Durante 11 dias, as chamas não recuaram na região de Arganil. Ali, e nos concelhos das redondezas, o fogo consumiu quase tudo quanto havia e colocou moradores e operacionais sob ameaça, tendo ferido quase 50 pessoas e causado a morte de um bombeiro, não no combate direto, mas quando se dirigia para o Fundão. A Proteção Civil aponta para cerca de 60 mil hectares de área ardida, o que faz deste incêndio o maior de sempre em Portugal, ultrapassando o fogo que começou na Lousã, em 2017, e que afetou 53 mil hectares.
Apesar de ter informado, este domingo, que o incêndio já estaria em fase de resolução, desde as 12h05, a Proteção Civil explica que ainda é necessário manter os meios atentos no local: das cinco frentes, há uma, em Seia, que merece especial atenção e onde estão concentrados os operacionais. Além disso, há pontos quentes de difícil acesso que não podem ser descurados.
“Nós vamos manter um forte dispositivo. Ainda estão no local 413 veículos com 7 meios aéreos e 1.273 bombeiros. Porque, de facto, este perímetro é significativo. Estamos a falar na ordem dos 60 mil hectares e por isso é uma área muito extensa. Justifica que se mantenham todos estes meios no local para consolidar pontos quentes, para poder reagir rapidamente a qualquer reacendimento que possa surgir”, explicou ao Observador o comandante Pedro Araújo, oficial da Proteção Civil.
PAULO CUNHA/LUSA
Milhares de operacionais passaram pelo incêndio que fez dezenas de feridos, centenas de deslocados e um morto
Meia hora depois de o incêndio ter entrado em fase de rescaldo, o oficial fez um balanço da operação até ao momento, com a recorrente ressalva de que, além de ainda não ter sido dado como concluído, os números representam ainda uma contagem preliminar, uma vez que ainda estavam no local, às 12h30, quase 1300 operacionais, apoiados por 432 viaturas e cinco meios aéreos. Horas depois, cerca das 18h45, mantinham-se no local 1.208 operacionais, a par de 403 meios terrestres e um meio aéreo.
Este domingo, o dispositivo de combate que tenta assegurar a tranquilidade dos moradores dos “pelo menos seis concelhos afetados” era bastante menor do que chegou a ser no momento mais crítico, quando, na última quinta-feira, 21 de agosto, estiveram mobilizados 1.700 operacionais. A conta total traduz o empenho de bombeiros, sapadores, agentes da Proteção Civil e militares da GNR: passaram por este incêndio 6.530 operacionais, 2.400 veículos e 41 meios aéreos. Foram eles que, durante mais de uma dezena de dias, responderam às preocupações da população que enfrentava um pesadelo sem fim aparente.
De olhos nas encostas, é possível perceber o rasto de destruição das chamas, que também provocou dezenas de feridos. Entre operacionais, contam-se 26 feridos (todos os que foram transportados para uma unidade de saúde) e 18 assistidos (aqueles que receberam apoio das equipas de emergência no teatro das operações, mas não foram levados do local). Entre os civis, conta Pedro Araújo, registaram-se 22 feridos e 13 assistidos. “Estes são dados preliminares, ainda não fechámos a ocorrência, por isso também ainda não fechamos estes dados. Mas são os dados já contabilizados”, explica o comandante da Proteção Civil.
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A tragédia maior afetou a corporação dos bombeiros da Covilhã, com a morte de Daniel Bernardo Agrelo. Apesar de não ter morrido a combater as chamas, o operacional de 44 anos sofreu um acidente de viação quando se deslocava de Arganil para o Fundão, seguiam com ele mais quatro colegas, mas Daniel foi a única vítima mortal.
A nível de área ardida, ainda é demasiado prematuro para fazer o balanço final, mas não há dúvida de que este incêndio “é seguramente dos maiores incêndios de que há registo em Portugal”. “Há de ser dos maiores que já tivemos”, reitera Pedro Araújo, que estima a área ardida em cerca de 60 mil hectares.
“Ainda não está fechado em termos de contabilização, há sempre áreas que não ardem e por isso tem que ser mapeado, tem que ser fechado e só depois então teremos o valor total da área ardida”, explica.
Na passada quarta-feira, em declarações à Agência Lusa, Paulo Fernandes, investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), disse que este incêndio será “muito provavelmente” o maior de sempre em Portugal, apontando a estimativa para os mesmos números sugeridos agora pela Proteção Civil.
“Sabemos que a ocorrência de grandes incêndios fomenta maiores incêndios no futuro, porque torna a paisagem cada vez mais homogénea e, quando a vegetação recupera, cresce simultaneamente e teremos ali um contínuo de vegetação cada vez mais homogéneo – e se há coisa que o fogo gosta é dessa homogeneidade”, disse o especialista em incêndios e membro das comissões técnicas de análise aos grandes incêndios de 2017 — ano em que se identificou o maior incêndio registado em Portugal até hoje, na Lousã.
Pedro Araújo explica que já houve áreas coletivas a arder mais do que 60 mil hectares, mas este incêndio destaca-se neste parâmetro por ser um fogo único, sem se ter juntado a outro. Às dezenas de feridos e ao bombeiro morto somam-se quase meia centena de pessoas afetadas. A Proteção Civil registou 451 deslocados das suas casas, fruto de evacuações de aldeias ou de confinamentos em zonas de concentração e apoio à população.
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Incêndio obrigou a confinar muitas aldeias
Mais do que os números, são os relatos preocupados de quem vê toda a sua vida ameaçada pelas chamas que ajudam a traduzir a dimensão deste incêndio. Fruto da evolução imprevisível dos incêndios, as autoridades são, muitas vezes, obrigadas a confinar preventivamente as localidades perto dos fogos.
O incêndio que deflagrou em Piódão, no concelho de Arganil, no distrito de Coimbra, e se alastrou a outros concelhos dos distritos de Guarda e Castelo Branco, confinou várias localidades: Unhais da Serra, Cortes de Baixo, Cortes do Meio, Silvares, Lavacolhos, Dornelas do Zêzere, Malhada do Rei, Arranhadouro, Adurão, Porto de Vacas, Selada Porta, Portas do Souto, entre outras.
“O fogo passou pelas casas, mas não houve danos até agora. Conseguimos precaver. Agora há casas isoladas, mas as pessoas estão todas na aldeia, juntas, e não saem do centro”, afirmou o presidente da Junta de Freguesia de Lavacolhos, Paulo Barbosa, ao Observador, quando a localidade lidava com as chamas.
As chamas deflagraram durante a madrugada (5h08), de 13 de agosto, dois dias antes de Portugal ativar o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia — combateram as chamas em todo o território nacional dois Fireboss suecos; um helicóptero Super Puma francês e dois Canadair gregos.
Incêndio está em fase de rescaldo, mas continuará com presença de “dispositivo musculado” para garantir segurança
Ainda que o Comandante das Operações de Socorro tenha dado o incêndio como estando em fase de rescaldo, a Proteção Civil frisa que o combate às chamas ainda decorre e deverá manter-se, pelo menos, nas próximas 48 horas, com “um dispositivo musculado no teatro de operações”.
“É um trabalho árduo que ainda nos vai ocupar muitos recursos e meios nos próximos dias, não é pelo facto de ter sido dado como dominado. Nós chamamos dominado quando o incêndio cede claramente aos meios postos em ação e não ultrapassam os limites geográficos já atingidos”, descreve.
Um dos motivos que justifica a presença dos meios no local é a preocupação com uma das cinco frentes do incêndio, em Seia, que tem vários pontos quentes e, por isso, “continua a dar especial atenção e a merecer especial atenção por parte do dispositivo no terreno”. “Estamos a falar da frente que se encontra entre Loriga e a Torre, no concelho de Seia, sendo que os trabalhos de consolidação são feitos com recurso a ferramentas manuais e a pessoal apeado. É uma zona de garganta em termos topográficos e por isso sem acessibilidade a meios terrestres. Só é possível chegar a esta frente por via pedestre. Todas as outras frentes estão em consolidação, isto é, em rescaldo e em vigilância”.
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A mobilização de operacionais é essencial, prossegue Pedro Araújo, para consolidar o “sentimento de segurança” por parte da população que já viveu 11 dias de grande tumulto. “Esse sentimento de segurança passa muitas vezes por aquilo que a população está a ver. Basta que haja uma coluna de fumo, mesmo que inofensiva, para criar o tal sentimento de insegurança que importa eliminar. Faz parte do nosso trabalho transmitir confiança e tranquilidade à população, nomeadamente eliminando todos estes pontos quentes que existem”.
De forma a tranquilizar a população, a Proteção Civil garante que mesmo a frente que ainda está ativa não está perto de casas, mas há várias dificuldades no combate: “É uma zona escarpada e de difícil acesso e isso também dificulta a ação dos bombeiros”. Os meios aéreos também continuarão ativos, para controlar os pontos quentes dentro do perímetro do incêndio, onde é mais complicado os bombeiros chegarem.
Esta tarde, durante o briefing da Proteção Civil, o Comandante Nacional de Emergência e Proteção Civil Mário Silvestre elogiou o trabalho dos bombeiros no combate a este fogo. “O importante é não permitirmos que o incêndio volte a ficar ativo. É um trabalho de paciência, mas que tem que ser feito”, conclui Pedro Araújo, oficial da Proteção Civil.