1242,3kWh poupados 1242,3 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

Jorge Carmona

Jorge Carmona

De que histórias são feitas as vozes de um coro?

O título dá todas as explicações: chama-se "Coro" e é o documentário realizado por Edgar Ferreira que conta a história desta instituição da Gulbenkian com 60 anos, através das vidas de quem o compõe.

São cantores, atores, professores, advogados, engenheiros, investigadores, atletas. À noite, estão juntos pela criação artística e por uma “libertação” coletiva. A partir desta quinta-feira, dia 3, podem ser vistos em várias salas de cinema nacionais com a estreia de Coro, um retrato intimista das individualidades que compõem o internacionalmente reconhecido Coro Gulbenkian.

Produzido em comemoração dos 60 anos do conjunto, o documentário da autoria de Edgar Ferreira centra o olhar sobretudo nos coristas e nas vidas individuais que compõem este coletivo. Ao longo de 90 minutos, vemos uma sucessão de entrevistas na primeira pessoa, entrecortadas com momentos do quotidiano, dos ensaios e dos sacrifícios que muitos têm de fazer para conciliar a música com os encargos da “vida real”.

O projeto partiu de um convite da Fundação Calouste Gulbenkian, com quem Edgar Ferreira já tinha colaborado em 2023 para Soma das Partes, projeto documental que assinalou os 60 anos da Orquestra Gulbenkian. “A minha curiosidade era perceber como é que um coro com esta reputação internacional consegue manter-se a este nível, sendo que a maior parte dos elementos têm outras ocupações, outras vidas, não são músicos a tempo inteiro.”

[o trailer de “Coro”:]

A escolha desta abordagem reflete um olhar mais pessoal, menos centrado na história institucional, até porque, como o próprio refere, esse ângulo já tinha sido explorado na anterior colaboração com a fundação. “A perspetiva de poder trabalhar com um lado mais humano, de poder trabalhar mais com as pessoas, era isso que me interessava”, diz o realizador ao Observador. “A imagem que temos do coro é de uma massa uniforme, uma entidade que não revela as individualidades que estão lá presentes. Achei que podia tentar fazer o retrato daquilo que é o coro, com base nas pessoas que lhe pertencem”.

“Todas as histórias são importantes”

A diversidade de testemunhos é notória em Coro. Jaime Bacharel é triatleta e professor de música; Verónica Milagres é diretora da Rádio Miúdos, primeiro projeto do tipo destinado à infância; Luís Miguel Pereira e Filipa Passos são médicos; Carmo Pereira Coutinho é advogada; Rui Aleixo concilia a música com as artes plásticas. São apenas alguns dos testemunhos presentes no filme, que descrevem aquele espaço ora como um “tónico”, “alimentação” ou “um bálsamo para a alma”. Em comum, o amor pela música e a vontade de criar em conjunto.

“O maior desafio de um trabalho com este envolvimento humano, com este nível de verdade e autenticidade, é saber que para ter as pessoas disponíveis, elas têm de confiar em nós e naquilo que pretendemos fazer”, refere Edgar Ferreira, confessando ao mesmo tempo que ficou “surpreendido” com a “generosidade” dos entrevistados.

[Já saiu o terceiro episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

Atualmente, são cerca de uma centena os membros que compõem o coro da Fundação. As limitações naturais do cinema implicaram que nem todos pudessem entrar, cabendo à equipa de produção fazer essa escolha. “Foi preciso ter uma abordagem geral de todos os membros do grupo e depois escolher quem é que precisávamos para contar a história a que nos propusemos. (…) A ideia era ter o retrato mais completo possível. As pessoas que lá estão, estão também em representação de outras. Há muitos médicos no coro Gulbenkian, por exemplo. Mas acredito que quase todos eles podem ter uma sensação de catarse ao verem-se uns aos outros desta forma”, refere Edgar Ferreira.

▲ A importância da música na vida dos coristas é um interesse partilhado com o realizador do documentário: “Reconheço nestes músicos uma obsessão artística, que não é assim tão diferente da minha"

O realizador insiste que “todas as histórias são importantes” e que essa ideia de um mosaico humano torna impossível escolher uma favorita. Contudo, instado a realçar um testemunho particular, sustenta: “ver a Lucília contar a história dela, em primeira mão… é difícil não nos emocionarmos, não nos identificarmos com a luta, com a procura e com a persistência dela. E com o triunfo dela, quando finalmente consegue aquilo que quer”.

É, com efeito, um momento memorável do documentário, quando Lucília relata o seu percurso de vida — um caminho muito longe da Gulbenkian, em que ao fim de doze anos como secretária numa empresa, e já com família constituída, a paixão pela música falou mais alto. “Estava farta, atirei-me de cabeça para mudar o rumo da minha vida. Fiquei a trabalhar das seis da manhã às duas da tarde na pastelaria dos meus pais para poder estudar (…) [quando entrei] foi um sonho tornado realidade”, diz, sem conter a emoção.

“As pessoas não têm noção do que é ser músico em Portugal”

Coro é também — talvez sobretudo — um retrato das dificuldades da criação artística em Portugal, até mesmo ao mais alto nível. Desde a sua criação, em 1964, a Fundação equacionou por algumas vezes a profissionalização do coro, mas fatores externos como a crise do petróleo de 1971 (de onde boa parte dos fundos da Gulbenkian proveem) ou o 25 de Abril impediram que esse passo fosse dado, resultando numa organização que até hoje é semiprofissional e onde ninguém trabalha a tempo inteiro.

“As pessoas lá fora não têm noção do que é ser músico em Portugal. Se o coro fosse profissional e eu pudesse viver só dele, não dava aulas” afirma Maria Figueira, que fora dos muros da fundação dá aulas de música à infância. Está longe de ser caso único. “Cheguei a ter a ilusão de que podia viver só da música”, admite Jaime Bacharel. “Nos primeiros anos, tudo bem, ainda não tinha responsabilidades. Mas a partir do momento em que me casei, tive filhos, começou a ser mais difícil, e tive de arranjar trabalho.”

Vários são os músicos que lamentam esta realidade ao longo do filme. Sérgio Fontão, músico e professor, diz que “a repercussão social da música é muito insignificante em Portugal. As elites e os decisores políticos não têm cultura musical ou artística”. Fátima Nunes, outra corista, partilha a mesma visão. “Acho que não fazem ideia dos sacrifícios. (…) Mas sabemos sofrer em conjunto”.

▲ "O maior desafio de um trabalho com este envolvimento humano, com este nível de verdade e autenticidade, é saber que para ter as pessoas disponíveis, elas têm de confiar em nós"

Jorge Carmona

Até porque, dizem, no final tudo vale a pena. “Conseguir chegar aqui, abstrair-me desses episódios mais trágicos, vir para aqui com malta fixe e fazer uma coisa que eu adoro, que é cantar, é um tónico”, diz Luís Miguel Pereira. O realizador de Coro elabora: “Quando vão cantar, libertam-se daquilo que foi o seu dia. O coro é esse espaço paralelo àquilo que são as suas vidas diárias”, diz Edgar Ferreira.

A importância da música na vida dos coristas da Gulbenkian é um interesse partilhado com o realizador do documentário. “Reconheço nestes músicos uma obsessão artística, que não é assim tão diferente da minha”, diz Edgar Ferreira.

Ainda que não sendo intencional, a verdade é que a sua filmografia debate-se sempre com este tema (além das já referidas longas-metragens, assinou ainda a curta Into Music e a média-metragem A Música é Bela, os Aeroportos são Tristes, sobre o histórico maestro do coro, Michel Corboz). Talvez porque, como ouvimos várias vezes no documentário, é um espaço comum, universal, independentemente das diferenças. “A música existe no momento, quando é tocada. Não tem corpo, mas permanece. Ao mesmo tempo tem uma linguagem própria, em que não precisamos de falar a mesma língua para poder ouvir música. É uma conexão direta com as nossas emoções.”

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.