O objetivo do telefonema era só um: dar os parabéns a João Santos Duarte, editor e um dos responsáveis pelos Podcasts Plus do Observador, pelas histórias que o tinham deixado viciado semana após semana. A meio da chamada, perante a constatação de que, até aí, todas elas tinham sido documentais, Manuel Pureza teve uma ideia. “Lembrei-me deste projeto que foi sendo adiado e ficando cada vez mais engavetado e pensei: se não há condições para contar esta história com imagem, porque não a transformamos numa história para ouvir? Sou fã de vários podcasts de ficção internacionais e senti que estava ali a criar-se uma espécie de tempestade ideal”, conta o realizador ao Observador.
O resultado chama-se O Zé Faz 25, estreou-se no passado dia 20 e todas as terças-feiras há um novo episódio desta investigação sobre o desaparecimento de José Valbom, um jovem de 25 anos visto pela última vez na própria festa de aniversário. O primeiro podcast de ficção do Observador é coproduzido com a Coyote Vadio. “A ideia nasceu há uns seis anos e foi pensada para ser uma série de televisão no formato tradicional. Mas, em boa verdade, foi sempre batendo em várias traves — a maior de todas foi o Pôr do Sol [série de ficção da RTP] que me ocupou três anos. Também não havia grandes condições, nomeadamente de orçamento, para fazer um murder mystery deste género.”
Reformular uma série de televisão para um podcast obrigou a “pensar a escrita do zero”. O primeiro passo foi olhar para o texto e identificar “as situações sonoras que enriqueceriam uma experiência deste género”. Por exemplo, o som de mensagens no WhatsApp ou dos botões de um gravador antigo, a música de uma festa que se ouve lá ao fundo quando se fecha a porta. “A primeira regra absoluta era que não houvesse um narrador. Estamos a ouvir uma série e o ouvinte tem de imaginar sem ninguém a fazer descrições”, explica Manuel Pureza.
Para David Neto, o argumentista com quem Manuel Pureza trabalhou desde o início, o desafio foi claro: “Ao contrário da maioria dos exemplos de podcasts que conhecemos dos EUA e do Brasil, que são todos grandes referências, queríamos fazer uma coisa sem narração. Queríamos contar a história só com diálogos e com estes mecanismos que pudessem passar as ideias e o drama de uma forma extremamente auditiva”, conta ao Observador.
[o trailer de “O Zé Faz 25”:]
Numa realidade pré-pandemia, o texto nasceu exatamente com estes atores — Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, José Raposo, Paulo Calatré, entre outros — em mente. E todos eles disseram imediatamente que sim à ideia de um podcast. “Senti imediatamente uma efervescência em todos eles. Este é talvez um dos elencos mais divertidos com quem já trabalhei”, assegura Manuel Pureza.
A realização foi praticamente toda feita de costas para os atores. “Quis fechar os olhos para tentar perceber se, quem está a ouvir pela primeira vez, está a perceber onde estamos, com quem estamos e o que está a acontecer.”
Uma infância a fazer sketches
Manuel Pureza nasceu em Coimbra a 2 de março de 1984. A irmã mais nova, Rita, “tirou o curso a sério lá de casa” [é psicóloga], mas isso nunca foi uma mais valia ou um contra, já que a família sempre foi “muito patrocinadora dos sonhos de cada um”. Durante oito anos a vida fez-se em Odivelas, arredores de Lisboa, seguindo-se um regresso a Coimbra, onde esteve até aos 17.
A avó materna era poetisa e professora, sendo uma das grandes incentivadoras da veia de escritor de Manuel Pureza — “sobretudo daquelas composições da escola, que me entusiasmaram muito a criar”. Nos campos de férias em que participava, e onde depois foi monitor, adorava inventar sketches. “Fazíamos uma rodinha nos serões e a malta ficava entusiasmada”, recorda.
Nessa altura, já os caminhos de Manuel Pureza e David Neto, que também frequentou vários campos de férias, se tinham cruzado. “O Luís Miguel, pai do David, era um dos melhores amigos do meu pai [o político José Manuel Pureza]. O David vinha sempre com ideias porreiras e fazíamos imensos sketches os dois, não só nos campos de férias. A primeira curta-metragem que fiz para a escola foi filmada no jardim da casa dele.”
David Neto é um ano mais novo do que Pureza. Nasceu em Lisboa a 25 de maio de 1985 e com o irmão, dez anos mais novo, cresceu na capital e arredores. Na Vila Sousa, bairro da Graça, os dias eram passados na rua, a jogar à bola. O tempo que sobrava era dedicado a construções de Lego, sempre com um propósito além de juntar blocos. “Serviam para albergar pessoas, pequenos bonecos, que depois interagiam umas com as outras. Era o imaginário de criar um bairro e ter pessoas a viverem lá e a conviverem. Acho que a criação de histórias começou aí.”
Os pais de ambos incentivavam a leitura e a escrita de forma constante. “Lembro-me de escrever o meu primeiro conto, com 11 ou 12 anos, e de os meus pais sugerirem mostrá-lo a uma amiga deles, que era escritora. Fiquei muito envergonhado e incomodado, mas ela disse que gostou e sugeriu algumas melhorias”, recorda David Neto.
Para Manuel Pureza, foi na escola secundária que se deu um encontro que viria a definir-lhe a vida. “Tive uma professora fundamental na Oficina de Expressão Dramática. A professora Adelaide incentivou-me a ser ator. Depois descobri que gostava mais de contar histórias e de as dirigir, mas foi ela que me fez perceber que, mais do que seguir História ou Jornalismo, que também me passou pela cabeça, eu devia era seguir Cinema.”
No Conservatório fez parte da turma de João Salaviza, Carlos Conceição, Nádia Henriques ou Ricardo Oliveira, todos nomes reconhecidos atualmente no mundo da realização.
No primeiro ano do curso começou logo a trabalhar como assistente de realização, o que viria a dar-lhe uma longa experiência ao lado de José Fonseca e Costa. Seguiram-se curtas metragens e videoclipes. “A primeira curta que fiz era uma curta-metragem pé de chinelo chamada Os Conquistadores, que ganhou um festival em Portel, no Alentejo. Era um sketch estúpido sobre uma criança que está a fazer um castelo espetacular na praia. De repente, vem uma miúda do meio de umas grutas e destrói-lhe o castelo. Ela virava-se contra ele, o plano fica negro e, quando abre, o castelo está de novo em pé e o miúdo está debaixo dele, só se veem os pezinhos dele. Ela mata-o debaixo do castelo. As personagens eram, evidentemente, a padeira de Aljubarrota e os castelhanos”, recorda.
Participou na primeira edição do MOTELX, em 2007, com uma curta-metragem sobre um canibal e em 2012 venceu o festival com A Bruxa de Arroios.
▲ "Pôr do Sol", "Marco Paulo" e "Até que a Vida nos Separe", três séries dirigidas por Manuel Pureza, e "Sempre", que o juntou a David Neto
Apesar dos interesses em comum, a vida foi separando Manuel Pureza e David Neto. Aos 17 anos, este último mudou-se para o Utah, nos EUA, onde completou o último ano do ensino secundário. Por essa altura, do lado de cá do oceano, o pai começava a pressioná-lo para decidir que rumo seguir. “Os meus pais eram os dois de Psicologia, tinha essa opção em mente, mas as histórias e os filmes sempre me fascinaram. Então, acho que mandei um email ao Manuel ou falámos por Skype, já não sei bem, porque ele estava a frequentar o primeiro ano do Conservatório, da Escola Superior de Teatro e Cinema da Amadora.”
O que Pureza lhe contou sobre a respetiva experiência ajudou o amigo a decidir. No ano seguinte entrou no curso de Cinema da Universidade Lusófona, em Lisboa. Durante dez anos, a escrita ficou em segundo plano. Nas Produções Fictícias e no Canal Q, trabalhou como câmara, editor e chegou a realizar alguns projetos.
Mais ou menos na mesma fase, Manuel Pureza realizou novelas. “Durante dez anos foi um ginásio incrível, mas acho que hoje a escrita de novelas podia ser mais responsável, podia ser menos machista e misógina, menos centrada em pessoas que nós não somos. Se fossem mais sobre nós, acho que resultava melhor em tornar o país mais solidário, independentemente do seu posicionamento político. Lembro-me que há uns anos houve uma novela que era a história de uma mulher pobre que ganhava o Euromilhões e essa novela era muito mais sobre nós do que a novela da empresa rica em que as pessoas bebem whisky e partem os copos com as próprias mãos, não é?”
Essa imagem, aliás, foi uma das que deu origem a um estrondoso sucesso no currículo de Manuel Pureza: Pôr do Sol, uma sátira às novelas que foi transmitida pela RTP1 e está disponível na Netflix.
Recuando no tempo, quando queria produzir Linhas de Sangue, filme de 2018, tinha “zero euros” para o projeto. “Ao mesmo tempo, na televisão estava a dar o programa Shark Tank [no qual empresários milionários investem em negócios que consideram ter potencial] e eu descobri onde eles moravam e fui bater à porta de todos os sharks. Disse que tinha uma ideia espetacular, que era como se o Top Gun fosse feito pelos Monty Python. Claro que não era bem assim, nós sabíamos que era uma coisa muito mais de série B, quase de bad taste [mau gosto], e ficou uma espécie de mostrengo que eventualmente daqui a alguns anos alguém irá considerar uma coisa de culto.”
Manuel Pureza garante: “Se houve algo que marcou o meu percurso foi que eu sempre tive muita lata”.
E há mais provas disso. Quando a primeira temporada de Até Que a Vida Nos Separe (2021) chegou ao fim na RTP1, o canal não quis renovar a série. “Estávamos a ter um feedback inacreditável nas redes sociais e achei aquela decisão tão injusta que me passei e estive um dia inteiro a mandar emails e mensagens a imensa gente. Cheguei ao vice-presidente da Netflix, em Los Angeles e ele respondeu-me a dizer que queria ver a série.”
Não sendo produzido pelo serviço de streaming, foi o primeiro conteúdo português a estar disponível na plataforma. “Quando revelamos à Netflix o nosso orçamento, eles perguntaram se isso tinha sido para o primeiro episódio. E nós respondemos: ‘Não, não, foi para a série toda’. São escalas bem diferentes”, recorda.
Pôr do Sol estreou-se em 2021 na RTP1 [depois de duas temporadas, seguiu-se um filme] e foi um fenómeno que ultrapassou as expetativas de todos os envolvidos, apesar de saberem que estavam a fazer uma coisa com qualidade. “Primeiro tinha uma camada de base, que era a escrita do Henrique Dias, por si só muito rica e sugestiva. Depois contava com a minha opinião e a do Rui Melo. O que foi sempre o ponto fulcral foi rirmo-nos muito com aquilo.”
Manuel Pureza começou a ser abordado na rua com pedidos de selfies, algo tão invulgar para um realizador que lhe deu a certeza do impacto que tinham causado. Mas, “acho que o mais importante que o Pôr do Sol fez por mim, pela Coyote [Vadio, a produtora] e por todos os atores que participaram foi dizer que o trabalho afincado compensa”.
Em 2023 realizou para a SIC a minissérie Marco Paulo, um dos projetos mais difíceis da sua carreira. “A história nunca teve hipótese de ser boa porque o Marco Paulo não abria o jogo. A história que ouvimos sempre foi: ‘Eu tenho uma voz de ouro, eu tenho uma voz de ouro, sempre fui um menino bonito e sempre soube que era o escolhido’. Não havia conflito, tirando o pai, mas o conflito que ele nos contava era um conflito com uma capa muito, muito, muito densa de maquilhagem. Eu olho para aquele projeto e acho que está incompleto.”
Entretanto, David Neto foi “mandando o barro à parede”, como costuma dizer, escrevendo argumentos que apresentava em concursos. “Acabei por me ligar profissionalmente ao Manuel quando o convidei para realizar uma ideia que estava a desenvolver sobre o [Hermínio da] Palma Inácio, uma espécie de Robin Hood do Estado Novo. O projeto não chegou a ser concluído mas, quem sabe, talvez um dia.”
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Os dois acabariam por se juntar novamente para a produção de Sempre (2024), que é um dos projetos que mais marcou Manuel Pureza. “É de uma emoção muito mais profunda, mas não de menor importância, do que o riso do Pôr do Sol. Quando eu lanço um episódio que acaba com um testemunho de um dos soldados que esteve na tomada do Rádio Clube Português, de repente, no final da projeção do episódio, um desses homens agarra-se a mim a dar-me um abraço fortíssimo e a dizer: ‘Foi isto, isto éramos nós, isto éramos nós’. Isso toca-me muito.”
Um dos capítulos deu entretanto origem a uma peça de teatro — com texto de David Neto e Luís Filipe Borges — com estreia marcada para o próximo verão.
Uma parceria como a de Ben Affleck e Matt Damon
A Coyote Vadio, co-produtora do podcast O Zé Faz 25, é um projeto de Manuel Pureza e da mulher, Andreia Esteves, que faz a gestão do tempo e do dinheiro e consegue adaptar as ideias aos orçamentos. “Eu sou péssimo, acho sempre que vai dar. A Andreia salvou-me. Isto é uma coisa muito bonita de se dizer, mas é literalmente verdade.” Os três filhos vivem intensamente o exercício de contar histórias e fazer de conta. Francisco, de 13 anos (filho de um relacionamento anterior de Manuel Pureza) entrou em quase todos os projetos do pai. “É ele quem abre o colar de São Cajó quando o Diogo Infante está a morrer [em Pôr do Sol].” Juntam-se a ele Ema, com quase três anos, e Malu, com um. Também David Neto foi pai há cerca de seis meses e a convivência de todos faz-se de novo em família, tal como quando eram miúdos.
Neste momento, Manuel Pureza está a gravar uma série para a RTP1, FELP, que descreve como “a Rua Sésamo em esteróides” com a mesma equipa de Pôr do Sol. Os orçamentos são sempre geridos ao cêntimo, mas essa dificuldade transforma-se, para o realizador, em algo “altamente viciante” porque “as pessoas não estão à espera do que aí vem. Vai ser mais fixe, mais empolgante”.
A parceria com David Neto é para manter. “Aos 40 anos começamos a lamentar que não haja um comprimido para o tempo não passar tão rápido e o meu amigo David é o meu comprimido. Continuamos a ter 12 anos e o David tem um sentido de humor muito parecido com o meu, além de ser uma cabeça pensante incrível e original. Além de nos amarmos profundamente como amigos, quero que isto [O Zé Faz 25] funcione como o Good Will Hunting [em Portugal estreou-se como O Bom Rebelde, em 1998] funcionou para o Ben Affleck e o Matt Damon. Só consigo conceber a minha vida a trabalhar em equipa e ter um sidekick como o David é muito especial.”