos a debilidade do sistema que a Presidente interina ajudou a construir como fiel aliada de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

“Revolucionária” e leal soldado de Maduro. Quem é Delcy Rodríguez, a nova Presidente interina da Venezuela

“Delcy Rodríguez terá um papel fundamental a desempenhar” nos próximos tempos, defende Patrick Duddy. Numa situação de catástrofe agravada pelos sismos, vai conseguir desvincular-se do passado marcado por redes de clientelismo que favoreciam os apoiantes do regime? Se mantiver a mesma trajetória, o antigo diplomata prevê um divórcio efetivo entre a Presidente interina e os venezuelanos. “Vai agravar os sentimentos da oposição e intensificar a sua impaciência com o progresso rumo à democracia.”

Ao mesmo tempo, Patrick Duddy também vê uma oportunidade para Delcy Rodríguez. Se houver uma resposta “competente e apartidária aos diversos desafios que a população da Venezuela está a enfrentar após o desastre”, isso pode “suavizar a desconfiança” que a “maioria dos venezuelanos” sente em relação ao atual regime. Como resultado, a popularidade da Presidente interina poderá aumentar.

Opinião semelhante tem José Holguin-Veras. A forma como a Presidente interina agir terá repercussões na sua popularidade. “Depende da trajetória da resposta e dos esforços de recuperação. Se ela for capaz de melhorar a confiança com a sociedade cívica, esta crise pode ajudá-la no futuro como líder”, realça o professor universitário, que também avisa que — se o inverso acontecer — isso terá efeitos nefastos na sua reputação. “Apenas o tempo o dirá.”

epa12622745 (FILE) - Vice President of Venezuela, Delcy Rodriguez speaks during a meeting of the High Commission for the Defense of Guayana Esequiba, in Caracas, Venezuela, 11 December 2023  (re-issued 03 January 2026). Vice President Delcy Rodriguez appeared on Venezuelan state TV on 03 January 2026 saying the government does not know the whereabouts of Venezuelan President Nicolas Maduro and his wife Cilia Flores after the USA claimed their capture following a military strike against Venezuela on 03 January 2026.  EPA/RAYNER PENA R

▲ Gestão da crise será fundamental para a popularidade de Delcy Rodríguez

RAYNER PENA R/EPA

Patrick Duddy sinaliza ainda que a líder interina também será avaliada pela forma como vai colaborar com a comunidade internacional. E ainda mais importante: se Delcy Rodríguez deixará o ressentimento para trás e se disponibilizará a trabalhar “com a oposição”, fazendo jus ao apelo de “unidade nacional” que fez nas primeiras horas da catástrofe. Uma aproximação à oposição representaria uma mudança radical: desde a captura de Nicolás Maduro, o regime venezuelano tem bloqueado todos os canais de comunicação com a plataforma liderada por María Corina Machado.

Há quase meio ano à frente da Venezuela, Delcy Rodríguez atravessa o momento mais definidor do seu mandato ao lidar com as consequências dos sismos. A Presidente interina terá de colaborar com a administração Trump — e, no curto prazo, o regime venezuelano estará mais dependente de Washington. Entre os venezuelanos, cada passo da governante será escrutinado. Com uma perceção pública negativa, a aliada de Nicolás Maduro tem agora nas mãos a oportunidade de a reforçar ou de a inverter.

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