817kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

A Escola de Moda Gudi foi registada em 1972 de forma quase oculta por uma mulher "fora do comum" naquela época
i

A Escola de Moda Gudi foi registada em 1972 de forma quase oculta por uma mulher "fora do comum" naquela época

A Escola de Moda Gudi foi registada em 1972 de forma quase oculta por uma mulher "fora do comum" naquela época

Das fardas dos bombeiros às criações de Anabela Baldaque e Carlos Gil: a escola de moda mais antiga do país faz 50 anos

A GUDI é a escola de moda mais antiga do país e celebra 50 anos com uma exposição em Gaia. Da fundadora destemida à profissionalização, o projeto reinventou-se e tem uma casa nova a pensar no digital.

Estamos nos anos 1960 e Augusta Dias, natural do Porto, era motivada pela família a ser uma verdadeira exceção à regra. Como? Descobrindo os seus próprios interesses, abrindo o seu negócio e tornando-se uma mulher autónoma e independente, objetivos pouco comuns na época. Percebeu cedo que tinha um especial interesse por desenho, pintura e decoração, chegou a ser aluna privada de Júlio Resende e frequentou as aulas do brasileiro Luc Ximénes com quem aprendeu um novo método de corte de vestuário.

Partiu para Paris com a intenção de aprofundar os conhecimentos na área da moda, na prestigiada escola ESMOD, e de regresso ao Porto abriu um ateliê de corte e costura, artes decorativas, cerâmica e culinária. Em 1968, Augusta Dias (que deu origem ao acrónimo GUDI) percebeu que o processo de modelação inovador que tinha aprendido podia ser mesmo a chave do seu sucesso.

“Antigamente as roupas faziam-se a olho e em cima de um manequim, Luc Ximénes desenvolveu um método bidimensional, mais rápido, exato e eficaz, onde não existia tanta margem de erro. Quando a minha avó começou a ensinar este método, as empresas de confeção, maioritariamente concentradas na região norte, quiseram implementá-lo rapidamente, foi assim que começou a ganhar nome, dando formação e fazendo uma espécie de consultoria na indústria têxtil”, conta ao Observador Matilde Rocha, neta da fundadora e atual diretora geral da GUDI.

Augusta Dias estudou pintura, foi para Paris e abriu uma escola no Porto onde ensinou um método inovador de corte de vestuário

A primeira escola da moda do país, especializada em modelação, estilismo e confeção, foi registada em 1972 de forma quase oculta, a fundadora colocou o nome dos seus dois filhos como sócios, que ao serem homens dariam mais prestígio e credibilidade ao projeto.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Por não ser uma mulher comum naquele tempo, Augusta sofreu alguns dissabores por quebrar regras e preconceitos. Além de ter estudado artes, tinha carta de condução, viajava muito pela Europa e chegava carregada de revistas, perfumes, sapatos, carteiras e lenços, que depois distribuir entre as amigas e a família. “A escola era a vida dela, trabalhou até ao seu último dia e até aos fins de semana vinha para cá. Era uma pessoa destemida, corajosa e resiliente, que sempre se soube movimentar num mundo muito masculino”, recorda a neta, Matilde Rocha.

Sediada em plena baixa portuense, em Santo Ildefonso, a GUDI nasce numa década em que já existia produção, mas as tendências, a criação ou o design eram conceitos praticamente inexistentes no país e só começaram a surgir a partir dos anos 1980 com a democratização da moda e a abertura das primeiras lojas de pronto a vestir.

Ao longo dos anos, Augusta ganhou uma visão estratégica de puro marketing que ajudou a impulsionar a escola a olhos vistos. Começou por organizar desfiles dos trabalhos dos alunos na recém-inaugurada Exponor, em Matosinhos, no Palácio da Bolsa e, mais tarde, no Estádio do Dragão, cobrava bilhetes a quem quisesse assistir e o valor era revertido a favor da UNICEF, mas também fez parcerias com escolas de moda internacionais, promovendo intercâmbios de professores e alunos, e colaborações com a Câmara Municipal do Porto, desenhando as fardas dos bombeiros e de outros funcionários municipais.

Exponor, Palácio da Bolsa ou Estádio do Dragão foram algumas moradas que a GUDI transformou em passerelles, mostrando o talento dos seus alunos

Em 1988, o Gabinete de Educação Tecnológica, Artística e Profissional do Ministério da Educação convidou algumas escolas para fazerem um projeto-piloto e refazerem os seus cursos, a GUDI era uma delas. No ano seguinte, por questões que se prendiam com os financiamentos do Fundo Social Europeu, o projeto dividiu-se em duas instituições: a Escola de Moda do Porto (EMP), de formação profissional, e a GUDI, escola privada de formação para adultos.

A maioria dos alunos eram absorvidos pela indústria têxtil, mas no início dos anos 1990 alguns começaram a explorar a moda enquanto design, a desenvolver coleções mais criativas, confecionando “autênticas obras de arte”, e a aventurarem-se numa carreira em nome próprio. Foi o caso de nomes sonantes como Anabela Baldaque, Paulo Cássio, Carlos Gil e Nuno Eusébio.

Anabela Baldaque e Carlos Gil são dois dos designers de moda formados na GUDI que construíram carreiras sólidas e internacionais

Ricardo Castelo/Observador

Augusta Dias morreu em 2005, nenhum dos dois filhos quis assumir o leme do projeto, e foi a nora, Emília Gouveia, a ocupar o cargo de diretora pedagógica da escola até 2015. Até hoje, a GUDI foi sempre gerida pelas mulheres da família, a neta Matilde passou por lá como aluna em 1993 e regressou em 2014 como diretora geral.

“Os meus primos já estavam noutras áreas e senti a responsabilidade de agarrar a escola e continuar este legado”, recorda, acrescentando que ao longo do tempo foram várias as propostas nacionais e internacionais para comprar a escola. “Há muitos anos a minha avó recusou uma proposta da Ana Salazar que queria fundir a sua marca com a GUDI e investir no segmento masculino. Mais recentemente, tivemos um fundo europeu interessado, mas não quisemos. Sinto que ainda tenho muito para dar ao projeto, não sei se irá continuar na minha família, o importante é que continue.”

Com a abertura de outras escolas especializadas no setor, muitas delas públicas, de ensino superior e viradas para um lado mais técnico, a linguagem artística, criativa e conceptual da GUDI ressentiu-se e foi necessário “pulverizá-la”, centrando-a num método mais prático focado na modelação e na confeção.

Modelação, confeção e design de moda são alguns cursos disponíveis atualmente na escola, que em breve irá apostar no ensino online

(C)Joao Peixoto

Uma das apostas para o futuro será o investimento no ensino online e na componente mais digital na moda, por isso, a partir deste mês a GUDI e a EMP, que sempre funcionaram debaixo do mesmo teto, vão mudar de instalações para a zona industrial do Porto ganhando mais ferramentas para explorar esse universo. Na nova morada, as duas escolas abrem a possibilidade de multiplicar o número de cursos e de alunos, que atualmente ronda os 200, mantendo os protocolos com outras instituições, nacionais e internacionais, e as pontes sólidas com a indústria têxtil.

Para celebrar os seus 50 anos de vida, a GUDI vai protagonizar uma exposição no quarteirão World of Wine, em Vila Nova de Gaia, que à boleia de uma autêntica viagem no tempo contará a história da escola, da sua fundadora e dos alunos que por lá passaram. Fotografias, vídeos, coordenados, livros, registos de funcionários e até secretárias originais das salas de aula farão parte da mostra que inaugura a 15 de setembro e se prolonga até 17 de outubro.

 
Assine o Observador a partir de 0,18€/ dia

Não é só para chegar ao fim deste artigo:

  • Leitura sem limites, em qualquer dispositivo
  • Menos publicidade
  • Desconto na Academia Observador
  • Desconto na revista best-of
  • Newsletter exclusiva
  • Conversas com jornalistas exclusivas
  • Oferta de artigos
  • Participação nos comentários

Apoie agora o jornalismo independente

Ver planos

Oferta limitada

Apoio ao cliente | Já é assinante? Faça logout e inicie sessão na conta com a qual tem uma assinatura

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.

Vivemos tempos interessantes e importantes

Se 1% dos nossos leitores assinasse o Observador, conseguiríamos aumentar ainda mais o nosso investimento no escrutínio dos poderes públicos e na capacidade de explicarmos todas as crises – as nacionais e as internacionais. Hoje como nunca é essencial apoiar o jornalismo independente para estar bem informado. Torne-se assinante a partir de 0,18€/ dia.

Ver planos