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A produção dos espectáculos protagonizados por Jerry Seinfeld não permite a entrada com aparelhos que recolham imagens, áudio ou vídeo, nem fotojornalistas com material profissional, o que impediu a reportagem fotográfica no interior do Coliseu dos Recreios
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▲A produção dos espectáculos protagonizados por Jerry Seinfeld não permite a entrada com aparelhos que recolham imagens, áudio ou vídeo, nem fotojornalistas com material profissional, o que impediu a reportagem fotográfica no interior do Coliseu dos Recreios

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲A produção dos espectáculos protagonizados por Jerry Seinfeld não permite a entrada com aparelhos que recolham imagens, áudio ou vídeo, nem fotojornalistas com material profissional, o que impediu a reportagem fotográfica no interior do Coliseu dos Recreios

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Na primeira noite em Lisboa, Seinfeld levou os amigos a um Coliseu que não encheu, sem telefones e fotografias e sem surpresas

Foi a estreia do humorista em Portugal, com Tom Papa, George Wallace e Jim Gaffigan, depois dos boicotes no Commedia a la Carte. A sala não encheu, mas aplaudiu. Este domingo há solo na Meo Arena.

Como sempre, a Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, está inundada de gente, mas a demografia é especialmente diversificada nesta noite de sábado, 31 de outubro. Incentivados pelo clima ameno, pouco abaixo dos 20 graus perto das 21h, os turistas invadem as esplanadas, salpicadas aqui e ali por zombies, vampiros e outras feitiçarias do género. Começa a noite das bruxas, o 31 de outubro que povoou as ruas da capital de mortos-vivos, piratas e fadinhas, mesmo ali ao lado do Rossio, onde os protestos continuam e as tendas começam a ser montadas (e que haveriam de motivar nova carga policial perante a acampada).

À porta do Coliseu dos Recreios, vão-se formando filas de espectadores ansiosos. Os transeuntes que passam espreitam a programação das salas de espectáculos, alguns questionam em voz alta, “O que será que se passa aqui hoje?”. A curiosidade é justificada, tendo em conta o aparato montado à entrada, onde funcionários recolhem os telemóveis e demais aparelhos daqueles que mostram bilhetes em formato físico. Jerry Seinfeld vai atuar na histórica sala lisboeta, acompanhado pelos “seus melhores amigos”, e os dispositivos eletrónicos são absolutamente proibidos.

A informação foi veiculada por e-mail e através das redes sociais do festival MEO Commedia A La Carte, que trouxe o humorista norte-americano e os colegas Tom Papa, George Wallace e Jim Gaffigan a Portugal. “À chegada, o telemóvel será colocado numa bolsa individual Yondr, que ficará fechada durante o espetáculo”, lê-se no texto, publicado apenas três dias antes do evento — que também impediu a entrada de fotojornalistas e “a recolha de imagens pela imprensa, seja vídeo ou fotografia, bem como a captura de qualquer áudio do espetáculo”.

A esta junta-se uma série de demais limitações, conhecidas apenas na passada quinta-feira, entre as quais a proibição de entrada no recinto de “qualquer simbologia ou mensagem de caráter político, religioso, racista, xenófobo ou de algum modo atentatório da dignidade, na forma de cartazes, bandeiras, tarjas, etc.”. As medidas em causa aplicam-se apenas nos espectáculos protagonizados por Jerry Seinfeld (como aquele que se realiza este sábado e o solo de stand-up agendado para domingo à noite na MEO Arena) e não vinculam os restantes eventos do Commedia A La Carte Fest.

Uma prática cada vez mais comum em espectáculos ao vivo — Madonna foi uma das signatárias da mesma quando atuou no país em 2020 — a proibição de “telemóveis, smart watches, óculos inteligentes, câmaras ou quaisquer outros dispositivos de gravação” em eventos privados goza de legitimidade perante a lei. Contudo, contactada pela Rádio Observador, a advogada Ana Rita Campos explicou que é fundamental essa indicação estar estipulada no momento em que se forma o contrato entre as duas partes envolvidas — neste caso, a entidade promotora do evento e o comprador do bilhete.

Seinfeld: espectadores podem pedir a devolução do bilhete?

“As condições contratuais têm de estar fechadas completamente e têm de ser aceites por ambas as partes”, esclarece a especialista. “Qualquer estipulação contratual subsequente à formação do contrato tem de ser aceite”, o que não aconteceu aqui, tendo em conta que os compradores apenas foram informados de condições que não conheciam quando adquiriram os ingressos para o espectáculo, e para as quais não deram consentimento. “O que pode acontecer aqui é que as pessoas peçam a devolução do preço do bilhete”, concluiu a advogada.

Apesar das etapas que antecedem a entrada no recinto — e que incluem a entrega dos telemóveis, imediatamente colocados em bolsas seladas, e a inspeção das malas e do corpo dos espectadores — a fila avança com rapidez. O público não parece incomodado com as medidas adotadas pela organização do festival e entrega os aparelhos móveis sem qualquer tipo de constrangimentos.

Os fãs e o artista

É um procedimento “normal em espectáculos de comédia”, garante Kellen, um nova-iorquino que aproveitou a passagem pela competição de halterofilismo Mediterranean International Open, que se realiza em Lisboa até domingo, para assistir a Jerry Seinfeld e Jim Gaffigan. “Hoje ganhei a medalha de bronze”, explica o turista, acompanhado pela mulher Deb, que faz anos no dia seguinte. “Somos fãs de longa data [do Seinfeld e do Jim Gaffigan], e ela pesquisou e percebeu que eles iam atuar enquanto estávamos cá em Lisboa. Foi perfeito, ainda por cima tínhamos reservas para jantar a cinco minutos daqui.”

O casal admite que o posicionamento político de Seinfeld no conflito israelo-palestiniano pode provocar desconforto em algumas pessoas. O humorista, que se popularizou como protagonista da sitcom homónima escrita em parceria com Larry David, é assumidamente sionista, demonstra apoio ao Estado de Israel e é crítico dos movimentos que apelam à libertação da Palestina. Abordado pelo criador de conteúdos digitais FinesseFave na Final da NBA deste ano, afirmou que a Palestina “não existe”, depois de, em setembro de 2025, ter comparado o movimento de libertação do território ocupado ao Ku Klux Klan.

No rescaldo do 7 de outubro de 2023, quando o Hamas atacou Israel, provocando a morte de mais de 700 civis, Seinfeld visitou o país e prestou solidariedade às vítimas, defendendo todas as decisões e operações militares do governo de Benjamin Netanyahu. As ideias que tem a respeito do conflito — e que não se abstém de partilhar publicamente — inspiram reações dos seus opositores, que organizam ações de boicote e manifestações e interrompem as performances ao vivo do humorista para criticar o seu posicionamento.

Anunciado como cabeça de cartaz do MEO Commedia A La Carte Fest em abril, Seinfeld causou ondas no país meses antes de pisar os palcos de Lisboa. No início de julho, vários artistas confirmados para o festival abandonaram a respetiva programação, invocando como motivo a participação do norte-americano. Inês Aires Pereira, inicialmente escalada para atuar na passada sexta-feira, 30 de outubro, escreveu numa publicação de Instagram que “um festival inclui muitos artistas e neste caso um dos nomes defende insistentemente ideias e atos que considero indefensáveis. Não podemos relativizar ou normalizar um genocídio.”

O espetáculo deste sábado não estava previsto na programação inicial do MEO Commedia A La Carte e substituiu a performance de tributo aos cantores de música pimba Nel Monteiro, Quim Barreiros e Rosinha, interpretados, respetivamente, por Carolina Deslandes, Tatanka e Bárbara Tinoco. O trio cancelou a sua participação no festival na mesma altura em que também desistiram o Conjunto Cuca Monga, o duo Cebola Mol, Pedro Tochas e Vhils.

Depois do “Tributo Pop” e Conjunto Cuca Monga, Inês Aires Pereira e Cebola Mol cancelam participação no Commedia a La Carte Fest

A fim de preencher os espaços vazios, a organização do evento anunciou novos espectáculos, entre os quais o objeto desta reportagem, que reúne Jerry Seinfeld e outros três comediantes norte-americanos, aqui identificados como “os seus melhores amigos” (o espectáculo chama-se Jerry Seinfeld and His Best Friends). Neste Dia das Bruxas, também sobem ao palco do Coliseu, Tom Papa, George Wallace e Jim Gaffigan.

“Tendo em conta o background do Jerry, entendo que ele escolha defender o lado de Israel, mesmo que eu não concorde com tudo o que ele diz”, continua Kellen, mais crítico dos humoristas que atuaram no controverso Festival de Comédia de Riade, que se realizou na Arábia Saudita em 2025.

Já Elizabete, que vem acompanhada pelo filho Gonçalo, diz ter conhecido o humorista muito antes de estas opiniões se tornarem públicas. “Sou grande fã da série e vim por causa disso”, explica a espectadora na casa dos 50 anos, que critica o boicote ao MEO Commedia A La Carte. “Concordo muito com o que o Herman [José] disse sobre este assunto”, continua. O comediante, que ali revisitou a carreira no espectáculo Herman & Octeto, realizado na sexta-feira, declarou-se “ferozmente democrático” e respeitador “de todas as opiniões”, em declarações à SIC Notícias.

▲ O evento ao vivo não permite a utilização de aparelhos que permitam a recolha de imagens. Os telemóveis são introduzidos em bolsas individuais fechadas no início do espectáculo.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Têm todos a versão física do bilhete?”, pergunta um funcionário do Coliseu dos Recreios àqueles que se juntam às duas filas que se formam na entrada principal do edifício. Nas mãos dos recém-chegados aparecem folhas A4 impressas, quem não tomou essa iniciativa é encaminhado para a bilheteira, onde se disponibiliza a versão física dos ingressos. Depois da confirmação dos documentos, todos os espectadores são submetidos a uma inspeção, que pretende controlar a entrada no recinto de objetos considerados perigosos, como garrafas de água com tampa. Essas não entram e devem ser depositadas num caixote ali colocado.

Dentro da sala de espetáculos, o burburinho é poliglota — além do português e do inglês, ouvem-se dialetos irreconhecíveis. Um casal turco conspira na sua língua, ciente de que ninguém consegue entender o que dizem. Vieram a Lisboa de propósito para ver Jerry Seinfeld, aqui e na MEO Arena, onde atua a solo domingo à noite.

No palco, os adereços de sempre: um banco, onde repousa uma garrafa de água, e um microfone de pé, iluminado pelo feixe de um projetor pendurado no teto. A sala não está cheia — nem vai ficar, uma vez que uma porção dos lugares da plateia não foi vendida. Os preços dos bilhetes variavam entre os 130 euros na Segunda Plateia e os 300 nas cadeiras da Orquestra, sendo que os lugares nas bancadas e nos camarotes não foram sequer disponibilizados. “[O preço] equivale a vários dias de NOS Alive”, comenta um espectador (ainda que, no próximo ano, os passes de acesso ao festival custem 178 euros, para dois dias, e 210, para três). “Mas tu és super fã”, conclui, justificando o investimento, em conversa com um amigo. Apesar dos lugares vagos, o Coliseu parece razoavelmente preenchido, uma vez que a acústica do espaço amplifica a sensação de sala cheia.

Casamentos, parentalidade e as “coisas estúpidas” que as pessoas fazem

A música Theme of New York, New York, de Frank Sinatra, diminui de volume à medida que as luzes baixam. “Thank you, thank you! Obrigada! Olá!”: assim se apresenta Tom Papa, num atentado à língua portuguesa que, ainda assim, merece aplausos do público. O primeiro “amigo” de Seinfeld a subir ao palco é também um dos humoristas mais influenciados pelo gigante do humor norte-americano, com quem trabalhou noutros projetos — como o reality show de comédia protagonizado por Papa, The Marriage Ref, ou o filme A História de uma Abelha (2007), que coescreveu e Seinfeld dobrou.

Além de ser um aficionado por panificação artesanal, Papa também é adepto de uma comédia clean, que privilegia assuntos familiares, dispensa palavrões e discurso sobre violência ou sexo explícito. O humorista é conhecido por confecionar pão caseiro e criou um podcast que mistura comédia com o amor por carboidratos, intitulado Breaking Bread with Tom Papa (Partilhando o Pão com Tom Papa, que também referencia a série Breaking Bad).

De facto, nota-se uma elevada contenção ao nível dos temas tratados, acessíveis para a faixa etária dos 9 aos 99, e que cruzam atualidade — a praga Ozempic — com reflexões sobre a meia-idade e a vida familiar. A experiência de Papa é idêntica à dos comediantes que se seguem, pais de família aparentemente desinteressados e cansados das mulheres, que descrevem de forma pouco abonatória — apesar de as amarem “de morte”.

O casamento de 26 anos é anunciado com um orgulho contido (aplausos) antes de fazer uma apologia melosa do amor. Mas, chegada a hora, há que expulsar os filhos de casa. Se a crise da habitação for um problema — como sinaliza um membro da audiência, que talvez tenha a cabeça nos protestos do Rossio — o conselho de Papa é que sejam recambiados para outro lado qualquer. Afinal, “ninguém vos explica quão triste é fingir que se está triste [quando os miúdos saem de casa]. Eu não estou triste, de todo!”

George Wallace é o “best friend” número dois, mas que vem em primeiro lugar na lista onde figuram os amigos de facto de Seinfeld. Partilharam casa em Nova Iorque durante 13 anos, décadas antes do sucesso da sitcom, que tornou Jerry no comediante mais rico do mundo (a sua fortuna ultrapassa o milhar de milhão de euros), e da residência que fez de Wallace Mr. Vegas. Atuou dez anos seguidos na capital do Nevada, mas pouco importa: antes disso foi padrinho de casamento de Seinfeld — que deu o nó com Jessica Sklar em 1999 — e (reza a lenda que) é pai dos seus filhos.

Com 74 anos, Wallace é um veterano dos comedy clubs, que cativa com o seu tom insolente, queixoso e ligeiramente agressivo. “Compram bilhetes em desconto, recebem piadas de desconto”, avisa, ao perceber que o público pagou metade do preço que costumava cobrar em Las Vegas. Move-se com lentidão até chegar à boca de cena, onde permanece quase imóvel, porque a idade não perdoa. Mas se o corpo se ressente, a cabeça não: Wallace “be thinkin’”, isto é, tem pensado — em tudo e mais alguma coisa. A frase icónica que cunhou vem escrita na boina que traz enterrada na cabeça, e que casa com um blazer de cabedal e uma gravata colorida.

“As pessoas fazem coisas estúpidas”, é o mote de um set de stand-up em que Wallace repete todos os sítios onde esteve no dia anterior. E foram muitos: Kentucky, Xangai, Hong Kong, Chicago, Tóquio, Miami, Amesterdão e, para concluir, uma loja do IKEA. À medida que se somam cidades, estados e países, o público começa a entender o refrão, que surte efeito bem além da tradicional regra dos três. Daí, o comediante começa a ladrar insistentemente — e durante aquilo que parece ser meia hora. “Quero chatear-vos como aquele cão idiota me chateou”, explica, invocando um Chihuahua que teve o prazer de conhecer no avião.

Jim Gaffigan, por sua vez, declara-se um “pai medíocre”, que ama Portugal e “o fado” em específico. Conhece a palavra “saudade” e já leu a página da Wikipedia sobre o país, mas o esforço de pesquisa não compensa pelo segundo atentado à língua portuguesa — e que será renovado daí a meia hora, quando a estrela da noite subir ao palco. Como Tom Papa antes dele, reflete sobre banalidades, as atuais e as intemporais, o amor ao scrolling face ao desprezo dos laços de parentesco.

“Amo a minha família, mas acho que a amo mais quando estou longe dela”, compete com a possibilidade de não fazer nada, diante da qual “os anjos cantam”. Gaffigan é pai de cinco adolescentes e é justo dizer que faz um roast dos filhos, utilizando as armas que a própria Gen Z aponta às gerações mais velhas: a gíria que os adultos não costumam entender. Cospe palavras como rizz ou suss, evidência de que “há raras alegrias maiores para um pai do que chatear os filhos”. “Se os envergonhar, então, ganho a lotaria”.

“Se pensarmos sobre o caso, ter filhos é uma doença sexualmente transmissível”, explica o norte-americano, uma vez que os adolescentes são equiparáveis aos países menos diplomáticos do mundo. Rússia, China e Coreia do Norte são os exemplos elencados, “mas a piada tinha mais graça antes de começarmos a rebentar com o Irão”, afirma, numa explosão de risos que põe em causa a atual administração da Casa Branca.

Gaffigan participou no filme Unfrosted (A Batalha do Biscoito Pop-Tart, de 2024), onde contracenou com Jerry Seinfeld (que também realizou), além de Amy Schumer, Melissa McCarthy e Hugh Grant. A longa, produzida pela Netflix, é inspirada na rivalidade entre a Kellogg’s e a Post durante a década de 1960, que culminou na criação das Pop Tarts — o primeiro pastel de pequeno-almoço que pode ser aquecido na torradeira e que continua a ser comercializado nos EUA. O filme foi considerado “um dos piores da década” pelo Chicago Sun Times.

Sem alarmes e sem surpresas

O momento tão aguardado chegou, e Jerry Seinfeld toma o palco de calças de ganga, blazer cinzento e gravata preta, além de um par de sapatilhas brancas — que ficarão para sempre associadas à personagem que representava na série homónima. De resto, note-se a energia surpreendente com que toma as rédeas do espectáculo, numa demonstração de experiência e à-vontade que cativa o público e faz esquecer os 72 anos que já carrega às costas. Bem diferente de George Wallace, que tem 74, Seinfeld move-se com uma agilidade notável, gesticula e brinca com a entoação da voz, ora segura e límpida, ora esganiçada, rouca e aguda.

A expressividade é a chave para procurar a reação do público e tocar no nervo onde a punch-line não chega. Os temas repetem-se e, se a homogeneidade aborrece, o ato final consegue capitalizar anos de nostalgia e a admiração dos fãs, cultivada à distância. Na faixa etária dos 40-60, a audiência recorda a juventude plasmada naquela voz, no nariz alongado e nome sonante. É o comediante mais rico do mundo, mas também pensa nas consequências da Inteligência Artificial e vai de férias com a família e bebe café. E tem um jato privado, joga golfe e anda de jet ski em destinos paradisíacos — mas tem um casamento com problemas, como toda a gente.

“Os comediantes não são bom material para casamento, mas o casamento oferece ótimo material aos comediantes” é a justificação para uma conjuntura que, da forma como é descrita pelo humorista, soa ligeiramente opressiva. Na mesma senda dos antecessores, Seinfeld repete piadas gastas sobre a mulher, que parece inspirar menos excitação nele do que um copo de café — “o companheiro mais indispensável da vida humana”.

Sem nunca passar a linha do politicamente correto — que, de forma mais ou menos explícita, o comediante já criticou — Seinfeld mantém-se à margem de problemas. A audiência também é meiga com o humorista, e o espectáculo decorre sem nenhum dos confrontos ocorridos noutras situações. Depois dos cancelamentos acima relatados, seria de esperar algum tipo de levantamento de simpatizantes da causa palestiniana, o que não acontece, mesmo quando o comediante facilita um momento de perguntas do público.

▲ Terminado o espectáculo, os espectadores podem reaver os seus aparelhos, uma vez que o acesso ao conteúdo fechado nas bolsas Yondr é de novo permitido.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Há ataques a Donald Trump, elogios à série Seinfeld e perguntas sobre Portugal, mas o povo — salpicado aqui e ali por estrangeiros bem-comportados — mantém a serenidade e a compostura. As bandeiras da Palestina estão no Rossio, no Coliseu dos Recreios apenas se procurou rir, sem ferir suscetibilidades e sem afirmações políticas. A paz parece artificial, mas é saboreada com gosto. Este domingo, o humorista estará sozinho em palco na Meo Arena.

Nota: a produção dos espectáculos protagonizados por Jerry Seinfeld não permite a entrada com aparelhos que recolham imagens, áudio ou vídeo, nem fotojornalistas com material profissional, o que impediu a reportagem fotográfica no interior do Coliseu dos Recreios.

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