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O movimento no Café Estrela é fraco no final de manhã de carnaval. Atrás do balcão, Otília atende dois clientes antes de parar para falar sobre o tema que está nas bocas de todos em Unhais da Serra: a morte dos seus primos, Pedro e Alexandre, que estiveram desaparecidos na vila do concelho da Covilhã durante mais de uma semana antes de serem encontrados pela Polícia Judiciária na última segunda-feira, queimados e enterrados numa zona de mato. Depois de vários dias desaparecidos a mulher, de 58 anos, já temia o pior dos cenários, apesar de a filha, convencida que teriam regressado para França, onde viveram até ao ano passado, a tentar tranquilizar. “Eu já só dizia: ‘Apareçam eles que é para se fazer o funeral.”
Os irmãos, que desde o verão do ano passado se tinham fixado na casa de família com a mãe, desapareceram a 21 de fevereiro. Ao Observador, Otília recorda que terá sido uma das últimas a ver Alexandre nessa sexta-feira. À tardinha, passou no seu café, como fazia muitas vezes, para a cumprimentar e usar o seu telefone fixo para ligar para o irmão gémeo, que vive em França. Saiu nem passados dez minutos, recusando o prato de sopa que lhe ofereceu.
▲ A casa onde os irmãos se tinham fixado desde o verão do ano passado.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Abri-lhe a portinha, que eu já tinha fechado o café, para ele ir e vir. Depois foi rua a baixo, com a sua bolsinha, todo bem disposto“, conta. Nessa altura, Pedro estaria por casa, que fica a algumas dezenas de metros do café, já que, como a prima e vários moradores relataram, os dois se “revezavam” para não deixar a mãe sozinha.
Foi na habitação, de paredes amarelas e portadas de madeira, que fica de frente para a Estrada Nacional 230, que os irmãos terão sido assassinados, de forma violenta, segundo noticiou na segunda-feira o Jornal de Notícias. A mãe, com mais de 80 anos, não estava em casa, nem sequer em Portugal, tendo sido levada entre a noite de sexta-feira e madrugada de sábado para França.
Os corpos dos dois homens foram depois transportados para uma zona de mato a cerca de dez quilómetros. O local, isolado, só pode ser acedido por uma estrada de terra batida que passa despercebida aos carros que passam pela Estrada Nacional 230 entre Unhais da Serra e Tortosendo. Segundo o Correio da Manhã, a PJ suspeita de ajuste de contas, mas não afasta a hipótese de haver quezílias familiares, apesar de oficialmente não se ter pronunciado sobre o caso. Questionada pelo Observador, fonte oficial confirma apenas que a investigação está a decorrer e que se encontra “em segredo de justiça.”
▲ Local onde os corpos dos dois irmãos foram encontrados.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Das temporadas em Unhais da Serra ao regresso a Portugal
A família Marques é bem conhecida em Unhais da Serra. Foi nesta vila da Covilhã, de cerca de mil habitantes e com vista privilegiada para a Serra da Estrela, que os pais de Pedro e Alexandre viveram até ao nascimento do primeiro filho. Alguns anos depois, era Pedro ainda uma criança, decidiram emigrar para a França, acabando por se estabelecer em Ancy. Lá viria a nascer uma outra filha e os gémeos, um deles Alex, como é mais conhecido.
A maior parte da vida dos irmãos foi passada em França. Mas, à semelhança de centenas de emigrantes, era a Portugal que rumavam todos os verões. Foi assim que, de ano para ano, a população de Unhais da Serra se foi habituando aos seus rostos. “Vinham cá às temporadas. Eram simpáticos, falavam com todos. Não tinham problemas com ninguém”, diz Armando, que fala com o Observador junto aos bancos de jardim virados para a igreja da vila, cada frase corroborada pelo amigo Fernando. “Os irmãos andavam quase sempre um atrás do outro”, aponta.
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Da família, Pedro era provavelmente o que mais gostava de estar em Portugal, apesar de ter passado vários anos sem visitar a região, explica a prima. O homem, de 61 anos, divorciado e com uma filha, era um amante da natureza. Foi o único dos irmãos que estudou, tirando uma licenciatura relacionada com Belas Artes, e trabalhou durante muitos anos principalmente para igrejas, com figuras de santos e quadros. “Era muito habilidoso”, sublinha Otília. Estava sempre à procura de objetos que pudesse usar para criar peças, reforça Manuel, agora o único cliente no café. Já Alexandre, de 55 anos, era dos dois o mais conhecido por gostar de convívio, saltitando entre os cafés da vila. Em França, trabalhou durante vários anos na construção civil.
▲ Otília, proprietária de um café em Unhais da Serra e prima de Pedro e Alexandre.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Desde o verão de 2024 que os dois homens estavam a viver em Unhais da Serra. Segundo a prima, Pedro chegou com a mãe em junho, seguido pelos gémeos dois meses depois. O irmão mais velho que, diz Otília, “deixou o trabalho para cuidar da mãe” há mais de sete anos, decidiu ficar por Portugal. Já estava em condições de se reformar e pensava aproveitar essa etapa em Unhais da Serra. Desde então tornou-se hábito para os moradores verem-no em longas caminhadas pela vila e serra. Por onde passava carregava sempre um vareta. “Era um hábito, não precisava dela. Chegava a trazê-la até quando andava com a mãe a passear no verão”, recorda Fernando.
Alexandre ainda falava em ir-se embora, mas não chegou a partir. “Ele dizia-me: ‘Oh tia, eu queria ir, mas para não deixar o Pedro sozinho, sempre o vou auxiliando [com a mãe]’. Houve uma noite ou duas em que até dormiu com a mãe na cama, que esteve um pouco doente, para a ajudar no que precisasse”, relata Otília.
A família também fala de um passado conturbado, em certos momentos ligado a “más companhias”, que também é mencionado por alguns moradores. Segundo a filha de Otília, Alexandre chegou a ter problemas com álcool e Pedro uma forte dependência a drogas pesadas — atualmente “tomava” metadona –, tendo chegado também a estar preso. “Mas a vida muda e a pessoa até pode ter novas oportunidades”, sublinha, lembrando as “sardinhadas” e “churrascos” que por vezes faziam.
A jovem nota que os dois homens tinham uma boa relação, mas que às vezes também se exaltavam um com o outro. “Quando havia alguma confusão entre eles nós tentávamos manter a calma, mas com a mãe deles nunca vi nada disso”, explica, acrescentando que se fosse preciso a própria mulher de 80 anos lhes dava uma bengalada.
Moradores têm medo e pedem resolução rápida do caso
Depois de passarem não só uma temporada de verão, mas também de outono em Unhais da Serra os irmãos pensavam regressar a Ancy para que Pedro terminasse de tratar dos papeis da reforma. Nunca chegaram a fazê-lo, conta a prima. Quem partiu para França foi a mãe deles: “Na noite de sexta para sábado o neto [filho da irmã de Pedro e Alexandre] foi buscá-la.” Otília explica que foi a própria filha da mulher que lhe contou que foram à casa, encontrando-a completamente sozinha e acabando por a levar, ainda em pijama, para França. “Eles de lá estavam sempre a dizer que os irmãos andavam a gastar tudo à mãe, que ela passava frio. Eu dizia-lhes que não, que ia lá casa à noite às vezes e que nunca vi isso.”
▲ O centro da pacata vila de Unhais da Serra, vila do concelho da Covilhã.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Segundo Otília, foi a irmã da idosa que, ao passar pela casa na manhã de sábado, e vendo a chave na fechadura, deu pela falta dos irmãos. “A roupa estava lá toda, a malinha que o Alex trazia, a vareta do Pedro, que ele ornamentou toda, a documentação, o telemóvel, que não funcionava, mas tinha Facebook, estava lá tudo“, relata. No domingo deu então o alerta para a Guarda Nacional Republicana, que em Unhais da Serra tem apenas um pequeno posto de atendimento, e o caso foi transferido para a alçada da PJ da Guarda, para o Departamento de Investigação Criminal. O caso acabou por chegar ao gabinete do presidente da Junta da Freguesia de Unhais da Serra, José Rodrigues, que ao Observador reforça que os irmãos eram muito tranquilos e nunca tiveram problemas com ninguém. “Lamento muito o que aconteceu”, sublinha.
O desaparecimento foi sendo comentado pela vila, mas só nesta segunda-feira, dia 3 de março, os moradores souberam novidades sobre o caso. Ao início da tarde começaram a circular os primeiros rumores de que os corpos tinham sido encontrados e pouco depois a notícia era confirmada por jornais e televisões. “Eu sentei-me, se não caía”, descreve Virgínia, que se cruza com o Observador a caminho do Quiosque Bar Insónias, o último sítio no qual viu Alexandre.
O lugar onde acabaram por encontrar os corpos é um dos temas que mais se comenta. “Eu já há três anos que venho para aqui [trabalhar], venho do Tortosendo e não sabia que existia aquele caminho“, diz Fátima, enquanto tira cafés atrás do balcão. “Eu também não”, corrobora Virgínia. Para outros moradores, porém, tinha fama de ponto de encontro para namoriscos. “Era para os namorados irem lá passar um bocadinho”, comenta de passagem um freguês, que esperava para ser atendido.
Os moradores questionados pelo Observador referem que ninguém se terá apercebido do crime na casa, nem da retirada posterior dos corpos, algo que não estranham. “Aqui no inverno os cafés fecham cedo e as pessoas recolhem cedo, às 18h/19h. Se fosse no verão era mais fácil alguém se ter apercebido de alguma coisa”, acredita Fernando. Em casa dos irmãos, que terão sido espancados, foram encontrados vestígios de sangue que alguém terá tentado limpar, segundo avançou o CM.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Sobre as notícias que falam em motivações relacionados com ajustes de contas, quezílias familiares e ligações ao mundo da droga, que são veiculados por alguns meios de comunicação, os moradores não querem comentar, preferindo esperar pelo fim da investigação. Mas há um sentimento de urgência em fechar este capítulo. “Espero que este caso seja resolvido e que descubram os verdadeiros culpados”, comenta Armando, enfatizando o uso da expressão no plural, já que está convencido de que haverá mais do que uma pessoa envolvida no crime. “Oh, isso não se sabe, são suposições”, apressa-se Fernando, a seu lado, a corrigir.
Para além do desejo de justiça, há também um anseio pelo regresso à normalidade e ao sentimento de segurança. Metendo a mão ao bolso do casaco, Virgínia mostra a chave de casa presa por um porta-chaves. “Eu vou só aqui tomar um café e à missa e trago-a sempre agora. Antes deixava-a no trinco. Agora tenho medo.”