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Fallout Continues Over Channel Drownings
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Desespero, traficantes e perceções. O triângulo que atrai refugiados para o Reino Unido e os leva a morrer no Canal da Mancha

Maior controlo nos terminais de carga de Calais deu origem a novo método: atravessar o mar de barco. Traficantes lucram com o sonho britânico dos que fogem. E Brexit pode estar a alimentar fenómeno.

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“Toda a gente diz ‘Reino Unido, Reino Unido, Reino Unido.’” Alex é um dos vários requerentes de asilo que se juntam nas praias de Calais, no norte de França, de olhos postos no outro lado da margem. A apenas 30 quilómetros de distância, o país é uma miragem com que tantos sonham. Um sonho forte o suficiente que faz milhares arriscarem a vida numa travessia de barco que muitas vezes acaba em tragédia — como a que vitimou 27 pessoas na passada quarta-feira.

Naufrágio de barco insuflável. Pelo menos 27 migrantes morreram ao tentar atravessar o Canal da Mancha

O iraniano foi acompanhado por uma equipa de reportagem da BBC ainda em setembro, mas a sua entrevista já ilustrava o fenómeno que se viria a agudizar nos últimos dias. “Amanhã, Inglaterra”, assegurava aos jornalistas, explicando que pagou 2.500 euros a um traficante. Não era a primeira vez que tentava fazer a travessia — era a terceira. Das vezes anteriores, a ondulação forte fê-lo regressar a nado para a costa francesa. Desta vez, o traficante garantiu-lhe que o barco é mais resistente: por isso, vai voltar a tentar.

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O fenómeno não é novo, como relembra ao Observador Peter William Walsh, do Observatório para as Migrações britânico: “Há anos que se juntam migrantes em Calais, o pico foi com o estabelecimento do campo conhecido como ‘A Selva’, entretanto desmantelado pelas autoridades francesas”, diz. “Quando chegam a Calais, estas pessoas tentam entrar em contacto com os traficantes. Esses organizam as viagens e depois comunicam com eles por telemóvel: ‘Estejam na praia x à hora tal. O mar está calmo, vamos tentar fazer com que consigam atravessar. São dois mil euros por pessoa’”.

Migrant Channel crossing incidents

Sobreviventes do naufrágio da passada quarta-feira, na chegada ao Reino Unido

PA Images via Getty Images

A diferença é que, se antes a maioria tentava a travessia escondendo-se dentro de camiões, agora arriscam fazer-se ao mar em barcos precários. De acordo com dados da polícia fronteiriça britânica, em 2018 menos de 500 pessoas chegaram ao país em embarcações improvisadas. Este ano, já foram mais de 25 mil. Fora as que não conseguem chegar ao outro lado do Canal da Mancha, mas tentam: segundo as autoridades francesas, este ano 50 mil foram impedidos. “Há noites em que temos quase 50 barcos a desembarcarem ao mesmo tempo. Apanhamos metade, mas não chega. Não é possível pôr um polícia em cada duna”, lamentava-se Nicolas Laroye, polícia fronteiriço francês em Calais, ao Politico.

Uma vaga que para os especialistas como Walsh ilustram uma realidade clara: por muito controlo que se aplique, não há como parar esta tendência. “Há sempre pessoas dispostas a tentar. Isto revela a magnitude do desafio”, afirma. “É algo muito semelhante ao que vimos na fronteira entre os EUA e o México: erguem-se muros e gastam-se milhares de dólares, mas no final continua a chegar sempre gente que vai continuar a tentar.”

Um “jogo de xadrez” com os traficantes nas dunas do norte de França

O principal motivo pelo qual aumentaram exponencialmente as tentativas de travessia por mar é apenas um: os maiores controlos impostos na travessia por terra, desde que o Reino Unido aceitou pagar mais ao governo francês para apertar a malha. “Houve um aumento substancial na vigilância e policiamento dos terminais de carga e isso tornou muito mais difícil para alguém esconder-se num camião. Drones, cercas, etc. Isso fez aumentar esta rota dos barcos”, explica Walsh.

France's Finance Minister Visits Customs Installations In Calais

Nos terminais de Calais, o controlo sobre os camiões de transporte tornou-se mais apertado

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E não são as únicas estratégias. O uso de equipas cinotécnicas (guardas e cães) e de detetores de dióxido de carbono são outros dos mecanismos que ajudam a descobrir se há gente escondida na carga dos camiões. Mas essa eficácia ajudou a criar aquilo que o comandante da polícia francesa Frantz Tavart chama de “círculo vicioso”: “Se desviarmos os traficantes da rota mais prática, eles estendem as suas operações”, disse à BBC. “É como um jogo de xadrez em que os traficantes fazem sempre a primeira jogada”.

As autoridades francesas têm colocado a tónica sobre as redes de tráfico. Foi esse o principal foco da discussão que reuniu os ministros do Interior de França, Alemanha, Holanda e Bélgica no passado domingo, em Calais. “O principal objetivo do encontro é a luta contra os traficantes que tiram proveito das nossas fronteiras e dos nossos países”, avisou o responsável francês Gerald Darmanin. A porta-voz da Autoridade Marítima francesa, Véronique Magnin, fala em redes mais profissionais, com ligações por todo o continente europeu. O barco que naufragou na passada semana, por exemplo, tinha ligações à Alemanha, de acordo com os investigadores. “Os traficantes têm um papel crítico, sim”, resume Peter Walsh. “São fundamentais porque facilitam as travessias do Canal. E há elementos que sugerem que estão mais sofisticados.”

Many Migrants Drown In English Channel During Attempted Crossing

O policiamento nas dunas de Calais por parte da polícia francesa evitou o embarque de 50 mil pessoas

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“Mas esse é apenas um dos elementos”, diz o investigador, antes de apontar baterias à própria arquitetura da política de asilo internacional. “Para se pedir asilo num país, é preciso estar lá fisicamente. As pessoas não podem pedir vistos para ir para o Reino Unido a fim de pedir asilo lá. Portanto, viajam de forma ilegal, de avião com documentos falsos, por exemplo, ou dentro de um camião. E sim, de barco também.”

As “ligações” e “perceções” que tornam o Reino Unido o destino de sonho

O governo britânico tem argumentado que não tem de receber estas pessoas, porque considera que elas podem pedir asilo em França, por ser um país seguro — embora nada na lei internacional obrigue a que seja pedido asilo no primeiro país “seguro” a que um requerente de asilo chega. O desejo da grande maioria parece ser o de chegar ao Reino Unido, arriscando a vida numa travessia perigosa. O que levanta uma questão simples: porquê?

Heaven Crawley tentou responder a essa questão. No terreno, em Calais, esta professora da Universidade de Coventry especializada em migrações fez parte de uma equipa que realizou inquéritos a 500 requerentes de asilo para tentar perceber as suas motivações.

“Todos os que entrevistámos sentiam que tinham mais hipóteses de conseguir uma vida melhor no Reino Unido, em parte por também sentirem que é um país mais orientado para os direitos humanos. Muito disto assenta em ligações e perceções.”
Heaven Crawley, professora da Universidade de Coventry

“Nuns casos é a língua, o facto de eles terem familiaridade com o inglês é um grande fator. Mas a grande maioria é o facto de terem amigos ou família a viver no Reino Unido, que eles sentem que os podem ajudar a integrarem-se melhor no sistema britânico”, afirma Crawley.  “Todos os que entrevistámos sentiam que tinham mais hipóteses de conseguir uma vida melhor no Reino Unido, em parte por também sentirem que é um país mais orientado para os direitos humanos. Muito disto assenta em ligações e perceções.”

A professora acrescenta que muitos dos entrevistados não só vêm de países onde são perseguidos, como esperam meses em Calais em condições terríveis. Tudo isso contribui para um plano mental de tentar alcançar o objetivo idealizado: “O facto de sentirem que perderam tudo leva-os a querer ir apenas para o sítio onde acham que têm mais hipóteses.”

Peter Walsh, que também participou em vários inquéritos do género, acrescenta um outro ponto: o tratamento duro por parte das autoridades francesas faz com que muitos ganhem particular aversão a França e a alimentar a ideia de que o Reino Unido é um país “mais amigável”. O investigador destaca, porém, um ponto: o sistema de asilo em França é na verdade, em termos monetários, “mais liberal do que o britânico”. “Em França os requerentes de asilo recebem mais dinheiro, têm alojamento em melhores condições e podem trabalhar ao fim de 6 meses — no Reino Unido têm de esperar um ano”. O The Times fez as contas: no Reino Unido, um requerente de asilo recebe cerca de 46€ por semana do Estado; em França, recebe mais de 50€.

Londres e Paris apontam dedos em público — e provavelmente negoceiam em privado

Enquanto um desejo de vida melhor no Reino Unido alimenta estas travessias do Canal que matam, os políticos britânicos e franceses dividem-se no passa-culpas. Os últimos dias foram de tensão aguda entre Londres e Paris, com a crise migratória a somar-se às anteriores das pescas (relacionada com o Brexit) e da assinatura do AUKUS (o acordo de segurança entre Austrália, Reino Unido e EUA, que desagradou a França por ter sido deixada de fora).

French President Emmanuel Macron Visits Calais

Emmanuel Macron com alguns dos polícias que trabalham em Calais

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O pico ocorreu na sexta-feira, quando o primeiro-ministro Boris Johnson tweetou uma carta para o Presidente francês, Emmanuel Macron, em que pedia mais colaboração a França e a possibilidade de assinar um acordo bilateral — algo que os franceses têm rejeitado, alegando que os britânicos têm de negociar com a União Europeia como um todo. “Não são métodos sérios”, queixou-se Macron, referindo-se à publicação do tweet em vez do uso de um canal mais recatado. Ao mesmo tempo, França retirou o convite para o encontro com os ministros do Interior de domingo à ocupante da pasta britânica, Priti Patel.

A ministra britânica tem feito um discurso duro contra a imigração e argumenta que 70% dos que atravessam o Canal da Mancha são migrantes económicos e não requerentes de asilo — um valor desmentido pelo Conselho para os Refugiados britânico, que estima que 98% dos que chegam de barco pedem asilo no país. Já o seu homólogo francês, Darmanin, tem-se focado no combate aos traficantes e acusa os britânicos de não estarem a cumprir a sua parte.

Boris Johnson Attends The First Meeting Of The National Policing Board

Boris Johnson e a ministra do Interior britânica, Priti Patel

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“A solução para isto seria a de criar canais seguros e regulados para as pessoas pedirem asilo ao Reino Unido a partir de França”, afirma Crawley, invocando uma das soluções propostas pela grande maioria das ONG que estão no terreno em Calais. “Mas isto não é popular. E estes políticos passaram os últimos anos a promover sentimentos anti-migrantes, é claro que agora se disserem algo diferente perdem votos.”

Toda esta crise ocorre em momentos politicamente delicados quer para Macron, quer para Johnson: o primeiro tem eleições presidenciais para o ano, com os candidatos da extrema-direita Marine Le Pen e Éric Zemmour a fazerem-lhe sombra; o segundo enfrenta o pior momento em termos de popularidade desde que é primeiro-ministro e tem Nigel Farage, o antigo líder do UKIP, a deixar promessas veladas de que pode regressar à política.

É por isso que Peter Walsh acredita que estamos perante uma situação em que os líderes dos dois países fazem barulho em público, mas continuam certamente a negociar em privado. “É uma retórica intensa, mas atrás da cortina a cooperação continua”, avisa. “Nenhum dos países tem interesse em que isto continue.”

“O Brexit pode estar a alimentar isto”

Os especialistas ouvidos pelo Observador consideram, porém, que o governo britânico está numa situação mais delicada do que o francês nesta matéria. Tudo por causa de dois elementos: Brexit e Acordo de Dublin.

Vamos por partes. A UE tem em vigor o Acordo de Dublin, partilhado pelos seus Estados-membros, que prevê que cada requerente de asilo seja obrigado a fazê-lo no primeiro país da UE por onde entrou — o que significa que pode ser deportado para aí se pedir asilo num outro país europeu. Ora, com a saída do Reino Unido da UE, o país deixa de estar abrangido por este acordo e passa apenas a responder perante a lei internacional — que permite a qualquer pessoa pedir asilo em qualquer país do mundo.

Despite Dangers Migrants Determined To Attempt Channel Crossings Before Winter

A grande maioria dos que se juntam em campos improvisados em Calais sonham em ir para o Reino Unido

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“Os britânicos estão a dizer aos franceses ‘têm de os receber de volta’, mas não há nada que obrigue França a isso, como acontecia antes. Suspeito até que os traficantes estejam a dizer isso mesmo às pessoas”, aponta Crawley. No terreno, a ideia já circula: “Por causa do Brexit assim que chegar ao Reino Unido estarei finalmente a salvo. Já não há Dublin, nem registo de impressões digitais”, dizia um jovem sudanês ao The Guardian em Calais, há duas semanas.

"A realidade também é que, quando fazíamos parte da UE, o Reino Unido já era um país que recebia mais requerentes de asilo do que aqueles que deportava através de Dublin. Mas a perceção das pessoas não é essa.”
Peter Walsh, investigador do Observatório para as Migrações britânico

“Uma coisa é a realidade, outra a perceção”, aponta Peter Walsh. “A realidade é que já não estamos na UE, logo não há Acordo de Dublin no Reino Unido. Para isso mudar, seria necessário fazer um acordo bilateral com França ou com a UE como um todo. E a realidade também é que, quando fazíamos parte da UE, o Reino Unido já era um país que recebia mais requerentes de asilo do que aqueles que deportava através de Dublin. Mas a perceção das pessoas não é essa.”

Os dados comprovam o que diz o investigador do Observatório para as Migrações: entre 2016 e 2020, o Reino Unido recebeu 194 mil pedidos de asilo, dos quais transferiu para outros países, através de Dublin, apenas 1.250. Portanto, este não é um fator que altere completamente a situação no terreno, ao contrário do que diz o governo britânico. Aquilo que altera, aparentemente, é a perceção de que com o fim de Dublin, será mais fácil a estes requerentes permanecer no país. “O Reino Unido não está a assumir o facto de que o Brexit pode estar a alimentar isto, porque uma das ideias por trás do Brexit era precisamente a de controlar as fronteiras”, resume Heaven Crawley.

Um velho problema conhecido da Europa

Falamos em requerentes de asilo porque os dados são esmagadores. O Conselho para os Refugiados britânico não só garante que a maioria o faz, como afirma que 91% vem de apenas dez países marcados pela guerra e por perseguições políticas, étnicas e religiosas: Irão, Iraque, Sudão, Síria, Vietname, Eritreia, Afeganistão, Kuwait, Iémen e Etiópia. “Isto significa que a maioria dos que atravessam o Canal são reconhecidos como pessoas que precisam de proteção internacional quando fazem o seu pedido de asilo”, escreve o organismo.

Heaven Crawley acrescenta outro dado: no Reino Unido, 60% de todos os pedidos de asilo são concedidos — e isto inclui pessoas que chegam por outras vias que não os barcos que atravessam o Canal da Mancha. “A maioria deles vem de países onde há provas claras de violações de direitos humanos”, diz a professora. “São pessoas que não têm nada a perder. E quando não se tem nada a perder, faz-se tudo.”

Propostas como a do governo britânico de deter os que chegarem se vierem de países considerados “seguros”, como França, são para os especialistas ineficazes: “Para isso era preciso eles estarem a par dessas mudanças na lei e decidirem não vir e não há nada que indique que isso vá acontecer. Não se pode fazer as pessoas mudarem o seu comportamento com detenções se elas nem souberem que podem ser detidas”, aponta Peter Walsh.

Migrant Channel crossing incidents

Alguns dos que sobreviveram ao naufrágio no Canal da Mancha da semana passada

PA Images via Getty Images

Quaisquer soluções para os problemas de refugiados e migrações só funcionam a uma escala mais global, segundo o investigador. A prová-lo está o facto de que, apesar do aumento exponencial de travessias de barco pelo Canal da Mancha, o Reino Unido ainda está muito longe de receber o mesmo número de pedidos de asilo que outros países europeus recebem: em 2020, os britânicos receberam 29 mil pedidos, muito abaixo dos 81 mil registados em França, 86 mil em Espanha e 100 mil na Alemanha. “Devemos por isto em contexto e nós britânicos temos de entender que esta vaga não é assim tão grande”, afirma o investigador.

O número de mortes no Canal, provocadas pelos naufrágios, fizeram manchetes pela nova localização, mas estão longe de ser uma novidade na Europa. “Muita gente morreu na Europa este ano e ninguém liga, seguimos todos em frente com a nossa vida”, destaca Heaven Crawley. Ao todo, segundo a Organização Internacional para as Migrações, este ano já 1.300 migrantes morreram afogados no Mediterrâneo. “Quando não há possibilidade de viajar de forma legal, é isto que estas pessoas vão continuar a fazer. Seja a pé, de autocarro ou num barco. Vão continuar a tentar.

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