A frase está em destaque no livro e explica a origem de “Valores Europeus”: “Certos valores e princípios que, na longa tradição do Ocidente, identificaram uma cultura e uma civilização, estão a ser desafiados e contestados em múltiplas frentes”. Para o explicar, Jaime Nogueira Pinto (politólogo, escritor, professor, colunista do Observador) recorda, analisa e comenta o trajeto do continente europeu, da política de Atenas e da república romana ao pós-Segunda Guerra Mundial e à busca pela unidade europeia. Que traços foram comuns ao longo dos séculos, que cisões surgiram, onde chegámos e como.
Nestes dois excertos que o Observador revela, Jaime Nogueira Pinto aborda a oposição entre a vontade e os objetivos dos “pais fundadores” daquilo a que viria a ser a União Europeia e a realidade política e social que se regista no século XXI, sobretudo depois da pandemia, de Trump e da imparável escalada chinesa na economia mundial.
▲ Título: "Valores Europeus: Uma Longa História" | Autor: Jaime Nogueira Pinto | Editora: Dom Quixote | Páginas: 416
A ideia dos pais-fundadores da Europa, ou melhor, da União Europeia – já que a Europa, como Cristandade, Respublica Christiana, ou como concerto das “nações civilizadas” começou muito mais cedo –, veio na sequência daquilo a que alguns chamaram as “guerras civis europeias” do século XX: a Grande Guerra e a Segunda Guerra Mundial, que ditaram o fim do mundo eurocêntrico e do Direito Público Europeu. Foi assim, no pós-guerra, num tempo de reconstrução política e económica, que franceses, alemães e italianos, traumatizados pelo que tinham vivido e contemplado, quiseram juntar esforços para que não se repetisse a tragédia.
Os pais-fundadores da então comunidade europeia eram quase todos católicos de convicção e prática – Robert Schuman, Jean Monnet, Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi – e queriam a paz pelo comércio e pela prosperidade. O eixo franco-alemão foi também decisivo para unir a Europa Ocidental nos valores da liberdade económica e política, da liberdade de expressão, de credo e de ideologia; isto também porque, depois da guerra, a Cortina de Ferro, trazida pelas tropas soviéticas na sua marcha sobre Berlim, descera sobre o Centro-Leste do Continente, com os países e os povos que ficavam para lá do Elba submetidos a Moscovo e ao comu nismo por interpostos partidos e ditadores.
À semelhança dos fundadores da Europa e dos povos e dirigentes dos países do Leste Europeu que, depois do fim da União Soviética e da libertação, recuperaram a independência, hoje muitos europeus acreditam na Europa, mas estão longe – muito longe – dos “novos direitos humanos” que algumas instituições e dirigentes políticos querem agora apresentar como “valores europeus”.
Quem propõe estes novos “valores e direitos”? Que grau de adesão têm? Quem mandatou os deputados e os burocratas de uma União que é essencialmente económica para acrescentarem à Carta novos “direitos fundamentais”, muitas vezes contrários a outros direitos verdadeiramente fundamentais, à tão evocada Ciência, ao senso comum mais elementar e às crenças de grande parte dos europeus? Quem os indigitou para lavrarem recomendações de bom e correcto comportamento ético, político e ideológico e fazer depender do seu cumprimento a atribuição de subsídios ou a aplicação de sanções? Que “valores europeus” são estes, que agora nos propõem – ou, até, nos impõem –, geralmente ao sabor da influência dos grupos e dos lobbies mais activistas?
Valores e contra-valores
Presentemente, os ataques à tradição romano-cristã e aos seus valores partem de movimentos com uma genealogia gramsciana pós-moderna, ligada a alguns dos autores a que Raymond Aron chamou “marxistas imaginários”. Aron, um representante agnóstico do conservadorismo liberal ou do liberalismo conservador europeu, pressentiu e testemunhou a decadência política e geopolítica da Europa no mundo do segundo pós-Guerra. Para Aron, a decadência começara um quarto de século antes:
Desde que a Europa saiu, dizimada e amarga, da grande carnificina em que se lançara, burguesa e cega, nunca mais afastou da sua consciência a angústia da decadência.
Este fantasma da decadência fora pressentido, ao longo do século XX, por uma série de pensadores e intelectuais europeus de todos os quadrantes: os que viveram a nostalgia do “mundo de ontem”, como Stephan Zweig; os que fizeram o retrato romanticamente realista de uma sociedade em agonia, como Proust em À la recherche du temps perdu; os que assumiram a História como uma grande batalha civilizacional e geopolítica, como Spengler; finalmente, os que procuraram resposta à decadência nas soluções de ruptura do fascismo e do comunismo, como alguns “escritores malditos” franceses ou alguns comunistas italianos da literatura e do cinema.
Mas todas estas contestações tinham – na sua adesão nostálgica ou na sua radicalidade iconoclasta – uma referência à tradição europeia e aos seus valores; mesmo quando os nega vam e combatiam em nome de novas mensagens ou de velhas correntes e realidades alternativas que brotavam do mesmo tronco europeu. Foram os casos de Marx, Proudhon, Renan, Nietzsche, Wagner, Thomas Mann, Bergson, Aron, Pareto, Croce, Gramsci, Gentile, Dostoievski, Tolstoi, Berdaiev, Kolakowski.
▲ Raymond Aron, representante agnóstico do conservadorismo liberal ou do liberalismo conservador europeu, pressentiu e testemunhou a decadência política e geopolítica da Europa no segundo pós-Guerra
Sophie Bassouls
Religiosos ou anti-religiosos, românticos ou realistas, crentes ou cépticos, todos eles mantiveram uma linha de imaginação criadora, de continuidade ou de ruptura, baseada num certo cânone de valores ou contra-valores de herança europeia ou ocidental.
No entanto, as forças que, há um quarto de século, irromperam nesse mesmo espaço cultural euro-americano contestam tão radicalmente essa tradição que parecem querer instaurar uma nova ortodoxia, e fazer, mais uma vez, tábua rasa do passado, como no hino da Internacional. Esta ortodoxia nega o cânone europeu em nome de um quadro alternativo de desconstrução radical de valores, de corte com tradições enraizadas e continuadas e até com as tradições de ruptura de que também se foi fazendo a Europa. Para os apóstolos da nova fé laica, os grandes clássicos, antigos e modernos, de continuidade ou de mudança – Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Goethe, Tolstoi, Proust, Joyce – não passam de DWEM (Dead White European Males) ou de DWAM (Dead White American Men), os seus equivalentes norte-americanos. Por isso – e também porque a análise do presente sofre sempre com a ausência de distância – sentimos este tempo como um tempo particularmente inquietante e diferente, na sua rejeição prévia de uma obra ou de um feito pela simples proveniência do autor – circunstancial, racial, nacional ou sexual –, um tempo tomado por uma cega febre correctora e reconstrutora em nome de uma perfeição irreal e irrealista. É um tempo que agora nos chega com maior veemência da América do Norte – terra prometida dos dissidentes do Mayflower, mas também dos juízes de Salem, terra da imaginação criativa das novas artes, mas também dos puritanismos mais arcaicos e inquisitoriais.
Foi nas universidades de elite e da elite, nos campus norte-americanos, que os discípulos dos heréticos marxistas europeus da Escola de Frankfurt e dos estruturalistas franceses geraram os seus rebentos e as suas filosofias de desconstru ção, vitimização e agressão. E propõem-se agora colonizar o mundo, ou seja, a velha Europa que “subjugou o mundo”, com a sua lista de interditos, cancelando uma História “de opressão branca, de racismo e de sexismo”, estátua a estátua, frase a frase, pronome a pronome.
Como se chegou aqui? O desconstrucionismo começou há quase meio século na América e foi desde logo denunciado por pensadores não-reaccionários, como Allan Bloom. No seu famoso bestseller The Closing of American Mind, Bloom fazia uma análise dos princípios do relativismo moral dominante na Academia e nos media que estavam a minar a educação mental das novas gerações de estudantes. Seguindo uma temática cara a Leo Strauss, Bloom mostrava pessimismo quanto à falta de entendimento dos “Grandes Livros” e à ausência de “liberal education”. As novas modas de desconstrução dos textos e a obsessão com a “cultura de massas” (para ele uma contradição nos termos) levavam-no a retomar a expressão nietzscheana do caminho para o niilismo. E o niilismo era a consequência da absolutização do relativismo e de um individualismo utilitário radical, aliados a uma retórica optimista quanto ao sentido da História, à inovação técnica e ao experimentalismo humano e social. Para Bloom, a liberal education implicava hierarquia e diferenciação – um velho tema straussiano – e não amálgama, desconstrução e tábua rasa.
A partir dos anos de 1970 e como consequência da própria radicalização americana, mas também por reacção à crescente viragem à direita do eleitorado, com a vitória esmagadora de Nixon em 1972 – que antecederia o reaganismo –, houve uma radicalização reactiva dos meios académicos e mediáticos. Watergate e a onda de moralismo que gerou dinamizaram mais ainda a reacção, com a Esquerda a entender a viragem do eleitorado americano para o nacionalismo popular como um perigo mortal e a achar-se legitimada a usar todos os meios na luta contra a “regressão civilizacional”.
Paralelamente, dava-se um fenómeno cultural – a consolidação do neomarxismo americano; com livros importantes e de sucesso agraciados com prémios de prestígio, como os da American Sociological Association, atribuídos a autores radicais como Immanuel Wallerstein, Jeffery M. Paige e Theda Skocpol. Os estudos incidiam especialmente sobre o Estado capitalista, a estrutura de classe, o processo de trabalho e a economia política internacional.
▲ O desconstrucionismo começou há quase meio século na América e foi desde logo denunciado por pensadores não-reaccionários, como Allan Bloom
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Estes estudos iriam beneficiar também da progressiva decadência do comunismo soviético. Perante as mudanças ocorridas nas sociedades capitalistas e nas suas estruturas sociais desde o Manifesto Comunista e da morte dos pais fundadores de O Capital, havia muito que rever quanto à luta de classes, considerando, sobretudo, o grande elefante na sala – as classes médias – que não cabiam no dualismo burguesia-proletariado e que várias gerações de pensadores marxistas tentavam entender e explicar sem sucesso.
Entretanto, o fim da Guerra Fria e a abertura da China comunista ao capitalismo – embora mantendo a direcção política central – tinham-se traduzido numa deslocalização das indústrias, com a consequente desindustrialização parcial do Ocidente e a perda de poder de pressão social da classe trabalhadora e da organização sindical. E dada a incapacidade dos neomarxistas académicos de enquadrarem os sobreviventes da classe operária ocidental e os novos “danados da terra”, o operariado ainda activo ou no desemprego começou a votar na direita nacionalista e populista.
Antes que se desenvolvesse este neomarxismo, e também a partir da redescoberta de Gramsci, surgira um marxismo terceiro-mundista – disseminado por figuras como Mao Tsé-Tung, Che Guevara e Frantz Fanon e teorizado no Ocidente por intelectuais como Immanuel Wallerstein.
Outro elemento importante na genealogia ideológica das novas esquerdas – além da recuperação da metodologia gramsciana sobre o poder cultural e da teoria da economia-mundo de Wallerstein – veio da divisão da sociedade americana quanto à guerra do Vietname, com escritoras como Mary McCarthy e Susan Sontag a viajarem até à capital do Vietname do Norte, Hanoi, e a exprimirem a sua solidariedade para com o governo comunista. As suas percepções e opiniões ficaram expressas nos livros Hanoi, de McCarthy, e Trip to Hanoi, de Sontag. No rasto dos iluminados europeus do século XVIII, dos orientalistas do século XIX ou dos primitivistas do fim do século XIX e princípios do século XX, em viagens utópicas para fora e para longe da própria civilização em direcção a um “outro” idealizado e imaginado na distância temporal ou espacial – na China, na Pérsia, nas florestas ameríndias –, Sontag escrevia: “The North-Vietnamese genuinely love and admire their leaders”.
Esta exaltação de um inimigo totalitário, retratado em termos idílicos e utópicos, ditada por um sentimento de auto-desprezo e auto-culpabilização, era um discurso voltado contra a própria identidade naquilo que tinha de imutável. Sontag deixava-o bem claro numa entrevista à Partisan Review:
A raça branca é o cancro da história humana; é a raça branca, e apenas ela – com as suas ideologias e invenções – que erradica a civilização autónoma sempre que se expande, que desequilibrou o equilíbrio ecológico do planeta e que agora ameaça a própria existência da vida.
Esta denúncia e este repúdio do pecado próprio ou comu nitário era uma versão laicizada e sem horizonte de perdão e redenção (que não a auto-aniquilação) do exame de cons ciência cristão, uma versão laica que encontrara já o seu apanágio na autocrítica comunista. De resto, neste como noutros aspectos, a doutrina comunista mostrava-se uma “contrafacção da redenção dos humildes, uma laicização da promessa da Epístola de S. Pedro, de um novo Céu e uma nova Terra” onde a justiça reinaria, para usar a expressão do Papa Pio XI na Encíclica Divini Redemptoris de 1937. Raymond Aron chamava-lhe a escatologia socialista das religiões seculares “qui prennent dans les âmes de nos contemporains la place de la foi évanouie et situent ici-bas, dans le lointain de l’avenir, sous la forme d’un ordre social à créer, le salut de l’humanité”.
O neomarxismo, a teoria crítica da Escola de Frankfurt, o radicalismo norte-americano dos anos 60, as experiências do Maio de 68, a ressurreição da metodologia gramsciana e do libertarismo sexual e moral de Sade convergiam, em dialético cocktail, para a Nova Esquerda que se consolidou e afirmou nos Estados Unidos da primeira Administração Trump e na Europa da pandemia e da reacção nacional popular. Mas enquanto a teoria crítica de Frankfurt procurava explicar e superar o fracasso do marxismo clássico na interpretação e mudança das sociedades ocidentais, a Nova Esquerda procurava identificar novas dicotomias de opressores e oprimidos – de raça, sexo e género – e somar-lhes agressões e ofensas, sem limites de espaço ou tempo, aplicando, actualizados, os cânones clássicos do marxismo à desconstrução das sociedades contemporâneas e das suas células familiares e individuais.
No princípio da década de 2020, a situação mundial era inquietante e os valores europeus achavam-se ameaçados por diferentes modos: no interior do próprio mundo euroa mericano, por uma poderosa ofensiva pró-aborto, com os activistas da extrema-esquerda radical a ameaçarem pessoalmente, à porta de casa, os juízes conservadores do Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos e o atentado à mão armada ao juiz Brett Kavanaugh, silenciado pela grande imprensa. A América estava tão radicalmente dividida que Robert Reich, antigo secretário do Trabalho de Bill Clinton, escrevia na sua coluna do The Guardian: “A segunda guerra civil americana já começou”, ainda que, logo a seguir emendasse a mão, recorrendo à retórica frequentemente usada por estas novas esquerdas para adoçar o radicalismo da clivagem: “Não é bem uma guerra, é uma espécie de separa ção benigna; a separação de um casal infeliz que não quer passar pelo trauma de um divórcio formal”.
▲ Também por reacção à crescente viragem à direita do eleitorado, com a vitória esmagadora de Nixon em 1972, houve uma radicalização reactiva dos meios académicos e mediáticos
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Assim, certos valores e princípios que, na longa tradição do Ocidente, identificaram uma cultura e uma civilização, estão a ser desafiados e contestados em múltiplas frentes. Com a mesma fé cega e a mesma fúria justiceira com que o Estado Islâmico, em Palmira, arrasou construções milenares, a religião, a família, a sociedade, a própria identidade biológica são agora sujeitas a uma razia acrítica que não se detém no presente, avançando pelo passado adentro para o corrigir ou cancelar em nome de uma nova ordem de perfeição e vir tude que se deve impor, uniformemente, ao orbe terrestre e a todas as Eras.
Pelo caminho, quebra-se uma memória e uma ética que, sob formas políticas diversas, conseguiram subsistir e sobreviver até hoje. E até a memória e a ética da admissão da contradição e de uma tradição de ruptura, também europeias, que foram permitindo que quase tudo mudasse para que tudo fosse perdurando.
Mas haverá valores europeus capazes de atravessar os tempos? E se os houver, de onde vêm e como é que caracterizam um modo europeu de ser e de estar no mundo? Em que princípios e modelos se fundamenta essa eventual concepção de vida? Haverá uma continuidade civilizacional que ressalte dos textos homéricos e do teatro grego, que entronque na ética da paz e da guerra da República Romana e que persista quando da erupção do cristianismo no Império dos Césares?
Terão os valores que moldaram o Velho Continente um “outro lado” nas lendas da Bretanha e nos códigos de Cavalaria da Europa feudal? Onde se encontram na filosofia católica, entre Agostinho e Tomás de Aquino? Terá aquilo que fez a Europa de alguma forma sobrevivido, condicionando o movimento de centralização dos Estados soberanos nos séculos XVI e XVII? E como conviveram esses valores com as novas ideias do Século das Luzes e do Despotismo Iluminado? E com as revoluções que, contra esse e outros despotismos, abalaram a Europa e o mundo eurocêntrico, da Revolução Inglesa à Revolução Francesa? Qual foi depois o impacto de Marx e da Revolução Soviética? O que aconteceu aos ditos “valores europeus” quando das respostas do fascismo e do nacional-socialismo ao comunismo, na idade dos totalitarismos? E como se adaptaram ao fim do mundo eurocêntrico e à Guerra Fria, ao eclipse dos Impérios coloniais e do sovietismo e a esta espécie de paz perpétua kantiana, posta em causa pela invasão da Ucrânia e pelas guerras do Médio Oriente? Haverá, entre todas estas correntes e entre todas as vicissitudes históricas registadas nas crónicas político-militares e espelhadas nos clássicos do pensamento e da ficção de cada tempo um mínimo denominador comum, um fio ético condutor?