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Entre o início de outubro de 2024 e o final de maio de 2025, Elon Musk foi um dos braços direitos do candidato republicano (primeiro) e Presidente dos Estados Unidos da América (depois). A sua saída da Casa Branca fez-se com um estrondo e muitas ameaças a Donald Trump. Entre as críticas ao chefe de Estado, o dono do X deixava aos seus seguidores uma questão: “É altura de criar um novo partido político na América que represente realmente os 80% do meio?”
Não foi a primeira nem a última vez que Musk namorou a ideia de fundar um “terceiro partido” nos Estados Unidos. Em 2022, no mesmo ano em que anunciou que ia deixar de apoiar o Partido Democrata, como tinha feito no passado, escreveu no, à data, ainda Twitter que “um partido mais moderado em todos os assuntos do que os Republicanos ou os Democratas seria ideal”. Numa segunda publicação, declarou: “É isso que a maioria das pessoas na América quer, mas infelizmente não é realista”.
Três anos depois, o “realismo” deixou de ser uma preocupação. Na sua rede social, o X, depois de uma sondagem informal entre o seguidores, fez o anúncio: o “America Party” vai mesmo nascer para “devolver a liberdade” aos cidadãos dos EUA.
A gota de água foi a mesma que gerou a sua cisão com a administração Trump: a “one big beautiful bill“, o mega-projeto de isenções fiscais e cortes orçamentais que veria a Tesla de Elon Musk a perder fundos federais. “Se este projeto de lei louco for aprovado, o Partido da América será formado no dia seguinte“, anunciou, uma também no X, na véspera de a lei ser votada pelo Senado. Apesar da campanha do homem mais rico do mundo em contrário, a lei foi mesmo aprovada pela câmara alta do Congresso.
Esta quinta-feira, a votação na Câmara dos Representantes — onde a lei já tinha sido aprovada, mas teve de ser votada novamente devido a mudanças do Senado no texto — teve o mesmo fim. A prioridade legislativa de Donald Trump foi aprovada e, posteriormente, promulgada pelo Presidente esta sexta-feira, dia 4 de julho, Dia da Independência. A promessa de Elon Musk fundar um terceiro partido não se previa tão imediata, mas aconteceu mesmo.
As opiniões dividiam-se sobre se o magnata sul-africano conseguirá sequer avançar com o Partido da América. Historicamente, a ascensão de pequenos partidos nunca foi bem-sucedida, devido ao sistema eleitoral norte-americano que favorece o bipartidarismo entre Republicanos e Democratas. “Os terceiros partidos são tradicionalmente spoilers [a sua participação afeta o resultado eleitoral final, mesmo saindo derrotado] ou votos desperdiçados”, afirmou Lee Drutman, analista no think tank New America ao Washington Post.
Porém, outro dos maiores obstáculos à formação e consolidação de um partido nos Estados Unidos são os custos. Dada a sua extensa fortuna, esta era a questão que nunca iria travar o desejo de Elon Musk e o seu Partido da América. “Só a pessoa mais rica do mundo podia fazer um esforço sério de criar um novo partido político norte-americano”, comentou Brett Kappel, advogado especializado em financiamento de campanhas, à CBS News. O Washington Post destacava ainda a capacidade de Musk “desafiar expectativas” como fez com a sua demanda para adquirir o Twitter em 2022.
O sucesso (raro) de Bernie Sanders e as dificuldades dos terceiros partidos
No final de 2024, mais de metade dos norte-americanos declaravam que os partidos Democrata e Republicano “fazem um trabalho tão mau” que é necessário um terceiro partido que represente os interesses dos norte-americanos. As conclusões deste inquérito de outubro de 2024 da Gallup vão ao encontro das justificações de Elon Musk para fundar um terceiro partido, que descreveu democratas e republicanos como um “unipartido” e que as pessoas precisavam de uma “alternativa” que lhes “desse voz”.
Ainda assim, os números são ligeiramente diferentes: Musk fala em 80% de norte-americanos descontentes, os resultados da sondagem ficam-se pelos 58%. O número é particularmente expressivo e sobe para os 69% entre os eleitores independentes, ou seja, que não estão registados como eleitores democratas ou republicanos. O número de eleitores independentes ou de eleitores registados noutros partidos tem crescido nos últimos anos, segundo uma análise da NBC News.
É verdade que nos Estados Unidos existem outros partidos além destes dois que realizam eleições primárias e convenções, como o Verde ou o Libertário. Contudo, o sistema eleitoral norte-americano utiliza um modelo “first past the post” (o primeiro a passar a marca, em tradução livre), e não um modelo proporcional de contagem de votos, o que quer dizer que, nas eleições presidenciais, o primeiro classificado em cada estado obtém todos os votos do Colégio Eleitoral — um lugar obtido sempre pelo candidato republicano ou democrata.
▲ O sistema eleitoral norte-americano dificulta a ascensão de partidos pequenos
JIM LO SCALZO/EPA
Na história recente, o exemplo de maior sucesso é a da candidatura independente de Ross Perot, em 1992. Perot conseguiu 19% do voto popular (o melhor resultado de um independente desde 1912), mas zero votos no Colégio Eleitoral. Já no Congresso, os senadores Bernie Sanders e Angus King conquistaram os seus lugares como candidatos independentes. Já a senadora Lisa Murkowsky, em 2010, depois de ter falhado as primárias do Partido Republicano, fez campanha como candidata write in — o seu nome não aparecia no boletim e tinha de ser escrito pelos eleitores. Conseguiu reconquistar o seu lugar no Senado, relembra a CNN.
Porém, estes casos de sucesso são a exceção. Mais comuns são os casos de independentes que desistiram da corrida — como Robert F. Kennedy Jr. para apoiar a candidatura de Donald Trump — ou de terceiros partidos que rapidamente se extinguiram porque foram absorvidos pelos dois maiores. “Os terceiros partidos com maior sucesso na América duram cerca de uma década. Quando se tornam uma ameaça demasiado grande, os grandes partidos começam a roubar a sua retórica, a sua ideologia”, explica Bernard Tamas, cientista político na Valdosta State University, à Deustche Welle.
Olhando especificamente para a formação de um terceiro partido — e não apenas para uma candidatura que desafie o bipartidarismo — surgem dificuldades legais e financeiras. “Os partidos políticos são criaturas dos estados”, considera o advogado Brett Kappel, que explica que cada estado tem as suas próprias regras e metas de assinaturas para um partido poder aparecer no boletim de voto. Se um partido for bem sucedido nesta dimensão, precisa depois de um reconhecimento a nível nacional da Comissão Eleitoral Federal para se poder candidatar a eleições federais. Além disso, as leis sobre o financiamento deste processo também são limitativas, pois proíbem doações individuais muito avultadas.
O especialista em eleições considera, por isso, que as leis estaduais são “parciais aos dois maiores partidos” e que republicanos e democratas tentam adiar o mais possível a formação de um novo partido. Para além de muito dinheiro, o processo e as batalhas legais inerentes demoram muito tempo, o que levou os especialistas a pôr de lado a possibilidade de Elon Musk fundar um partido antes das eleições intercalares de 2026. Mas a verdade é que o milionário já fez, pelo menos, o anúncio oficial.
Os votos dos libertários e os milhões para pôr em campanhas
No rescaldo da pesada derrota democrata nas eleições do dia 5 de novembro de 2024, o senador reeleito Bernie Sanders iniciou uma digressão intitulada “Lutar contra a Oligarquia” que passou por vários estados norte-americanos, republicanos e democratas, e reuniu milhares de pessoas, batendo recordes. Apesar das diferenças ideológicas, o cientista político Bernard Tamas afirma que o movimento de Sanders — que conta com o apoio da mediática congressista Alexandria Ocasio-Cortez — deve servir de exemplo a Elon Musk.
“Eles são exemplos muito bons. Dar importância às preocupações das pessoas é realmente [o caminho a seguir]. Eles forçam os partidos a responder ao ameaçar as suas carreiras e a sua subsistência”, elabora o especialista, que explica que esta fórmula é particularmente eficaz devido ao desinteresse atual com política e os partidos tradicionais. Em vez de ter uma política vaga, os novos partidos devem interagir com a raiva e a insatisfação das pessoas, argumenta.
Mas a estratégia de Elon Musk deverá ser outra. A CNN destaca o seu reduto de apoiantes entre “o mundo da tecnologia, onde utilizou o seu estatuto de estrela rock para canalizar eleitores homens, jovens e descontentes” para o Partido Republicano. Estes seriam os eleitores mais fiáveis do Partido da América, mas o público alvo do magnata estará nos libertários e nos “falcões fiscais” nas margens dos republicanos — exemplo disso é o senador Rand Paul, um de três senadores republicanos que votou contra a “big beautifull bill“. O seu pai, Ron Paul, chegou a ser candidato presidencial pelo partido Libertário.
Já o New York Times destaca uma nova vaga de neoliberalismo, que vota de forma oscilante entre o Partido Democrata — com quem alinham nas visões do mercado livre e do apoio à imigração altamente qualificada — e o Partido Republicano — em quem preferem a desregulação fiscal e os cortes nos gastos federais. Contudo, a leitura de que Elon Musk será capaz de captar um eleitorado libertário e mais ao centro não é unânime. “Se houvesse claramente um partido ao centro que fosse mais popular que os democratas ou os republicanos, alguém já o teria organizado. Não é como se estivessem à espera que Elon Musk aparecesse”, argumenta o analista Lee Drutman.
Para além de um séquito de seguidores fiéis no mundo da tecnologia e nas redes sociais, Musk tem também a seu favor o financiamento. O que é apresentado como um problema para o desenvolvimento, em geral, de terceiros partidos, não deverá ser um obstáculo para o homem mais rico do mundo.
Segundo a organização OpenSecrets, que monitoriza o financiamento de campanhas eleitorais, foram gastos quase 16 mil milhões de dólares nas corridas para a Casa Branca e o Congresso de 2024 — e Elon Musk, sozinho, entregou mais de 291 milhões a Donald Trump e outros candidatos republicanos. Já a fortuna do dono da Tesla, da SpaceX e do X é avaliada em 350 mil milhões de dólares, segundo avaliações da Forbes e da Bloomberg citadas pela CBS News.
▲ Musk é mais popular no mundo da tecnologia do que no mundo da política
KEVIN LAMARQUE / POOL/EPA
Efeito spoiler ou golpes contra a coligação republicana de Trump? As outras opções de Musk
Em valores absolutos, a base eleitoral fiel a Musk não parece ter números suficientes para desafiar o bipartidarismo. Para tal, seria necessário o magnata roubar não só votos, mas candidatos aos dois maiores partidos. Neste momento, dada a história recente, essa possibilidade parece estar mais próxima no Partido Republicano. No entanto, entre os republicanos, Musk enfrenta um obstáculo que parece ser intransponível: o Presidente Donald Trump.
“A minha sensação é que Donald Trump é o único que tem um grande número de seguidores. E Elon Musk ajudou certamente Donald Trump nas eleições. (…) Deu-lhe alguns eleitores que estavam indecisos — mas não foi Elon Musk que esteve no centro das atenções e não acho que vamos ver as pessoas seguir Elon Musk da mesma forma que vimos [com] o movimento MAGA”, argumentou Lee Carter, antiga estratega do Partido Republicano e especialista em comunicação estratégica, à CNN.
Contudo, o Partido da América não precisa de roubar o lugar do Partido Republicano (ou Democrata) e Elon Musk não precisa de assumir a liderança da direita que atualmente é detida por Donald Trump para conseguir abanar a política norte-americana.
Se conseguir avançar com o seu novo partido, o impacto só seria sentido daqui a alguns anos, mas podia usufruir do já referido “efeito spoiler” (também chamado de sanguessuga), em que um partido mais pequeno, sem qualquer hipótese de vitória, rouba votos a um partido maior. Com essa área política dividida, a vitória acaba por cair nas mãos da oposição.
O caso mais famoso deste fenómeno é o de Ralph Nader, candidato independente à Casa Branca em 2000. Na Florida, Nader, que disputava votos com os democratas, conquistou mais de 97 mil votos. O democrata Al Gore acabou por perder o estado para George W. Bush por apenas 537 votos. O mesmo aconteceu noutros cinco estados, lembrava a CBS News nas eleições seguintes. Neste caso, os votos de Musk seriam disputados com o Partido Republicano, o que, ainda que não seja o objetivo do bilionário, seria um duro golpe para a coligação alargada que Donald Trump construiu à direita.
Elon Musk tem ainda outra opção para prejudicar o Presidente, sem sequer precisar de ter um partido formado e implementado — e o próprio também já pôs esta opção em cima da mesa. Fala-se de apoiar candidatos republicanos críticos de Trump nas eleições intercalares de 2026. Numa publicação no dia 30 de junho, Musk ameaçou todos os congressistas que votassem a favor da “big beautiful bill“: “Eles vão perder as suas primárias no próximo ano, nem que seja a última coisa que eu faça na Terra”, escreveu. E já há um nome concreto na lista: Thomas Massie, um de apenas dois republicanos na Câmara dos Representantes que votou contra o projeto de lei e que não vai contar com o apoio de Trump nas primárias, segundo o próximo anunciou na Truth Social.
Em ambos os casos, coloca-se a questão da impopularidade de Elon Musk ter os efeitos contrários e arrastar os candidatos que apoia para baixo — tal como aconteceu nas eleições para o Supremo Tribunal do Wisconsin, em que o candidato republicano que Musk apoiou perdeu. Barry Burden, diretor do Centro Eleitoral da Universidade do Wisconsin, sugere que o homem mais rico do mundo pode equilibrar as duas coisas ao manter a mão ao volante da vida política, mas deixando outras pessoas dar a cara.
“Se ele conseguir apresentar-se como um inovador e um empresário tecnológico — e alguém que está realmente a contribuir para a economia norte-americana e a financiar esta nova operação sem ser o rosto principal — penso que isso irá conduzir ao maior sucesso”, avaliou o especialista ao Washington Post.