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epa12661727 Portuguese State and Finance Minister Joaquim Miranda Sarmento attends the Eurogroup finance ministers attend a meeting in Brussels, Belgium, 19 January 2026. The meeting is expected to cover the state of play on Bulgaria's euro cash changeover, discuss policy priorities under the draft 2026 euro area recommendation, hear a G7 debrief, and take stock of the selection process for the next European Central Bank Vice-President.  EPA/OLIVIER HOSLET
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▲Joaquim Miranda Sarmento admite que o país "tem de fazer escolhas"

OLIVIER HOSLET/EPA

▲Joaquim Miranda Sarmento admite que o país "tem de fazer escolhas"

OLIVIER HOSLET/EPA

Depois das catástrofes, Governo já admite trabalhar com cenário de défice

"Acho muito difícil que não venha a acontecer", desabafa fonte do Governo. Discurso de Miranda Sarmento evolui na última semana. Ministro da Economia já o assumiu abertamente. Carneiro pressiona.

Primeiro, o ministro da Economia. Depois, o ministro das Finanças. O Governo já vai admitindo publicamente ter de abdicar do excedente orçamental e voltar aos défices para responder aos prejuízos causados pelas catástrofes que se abateram sobre o país e relançar a economia nacional — basta ver que a região Centro, particularmente fustigada pelas tempestades e pelas cheias, representa qualquer coisa como 20% do PIB nacional.

A 6 de fevereiro, em entrevista à RTP, e antes das cheias, Miranda Sarmento prometia que o Governo ia fazer tudo para evitar o regresso aos défices. E deixava um aviso a todos: “Há uma grande responsabilidade do Governo e, espero, dos restantes atores políticos, de que o país deve manter o equilíbrio das públicas e continuar a reduzir a divida pública”.

A 13 de fevereiro, na SIC, Manuel Castro Almeida, com a pasta da Economia, admitia abertamente que o cenário estava mesmo em cima da mesa. “Se houver necessidade de fazer défice para garantir condições de conforto e bem-estar mínimo das pessoas, para garantir o relançamento da economia, para garantir que as empresas não vão fechar e que não vamos perder a capacidade exportadora que hoje temos. Se for necessário, teremos de chegar a isso.”

Dois dias depois, mais recuado, e enquanto falava aos jornalistas a partir de Bruxelas, Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças, começou por dizer que o objetivo do Governo era “manter uma trajetória de equilíbrio orçamental” e de “redução da dívida pública”, prometendo para mais tarde uma avaliação concreta dos prejuízos causados e dos impactos para a economia nacional.

Ao mesmo tempo, Joaquim Miranda Sarmento deixou um sinal relevante do ponto de vista político: “Naturalmente o país tem de fazer escolhas. É muito importante manter o equilíbrio das contas públicas e a redução da dívida pública, mas também é muito importante acudir a estas pessoas na emergência e depois na reconstrução e na sua recuperação da atividade económica. Estes bons resultados orçamentais servem para quando o país tem este tipo de crises possa responder de uma forma mais capaz e sem pôr em causa o equilíbrio das contas públicas”.

Esta quarta-feira, no Parlamento, o secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, não quis especular sobre os novos desafios orçamentais que o país enfrenta. “Vamos ter de tentar manter o equilíbrio das contas públicas e a situação positiva que temos sabendo que vivemos uma situação excecional”.

Manuel Castro Almeida, com a pasta da Economia, admitiu abertamente que o cenário estava mesmo em cima da mesa. "Se houver necessidade de fazer défice para garantir condições de conforto e bem-estar mínimo das pessoas, para garantir o relançamento da economia, para garantir que as empresas não vão fechar e que não vamos perder a capacidade exportadora que hoje temos. Se for necessário, teremos de chegar a isso"

Contas finais só em março

A evolução do tom de Miranda Sarmento é uma evidência. Ora, tratando-se de uma declaração de um ministro das Finanças — por tradição, aquele que em qualquer Governo vai fechando a torneira para impedir derrapagens — é sinal de que o Governo pode estar a preparar terreno para que haja mesmo défice. Ao Observador, um elemento do Executivo diz não ter grandes dúvidas: o país voltará aos défices. “Acho muito difícil que não venha a acontecer”, desabafa a mesma fonte. Evolução no quadro económico que, no limite, poderia obrigar a um Orçamento Retificativo a ser aprovado no Parlamento.

De resto, José Luís Carneiro aproveitou as declarações públicas de Manuel Castro Almeida e Joaquim Miranda Sarmento — que, na forma, parecem contraditórias — para pressionar o Governo a revelar as suas previsões económicas. “O Governo está dividido sobre a forma de responder a esta questão”, provocou o socialista, prometendo confrontar Luís Montenegro com a questão do défice já esta quinta-feira, no debate quinzenal com o primeiro-ministro.

Segundo o ministro das Finanças, o Governo estima que, em 2025, a dívida pública tenha ficado abaixo dos 90% e que exista um “excedente orçamental um pouco acima dos 0,3%”. Para 2026, o Governo previa inicialmente registar um excedente de 0,1%, mas todas as demais entidades estavam menos otimistas do que Joaquim Miranda Sarmento. O FMI projetava um saldo nulo para este ano, Bruxelas apontava para um défice de 0,3%, o Banco de Portugal estimava um défice de 0,4% e a OCDE e o Conselho de Finanças Públicas projetaram um défice de 0,6%.

Tudo isto aconteceu ainda antes das catástrofes que se abateram sobre o país. Num primeira avaliação do impacto da tempestade da Kristin, ainda antes das cheias, Manuel Castro Almeida estimava prejuízos de 4 mil milhões de euros. A Indústria e a Agricultura foram os setores mais afetados, ainda que não exista uma avaliação do prejuízo total causada pela sucessão de intempéries. O ministro das Finanças prometeu para a março a apresentação dessas mesmas contas.

No arranque desta semana, Joaquim Miranda Sarmento conseguiu sair de Bruxelas com a promessa de alguma flexibilidade orçamental para lidar com o que aconteceu. “A Comissão Europeia mostrou a abertura para usar os instrumentos que já existem, também para considerar as despesas que o Estado venha a incorrer nestas tempestades e nestas cheias como despesa one-off”, anunciou o ministro das Finanças. Ou seja, os apoios e as despesas contarão para o saldo orçamental, mas não para um eventual procedimento por défice excessivo.

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