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De selfie em selfie, Raimundo traça metas. Quer mais 100 mil votos e eleger seis deputados com Setúbal, Beja e Porto na mira

A jogar em casa, Raimundo tira selfies como não tirava desde o seu casamento. Quer "mais votos, mais deputados" mas com metas concretas - Beja, Setúbal e Porto. Leva vacinas contra ataque ao direitos.

Um vídeo a mandar um beijinho para a Madalena, a avó de uma aluna da escola secundária António Arroio que ainda ontem (dia de votação antecipada) tinha “votado em si” — e dezenas e dezenas de selfies. A fila de alunos é cada vez mais longa, no pátio da escola secundária. A razão? Paulo Raimundo, em modo estrela de rock — ou em modo Marcelo Rebelo de Sousa. A última vez que tirou tantas fotografias, confessa, terá sido no seu casamento.

No arranque da segunda semana da campanha eleitoral, o secretário-geral do PCP dedicou a manhã ao ensino artístico. A ação estava marcada para as dez da manhã, num dia que a caravana comunista volta a fazer acelerar a agenda. Pelas dez e um quarto estava previsto que os alunos entrassem para retomar as aulas, e que Paulo Raimundo pudesse fazer uma visita guiada à exposição de serigrafia que pintava as paredes dos corredores da António Arroio. Aconteceu tudo menos isso.

Esperado por uma verdadeira multidão (muitos ainda sem idade para votar no próximo dia 18), o líder comunista ri-se enquanto pousa para fotografias, rodeado por alunos de todos os lados. “A ver se fico mais ou menos bem, para vocês isso está garantido”. A ação da CDU que contemplava apenas uma visita à escola e à sua exposição de serigrafia (obras feitas por alunos, que se espalhavam pelas paredes dos principais corredores), acabou por se transformar na arruada com mais contactos (por metro quadrado) com Paulo Raimundo.

A receção apanhou-o de surpresa. Apesar de ficar “sempre satisfeito”, Raimundo confessa-se “um bocadinho tímido” e “um bocadinho à rasca” a cada pedido para tirar uma fotografia.

▲ Uma aluna tira uma selfie com o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, durante uma visita à Escola Artística António Arroio. ANDRÉ KOSTERS/LUSA

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“Tens o material? Vamos embora. Vamos aqui montar um estúdio. Para mim é que é um privilégio. Cabemos todos? Vamos embora!” Frases repetidas dezenas de vezes, durante a manhã na António Arroio. Os alunos fazem fila para chegar a Paulo Raimundo — e agradecem sempre em coro ao secretário-geral comunista.

“Estamos a dar cabo do intervalo à rapaziada” comentava Raimundo enquanto espreitava para o relógio. O encontro com alunos deveria durar apenas 15 minutos, mas acabou por se prolongar durante uma hora. Enquanto Raimundo não abandonou o recinto escolar, a maioria dos alunos não arredou pé, nem regressou às aulas.

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Em conversa com os alunos que o guiavam por entre a multidão e apresentavam a exposição, Paulo Raimundo partilhava como o seu passado se cruzou com as artes: “O meu nono ano foi de arte e design. Despertou-me o interesse. Mas eu certamente não daria um bom artista“. A vida acabaria por ser outra, como carpinteiro e animador cultural, aos quais se seguiram décadas de trabalho como funcionário do PCP. Por isso, as obras de serigrafia até lhe fazem lembrar o “betume” para a madeira.

Não deixaria a escola artística de mãos a abanar. Além do apoio de vários futuros eleitores, Raimundo recebeu do professor do curso de serigrafia da António Arroio uma peça feita pela Maria e pelo Silvrestre, dois antigos alunos. O desenho? Um grande cravo alusivo ao 25 de abril, pintado em tons de vermelho e verde. Ao recebê-lo, ergue-o no ar e ouve, em coro as dezenas de alunos que acompanham a visita a gritar: “25 de abril sempre, fascismo nunca mais“. O líder comunista volta a “ficar sem jeito”, mas assegura que vai levar a obra consigo para o local do seu gabinete onde guarda “as coisas boas”.

▲ O secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, durante uma visita à Escola Artística António Arroio. ANDRÉ KOSTERS/LUSA

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Trocaria a serigrafia feita para os 50 anos do 25 de abril por um post it. A visita de Raimundo acaba junto a uma árvore de cartão, que expõe “pinturas e textos com histórias” de idosos recolhidas em vários lares de terceira idade por alunos, onde deixaria uma nota “ao pé dos verdes, para não dar que falar”, onde se lê: “Obrigado por me ajudarem a crescer”. “Não do ponto de vista eleitoral”, como se apressou a explicar aos jornalistas, mas”enquanto homem, enquanto cidadão e enquanto pessoa”.

O embalo das selfies para a primeira meta concreta da campanha

Em 2024, a coligação que reúne comunistas e ecologistas não foi além dos 205 mil votos, conseguindo eleger quatro deputados à Assembleia da República. Um resultado “insuficiente”, reconhece Paulo Raimundo – que admite, no final da visita, quer fazer melhor.

“No mínimo, temos o objetivo de voltar às eleições anteriores a essas – implicava mais 100 mil votos e implicava mais dois deputados”. Ainda assim, uma meta que Raimundo diz “não ser ambiciosa”.

Ou seja, a meta concreta da CDU para estas eleições é regressar ao número de deputados eleitos em 2022 (seis), sendo que para isso acredita que será necessário aproximar-se do número de votos de 2019 (332 mil).

E que círculos eleitorais serão esses? “Reforçar em Setúbal” (onde Bruno Dias é o candidato número dois e Heloísa Apolónia do PEV é a candidata número três), “voltar a conquistar onde perdemos, nomeadamente em Beja” (onde a aposta é em Bernardino Soares) e Raimundo acredita ainda ter condições para “encarar a batalha no Porto com grande confiança” (e eleger João Ferreira – não o candidato à câmara municipal de Lisboa – número 2 pelo círculo eleitoral nortenho). “Não temos sondagens”, confessa “a única que tenho é esta que veem. Estamos cá para crescer.”

▲ O secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Paulo Raimundo, vê trabalhos expostos dos alunos da Escola Artística António Arroio. ANDRÉ KOSTERS/LUSA

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Questionado sobre a razão para realizar uma ação de campanha onde a maioria dos alunos ainda não tem idade para votar, o líder comunista explicaria que “não anda na campanha apenas por votos” está também para “abrir caminhos”.

As declarações aos jornalistas viriam a ser interrompidas por um homem, que gritava por cima das perguntas a exigir ao secretário-geral que condenasse a invasão russa da Ucrânia. Raimundo desvalorizou – e ainda procurou o homem para falar com ele no final da ação, apesar de já não o encontrar – mas questionado pelos jornalistas sobre se a guerra na Ucrânia era um tema que ainda o perseguia, respondeu assim: “O senhor perguntou se eu condenava, e sim condeno. A resposta é assim tão simples. Nem percebo o alvoroço.”

A vacina contra o ataque aos direitos, que Raimundo quer levar para a Assembleia

Depois de um fim-de-semana com menos ações que o habitual, a agenda da caravana comunista voltou a acelerar logo na segunda-feira. Menos de uma hora depois da visita à António Arroio, o secretário-geral do PCP visitava uma tenda montada pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, na Gare do Oriente (de frente para o centro comercial Vasco da Gama).

Voltava a jogar em casa e acompanhado pelo presidente do sindicato, José Carlos Martins, visita as várias bancas que os enfermeiros têm montadas para assinalar o Dia Internacional do Enfermeiro. Mas antes, é interpelado à entrada por uma mulher que lhe conta pagar 600€ por mês para viver num quarto, apesar de ter quatro filhos. “Trabalho aqui todos os dias, de segunda a sexta-feira. E o que é que levo para casa? Nada. É muito doloroso“. “O Governo promete, promete, mas chega lá e não faz nada.”

O que serve de mote para Raimundo insistir na crítica que tem deixado – quer à esquerda, quer à direita. “Prometem sempre, metem o povo na boca e esquecem-se do povo no dia a seguir.”

Continua, rodeado por jornalistas, microfones e câmaras de televisão, e entra na tenda improvisada montada por enfermeiros, deixando elogios à classe profissional: “Aqueles que com praticamente nada nas mãos conseguem fazer coisas extraordinárias”.

E passa por várias bancas, a primeira com uma monitor para medir a tensão arterial. Os enfermeiros convidam o secretário-geral do PCP a sentar-se, mas Raimundo evita, até porque “o melhor é não medir a tensão”, afinal depois de mais uma semana na estrada os dias têm sido “muito intensos” e ainda “rebento aí com a máquina”. “Tive um pico de tensão no sábado entre as seis e as oito da noite (noite de dérbi, que acabou no empate a uma bola entre Sporting e Benfica). Acho que vou ter alegria imensa talvez não no sábado [dia onde se decide o campeão nacional, e Paulo Raimundo é um conhecido benfiquista] mas no domingo (dia das eleições).”

▲ O secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo (2D), durante um contacto com profissionais de Saúde, na Gare do Oriente, ANDRÉ KOSTERS/LUSA

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Depois, passa por uma banca onde lhe são entregues preservativos – que, desta vez não recusa – e serve como mote para questionar os funcionários de saúde sobre o estado da prevenção em Portugal. Tal como as outras áreas do SNS, merece uma nota negativa por parte dos enfermeiros.

A última paragem é dedicada ao apelo à sindicalização. Dois enfermeiros, com camisolas amarelas explicam a Paulo Raimundo que as caixas brancas dispostas por cima da mesa são vacinas “contra o ataque aos direitos” laborais. O líder comunista responde, ainda a pensar na manhã dedicada às artes. “Vim da António Arroio e pensava que era lá que estavam os artistas”.

Promete voltar a passar lá depois da campanha eleitoral. “Quantas caixas e contentores tem disso?” pergunta entre risos. Para que morada devem ser entregues contentores de vacinas contra o ataque aos direitos laborais? A Assembleia da República. “Há lá 230 deputados, uma larga maioria” precisaria de ser vacinada. Mas uma vacina “meiguinha”? “Eu não desejo mal a ninguém, mas quero que se respeite quem trabalha. Podia ser com meiguice, mas tinha de ser bem dada”.

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