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▲Delcy Rodríguez na Assembleia Nacional junto de um retrato de Hugo Chávez

AFP via Getty Images

▲Delcy Rodríguez na Assembleia Nacional junto de um retrato de Hugo Chávez

AFP via Getty Images

"Revolucionária" e leal soldado de Maduro. Quem é Delcy Rodríguez, a nova Presidente interina da Venezuela

Delcy Rodríguez assume a presidência interina na Venezuela com a tarefa de executar transição do poder. Quem é esta figura leal a Maduro que cruzou ilegalmente o espaço aéreo português em 2020?

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“Nomeio como vice-presidente executiva uma jovem mulher, corajosa, aguerrida, filha de um mártir, revolucionária e aprovada em mil batalhas: a nossa irmã Delcy Eloína Rodríguez.” Numa declaração repleta de elogios, o agora Presidente deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciava, em 2018, o seu novo braço direito. A escolha recaía sobre uma mulher de 49 anos que já tinha chefiado o Ministério dos Negócios Estrangeiros e liderado a Assembleia Nacional. Defensora incansável do socialismo venezuelano, Delcy Rodríguez chegava ao segundo posto mais poderoso do país, a vice‑presidência.

Nicolás Maduro tinha mesmo uma alcunha para a sua número dois no governo: era chamada a “tigre” do regime. Leal e aguerrida, era uma das figuras mais importantes do núcleo duro do agora Presidente deposto. Filha de um comunista assassinado por motivos políticos, Delcy Rodríguez foi uma das vozes mais influentes do chamado socialismo do século XXI. Tendo estudado no estrangeiro, foi preparada para ser um alto quadro do regime e já Hugo Chávez a tinha promovido para vários cargos governamentais.

Ideologicamente, Delcy Rodríguez defendia com afinco as ideias do socialismo venezuelano, assim como do regime fundado por Hugo Chávez. Em 2017, apesar das condições precárias em que a maioria da população venezuelana vivia, chegou a dizer que “não havia fome, nem uma crise humanitária” na Venezuela: “Aqui há amor.” Na política externa, a vice-presidente era também uma das críticas mais duras dos Estados Unidos, acusando Washington de “imperialismo”.

▲ Delcy Rodríguez estava no núcleo duro de Nicolás Maduro

Edilzon Gamez/Getty Images

É esta mulher que vai agora assumir a presidência, por decisão do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela. A Constituição venezuelana prevê que seja o número dois na hierarquia do Estado a assumir o cargo se Nicolás Maduro não tivesse condições para o exercer, o que acontece atualmente: o Presidente deposto e a primeira-dama, Cilia Flores, estão agora em Nova Iorque à espera de serem julgados pela Justiça norte-americana — e caberá a Delcy Rodríguez assegurar o comando do país.

A defensora do socialismo venezuelano terá agora vários desafios pela frente: enquanto Presidente interina, vai ter de coordenar a transição de poder com os Estados Unidos da América (EUA), que vão assumir o controlo político da Venezuela. O chefe de Estado norte-americano, Donald Trump, assegurou que Delcy Rodríguez está a colaborar com Washington, mas as declarações da própria responsável venezuelana foram claras na rejeição de um qualquer plano que pretendesse transformar o país numa “colónia” dos EUA — e exigiu o regresso de Nicolás Maduro.

Delcy Rodríguez, a mulher nascida na política que foi criada para ser política

Nasceu em maio de 1969, em Caracas, e a política fez parte da sua vida desde muito jovem. O pai, Jorge Antonio Rodríguez, foi um dos fundadores do partido marxista, a Liga Socialista. Durante a Guerra Fria, após a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, a Venezuela experimentou anos de um regime democrático e manteve, regra geral, uma política externa alinhada com os Estados Unidos. Neste contexto, a Liga Socialista defendia a instalação de um governo marxista, a rutura com o alinhamento com os EUA e a aproximação à União Soviética.

▲ Jorge Antonio Rodríguez, o pai de Delcy Rodríguez

Integrando a Liga Socialista, o pai de Delcy Rodríguez participou no sequestro de William Frank Niehous, um empresário norte-americano e responsável pelas operações da empresa Owens‑Illinois na Venezuela e que também era acusado de ser um espião da CIA em território venezuelano. Jorge Antonio Rodríguez e os aliados de extrema‑esquerda mantiveram o empresário em cativeiro durante cerca de 40 meses.

William Frank Niehous sobreviveu ao sequestro, mas Jorge Antonio Rodríguez foi preso pelas secretas venezuelanas. Acabou por ser morto depois dias depois de ser detido, alegadamente em consequência da tortura infligida pelos oficiais dos serviços de informações. Delcy Rodríguez perdeu o pai muito jovem: tinha apenas sete anos.

É neste contexto altamente politizado que a agora Presidente interina cresce, juntamente com o irmão três anos mais velho. Tal como Delcy Rodríguez, Jorge Rodríguez assumiu cargos políticos de relevo no regime chavista: foi também vice-presidente da Venezuela com Hugo Chávez, presidente do Conselho Nacional Eleitoral e autarca de Caracas. Atualmente, desempenha as funções de presidente da Assembleia Nacional.

epa10441804 The President of the Venezuelan National Assembly, Jorge Rodriguez, takes part in the presentation of the annual report on the activities of judicial bodies, in Caracas, Venezuela, 31 January 2023. The Venezuelan Judiciary increased by 74% the number of sentences issued by specialized and non-specialized courts throughout the country during the past year compared to 2021, said this 31 January the president of the Supreme Court of Justice (TSJ), Gladys Gutierrez, in the presentation of the annual report of the activities of the judicial bodies.  EPA/MIGUEL GUTIERREZ

▲ Jorge Rodríguez, o irmão de Delcy Rodríguez

MIGUEL GUTIERREZ/EPA

A política entra a sério na vida de Delcy Rodríguez na Universidade Central da Venezuela, onde estudou Direito. Na sua passagem pelo ensino superior, a agora Presidente interina tornou-se líder estudantil e associou-se a movimentos mais à esquerda. Ainda estudou em França e no Reino Unido, antes de regressar à universidade onde estudou para se tornar professora de Direito Laboral, área em que se especializou.

A carreira política de Delcy Rodríguez: desde coordenadora ao poderoso ministério do Petróleo

A vitória de Hugo Chávez nas eleições presidenciais de 1998 inaugurou um novo regime da Venezuela, que precisava de altos quadros políticos mais à esquerda. Delcy Rodríguez nunca escondeu a sua ideologia política e chegou ao governo em 2003, quando foi chamada para assumir o cargo de coordenadora geral da vice-presidência. Em 2005, foi nomeada vice-ministra para os Assuntos Europeus; um ano depois, foi escolhida para ser ministra da Presidência.

Numa entrevista em 2018, Delcy Rodríguez assumiu que a “revolução bolivariana, a chegada do comandante Hugo Chávez”, foi uma “vingança pessoal” da família pela morte do pai às mãos dos serviços secretos venezuelanos. A agora Presidente interina assegurava que não era o ódio que a movia — mas essa sensação de “vingança” parece ter consolidado a sua lealdade ao regime.

▲ Delcy Rodríguez nunca escondeu a sua ideologia política e chegou ao governo em 2003 no cargo de coordenadora geral da vice-presidência

RICARDO MALDONADO ROZO/EPA

Quando Nicolás Maduro assumiu o poder, Delcy Rodríguez começou a ganhar destaque. Em 2014, é nomeada ministra dos Negócios Estrangeiros. Enquanto chefe da diplomacia venezuelana, a agora Presidente interina defendia acerrimamente, internamente e nos fóruns internacionais, o regime da Venezuela, que se via cada vez mais isolado. Não tinha receio de bater de frente com governos ocidentais, parceiros regionais ou organizações internacionais: usava um estilo combativo e assertivo.

Nas suas intervenções públicas, Delcy Rodríguez criticava duramente os Estados Unidos e rejeitava todas as críticas da comunidade internacional à repressão dentro de fronteiras. Enquanto ministra dos Negócios Estrangeiros, teve de lidar com a expulsão da Venezuela do Mercosul. Em 2016, a organização internacional suspendeu Caracas pelo incumprimento de regras comerciais estipuladas pelos outros Estados-membros, assim como pela situação dos Direitos Humanos no país.

Delcy Rodríguez não acatou esta decisão com agrado: deslocou-se pessoalmente a Buenos Aires e tentou entrar numa reunião extraordinária do Mercosul após a Venezuela já ter sido expulsa da organização. “Há um golpe de Estado em curso no Mercosul. Se não nos deixarem entrar pela porta, entraremos pela janela. Viemos para defender a dignidade de nosso povo”, reclamou a antiga chefe da diplomacia da Venezuela. No entanto, a ex-ministra foi barrada do encontro, acusando depois a polícia argentina de a ter agredido.

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▲ Delcy Rodríguez em Buenos Aires quando tentou entrar na reunião do Mercosul

AFP via Getty Images

Este não foi o único confronto com organizações regionais. Em 2017, o antigo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o uruguaio Luis Almagro, criticou o regime venezuelano pela “corrupção”, acusando também Caracas de nada fazer para parar a “pobreza e a violência” no país: “É a população que está a sofrer as consequências”, sublinhava Almagro. Delcy Rodríguez não gostou destas palavras; acusou o político do Uruguai de ser “mentiroso, desonesto, malvado e um mercenário”.

Enquanto ministra dos Negócios Estrangeiros, Delcy Rodríguez demonstrou sempre uma profunda lealdade. E isso levou-a a ser promovida: em 2017, é nomeada presidente da Assembleia Nacional. Fica pouco tempo no cargo; em 2018, tornou-se vice-presidente da Venezuela. Em 2020, acumulou as pastas da Economia e das Finanças durante quatro anos. Há dois anos, assumiu a liderança de uma das pastas mais relevantes na configuração do regime venezuelano: o Ministério do Poder Popular do Petróleo.

A passagem por tantas pastas e a proximidade a Nicolás Maduro converteram-na numa figura “muito proeminente” dentro do regime. “É uma profissional altamente eficaz, uma mulher com fortes habilidades de liderança”, descreveu, em declarações à CNN Internacional, o analista político José Manuel Romano. Delcy Rodríguez, prosseguiu o especialista, é “muito focada em obter resultados e tem uma influência significativa em todo o governo, incluindo no ministério da Defesa”. 

"É muito focada em obter resultados e tem uma influência significativa em todo o governo, incluindo no ministério da Defesa."
Analista político José Manuel Romano sobre Delcy Rodríguez

Próxima dos militares e conhecendo em detalhe o funcionamento do governo, Delcy Rodríguez parece reunir as condições necessárias para assegurar a transição do poder para os Estados Unidos. No entanto, a Presidente interina continuou a desafiar a presidência norte-americana, já depois da operação militar dos Estados Unidos, na madrugada deste sábado: “Exigimos a libertação imediata do Presidente Nicolás Maduro, o único Presidente da Venezuela, e de sua mulher, Cilia Flores. Se há algo de que o povo venezuelano e este país têm absolutamente certeza é que jamais seremos escravos, jamais seremos colónia de qualquer império.”

A venda de ouro a nomes do governo de Sánchez e como Delcy Rodríguez cruzou o espaço aéreo português, apesar das sanções

Por ter subscrito várias decisões governamentais que levaram à violação de Direitos Humanos e à repressão na Venezuela, e à semelhança de vários nomes no núcleo duro de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez foi alvo de várias sanções por parte do Ocidente: Estados Unidos, União Europeia (UE), Reino Unido, Suíça e até o México.

A UE decidiu aplicar sanções a Delcy Rodríguez na sequência das eleições presidenciais de 2018 (vencidas por Nicolás Maduro), em que já foram lançadas questões sobre a “credibilidade” do ato, acusando-a ainda de ser “responsável por violações de Direitos Humanos e por minar a democracia e o Estado de direito na Venezuela”. As sanções incluíram o congelamento de bens na UE e a proibição de entrada e trânsito no espaço Schengen da, na altura, vice-presidente na Venezuela.

epa08516916 A handout photo made available by the Miraflores Palace press office shows Venezuelan Executive Vice President Delcy Rodriguez speaking at a press conference to give an update on the country’s coronavirus situation, in Caracas, Venezuela, 29 June 2020.  EPA/Miraflores press HANDOUT NO SALES / EDITORIAL USE ONLY HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Delcy Rodríguez era alvo de várias sanções pelo Ocidente

Miraflores press HANDOUT/EPA

Mas houve um incidente diplomático em 2020 — e que envolveu diretamente Portugal. Delcy Rodríguez mantinha contactos com figuras de destaque do PSOE, em particular o antigo chefe de governo, José Luis Rodríguez Zapatero. Sem avisar o governo português, naquela fase liderado por António Costa, a então vice‑presidente da Venezuela viajou num voo privado — cujo destino final era Madrid — que entrou no espaço aéreo de Portugal.

Na altura, Delcy Rodríguez já estava sujeita a sanções da UE que proibiam a entrada e o trânsito no território da UE. A então vice-presidente aterrou, ainda assim, no aeroporto de Barajas, na capital espanhola. O objetivo? Segundo as investigações da Guarda Civil Espanhola, a aliada de Nicolás Maduro estaria em Madrid para encetar negociações para a venda clandestina de 104 barras de ouro venezuelano, avaliadas em cerca de 68,5 milhões de euros, a uma empresa espanhola em que estariam envolvidas figuras do governo de Pedro Sánchez.

O caso em Espanha gerou polémica e ficou conhecido como Delcygate. Anos depois da ida da aliada de Nicolás Maduro a Madrid, Pedro Sánchez viria a admitir que soube de antemão e não impediu a deslocação de Delcy Rodríguez à capital espanhola, ainda que se tenha defendido com o argumento de que não tinha conhecimento das sanções de que a Presidente interina era alvo pela União Europeia.

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▲ Delcy Rodríguez juntamente com o ex-chefe do governo espanhol, José Luís Zapatero

AFP via Getty Images

Controversa e combativa, Delcy Rodríguez é uma das figuras mais emblemáticas que o chavismo criou. É agora a Presidente interina da Venezuela e terá de conciliar a sua história pessoal, ideologia e lealdade ao governo com a realidade de que lidera um regime sob pressão dos Estados Unidos e que aparenta estar perto do fim.

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