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As sondagens não deixavam antever outro resultado. A ida às urnas desta terça-feira confirmou o que os estudos de opinião apontavam: Zohran Mamdani é o novo presidente da Câmara Municipal de Nova Iorque, o primeiro político muçulmano, de origem indiana e assumidamente socialista a ocupar o cargo. O candidato do Partido Democrata chega à liderança de Nova Iorque com uma vitória expressiva e uma longa lista de promessas para baixar o custo de vida na cidade mais populosa dos Estados Unidos, muitas das quais dependem da colaboração com a governação estadual e federal.
A colaboração com Albany parece estar num bom caminho. A governadora Kathy Hochul já tinha demonstrado publicamente o seu apoio por Mamdani e esta quarta-feira não tardou a dizer que “mal podia esperar para trabalharem juntos”. A relação com Washington D.C. revela-se, logo à partida, bem mais complicada. Logo a seguir à escolha de Mamdani como candidato democrata nas eleições primárias do partido, em junho, o Presidente Donald Trump ameaçou travar o envio de fundos federais para Nova Iorque. Esta segunda-feira, na véspera das eleições, foi mais longe e declarou o seu apoio a Andrew Cuomo, o antigo governador democrata que concorreu como independente, uma vez que considerou ser o único capaz de desafiar uma vitória de Mamdani.
Na verdade, Trump não pode travar o envio total de fundos federais de Nova Iorque, mas pode, sim, reduzi-los ao mínimo requerido por lei. A ameaça não dissuadiu os eleitores nova-iorquinos — pelo contrário, o apoio de Trump a Cuomo afastou pelo menos alguns eleitores democratas que ponderavam votar no independente —, nem Zohran Mamdani. No seu discurso de vitória, depois de longos agradecimentos e de elencar novamente as suas propostas para a cidade, o presidente da Câmara eleito enfrentou o Presidente de frente.
“Afinal, se há alguém que pode mostrar a uma nação traída por Donald Trump como o derrotar, é a cidade que o fez crescer. E se há alguma forma de aterrorizar um déspota é desmantelando as condições que lhe permitiram acumular poder”, começou por dizer. “Isto não é a apenas a forma de parar de Trump; é a forma de parar o próximo. Por isso, Donald Trump, já que sei que estás a ver, tenho quatro palavras para ti: “Aumenta o volume“. O Presidente deu-lhe razão e provou que estava mesmo a ouvir a intervenção. “… E ASSIM COMEÇA!”, escreveu na Truth Social no mesmo momento em que Mamdani discursava em Brooklyn.
Corte de fundos, escrutínio e aproveitamento político. Os obstáculos que Trump pode colocar
O que têm em comum Zohran Mamdani e Donald Trump? Ambos têm uma conexão pessoal a Nova Iorque. Trump é um nativo nova-iorquino que levou a cabo os seus negócios imobiliários na “Big Apple”. Mamdani chegou a Nova Iorque com apenas sete anos e viveu a maior parte da sua vida na cidade. As realidade opostas das quais fizeram parte em Nova Iorque foram alvo de análise por Zohran Mamdani no seu discurso.
Trump representa o lado da cidade que Mamdani quer combater, diz o mayor eleito: os senhorios “demasiado confortáveis em aproveitar-se dos seus arrendatários”, os “milionários que fogem aos impostos e exploram benefícios fiscais”, os patrões que procuram explorar os direitos dos trabalhadores. Já Mamdani, ainda que economicamente privilegiado, faz parte de uma demografia que representa mais de um terço dos quase nove milhões de habitantes: os imigrantes. “Nova Iorque vai continuar a ser uma cidade de imigrantes; uma cidade construída por imigrantes, movida por imigrantes e, a partir desta noite, liderada por um imigrante”, declarou o presidente eleito, que foi recebido com o maior aplauso da noite.
“Por isso, ouça-me Presidente Trump, quando eu digo isto: para chegar a qualquer um de nós, terá de passar por todos nós. Quando entrarmos na Câmara Municipal dentro de 58 dias, as expectativas vão estar altas. Nós vamos satisfazê-las“, rematou. Zohran Mamdani assume abertamente que a implementação do seu plano para congelar rendas, tornar os transportes públicos e as creches gratuitas e abrir supermercados geridos pela Câmara será difícil. Mas não necessariamente porque precisa dos fundos públicos que Trump ameaça reter para financiar as suas medidas.
Pelo contrário, o programa de Mamdani previa o aumento dos impostos sobre os indivíduos mais ricos e as empresas sediadas em Nova Iorque. Contudo, apesar do apoio ao socialista, a governadora Hochul desenhou a sua linha vermelha no aumento dos impostos sobre os mais ricos. À custa desta oposição, Mamdani já começou um processo de aproximação a algumas das elites económicas da cidade, de forma a encontrar um meio termo entre as duas posições.
▲ Trump incentivou os eleitores a votar em Cuomo, numa tentativa falhada de roubar votos a Mamdani
Francis Chung / POOL/EPA
Porém, a falta de financiamento (motivada quer por Washington, quer por Albany) não será o único obstáculo imposto pela Casa Branca e pelos seus colegas democratas ao orgulhoso muçulmano e socialista democrático, como o próprio declarou na noite passada. O facto de, como o próprio reconheceu, ter colocado as expectativas tão altas, somado à ampla plataforma mediática que conquistou significa que o escrutínio sobre a sua governação municipal será bem mais minucioso do que aquele que foi feito aos seus antecessores.
A esquerda norte-americana irá acompanhar Mamdani à procura de indicadores de sucesso que possam provar que a estratégia dos socialistas democráticos Nova Iorque pode ser exportada para todo o país. Já os seus adversários irão, como nota a BBC, “amplificar e destacar cada indicador económico e estatística criminal negativa”. O canal britânico compara a campanha de Mamdani à do antigo presidente da Câmara Bill de Blasio, que, em 2013, também fez uma campanha focada no custo de vida. Oito anos mais tarde, De Blasio abandonou a Câmara com uma baixa taxa de popularidade e muitas promessas por cumprir.
Contudo, em parte devido ao sucesso nas redes sociais, Mamdani é bastante mais mediático a nível nacional do que De Blasio. O seu mediatismo é uma faca de dois gumes. Por um lado, quer dizer que se tornou um alvo preferencial tanto de Donald Trump como do Partido Republicano que, esta terça-feira declarou oficialmente que “o Partido Democrata se rendeu ao socialista radical Zohran Mamdani e à máfia de extrema-esquerda para conduzir o espetáculo”, colando todo o partido a Mamdani, ainda que muitos dos grandes nomes democratas não tenham apoiado o socialista.
No sentido inverso, o mediatismo de Mamdani também permite que a sua campanha chegue a todos os pontos do país, mesmo que pela boca de Trump. “Quando tomar posse em janeiro, ele terá a hipóteses de construir uma reputação política do zero. E se Trump começar mesmo uma disputa com ele, só estará a dar a Mamdani uma plataforma maior com a qual trabalhar“, destaca o correspondente norte-americano da BBC.
▲ Os atuais líderes do Partido Democrata mostraram-se hesitantes em apoiar Mamdani
PETE MAROVICH/EPA
Democratas: os aliados de Mamdani em Washington com um inimigo em comum
Em Washington, Donald Trump não é o único que não ficou convencido com as propostas socialistas e o apoio intransigente da causa palestiniana de Zohran Mamdani. Chuck Schumer e Hakeem Jeffries, os líderes parlamentares do Partido Democrata no Senado e na Câmara dos Representantes, procuraram ao máximo distanciar-se dessas posições. Schumer — que é judeu — recusou-se mesmo a apoiar formalmente o candidato do Partido Democrata ou sequer a dizer em quem tinha votado.
Contudo, no rescaldo da vitória, ambos congratularam Mamdani. Schumer declarou estar ansioso para trabalhar com o novo presidente da Câmara na construção de uma “cidade de Nova Iorque mais justa, mais barata e próspera”, enquanto Jeffries sublinhou que a vitória de Mamdani evidencia que “Donald Trump e os republicanos não fizeram nada de jeito para baixar o custo de vida e os americanos de classe trabalhadora sabem disso”.
Apesar da relação fria com Schumer e Jeffries, Mamdani não se pode dar ao luxo de criar (ainda) mais adversários em Washington quando já é o alvo a abater por aqueles que controlam a Casa Branca e o Capitólio. Porém, o jovem político também não faz esforços particulares para aquecer a sua relação com o Partido Democrata. Na hora de votar, Mamdani preferiu mesmo votar em si próprio na linha do boletim do Partido das Famílias Trabalhadoras (WFP na sigla em inglês), revelou a sua campanha — nos boletins de voto os candidatos aparecem várias vezes, tantas quanto os partidos que os apoiam. Mamdani aparecia, tal como Curtis Sliwa, duas vezes no boletim, uma vez que ambos eram apoiados por dois partidos: Mamdani pelos Democratas e pelo WFP e Sliwa pelos Republicanos e pelo partido Proteger os Animais.
Já no discurso de vitória, ao falar sobre Andrew Cuomo, Mamdani mostrou-se satisfeito com o facto de ter “derrubado uma dinastia política”. Ora, tanto Cuomo, como o seu pai Mario Cuomo, foram governadores do estado de Nova Iorque pelo Partido Democrata. A “dinastia” que saiu derrotada das eleições históricas desta terça-feira não foi apenas a família Cuomo, mas uma ala centrista dos democratas alinhada com o sistema político enraizado.
▲ O principal apoio de Mamdani não está na liderança do Partido Democrata, mas na franja mais à esquerda
AFP via Getty Images
Todo o discurso de Mamdani teve, na verdade, um tom bastante diferente daquele que os grandes rostos do Partido Democrata têm tido ao longo da última década, como notou a repórter da BBC no local, — tom esse que é visível nas palavras que Jeffries deixou neste noite. Desde que Donald Trump anunciou a sua primeira candidatura à Presidência dos Estados Unidos, em 2015, a política do Partido Democrata tem sido feita por oposição a Trump: as campanhas presidenciais de Hillary Clinton, Joe Biden e Kamala Harris tiveram focos diferentes, mas todos exaltaram o facto de serem “anti-Trump” e o perigo que o republicano representa, acusam, para a democracia norte-americana.
Mamdani também atacou Trump no seu discurso, é certo, mas o Presidente não foi o foco da sua campanha nem do seu discurso de vitória. As palavras que deixou foram já na reta final, só depois de renovar o seu compromisso com as promessas concretas que fez à classe trabalhadora ao longo de um ano. O discurso, tal como a campanha, ressalvou aquilo que considera serem os pontos positivos do seu programa eleitoral que é, em si mesmo, anti-Trump, em vez de ser feito por oposição ao programa eleitoral de Trump ou dos republicanos. A mesma estratégia foi mobilizada pelo senador independente Bernie Sanders, um dos maiores apoiantes de Mamdani, que resumiu a sua vitória como “uma das maiores reviravoltas políticas da História moderna americana”.
Apesar da dissonância com os líderes moderados do Partido, a aliança entre os democratas e Mamdani pode ter benefícios para ambas as partes: Mamdani precisa de aliados nos vários níveis do Governo para levar as suas medidas avante. Já Schumer e Jeffries, sem maiorias, precisam de todas as mãos disponíveis para continuar a fazer frente a Trump e a “segurar o barco” do Partido Democrata até às eleições intercalares de 2026. Democratas e Mamdani podem não ser amigos, mas têm um inimigo em comum e isso pode ser suficiente para fazer deles aliados.